O Inútil. Mais uma vez…

Já não é a primeira vez que falo disto.

Cavaco Silva assume-se cada vez mais um perigoso Dupont em Belém do Dupond de S. Bento.

…Cada vez mais como um perigoso inútil.

Assiste-se a uma “crise” mundial e nacional (ou vice-versa) e a uma multidão portugueses que sofre cada vez mais com a incapacidade que governos sucessivos mostraram para nos preparar para um destes dias.

Há os que garantem que nada há a fazer no imediato para debelar este flagelo, há os que garantem que está a ser feito o melhor para evitar o pior.

Eu não sei. Não percebo de finanças. Só percebo de escrever posts e comer chocolates.

O que garanto é que não tenho a menor confiança no “Governo” actual. Que acredito que o que (não) fez antes da chegada da “crise”, em largos três anos, é boa parte do peso em cima dos ombros de quem sofre com os maus dias que correm. E culpo-o directamente por ter andado tanto tempo a rabejar a questão da chegada dos problemas a que agora alude para justificar a sua impotência.
Se não confiava em quem “governa” com a maré a subir, menos confio hoje com a água pelo pescoço.

…Do que se esperava uma reacção do Presidente da República.

Não que viesse governar o País, que não lhe cabe.
Mas que se envolvesse no traçar de um caminho, que influenciasse quem compete traçá-lo e se deixasse convencer por ele da inequívoca correcção das escolhas.
Que pela envolvência, pelo COMPROMISSO de mais um órgão de soberania – que não os partidários – com um projecto específico de futuro, fosse dado sinal ao país de que a confiança hoje mais ou menos se justificaria.

Só que o que se vê é outra coisa. O que se tem não é isso.

Temos um Presidente da República que “recebe indicadores sociais de alguma gravidade“. (…Tão bem que os meus miúdos já sabem o que é um eufemismo…)

É alguém que – tendo ao seu dispor da informação mais privilegiada da nação – vai mais ou menos quase tendo uma ideia do que se passa, por sinais que lhe chegam, difusos e esbatidos. Que insinua “não saber”.

É alguém que está “preocupado e triste“. Solidário com o cidadão. Sentado ao seu lado a partilhar a sua dor e a contemplar os amanhãs de esperança que virão.

Acontece que eu não o quero ao pé de mim.
Xô!

Quero-o lá no seu Olimpo – para onde o elegi – a assumir a responsabilidade que lhe toca na supervisão do que se passa nesta terra sem lei.
Quero-o sentado à mesa com o “Governo”. A inquirir, a discutir, a questionar, a sugerir, a argumentar – mesmo que o “Governo” não o queira.
Não são esses os poderes específicos do Presidente. Mas em tempo de “crise” não se encaixa na perfeição esse desvelo nas suas obrigações genéricas?

Pode até acontecer que a conversa seja curta. Que a sintonia seja total – como se teme que seja. Mas sempre teríamos um COMPROMISSO do Presidente no apoio ao rolo em que rolamos.
…Ou uma frontal oposição.
Fosse o que fosse.

Agora, paciência para périplos ao País com voz embargada de amor fraterno e olho brilhante da comoção na perda de quem se manté à margem, tirem-mos já daqui!

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Idiotas Chipados


Está consumada. Uma barbaridade que nunca julguei possível.

O chipamento da vida dos cidadãos.

Claro que “apenas” nos carros em que se deslocam.
Claro que “só” por motivos utilitários e reactivos a uma insegurança que, como não respeita nada nem niguém, tem resposta pronta e adequada de quem nos “governa”.

Claro que é para o nosso bem….
Claro!

O que acontece é que cada vez menos gosto desta sociedade em que vivo.
Cada vez mais me inquieta que esteja a criar um filho inocente – futuro cidadão – para o entregar nas mãos de um monstro silencioso.
E por imperativos de moral e de razão não estar a artilhá-lo com as ferramentas de violência adequadas a responder-lhe, quando velho não me couber já a mim lutar num combate de uma outra dimensão, com a vitalidade que então já não terei.


