“A Colonização Exemplar”

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Ninguém cala Mário Soares.
O que é pena. E já o digo há anos.

Veio um dos “pais da Democracia portuguesa” – assim se lhe topam alguns tiques e algumas parecenças – dizer com todas as letras, a propósito do 25 de Abril, que “a descolonização foi óptima” e que ela “admirou muitos países“.

É difícil hoje alguém acompanhar-me no salto de memória que faço a há uns vinte anos atrás, quando passava na RTP2 um programa – de que já não retenho sequer o nome – em que dois pesos-pesados da política nacional, João Jardim e Almeida Santos, faziam o que agora se chama “comentários” ou “análises” políticas semanais. (Com a ingenuidade e candura com que ainda se convivia então com a televisão…)

Falava-se um dia na bendita da “descolonização” (termo que sugere algo como chamar um tipo lá a casa para acabar à bombada com as baratas ou com a rataria)…
…E explicava Almeida Santos – mais um dos papás “disto” que temos hoje – como se passaram algumas das reuniões bilaterais que culminaram na “independência” das colónias portuguesas em África. Por exemplo uma com Samora Machel, em Moçambique, país de que viria a ser o primeiro Presidente. 
Explicava o tom informal, descontraído, com aquela natural pitada de azia de se sentarem à mesma mesa “colonizadores” e “colonizados”, mas um tom por vezes até galhofeiro.
Explicava Almeida Santos – em tom espertalhote – que, a dada altura, face a graçolas da parte dos seus interlocutores, chegou a contar a seguinte anedota…

Um dia, vem da picada um menino com ar preocupado ao pé da mãe e diz-lhe:
– Mãe, eu matei um macaco!
Ao que a mãe responde:
– Então para que fizeste isso? Mas deixa lá, filho. Qual é o problema?
Replicando o menino:
– Entã, agora não sei o que é que hei-de fazer à bicicleta!
” 

 …Anedota espirituosa que teria arrumado – pelo seu recorte de intelecto, depreende-se – quem se sentava do outro lado da mesa.

Ora, este naco de memória – enterrado algures nas profundezas do inconveniente arquivo da RTP – mostra o deboche que de parte a parte presidiu ao glorioso momento da “negociação” dos termos da “descolonização” portuguesa.
E como alguém que ainda hoje a considere “óptima” está num estado de senilidade e de inimputabilidade absolutas.

Se a “descolonização” foi “óptima“, o dr. Soares tem obrigação de explicar como pessoalmente se calhar isso até foi verdade. (E, já agora, também o dr. Almeida Santos e outros…)

Porque o que ficou de “óptimo” desta “descolonização” para o relato objectivo da História foi a miséria dos portugueses brancos que abandonados regressaram, a miséria dos portugueses negros que abandonados ficaram, o choque social de um Portugal que “descolonizou” – como diz o dr. Soares – “em tempo recorde” e o choque social de territórios africanos “descolonizados” largados da mão à sorte de aventureiros políticos e cleptocratas.
…Com a celebração embasbacada – mas distante! – de países como a França, por esta altura ainda em ressaca de um Maio de 68 de semelhante calibre.

Campo de Camacupa, Angola, 2001, quando uma multidão de jovens refugiados esperava receber cobertores dos Médicos Sem Fronteiras - © Louise Gubb

 O desprezo pela ética destes lords da política nacional não é novo. Mas a cada dia que passa torna-se cada vez mais insuportável.

Como se torna incompreensível que ninguém se lhes meta ao caminho e lhes explique de uma vez por todas que se a sociedade portuguesa ainda olha com desconfiança uma revolução de 74 em que se propôs aos portugueses algo tão simples e linear como “viver em liberdade” e seus frutos, é muito por culpa sua, dos seus papéis dúbios e sombrios, do esgoto em que algo tão puro em conceito veio rapidamente a tomar forma.

É este ainda o estado da Nação.

Coutada Azul-áurea

Não é a primeira vez que faço o elogio dos “media dos malucos”. Aqueles jornais, revistas, canais de televisão, que por vezes se esquecem do País em que laboram e se permitem – contra todas as expectativas – dizer o que lhes apetece, apenas porque é preciso ser dito.

E no universo dos media que não são “de referência”, encontram-se os jornais gratuitos. Ao que não é pago mas dado (supostamente) mão se reconhece valor…
Jornais este às vezes “malucos” também.

