No Choco

Há três meses atrás o CP lançava um desafio no Quintus: esclarecer, afinal de contas, até que ponto o Choque Tecnológico estava a mudar a Educação nas escolas.
(…Se  ninguém reparou no pormenor do “há três meses atrás“, fico mais aliviado…)

Na altura não lhe repondi, pelo meu vício de ou fazer as coisas por todo ou nem sequer as começar para as deixar em metade.
E porque se alguma coisa aprendi nos (já, meu Deus?…) anos de bloguice, foi que todos os assuntos são circulares e que se se não apanham na primeira maré de oportunidade ela lá voltará para de novo passar.

E a oportunidade pode ser agora.

Dizia então o CP: “Criticamos o governo PS quando é preciso, [mas] se há ramo governativo que tem corrido bem é o do desenvolvimento do uso das tecnologias de informação nas escolas portuguesas. Em 2009, um em cada cinco alunos terá na Escola um computador com acesso à internet, haverá um videoprojetor por sala e um quadro interativo por cada três salas“, “tendência […] ainda reforçada com o concurso de ligação de todas as escolas a uma rede 48 mbps e a extensão do e-escolas ao 7 e 8 ano de escolaridade“.
Acrescentando então o CP com sensatez: “Se estes números se cumprirem (e falta apenas um ano para o comprovar), então as escolas portuguesas serão das mais tecnologicamente avançadas do mundo“; “se assim fôr, ficamos realmente impressionados“.

Pois bem, não há – como previa – razão para grandes impressionismos.

É que – obediente a outro vício meu – só consigo encarar esta ou outra “revolução tranquila” como sérias numa óptica de estratégia, não de táctica. Isto é, numa lógica de resposta global e integrante, não numa perspectiva de tapa-buracos, como é o caso.

Em primeiro lugar, é SEMPRE mais fácil comprar uma solução que construí-la!

Como neste caso foi muitíssimo mais fácil o “Governo” assinar um par de diplomas – carregar no célebre botão que faz coisas acontecerem – que pensar uma plano estruturado e sólido.
(O dinheiro não é seu, dispõe dele com ligeireza.)

É que a chave do parágrafo do CP está aqui: “tem corrido bem [o] desenvolvimento do uso das tecnologias de informação nas escolas“.
Porque não tem corrido bem, de facto!

É um delírio – posto a coberto pela ignorância sobre o terreno da maior parte dos portugueses – dizer o “Governo” que “em 2009, um em cada cinco alunos [tenha] na Escola um computador”. (Ou como disse recentemente Mário Lino: “queremos em 2010 estar em dois alunos por computador“.)
Primeiro porque não vão tê-lo, segundo porque não o poderiam ter!

Não vai tê-lo porque o ratio actual está actualmente longíssimo desse número e porque se agora a tal da “crise” o vai financeiramente impedir, já antes não se percebia bem de onde – Europa, clasulado prévio de contratos de operadoras com o Estado,… – viriam os fundos para permitir tal maná.
Não poderia nunca tê-lo porque se já esse aluno “em cada cinco” mal cabe em salas com turmas sobrelotadas muito menos as salas de aula portuguesas suportariam a ocupação física desse tipo de aparato.
…Já sei que a resposta podem ser os famosos portáteis. Mas não. Essa não é uma resposta asseada para quem faz diariamente o número do “carreiro de formigas” com os seus alunos quando pretende usar as TICs na sua aula e vai levantar os portáteis a um ponto da escola para os usar em resma noutro oposto – com as óbvias perdas de tempo e paciência associadas. (O que – atenção! – por motivos de segurança do material, no contexto das escolas portuguesas, não poderia aliás ser de outra forma!)