Há muito que a questão do “divórcio entre cidadãos e os seus governantes” está ultrapassada…
[…O “divórcio” entre os cidadãos e o próprio “sistema democrático” que os rege nunca sequer esteve sobre a mesa, na medida em que ninguém se “divorcia” de algo a que nunca esteve intimamente ligado.]

…Hoje – resultado de um intrincado processo e de uma intrincada manipulação – os cidadãos estão divorciados de si mesmos. Cada qual já não procura saber o que pode fazer pela Nação, mas também já nem lhe interessa saber o que a “Nação” pode fazer por si – exercício penoso de intelecto e civismo a que ninguém se sujeita – cortado em qualquer sentido o cordão umbilical que o ligaria à comunidade dos seus semelhantes.

Hoje, o cidadão divorciado de si mesmo não procura intervir sobre o seu meio, atrofiado na sua iniciativa.
Não procura intervir sobre a quem, de forma diferida, poderia caberia essa intervenção, atrofiado na sua voz.
Hoje, o cidadão constitui o isolamento a sua forma de integração social.
[Que ai
nda que conducente à sua fragilidade e ao seu – inevitável – desespero, tanto o seduz pela ociosidade como lhe surge difuso na anestesia pop do mediatismo e do consumo.]


E, desenraizado, perde os seus referenciais. O seu contexto, a sua identidade e o seu auto-respeito.
Perde a noção de uma origem e de um futuro colectivos – cuja alusão o enchem de um espanto genuíno e de uma indiferença exuberante, nascidos da ignorância, da inconsciência e do orgulho.
Perde o sentido da sua existência.

E está pronto para a ceifa.

Quando o Presidente da República promulga o decreto-lei que permitirá a instalação de chips (…não, não são batatas!) em todos os veículos motorizados, sob pretextos de “facilitar o trabalho das forças de segurança, que terão acesso à informação sobre inspecção periódica e seguro automóvel, “permitir o reconhecimento de veículos acidentados e abandonados” e “ser utilizado na cobrança de portagens e outras taxas rodoviárias“, entende que as dúvidas relativas à reserva da intimidade da vida privada podem ser resolvidas pelo Governo“.

Ora, tanto os motivos alegados estão pela insignificância cobertos de ridículo, como o laçarote formal dado à ameaça da privacidade dos cidadãos acrescenta à estupefacção toda a repulsa possível.

Não existe motivo plausível para o controlo em tempo real da circulação individual.
Para a sua vigilância.
Para a sua indexação.
Para o seu arquivamento metódico.
Para a sua consulta cirúrgica.

Nem motivo plausível, nem justificação aceitável.

Só numa Nação em que mais por folclore que por convicção se desfraldam os pendões da luta democrática, se admite que se venda em hasta a liberdade de agir do cidadão.
…Porque é dela que se trata!
Se alguém não é livre no resguardo dos seus movimentos, é coarctado neles.

E quando a segurança dos cidadãos é prometida às mãos – não só dos políticos, mas – de um “Governo” que nasceu e vive sob o signo da manipulação, todo o alarme social seria justificado…


…Não fosse já o alarme social o último ingrediente necessário ao caldo da desarticulação da cidadania.

Cidadãos entorpecidos, superficiais e impotentes, não necessitam senão de um empurrão para que aos seus olhos qualquer fórmula manhosa de salvamento seja providencial.
A criminalidade crescente requer actos radicais.
[Aterrorizar/controlar. Enfraquecer/dominar.]

Primeiro, sob o olhar de uma câmara indiscreta, omnipresente, em circuito fechado paternal sobre o homem…
…Depois, sob uma mesma câmara,
fria e penetrante, cerrado no abraço esmagador de um círculo fechado sem apelo.

(“Tal e qual como nos States…” – Pela boca tantos morrem…)
Tal como no livro de Orwell.


Mas contra a probabilidade, parece ter aparecido quem ouvisse a notícia.
Quem se pusesse a pensar e tirasse conclusão.
Parece que até houve mesmo alguém com opinião. E que ousou partilhá-la.
E que na largura da net chamou outros a fazê-lo.
…E que de novo mostrou que isso é fácil e é fértil.