O Meia-Hora de hoje traz, por exemplo, algo que deveria fazer abanar os pilares da boa consciência nacional e não vi assim destacado noutros lados.

Vital Moreira, candidato socialista às eleições europeias, compara o Direito nacional e o europeu e conclui que como a Convenção Europeia dos Direitos do Homem traduz uma “visão libertária” da liberdade de expressão, deveria ser alterada para se aproximar ao que temos na nossa Constituição e na nossa legislação.

…É que lhe parece que em Portugal vai havendo – por contaminação europeia – “uma prevalência crescente da liberdade de expressão relativamente ao direito à honra e bom-nome.

Ora, por pontos:
1 – fica mal a Vital Moreira, no momento em que estamos, preocupar-se com tretas relativas como esta;
2 – sendo Vital Moreira o candidato que é, de quem é, fica-lhe mal esta conversa de “voz do dono”, inevitavelmente contaminada pela mediatização das sucessivas escandaleiras de Sócrates, cuja base de existência descaradamente coloca em causa refugiando-se no legalismo reinante no nosso Rectângulo;
3 – fica mal a Vital Moreira meter as suas cândidas e tecnicamente competentes mãos na mixórdia que é o folhetim das escandaleiras socratinas (vida pessoal, habilitações, vida profissional, desempenho político, comportamento cívico), recheado de cromos repetidos, pressões, “faltas de provas”, eventuais prescrições, “campanhas” e contra-campanhas, com que cada vez mais o constitucionalista faz questão de se lamentavelmente identificar;
4 – não é muito normal que um homem com o passado político de Vital Moreira – um comunista dos quatro costados té ter descoberto o elevador rosa para a esfera celeste – venha cuspir pelo canto da boca o epíteto de “libertário” a quem quer que seja.    

Basicamente, o que este candidato vem dizer-nos é que, chegado à Europa, vai lutar para que ela – Coutada Azul-áurea dos bem-pensantes em que a pequenita coutada lusitana se encontra encravada – faça recuar a liberdade de expressão para dar espaço à “honra” e ao “bom-nome” de incertos (?).

O que, para além de ser um supremo insulto, é um absurdo prático: acautelar obssessivamente o “bom-nome” de quem o não tem (e seus congéneres) por exclusiva culpa própria, porfiar cegamente na guarda de uma “honra” em que já ninguém pegaria em saldos, limitando o direito a pô-los em causa…

De quem é tudo menos ingénuo, inofensivo ou impotente. 
Não bastando centrais de propaganda privadas, arregimentações dos advogados mais eficazes ou a bonomia de comunicações sociais nacionais por inteiro, ainda há quem pretenda ter (…que terá!) a sua lança numa Europa decrépita e indolente que lhe ampare as costas a escrutínios legítimos e justificados.

Mas a consciência nacional só se sentiria abanar por estas avarias nos seus pilares profundos… se pilares tivesse. Se não se mantivesse doentiamente assente sobre dois ou três pilaretes, num crónico equilíbrio precário e circense.

Uma Vela

Ao lado das palhaçadas que se assinalam hoje, realiza-se à noite pelo País uma velada (que termo tão pateta…). Uma de uma sequência que vem tendo lugar.

…Pelos milhares de vidas interrompidas desde a benévola entrada em vigor da alterada Lei do Aborto a 15 de Julho de 2007.

Vão agora a caminho de 30.000.

Bati-me muito, nessa altura, dentro dos limites dos meus meios e da minha contenção, contra o que considero ainda ser um daqueles produtos culturais de consumo imediato que caracterizam a triste civilização hoje – e contra os quais me indigno.
E mantenho a mesmíssima posição.

Dizia eu, então, sobre o dia seguinte ao da derrota pessoal que senti no referendo realizado:

Quem se ouviu na noite de 11 exigir aos “governantes” deste Estado alternativo as condições sociais, profissionais, financeiras, familiares e afins, que sustentem a gravidez de uma mulher portuguesa?
Que lhe permitam escolher. Encarar o seu futuro.
Que a resgatem do aborto – o tal mal indesejado – que candidamente se lhe oferece.
Quem se ouviu dizê-lo alto? Ninguém. Absolutamente ninguém.