…”Com acesso à internet“.
Neste momento (Fevereiro de 2009) nem mesmo escolas “de referência” para o Ministério, nem mesmo escolas especialmente empenhadas no uso das Tecnologias no seu dia-a-dia, têm acessos aceitáveis à net. (Afirmo-o com todas as letras.)
As ligações ainda são baixas em velocidade e a havê-las não cobrem em wireless a totalidade do recinto escolar – a cobertura física teria custos atronómicos! E se escolas tiverem pretendido montar uma rede como deve ser para servir as suas necessidades, terão sido instadas pelo Ministério a fazê-lo com os seus prórios – e inexistentes – fundos. Isto muito antes da “crise”!
…Para não falar do harware, das máquinas que se usam, também elas muitas a precisar de extrema unção.
Ou da graça de não haver qualquer forma eficaz prevista – em pen, em disco, etc., à falta de net – para os alunos que usam os portáteis na escola armazenarem os seus trabalhos em progresso! Os portáteis que usam hoje podem estar ocupados amahã, “amanhã” o seu trabalho pode ter sido apagado por um outro utilizador, o que confere ao trabalho com as TIC uma carga de impoderabilidade e ligeireza a que muitos professores não se prestam. (A última esmola, foram umas pens que o projecto Electrão deu às escolas – uma pen por turma a girar no início e no final da aula por todos os computadores de todos alunos, roubando-lhes metade do tempo útil. E fica tudo dito.)

Sobre o “videoprojetor por sala e [o] quadro interativo por cada três salas“, outra miragem.

É perfeitamente inútil e alucinado prometer para cada sala um projector, olhando ao País pelintra que somos (ainda de antes da “crise”). Mas  de facto não é possível usar eficazmente os ditos quadros se não houver montado em plano elevado um projector – não levado para a aula debaixo do braço, como agora, montado à altura do tronco ou do rabo do professor, conferindo à aula uma inusitada valência de espectáculo de sombras chinesas.
Estou a frequentar uma acção de formação sobre o uso das TICs em sala de aula. Em que em parte se abordam os “quadros interactivos”.
…Espectaculares, espantosos, maravilhosos, revolucionários (ou nem tanto). Inúteis se não estiverem montados de forma funcional.
Sendo que tudo tem um preço alto, que as escolas – mais uma vez – não têm posses para o pagar sozinhas, que o Ministério até agora ainda não se mexeu (estando as autarquias cada vez mais estranguladas) e que – entrados no mundo ideal  dos projectos que se concretizam – as salas de aula portuguesas podem não estar sequer preparadas arquitectonicamente para receber uma tela fixa para projecção na famosa posição “perpendicular às janelas”.

Sobre o “e-escolas“, pouco há a dizer.
Foi astuto convidar as operadoras móveis a pagar parte do custo dos PCs aos pais das crianças, tornando-os mais acessíveis. Mas é uma falsidade dizer que as operadoras assumiram perder dinheiro aqui para o ganhar com as concessões de 3G contrapartidas.
É aqui exactamente que as operadoras vão recuperar o dinheiro investido – e não dado.
Na miragem de PCs baratos, resmas de pais – de um País pelintra, repito – lançaram-se de cabeça para a compra de uma pechincha atracada de uma despesa fixa de um serviço wireless contratado por uma eternidade e nada pechincha ele próprio.

“Comparticipação a sério do legislador na despesa com tecnologia no sentido de a democratizar?”, zero.
“Apoio fiscal a este tipo de despesa tão incentivada com palavras?”, zero.

Melhor ainda que ir às compras e montar estatística: mandar ir às compras e acrescentar-lhe uns pontos.

…Mas, e o Magalhães, em particular?

…Lá irei depois. Exclusivamente.

O que é certo é que o “Choque Tecnológico”, apesar da propaganda oficial, não passa – por hora – de uma manta de retalhos.
Que não reflete nem incorpora uma estratégia coerente de integração das TICs na vida educativa das escolas.
(E se para desmentir o que digo se apresentarem exemplos avulsos, respondo que é esse mesmo o problema de que falo.)

O “Governo” tem-se comportado mais ou menos como o tótó que quer ter o computador mais artilhado lá da rua e que na loja compra os componentes todos  que lhe vêm à mão desde que lhe pareçam os mais modernaços. Para depois chegar a casa e perceber que (para além de não saber como se montam) não jogam uns com os outros.
Apesar de serem os mais rebimbas que encontrou!

O “Governo” tentou (com o pouco dinheiro que há) comprar uma solução rápida e espampanante.
Carregou num botão e houve coisas que aconteceram…

Mas ainda que aprove mais este investimento que em estádios de futebol, ele está longe de sair de cabeças de quem saiba o que anda a fazer. Por cinismo ou pura incompetência.