Não fui eu, mas aderi. Porque o medo e a revolta também os transporto em mim.
Por mim, por quem passa a meu lado, por aqueles que me seguem e pelos que hão-de vir…
Porque o desgosto galopante de viver no idiotismo também me revolta as entranhas!

Por continuar a crer que a corja que nos apouca nada pode contra nós.
Queiramos. Façamos. Ousemos.
E ser livre pode ser já.

Se Querem Que Eu Vos Conte


Posso? Agora?…
Querem que eu conte?

Tem sido bem divertido ver aparecer na boca dos génios do pensamento as palavras “Quinta da Fonte”.
Divertido. Surrealista.

Quando a Fernanda Câncio – sim, essa – fala da Fonte, ponho-me eu a pensar: “Ah, pois, ela sabe do que fala, que a sua santa avozinha morava lá num T2.
Ou o António Vitorino – “
Ah, sim, a caminho das Assembleias Gerais do Santander-Totta é vê-lo a beber mines no Café Mourão.”
Ou o Marcelo Rebelo de Sousa. Que como qualquer mortal também tem Google Earth em casa, o que lhe dá alguma noção de para que lado é que a Fonte fica.

Eu sei um pouco do que falo.
Eu sei onde é e o que é a Quinta da Fonte.

…Eu, o Geolouco, a MaisDia, o Jaime, a Loba, a AbelhaMaia, a I.R., o F.F. e tantos outros compadres a quem por razões que nós sabemos tiro o meu chapéu.



Já passei três vezes pela E.B. 2,3 do Alto do Moinho e uma pela
famosa – e até polémica –E.B. 2,3 da Apelação.

O que me fez ir ao baú repescar o Projecto Educativo da E.B. 2,3 da Apelação, cuja elaboração coordenei em 2000, com base na informação oficial disponível à altura.

Dizia então o Projecto Educativo, na “Caracterização do Meio Escolar”…

«A FREGUESIA DA APELAÇÃO:
O nome “Apelação” parece ter a sua origem numa peste ocorrida há vários séculos em Lisboa e arredores. A população veio refugiar-se neste lugar, que não estava afectado, “apellando” à protecção de Nª Sr.ª da Encarnação. Passou a freguesia em 1594. […]
Em 1991, segundo o censo efectuado, tinha 3419 habitantes. Com base na actualização dos cadernos eleitorais de 1998, calcula-se que a população da Freguesia seja de 9000 habitantes, tendo já em atenção os novos realojamentos da Quinta da Fonte. A Freguesia da Apelação tem uma elevada densidade populacional, sendo superior à média do Concelho, […] com forte grau de urbanização. […]
Praticamente não há população a trabalhar no sector primário, no entanto o sector secundário ocupa 51,6% e o terciário 46,9%. Predominam os operários industriais, tendo grande peso os indiferenciados – as actividades ligadas aos serviços pessoais e domésticos absorvem um grande número de postos de trabalho.

OS BAIRROS DA APELAÇÃO[…]
O BAIRRO DA QUINTA DA FONTE

A Urbanização da Quinta da Fonte é um empreendimento composto por um total de 776 fogos, destinados a realojamento. Pertencendo a maioria dos fogos à Câmara Municipal de Loures.
Metade dos residentes são provenientes da freguesia do Prior Velho, do Bairro Tete e da Quinta da Serra. 20% são provenientes da Quinta do Carmo, Freguesia da Portela. Os restantes 30% provêm de outras freguesias. Consequentemente, verifica-se uma grande diversidade socio-geográfica da população residente.
Há que considerar também uma grande diferenciação etnico-cultural que, segundo estudos feitos pela C.M.L., apontam para uma presença de 40% de famílias de etnia africana, 39% de famílias de etnia cigana e 21% de etnia branca. Numa análise por nacionalidade dos indivíduos residentes, predomina a nacionalidade portuguesa (71%), embora coabite com diferentes outras: cabo-verdiana, guineense, são-tomeense.
Segundo os mesmos estudos, a população idosa representa apenas 4% do total de indivíduos e 79% da população tem até 34 anos.
É de salientar que se verificam baixos escalões de rendimento, nomeadamente devido ao fraco grau de escolaridade, às baixas qualificações profissionais, ao desemprego e vínculo laboral precário. Numa análise por agregado familiar, o escalão de rendimento mais representativo é o de 55.000$ – 100.000$00. […]
A população activa desenvolve a sua actividade profissional na venda ambulante (maioria), na construção civil e em actividades ligadas a serviços domésticos e de limpeza.»