Os “do poder” não se arriscam. Isto é, não se comprometem.
Os “das franjas” querem mais. Mais um voto aqui e ali. Hoje, já, que o tempo corre.

O aborto clandestino, que agora se normaliza, nunca foi o problema.
Nem as condições do fazê-lo.
Nem a pena a sujeitar-se mulheres para ele empurradas.
O problema é O ABORTO. Sempre foi e há-de ser. O drama, o perigo, o inimigo.
E a questão vertical – que nunca teve resposta porque nunca se perguntou – seria o que há a fazer para que ele nunca aconteça. Para que nunca seja a saída.

…E repito cada palavra.

Denunciava a hipocrisia e a inconsciência.
De nos permitirmos discutir e isolar pormenores do horror, simulando que por isso ele deixasse de o ser ou se tornasse aceitável.
De nos permitirmos mesclar (por vitória dos discursos ou por mera displicência) – num caldo fétido de horror – o que de mais maravilhoso a vida encerra em si: o legado generoso da sua continuidade.
…Despromovido de súbito a espécie de incómodo de uma civilização.  

Vi de novo, ainda há dias, o belíssimo A Lista de Schindler. O tal que foi aplaudido. O tal que ainda é mostrado piamente aos nossos jovens, como papão pedagógico face aos perigos iminentes para a liberdade do mundo.
O tal filme que tinha como tag: “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro.”

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…Mas isso não deve interessar.
Hoje, aqui, neste contexto.

Por isso fica uma vela, de tristeza e pouca esperança.

Os Filhos da Puta

…ou A Véspera do 25 de Abril 

O R. não teve culpa.
Esteve na rua errada quando alguém era atacado por um bando de selvagens e pretendeu intervir.
E daí não saiu bem.

Foi a pior das escolhas. Na sociedade porca que temos, os actos de nobreza e bravura escorrem como lixo solto varrido em aluvião para a sarjeta da indiferença. Para mais, os de um miúdo.

Mas nem os selvagens cobardes tiveram a culpa a sério. Umas bestas sem cabresto, bichos mal domesticados.

Culpados?, os Filhos da Puta coveiros de um Abril que nunca chegou a ser nem se deixará chegar. Todos! Todos, todos eles.

Todos os que evocados, invocados e convocados às exéquias anuais da nossa “Revolução” desfilarem este ano mais uma vez em infindável maratona encenada.

Todos os que, à nascença, tentaram subverter o princípio puro e simples do viver em liberdade, querendo colonizar à força o País e o bem-comum.
Todos aqueles que, depois, por tíbios e incapazes não sonharam à altura de um Sonho prometido, nem agiram à altura da História de uma Nação.
Todos, por fim, os que hoje, num País podre e estagnado, vão impingindo cartilhas, atamancando respostas, simulando-nos saídas, arrebanhando sentires para sua promoção, predadores do que resta, coveiros de um Abril que nunca chegou a ser nem se deixará chegar.

Filhos da Puta, hoje, todos, aqueles que dão corpo e textura à camada grassa de sebo da nossa democracia. E que assim a vão mantendo, porque tal lhes aproveita.

Todos os que brincam e gozam no recreio da política com as vidas de quem paga.
Os que têm as mãos sujas do hipotecar a Nação, tanto ontem como hoje. Os que não lhe deram progresso nem lhe dão educação. Os que não lhe dão a regra porque numa selva sem lei mais imperam os tiranos.

O R. não teve culpa de ser nobre e ser ingénuo. De um lado o seu feitio, de outro a sua idade… – nenhum digno de censura.
Mas nem os selvagens cobardes. Que numa terra normal, da decência e consciência, sofreriam quarentena do convívio dos humanos – atendendo à primazia da segurança e da paz – para mais tarde poderem, recuperados, completos, voltar à vida comum, com tudo que têm a dar.

Acuso os Filhos da Puta que olham a sociedade como enorme variável dos seus planos pessoais.
Acuso-os de não nos levarem – cegos e enfileirados – a caminho de coisa alguma.
Acuso-os de delapidarem, vis, grosseiros, debochados, a Educação de um povo e um futuro por inteiro.
Acuso-os do mal repetido que se tolera em desleixo.
Acuso-os de provocarem a perda e simularem o seu espanto.    

Ontem, véspera de feriado do Dia da Liberdade.
Hoje festança e orgia.
Não é assim que eu os sinto. Nem os que conhecem o R.