Dizia o CP: “é ainda necessário reforçar a aposta na qualificação e na valorização dos professores (uma área que tem sido gravemente descurada)“.
E é verdade.
Como pode pretender-se introduzir revolucionárias ferramentas pedagógicas no Ensino (e uma nova filosofia) sem ter NENHUMA preocupação em dotar de conhecimentos/técnicas aqueles profissionais a quem vão ser exigidos os frutos da sua utilização?
Alguém não está a ser sério.

Como é possível apregoar a universalização do uso das tecnologias nas escolas quando a escolaridade obrigatória está objectivamente amputada – por razões financeiras e físicas que não há coragem para afrontar – nessa falsa preocupação?
Como é possível descarregar toneladas de computadores sobre as criancinhas do 1º e do 2º ciclos quando ninguém se preocupou em dar-lhes formação nas TICs? À semelhança do que acontece (só) no final do 3º ciclo.
É sempre mais fácil passar um cheque, num momento, que assumir um projecto e um compromisso de futuro.
Das pretensas “intenções”, das supostas cruzadas, vê-se assim a credibilidade.
Alguém não está a ser sério.

Como é tão-pouco possível que a quem compete – Ministério da “Educação” e “Governo” – não ocorra que se estamos à boca do portal para outra dimensão não seja revisto o que se estuda nas escolas da Nação tendo estas ferramentas sobrenaturais à disposição?
Que conteúdos são relevantes hoje, que competências novas se visam desenvolver, que estratégias frescas se podem aplicar, basicamente, que objectivos diferentes tem a Educação nestes tempos modernistas?
Se os tem, duvido.
E duvido que alguém nas altas esferas que passa cheques já tenha pensado sobre isso durante meia hora.
E por não acreditar que nisso já tenha pensado, não acredito… na seriedade deste filme.

Tudo isto é um ovo ainda fechado. No choco tecnológico.
Cheínho de expectativas mas que tanto pode estar podre e não vir a dar-nos nada (porque o desafio é exigente, competitivo e urgente), como dele pode nascer o mais amoroso pinto. (Desde que não seja “de Sousa”.)

Resta-nos ficar atentos, CP.

Vontade de Pedir Desculpa

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Não é meu hábito contar aqui estas histórias e não vou agora começar.
É só um desabafo.

Senti vontade de pedir desculpa ao aluno X por todas as vezes que – tirando-me do sério pelo seu comportamento – perdi a paciência com ele.

Líamos na aula de 5º ano, em silêncio, quando me aproximei dele por pretexto de uma pergunta  qualquer.

Acrescentou então, plácido, sério, olhos-nos-olhos, sem aviso: “ó setôr, quando leio assim, oiço uma voz a gritar na minha cabeça“.
…E rematou a violência com um silêncio expectante, suspenso de uma resposta.

Não interessa o que se seguiu.
…Ou pelo menos tanto quanto a vontade que em mim cresceu. De a ele me desculpar pela encenação diária de uma ordem que lhe é alheia. De fazer parte de uma conspiração da norma que finge harmonizá-lo, quando não sabe verdadeiramente o que fazer com a sua inquietude.

“Desculpa-me sem o saberes, X.”

Agressões Selvagens

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Saiu a notícia de que o Ministério da Educação “pretende recrutar professores reformados para, em regime de voluntariado, colaborarem no apoio aos alunos nas salas de estudo, projectos escolares ou no funcionamento das bibliotecas, entre outras actividades“.

Para ficar tudo claro desde início, marco a minha posição.
E, numa terra em que só se fala e percebe de bola, deixo a imagem bolística daquilo em que se poderia traduzir a posição que marco: esta proposta do Ministério da Educação é uma agressão selvagem.

Na exacta medida das agressões ilustradas no singelo quelipe abaixo espetado…

…Elas são a imagem de como o Ministério joga este jogo.

Ponho já de parte a evidência engonheira de que o “voluntariado” é uma força desaproveitada na sociedade portuguesa – fonte de energia não rentabilizada, destino válido de vontades que canalizadas facilmente resgatam cidadãos válidos ao desânimo ou à frustração.
Esse é o óbvio.

Mas o jeito deste “Governo” para transformar o razoável no absurdo é muito grande.
E esta proposta de “voluntários” a trabalhar durante “um ano lectivo” na escola, num “mínimo de três horas por semana” é uma entrada a pés juntos a quem neste momento nas escolas resiste como pode às agressões diárias que lhe moem as carnes.