…A quem dou o meu abraço.

Rir-se Três Vezes

Este cavalheiro é Luís Campos Ferreira. Deputado do PSD.

…Que pela sua bancada se insurgiu contra a aprovação solitária no Parlamento, pelo PS, da Lei do Pluralismo e da não Concentração dos Meios de Comunicação Social.
(Ou, em rigor, da aprovação exclusiva pelo PS das alterações que o PS fez à Lei já votada exclusivamente pelo PS na Assembleia e entretanto não promulgada pelo Presidente da República, que a criticou.)

Mas não foco tanto a peculiaridade da pressa desta legislação, que atropela a reflexão que a União faz neste momento e que quando chegar a conclusões nos vai obrigatoriamente vincular (e desdizer?); nem a graça desta preocupação com “concentrações” de órgãos de informação nacionais, quando a concentração de media em mãos estrangeiras (por exemplo espanholas) não merecem preocupação por aí além; ou a curiosidade da exigência de garantia pelos próprios media (!) de “serem plurais”, de “darem voz a diferentes sensibilidades”, numa clara intromissão em quem lá está, o que lá faz e a opinião que tem, numa cavalgada muito além das competências da ERC; ou a comovente bondade de determinar em definitivo que o Estado não terá parte em meios de comunicação, no que pareceria ético da parte de quem ao privilégio prescinde, mas não esconde o garrote que quer colocar aos media locais – por exemplo na inconveniente Madeira; foco apenas a intervenção pontual deste deputado.

Dizia o dr. Luís Campos Ferreira no Parlamento, dirigindo-se ao Primeiro-Ministro: “Ó senhor engenheiro, dê-me um pouco de atenção. O país precisa de mais liberdade de expressão.”
…Socorrendo-se como é evidente da letra daquela música dos Xutos.

Só que me fez parecer aquela célebre figura do sujeito que quando ouve uma anedota se ri três vezes: quando a ouve, quando lha explicam e quando a percebe.

É que quando os Xutos falam dos que “andam na roubalheira“, dos que “nos andam a comer“, de quem “anda a enganar o povo que acreditou“, é bastante provável que se refiram a políticos quase com 10 anos de mandato de Deputado, com mandatos exercidos na política local, com cargos de destaque nas hierarquias partidárias, eventualmente “advogados-gestores”… Tal como o dr. Luís Campos Ferreira!
(Isto independentemente da injustiça que esta “caricatura de homem público” encerre ou – evidentemente – de o senhor não encaixar na caricatura em questão…)

O que é certo é que em política é fácil morrer pela boca.
…E que a cultura pop, ainda que não pareça, não é só pega e usa.
E que os Maria-vai-com-as-outras são mesmos uns tristes.

Xutos Para o Canto

Tem piada. Precisar de chegar a esta idade para começar a gostar de Xutos & Pontapés.
(Que em verdade, não foi bem o que aconteceu.)

Fizeram sair o último álbum – chamado originalmente… “Xutos & Pontapés”…

… – e finalmente decidiram-se pegar – mesmo que de leve – o boi pelos cornos.

Falo de uma tendência para a música portuguesa (e arte, em geral) viver castrada perante a realidade em que se desenvolve. Num silêncio incomodativo da parte de quem deveria por conceito deter a máxima sensibilidade ao pulsar da sua sociedade e dá-lo a ver. (“Silêncio” quando não romance ou vida de cama com os poderes instalados.)

Que os Xutos agitaram.

No álbum ouve-se o tema “Sem eira nem beira”.
Que fala de um “engenheiro” a quem se pede um bocadinho de atenção.
Que refere esta “merda” que não muda.
Que acusa os ricos de saírem impunes e os pobres nem por isso.
Que denuncia a roubalheira que impera em Portugal.
Que fala das cumplicidades.
Que lamenta a falta de mudança de mentalidades – que não chega.

…O que já não é mau.

Finalmente – no seu Português de estivador e numa canção que enfim… – a banda assume que é capaz de fazer o que já se faz muito mais e muito melhor em países mais democráticos: os durões roqueiros serem um bocadinho mais contundentes com quem devem do que simples passeios em Festas do Avante e outras tretas de corte e reverência.

Por este rasgo, parabéns.
Subitamente – por uma vez – o País vê a possibilidade de pôr no canto o que lhe vai dentro. Que é tão rara.

Xutos & Pontapés
“Sem eira nem beira”

Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um “passou bem”

Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar, despedir
Ainda se ficam a rir

Eu quero aquerditar
Que esta MERDA vai mudar
E espero vir a ter uma vida bem melhor
Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer

É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir

Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar, a enganar
O povo que a
querditou

Conseguir encontrar mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a FODER

Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a…

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Dê-me um pouco de atenção

O Arcanjo. Mas, Por Partes…

Rodava ontem na TSF o escândalo de o PSD ainda não ter apresentado um candidato às europeias.
E o assunto tanto me interessa que acabei por lá ir dar – mais uma vez – o meu bitaite.

Comecei por achar totalmente irrelevante a questão em particular.
Isto da “corrida” de quem chega primeiro e bate com estrondo a lista no balcão do Tribunal Constitucional, é  próprio de um Portugal-taberneiro que não será o meu.

Para mais, como o disse no Fórum, bastava ao PSD apresentar o Manuel Luís Goucha à cabeça da lista e ganhava as eleições. Ponto; embrulhe que é para levar; venham as próximas! Não nos esqueçamos do País que temos e do povo que somos.
(Entretanto apresentou Paulo Rangel… e está lixado. Culpa apenas sua.)

Quando o PS apresenta o comunista-convertido Vital Moreira (dado curioso que escapa à perfeitamente limpa de referências políticas e bem arrumada biografia oficial da página da candidatura), dá-me mais que pensar.

(Falo de Vital Moreira. Ou, como também é conhecido, “Utael” – espécie de um nome de arcanjo inventado: em sânscrito, “O meu Senhor é uma fera”. Ou, para ser milimetricamente exacto, “Utael-uuuuuu-amálgama-com-aquele-traço-horizontal-por-cima-típico-da-palavra-Moreira”.)

Vital Moreira, que agora apresentou um livro reader’s digest de 10 anos dos seus próprios escritos sobre a Europa, é figura de proa de uma campanha. Mas uma campanha muito maior que a pindérica “campanha das europeias”.
E é isso que é preocupante.

Se há tempos andei a ganir neste blog, como cachorro à chuva, pela esmola de uma vez na vida ser ouvido no contexto da pilhagem nacional, não vou agora calar-me perante a festa da candidatura do Arcanjo Utael.
(…E do seu Dupont Rangel.)

A sacola de asneiras – que os latinos diziam que carregamos às costas e ignoramos porque à frente apenas trazemos pendente outra com as nossas qualidades – que eu censuro ao Arcanjo Utael pode ser procurada e facilmente encontrada na net.
Quem quiser procurá-la, encontra-a. (Quem não quiser, pergunto-me se chegará a ter justificação para continuar a ler este post…) Que vá ao Causa Nossa, o blog que o candidato partilha com figuras de relevo da República como Ana Gomes.

Um empurrãozinho?…

Escrevia o senhor a 17 de Junho de 2008, sobre a nega irlandesa às pretensões transformistas do funcionamento da União “aprecio em particular a proposta de sufragar – por ocasião das eleições ao Parlamento Europeu em Junho de 2009 – o projecto de um Acordo, Mas, atenção, sufragar um tal acordo não significa sufragar este Tratado: neste cenário caberá aos partidos políticos apresentar programas eleitorais […] que os vinculem claramente [ao] Tratado de Lisboa [porque] defendem a aplicação do Tratado de Lisboa – se necessário a 26.
Ou seja, os nacionais dos vários países da União tinham mais era que ver passar o combóio dos cozinhados nas altas esferas da política europeia e dizer humildemente “amén“. Depois, mais tarde – tarde demais, entenda-se – lá poderiam opinar se achavam bem que Portugal corresse atrás do combóio em andamento ou ficasse no cais.
…Numa sinistra lógica de acto consumado, de chantagem política, de “quem não quer, larga” tão ao estilo de algumas cabeças socialistas.
Porque, segundo Utael, “o referendo [do aborto] ensinou-me a não fetichizar os referendos. É que nem 50 por cento dos portugueses se deram ao trabalho de ir votar… Como que a lembrar aos homens políticos – ‘vocês são eleitos por nós para decidir’. Eu, por mim, assumo essa responsabilidade.
Ora é essa horrífica perspectiva, a de senhores como ele fazerem o “sacrifício” de asumir o fardo de decidir pelos portugueses em matérias em que objectivamente há pessoas – e muitas – que põe pés à parede perante o rumo dessas “decisões legitimadas” de uma classe política tão benemérita mas corrompida por diversíssimas seduções.