Algumas faltas duras cometidas nas grandes áreas que este “voluntariado” pretende cobrir:

1ª A falta de sentido.
Eu não preciso de reforços de Inverno vindos do “voluntariado” dedicados ao “apoio a visitas de estudo” – só assim.
É que para mim uma visita de estudo é tão séria como uma aula. É uma aula, na preparação, na preocupação com o seu desenrolar, na sua exploração para a aprendizagem. É serviço lectivo, não é “passeio”. Não delego a ninguém prepará-la, não levo qualquer um a acompanhar-me. Sei quem me é mais útil no contexto dos alunos que conduzo em visita. Não me fazem falta “apoios”.

2ª A falta de lógica.
Não faz sentido nenhum pôr “voluntários” a cruzar bolas para a área dos “projectos de melhoria da sociedade local” quando esses projectos já têm jogadores para essa posição.
“Projectos”, a havê-los e a serem projectos pedagógicos, estão na mão dos docentes. E não sou eu que o digo. O Decreto-Regulamentar 2/2008 que rege a “Avaliação” de Desempenho Docente contempla esse tipo de envolvimento dos professores como parâmetro da sua avaliação.
Diria que antes se percebesse o que são esses “projectos” e só depois se orçamentasse o plantel. Antes se percebesse a necessidade de “apoios”.

3ª A falta de fundamento.
Não é possível colocar “voluntários”no “apoio à formação de professores e pessoal não docente [ou no] planeamento e realização de formação para pais“.
Toda a gente sabe que não faz parte das “competências científicas” de um docente comum – não obstante os anos de experiência – a habilitação para dar esse tipo de formações. Pelo menos que não sejam meros encimentos de chouriços… Ou então o Ministério da Educação vai começar a dar formação de formadores aos “voluntários”?… Quando tem no total desleixo a formação dos docentes em funções?…

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4ª A falta de vergonha.
Ao propor que os “voluntários” façam “nas salas de estudo, projectos escolares ou no funcionamento das bibliotecas” trabalho de roupeiros, de membros de claque, de jogadores ou de treinadores, o Ministério da Educação mostra sem margem para dúvida reconhecer a falta de recursos humanos para numa escola gerir estruturas de apoio à docência, que nunca levou a sério.
Agora leva-as. Querendo-as a funcionar à borla.
Porque, contrariamente ao que o Ministério jura a pés juntos, não me custa nada acreditar que não só este é um remendo barato para o relvado esburacado, como os remendos vão amanhã passar a substituir as despesas com jardineiros.
(Quando se prepara para montar e pagar em “cada Direcção Regional de Educação uma estrutura própria” para gerir a “voluntariedade!)

5ª A falta de ética.
No meio de uma história de entradas por trás, cotoveladas e mãos nas bolas, que ainda não acabou de ser contada, que está a roubar gente aos relvados e a deixar desertas as bancadas dos que acreditam na Educação, no meio de uma história que está a revoltar as entranhas de quem olha para estes dirigentes da bola e os responsabiliza pela batalha campal periódica com que a Nação é brindada, é do supremo descaramento perguntar aos lesionados em campo se querem reentar para mais uma dose.
Dirigir-se a muitíssimos docentes que fugiram do Ensino por não suportarem mais jogar com infiltrações, propondo-lhes um “voluntariado” exercido “de livre vontade, sem remuneração” – como uma prenda que se dá – do qual ainda terão “no final de cada ano lectivo, [de elaborar] um relatório anual […], no qual deve constar uma autoavaliação“.

 

Mas não é líquido que nenhum professor avance.

É que há-os mesmo que amam a profissão. Conheço alguns. Que reconhecem e assumem o papel social do desempenho da sua função. E que por isso podem desejar não a ver seccionada de um dia para o outro…

Agora, não é deles que falo!… Não é a eles que me refiro. (Até porque não é com a sua idade que se cometem em campo as agressões selvagens que passam no filmezinho acima…)

Refiro-me a um Ministério da Educação que afirma pela boca de um senhor Secretário de Estado que como “nenhum enfermeiro ou assistente social é substituído por existirem voluntários num hospital” numa escola os “voluntários” não vão suprir as faltas directas de gente para o exercício docente.
Sabendo – como sabe quem tenha uma remota ideia de como funciona uma escola – que tal é uma barbaridade e ainda assim o diz.