Sobre o desenrascar do “problema” irlandês e a possibilidade de enfiar boca abaixo aos irlandeses novo referendo, dizia ainda nesta data: “não há nada de antidemocrático nisso. Se fosse em Portugal, o mesmo referendo poderia ser convocado já a partir de 15 de Setembro. E é evidente que os eleitores podem mudar livremente de opinião.” Pois, só que “esse” referendo, em Portugal, NÃO ACONTECEU!, também por culpa sua!

Mas não ficou por aqui.
Dias antes escrevera, no contexto da nega irlandesa, que “[auscultados,] somente 8% dos eleitores declararam ter ‘um bom conhecimento do Tratado’ (e pelo que se conhece da sociologia das sondagens, esse número deve pecar por excesso). Mesmo assim, cerca de 65% dos inquiridos acharam que podiam votar a favor ou contra. […] O que não é racional é submeter a decisão popular matérias que, pela sua manifesta complexidade, a generalidade dos eleitores não pode razoavelmente compreender. […] A oposição ao Tratado jogou explicitamente na ignorância. O seu principal slogan era ‘Vote Não porque você não sabe.’
Ao melhor nível – por exemplo – de uma sólida formação soviética, os “ignorantes” (ou seja, “toda a gente”) devem ser poupados ao confrangedor espectáculo de serem ouvidos e darem as suas patéticas opiniões. É para isso que servem os “intelectuais”, os “educadores do povo”: informados e ilustrados, e por isso quasi-infalíveis. E por isso inquestionáveis.
Fora de questão está, como é óbvio, INFORMAR, sobre aspectos fulcrais de uma vida QUE LHES DIZ RESPEITO, os pobres dos ignorantes… Para depois os chamar a participar nas decisões sobre o seu futuro.
Abençoados os que saíram à rua na Irlanda para dizer aos eleitores mais descontraídos: “Se não sabem, não saltem no escuro.” Porque é precisamente disso que se trata!

Que esta coisa do “Nós, europeus” faz-me lembrar um texto engraçado que li, estudante, sobre as maravilhas da educação colonial – neste caso no Norte de África francês.

Descrevia uma situação em que miuditos negros – “pieds noirs” magrebinos – liam e recitavam à volta de manuais escolares os feitos dos “nos père, les Gaulois“, “os nossos antepassados, os Gauleses“.

É neste ponto em que estamos, mais ou menos.
Quando Utael fala do “nós, europeus” sinto-me de imediato (considerado) um miudito de um território estrangeiro, a quem por força recitam histórias fantasiosas, que querem forçar a replicá-las e a aceitá-las como uma espécie de reescrita da sua própria história e identidade.

Armado em Malcolm X (olha para o que me havia de dar!…) diria eu que não aterrei na Europa, “esta” Europa aterrou sobre mim.
Uma “Europa” cada vez mais hostil, que não sou forçado a aceitar. Ou sequer a tolerar como se me insinua.

E nesta batalha angelical, em que farei fatalmente parte dos errados e dos malditos, lutarei com todo o gosto.

..E Fez-se Luz.

Duas notícias…

…Um País.

Que trata dos seus sem-abrigo.
Uns mais que doutros.

…E eu bem preocupado que venha a desmentir-se.

Trevas do Vento Que Passa

Pode depender em boa parte de Manuel Alegre a – mesmo que seja – pequena correcção da estrumeira politico-cívica que urge a Portugal.

Votei Cavaco Silva nas últimas Presidenciais. E como sou pouco de bater com a mão no peito e de lamentar gestos – mesmo como forma de os alijar da minha consciência – não me arrependo.
Não o fiz por disciplina partidária – que há muito que, por taticismo, Cavaco Silva não se deixava confundir com o PSD – mas por respeito à minha lógica pessoal de vida.
Sou um cidadão com direito a voto, portanto não me abstenho.
Sou um cidadão que vai às urnas, portanto – até ao limite – não voto branco nem nulo.
Sou um homem de direita, não voto em candidatos de esquerda, com ideários de esquerda, de partidos de esquerda.