…Porque para gostar de bola não é preciso ser inteligente. Mas é preciso haver notícias!
Porque o campeonato é longo. E é preciso manter os adeptos entretidos com polemizações constantes!

“Degradação do estádio da Educação?” Não faz mal. Compensa.
Enquanto certa gente não vir o cartão vermelho, é jogo.

[Publicado no Canto Aberto.]

Efeito de Espelho

É hoje cumprida mais uma etapa na prova da palhaçada da Educação de Portugal, de novo com os seus mais salientes protagonistas em cena.

Vota-se na Assembleia da República uma coisa do PP sobre uma coisa qualquer sobre Avaliação.

Deve sem importante, tanto que o “Governo” não deixa os seus deputados votar como querem.
(“Ai não é o Governo?… Eu dessas coisas percebo pouco.”)
Tão importante que o “Governo” (…ou lá o que é) já disse aos deputados que não é para faltarem! (Diz o Ministro Augusto Santos Silva que é um  “assunto crítico“! ) É preciso estar toda a gente para barrar o PP e mais o resto da maralha!

Pelo que não se deve retirar daqui mais do que se espera…

Só retiro eu um pequeno detalhe deste quadro pitoresco.

É mais determinante a acção dos professores para corrigir o absentismo dos políticos que a dos políticos para reduzir o absentismo dos professores.

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Um “obrigado” não custava nada.

“Um Contra Todos”?

Detalhe do "David" de Gian Lorenzo Bernini

Como numa corrida aos saldos de Inverno, por toda a Nação da Educação os docentes acorreram a entregar os seus “Objectivos Individuais”.
Falo dos “Objectivos Individuais” que o Decreto-Regulamentar 02/2008 de 10 de Janeiro refere – o DR da alteração à Avaliação do Desempenho Docente. Onde o docente enuncia os “objectivos” que se propõe alcançar no desenrolar da sua actividade no intervalo de tempo a que a Avaliação de Desempenho diga respeito.

Acontece que eu não fiz a entrega dos meus “Objectivos Individuais”.
Tendo disso dado conta, como me competia, ao órgão de gestão do meu agrupamento.
(Como a Declaração que aqui deixo linkada regista.)

Encontro-me agora – pela obstinação de respeitar a minha consciência e os meus princípios – no compreensível receio do que me possa profissionalmente acontecer.
Não porque me tivesse entretanto arrependido – quem age ponderadamente e com raíz na sua honra raramente terá razões para querer voltar atrás.
Mas por ser humano, e tão frágil como qualquer pessoa que dependa do rendimento do seu trabalho, tenha uma família a seu cargo e preze ao mais alto nível o seu bom-nome. (Assim não fosse e muito mais longe estaria pronto a ir.)
…E por saber com quem trato, o tipo de gente de quem espero uma sensatez correspondente à minha. Por saber que da cegueira e na vertigem tudo é de esperar.

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Ocorreu-me um texto lapidar do HS que li no Hora Absurda. Estávamos nós naquele período engraçado desta história em que o Ministério da Educação inventou o envio por mail dos Objectivos para os serviços centrais.
Dizia ele nesse seu texto.

Ao meu avaliador vou dizer apenas isto: avalia-me se te sentes capaz de o fazer, mas não me peças nada, entra nas salas onde eu estiver a dar aulas quando bem entenderes, pede autorização para consultar o meu processo na secretaria, lá encontras tudo o que eu já fiz nestes anos todos, que abonam a favor e contra mim. Também lá estão as faltas que ingenuamente pensei que eram «a descontar nas férias», também lá está o processo disciplinar que me levantaram quando me recusei a fazer substituições, coisa que ainda hoje não faço nem farei. Encontras lá as acções que fiz sobre como fotografar igrejas e vacas a pastar, as acções de como recortar papel para fazer acetatos animados quando já havia Power Point. […]
Vá lá, força nessa avaliação. Estou no 9.º escalão, não me interessa já subir para o 10.º e último, faço 57 anos daqui a alguns dias, logo que tenha 30 anos de serviço peço a reforma e vou plantar batatas. Palavra de honra!