O que não significa que não tenha sido uma má escolha.

Apesar de arrufos pontuais – uns decorrentes de naturais choques filosóficos, outros de grosseiras inépcias do “Governo” – a sintonia entre Belém e São Bento tem sido total.
Se a quem compete governar não governiza, também a quem compete exercer o “magistério de influência” não influi.
No retrato largo da política do País, Cavaco e Sócrates aparecem lado a lado, de braço dado, solidários nas escolhas, coniventes nas asneiras, cúmplices nas ausências.

Mais tem sido Alegre quem mais sai ao caminho do “Governo”, chamando-o à responsabilidade do que falha no que julga ser o fazer bem e o agir correctamente.
(À “oposição” nem aqui aludirei…)

Tem sido Alegre a voz a impor-se de forma mais consistente ao vento que passa e que tudo ameaça levar.

Claro que se não formos ingénuos, não ignoraremos o propósito de Alegre vir a ser Presidente!
(…E como as suas intervenções parecem seguir os passos de um Cavaco que um dia teve de hostilizar o partido que lhe deu o pão da boca – política – para aparecer ao País como candidato “independente” e elegível.)
Mas no momento presente pouco me interessa se as suas motivações são mais ou menos egoístas, porquanto coincidam com a minha noção de urgência de que alguém trave a socialistização do Estado, a socratização da Nação, a definitiva canalhização da sociedade portuguesa baseada num largo espectro político de apoio.

Alegre apenas está refém de si mesmo. Refém da sua identidade e da sua história.
E o limite do seu discurso, da sua intervenção, é o limite natural e intransponível de um protótipo político com características muito definidas.

Manuel Alegre é, antes de mais – assim o vê o País, assim o vêem os seus companheiros de caminho e utopia, assim se verá a si próprio – um militante socialista.
Se hoje é uma figura notória e popular, tal se deve ao seu longo percurso partidário.
Se é hoje um ícone cultural da República, tal se deve tanto ao encanto político dos seus versejares no exílio como à sua elevação pela (sua) esquerda dominante a esse título.
Se é ouvido hoje atentamente pela comunicação é por ser figura de proa do maior partido de esquerda português…
…Se o País lhe deu 1 milhão de votos nas Presidenciais foi por sintetizar de forma perfeita o sonho de candidato que bate o pé a quem manda mas que – tranquilizador – por lhe partilhar do convívio não ameaça levar a Nação a loucuras.
Se hoje é ainda acompanhado por muitos que lhe secundam as palavras, é porque ainda ninguém lhes exigiu a escolha final entre Alegre o Partido.

Mas Alegre sabe o que são o Mundo, o País, os portugueses, o PS, José Sócrates e sabe como deseja ficar para a História.
E apesar do imperioso desígnio de Belém, que o tenta como a um homem, e de saber que precisa do PS para uma vitória contra Cavaco, Alegre continua entrado o século XXI o único socialista nacional de peso com um pensamento e um discurso claros, independentes e afirmativos.
(Com um minuto do vosso tempo, é clicar na imagem abaixo, do Movimento de Intervenção e Cidadania de Manuel Alegre, e ver a abrangência e a profundidade das reflexões que ali são produzidas! …Que põem a arder as pontudas orelhas do “Governo”…)

Acredito que a dúvida o habite. Que o taticismo político faça tanto parte do seu esqueleto como de outro político, mas o momento que vivemos não lhe permite impasses.

Há um País à espera.
Espero eu que não de um salvador, mas do contributo activo de todos os homens que o tenham a dar.
Já! Sem equívicos! Os que tiverem vozes mais altas, que mais alto gritem!
Contra todas as misérias que alastram e toda a tristeza que se instala.

E Manuel Alegre está convocado para tal. E ele o sabe. Intimamente ele o deseja.

O que não se tolera, nem sequer numa terra de cobardes, é a exibição da cobardia.
E se não quer ser confundido com alguém que está a meio caminho entre a denúncia do erro e o compromisso com ele, há que mexer-se.

Não lhe basta dizer que “se pudesse faria“, ou que se refreia para não fazer “o que já poderia ter feito“, ou que se calhar “ainda há-de fazer“.
Ninguém lhe gabará no futuro o trabalho meio-feito.