Só nos distinguem vinte anos de idade, uns bons escalões e o ter acedido há muito tempo às “substituições” – que tenho como um mal relativo.
No resto, revejo-me nas suas palavras.

Vivemos um momento de aventureirismo educativo. Que como tudo o que rima com “educativo” terá a seu tempo o impacto de uma maré na sociedade em que vivemos.
Quem decide hoje a Educação não mostra certeza de porque o faz, através de que meios ou sequer com que consequências.
– O que parece (des)compensado com a euforia desvairada de arrancar, avançar, forçar e fazer chegar a uma meta ficcional uma carroça cada vez mais desengonçada, que chocalha, perde peças a cada passo do caminho e põe em risco todos os que lá vão dentro.

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E este é o sentimento geral dos professores do País. Que só por motivos mesquinhos não põem os pés à parede e dizem “Basta!”.
Não me refiro a uma mesquinhez íntima dos professores – esse discurso é o de outros. Refiro-me é à situação em que a nossa “Democracia” nos colocou, a de não ser certo para ninguém que por discordar, divergir, por levantar a sua voz, não seja visto como um “deficiente social”, um indesejado, um proscrito na sua própria casa e um corpo estranho a eliminar.

Sabendo que não devem, por acharem que “não podem”, os professores (com algumas excepções pelo meio) vão transigindo. Vamos dizendo que sim. Vamos deixando que aconteça e que nos aconteça, preferindo o conforto de pensar que nada se pode fazer.

…Até ao momento igualmente confortável de pensar que já nada há fazer, tal o ponto a que as coisas chegaram.
E a vida continua.

Mas nem sempre pode ser assim.
Não quando as perdas são tão altas.

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O que fiz, fi-lo bem.

Por achar que devia.
Por manter – até às portas do desespero  – o respeito pelo processo e pela hierarquia a que ela me obriga.
Por tê-lo feito num timming responsável. Quando já não havia risco de a minha declaração fomentar mais confusão no processo de Avaliação do que a inevitável e já constatável.
Por tê-lo feito sozinho – como não preciso de mestres que me empurrem para o que acho justo, também não preciso de camaradas que me sustenham ou muito menos de discípulos atrás das minhas manias.
Por não ter pretendido fechar uma porta de que não tenho a chave – como dizia por outras palavras o HS. Se a Avaliação contempla os docentes, eu estou automaticamente por ela abarcado.

Se este modelo de Avaliação de Desempenho der frutos, serei o primeiro a beneficiar deles. Pelo que só posso esperar que, se avançar, seja o maior sucesso.

Entretanto, como expus na declaração que atrás referi, este modelo de Avaliação só me traz insegurança e incerteza pela efemeridade das suas regulamentações – permanentemente reformuladas e contraditas – fazendo com que não só o “conteúdo” e o “funcionamento” do modelo sejam elementos intranquilizadores no próprio processo, como numa perspectiva mais larga os seus “fundamentos” sejam passíveis de desconfiança, desaconselhando a adesão incondicional da parte de quem nele se encontra envolvido.

…Quando no nº 4 do artº 11º o DR 02/2008 de 10 de Janeiro diz ser “garantido ao docente o conhecimento dos objectivos, fundamentos, conteúdo e funcionamento do sistema de avaliação do desempenho”.

Não me peçam tanto.

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A história não está para acabar.
(Certamente a nível nacional, eventualmente a nível pessoal.)

Serão muitas as missas que ainda se vão rezar por este moribundo.
Muitas velinhas que muita gente se vai afanar a acender, com maior ou menor convicção.

O que é certo é que não devem contar comigo para as acender.
Ou para ter paciência para quem as acende.

Pior: cada vez mais são dois lados inconciliáveis, os dos que acendem as velinhas e o dos que as não acendem.
É que se o fundamental da actividade docente está noutro lado que não nestas tretas, não pode ser indiferente a ninguém profissionalmente sério julgar a degradação do que considera fundamental, na dimensão da origem do que o degrada e da identidade dos seus agentes.

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[Este post não teria sido possível sem a prestável ajuda do JPG do Apdeites – gente que tem rosto
para além da net e que no mundo real descubro ao nível da sua estatura virtual. A quem agradeço.]

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[Agradeço, como sempre, todos os comentários que tenham a deixar neste post – como em qualquer outro.
Apenas por motivos de ordem prática os comentários estão aguardando aprovação da parte do administrador.]

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Com Dedicatória


Hoje fiz greve. A segunda num mês. A quarta, em rigor, numa casa de professores.

E dedico-a, hoje, para variar.

Não só aos meus compatriotas, para o património nacional de quem contribuo com cada dia de ordenado deixado de colher em cada dia de greve, mas sentidamente a alguns colegas meus, que erram pelo País, personagens-tipo desta longa farsa vicentina em salas de professores.

Dedico-a àqueles professores bons. Não falo só de qualidade profissional, mas de bondade humana. Àqueles que lêem a realidade, se enojam com ela e que têm vontade de voltar a mesa do jogo. E que resistem.

Dedico-a àqueles professores que cândidos, iludidos ou cínicos se remetem e às suas esperanças para o quintal da bonomia. Que esperam uma solução que aparecerá num dia em que as coisas assim tenham de ser.

Dedico-a àqueles professores que se sentem exaustos numa luta desigual e que desistem de lutar. Porque têm esse direito supremo e porque a luta vai longa.

Dedico-a àqueles professores que, cobardes, não sendo obrigados ao combate, o simulam, tudo simulam, o combate e o seu contrário, mantendo-se em cima de um muro inventado. Enganando-se a si mesmos e vendendo-se ao vazio.

Dedico-a àqueles professores que são melhores que eu. Ou que se julgam melhores que eu. Que me olham superiores e que tentam ridicularizar a minha revolta racionalizando-a.

Dedico-a àqueles professores que julgam perceber-me. Que julgam fácil ler-me e aos meus motivos. E que não percebendo nada preenchem os espaços em branco com golpes de imaginação.

Dedico-a àqueles professores que têm mais a perder que eu na luta diária pela decência. Ou que pelo menos encontram aí o álibi de alma para pacificar as suas consciências.

Dedico-a aos fala-baratos. Àqueles professores que do falar fazem a sua força, mas que verdadeiramente não têm nada de relevante a dizer. E por saberem que o dizer é irmão do agir.

Dedico-a àqueles professores que detêm o tráfego da opinião. Que sabem quem pensa o quê e que assim compartimentam quem pensa em nichos. Que detêm o cadastro de quem opina e registam no caderno quem o fez ou devia tê-lo feito.

Dedico-o àqueles professores que estão acima do ensino. Que não precisam dele. Que desfilam por ele. Que desprezam os seus rituais. Que se enfastiam com que se aborrece com o que se passa no ensino, porque na verdade o seu reino não é deste mundo.

Dedico-a àqueles cuja maravilhosa capacidade criativa descobre maneiras de até no modesto ensino tricotar teias de interesses. Formas de jogar influências pequeninas, em tabuleiros de cartão, para no final recolher as migalhas do seu labor.

Dedico a minha greve de hoje à maravilhosa multidão de professores portugueses que, por serem humanos, professores e portugueses, são uma multidão de maravilhosa variedade.

…Que continua sem saber o que quer nem até onde está disposta a ir para o alcançar.

Cíclico. Clínico. Crónico. Mas…

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Estou isolado, agredido e não tenho nenhuma disposição para deixar-me humilhar.
O que faz de mim uma ameaça potencial à convenção.

(…”Potencial”, que sou um tipo português, ocidentalizado e fleumático.
Que não faz mal a uma mosca, que quer paz e sossego e que para agravar tenta ser um bom cristão.
Mas…)

…Qualquer homem que não seja desprovido de coluna, cérebro e tomates (*), quando colocado sob estas circunstâncias, torna-se  um sério risco para quem o submete.

Estou farto de repetir que estou encravado entre um “Ministério” da Educação reles e autoritário – parte de um “Governo” autoritário e reles – e um sindicalismo comodista, bazófias e polichinelo.

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Por isso considerar lamentável que dia 11 não haja de novo Greve de Professores.

(Perceba-se que ainda bem que não há: não tenho ordenado que me permita infindamente dobrar dias de perda de vencimento – quadrados quando em casa os professores são dois…
E eu trabalho para me sustentar!)