O que é facto é que Manuel Alegre treme o “Governo”. Agita o PS; que se contorce como que com uma carga de sarna.

O facto é que mesmo não se afirmando terminantemente contra a maré negra socialista obriga atiradores furtivos avençados pela nomenklatura a dispararem-lhe sobre os lombos, em sinal de nervosismo e descontrolo.

O que conseguiria se tivesse o golpe de asa que lhe falta para levar até ao fim a sua revolta?…

Dentro do PS, como é evidente!
Aí sim, terreno para plantar – não num partideco novo que criasse e morreria na segunda eleição que disputasse, apostando na sua extinção pessoal – que o PS é, de facto, um partido “da democracia portuguesa”. (O que quer que isso possa significar.)

Dentro do PS!
Com a coragem de denunciar que apesar da mesa farta de partido governante, em que sempre come mais um, o rei vai nu. O REI VAI NU!

Dentro do PS!
Dando exemplo aos restantes partidos de como alguém um dia pode transformar aterros de vício e mediocridade em partidos políticos decentes. (Ou um pouco mais decentes, concedamos…)

…Se o canto da Pátria não se duvidar que inspira este homem, está na hora que uma resposta sua se ouça, de vez.


Caso contrário, este seu poema – tão horrivelmente ilustrado pelos dias que correm – não terá em si exemplo do canto, da luta e da liberdade.

TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

[Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.]

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

A Escola Interior

(...Ainda estive para editar esta foto, mas pareceu-me um disparate.)

Roubar é feio, mas se bem a conheço, a Dia-a-Dia não vai levar a mal.

Este é um texto de autora. Num registo habitual – atento, certeiro, sentido.

…Que traz a placidez possível de um discurso sereno a um completo mar de caos.

“3 profissões e 1 funeral”

O dia era “Mundial da Mulher”, consta. Foi no Domingo, 8 de Março último, que uma mulher, portuguesa, por sinal, se sagrou vice-campeã europeia dos 3000 metros em pista coberta, na cidade de Turim, Itália.
O feito passou quase em branco. É normal.

Esta mulher contava ontem, aos microfones da TSF, que, para além de atleta de alta competição, é carcereira ou, se quisermos pintar a coisa em tons mais suaves, guarda prisional. Confirmou ainda que tinha sido em tempos professora de Educação Física, por força da licenciatura que a habilita nesta área. Era professora. Foi, em tempos. Já não é. Dizia a nossa vice-campeã que deixou o ensino por desgaste. Reparem bem: a mulher é, actualmente, CARCEREIRA e ATLETA DE ALTA COMPETIÇÃO – em simultâneo! – mas enterrou o professorado por desgaste…

Não sei se alcançam o significado destas palavras… Não sei… tenho, aliás, sérias dúvidas que o entendam… O meu marido entende, os meus filhos também, bem como os meus melhores amigos. Eles sabem, porque me vêem repartindo braços, colo, pensamento, força e amor todos os dias. Toda eu me reparto, até à exaustão, todos os dias, entre família, amigos e alunos. Eu disse “ALUNOS”. Não disse carreira profissional. Ninguém, a não ser um professor como eu, sabe o que isto quer dizer. E ainda que o novo modelo de avaliação nos venha um dia a reconhecer como bons, muito bons ou excelentes professores, ninguém, de facto, nos reconhecerá o mérito. E é isto que me custa. Não me choca nada a progressão na carreira congelada, nem outros constrangimentos profissionais do género. O que me custa é a falta de reconhecimento social. O que me custa é o apedrejamento de uma classe por parte de homens e mulheres que sabem o que é ter filhos a cargo, embora apenas ao sábado e ao domingo. O que me custa é aceitar que alguém fez desta profissão um sacerdócio, sujeito a voto de exclusividade, sem nos perguntar nada, sem querer saber se estávamos na disposição de roubar a nós próprios e aos nossos, para benefício dos filhos dos outros. Porque “os filhos dos outros”, ao que parece, são verdadeiramente desgastantes, muito mais que quilómetros e quilómetros de pista coberta; muito mais que um cárcere pejado de reclusos… Mas foi esta a profissão que escolhi, que AMO verdadeiramente, sem o fito nos louros que, eu sei, nunca virão. Mas, por favor, deponham as pedras, sim?