Mas, evidentemente, a haver greve, seria o primeiro a aderir-lhe.
Porque se me disponho com colegas meus a manifestações, vigílias, greves, agravando-me os malefícios que os capatazes da profissão diariamente me impõem, esse é um acto evidente de desespero.
De inconformismo, de raiva, de resistência perante quem insiste em insultar-me e em exigir-me agradecimento, mas sobretudo de desespero. De esvaziamento de alternativas. De fim de linha.

Se a revolta está transbordada, é tarde para contê-la.

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Triste País, em que a qualidade das figuras públicas nivela à altura da cintura.
(Dizia alguém que “o estúpido é mais danoso que o malévolo“.
Enquanto que do malévolo se sabe o que esperar, a maravilhosa imprevisibilidade do estúpido deixa-nos na eterna surpresa do sentido do seu gesto.)

E deste surrealista “processo negocial” entre dois colossos da estupidez cada vez mais, por definição, parece irrealista esperar uma solução racional.

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Quando o “Governo” deu de caras com o Ensino descobriu nele duas oportunidades de ouro.
Primeira: a oportunidade de compensar a sua incompetência orçamental; sangrando-o sem pudores.a-custa-profs

Segunda: a oportunidade de fazer do “seu” Ensino a anti-montra da sua inépcia; incapaz de levar o País em frente, engendra nos resultados escolares prova para-povo-ver do milagre do seu toque; inábil na racionalização do Estado e do trabalho dos cidadãos, simula um desígnio e uma visão inabaláveis para a Escola aos olhos do País; impotente para afrontar verdadeiros grupos de pressão, veste-se de machão quando se dirige em palavras e actos ao Ensino e a quem o mantém – o que supostamente valeria de amostra.

E o “sindicalismo” assistiu impassível e mudo à soez cavalgada do “Governo” em ambas as selas…

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…Depois da monstruosa e pacífica aprovação das alterações ao Estatuto da Carreira Docente, do novo modelo de Autonomia, Gestão e Administração das escolas, das alterações ao Estatuto do Aluno, da introdução de regras de ingresso na carreira, assistindo – numa palavra – à desvalorização generalizada do papel e da prática docentes pelo “Governo”, apenas me resta o desespero perante o caos.

A maneira desta gente negociar é uma só: pelo achómetro.

Uns “acham” que aos olhos do público devem mostrar força, então cerram os dentes e falam dramaticamente grosso.
Os outros, vendo-os enrijar, “acham” que não podem ficar atrás aos olhos do espectador e não mostrando fraqueza falam mais grosso ainda.
Os primeiros “acham” então que pode ser aconselhável variar o disco e mostrar abertura, então transigem sem explicação.
Os segundo, “acham” que estão a ficar expostos de carrancudos e transigem ainda mais, não podendo ficar atrás…
…Pelo meio, todos eles, quando transigem afirmam raquíticos a sua pujança, enquanto se obstinam proclamam grosseiros a sua abertura.

Num grande movimento circular. Digno da atenção clínica adequada. E que dificilmente tem remédio.
Não fossem estas a Terra e a gente que tão bem conhecemos.

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O “Ministério” da Educação não sabe o que anda a fazer. (Concedo-lhe o enorme benefício de acreditar ser esse o seu motivo!) Nem quando meteu as escolas na fossa em que se encontram, nem nos sketches aleatórios e viciados de “revisão de regras” de jogos de miúdos.
Os sindicatos passam por tudo a dormir. (Talvez a prova de que afinal os pobres não são verdadeiramente profissionais da sindicância…) Tanto no princípio deixaram instalar-se o abuso, como agora não têm respostas cabais para obstáculos específicos – porque infelizmente, mas em verdade, nalguns aspectos a sua noção da Educação é igual à do “Ministério”.
(Os professores – a sério -, claro, confirmam não ter iniciativa própria para escusar muletas e enfrentar os seus problemas (em que o “sindicalismo” se inclui).

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Mas…

(“There’s always a big but…“)

…Não é líquido que uns e outros não se possam entender.
Ou que não saibam como entender-se.
Melhor: que não venham a entender-se à margem dos professores, salvaguardada que esteja a parte de cada um.

A “participação” nestes processos é uma ilusão que eu não tenho.
Pessoalmente tenho mais a ilusão da INTERVENÇÃO…

Se nada dura para sempre, um dia este País terá de ver uma mudança.
E era bom que começasse já.

(*) Como toda a gente sabe, o tomate é um bom anti-oxidante.