Uma povoação centenária de perfil rural avassalada nos anos 90 pela implantação de um maciço populacional edificado; uma sub-sociedade implantada mas não harmonizada ou integrada que desde então tentou o equilíbrio da influência e dos espaços; uma força de trabalho desqualificada terrivelmente vulnerável à instabilidade socio-económica; uma comunidade com as virtudes e os vícios de uma juventude em risco.

Um caldo inconsistente que fervia já assim há quase dez anos atrás…

Agora, tiros, agitação, choque das boas consciências.

Pude dizer no outro dia, no Fórum TSF, que antes de tudo há na discussão superficial da Fonte muita contaminação por asneira (talvez deliberada).

1º – “Esta foi uma rixa pontual. Apesar das tensões vividas no bairro, este é um cenário atípico.”
Não, não é. Sei-o e afirmo-o. E mesmo quem fingisse que não o saber não poderia iludir notícias como as de Março do ano passado, com “carros incendiados e tiros disparados” na Fonte, por “jovens”, durante a noite.

2º – “Estes foram desacatos provocados por desavenças entre vizinhos, que como problemas pessoais não podem confundir-se com choques rácicos.”
De facto não podem. Mas porque os conflitos raciais descambam em tiroteio e as “desavenças” acabam como há algum tempo atrás com uma larga saída da urbanização de ciganos desavindos entre si.

3º – “Os moradores da Fonte são vítimas da sociedade.
Em certa medida. Apenas.
O realojamento destes moradores foi feito em condições sociais a muitos títulos condenáveis. Mas não é menos verdade que foram – em grande parte – resgatados da miséria sanitária da vida que levavam em bairros de lata.
Atingido por estes um patamar de condições básicas de vida, competia-lhes – bem entendido, aos que nunca o fizeram – lutar pela fuga a uma dependência crónica dos rendimentos garantidos que eu pago (90% desta população, avançaram os jornais).
A actividade da(s) “venda(s) ambulante(s)” de ciganos não os auto-qualifica para exigir o que alguns moradores esforçados e honrados (ciganos ou não) exigem ao poder tutelar.
A importação a grosso de famílias africanas – com a conivência de um Estado relapso – até ao vigésimo grau de parentesco, para fogos e urbanizações que não expandem, não revela qualquer capacidade da parte deste grupo social de conceber para si mesmo um plano integrador na sociedade com condições mínimas de bem-estar.
…E miúdos que vão à escola receber a única refeição decente do dia, apenas senhas para o passe, o apoio financeiro da Acção Escolar, uma palavra de conforto, o conselho básico de higiene, são factos diários que competiria a estes grupos acautelar.
Dar o peixe e a cana e pôr a mesa e pré-mastigá-lo e vê-lo ficar na borda do prato? É demais.

4º – “O poder político tem estado atento ao isolamento social.
Em situações destas apenas releva se o problema está resolvido ou não.
Se em Loures o Presidente da Câmara foi politicamente colhido pela situação como que por um touro, também merece o que lhe acontecer. Dizer que lhe tem dado “atenção muito especial” é não dizer nada. Confessar-se “convencido que alguns problemas que surgiram no início do realojamento dos habitantes da Quinta da Fonte estavam solucionados” é invocar uma inadmissível ignorância. Recordar que “há pouco tempo numa festa na Quinta da Fonte […] tudo estava tranquilo e pacífico” é de uma pobreza demolidora.
Se o Presidente da República vai à Apelação para as fotos e para as palmas validar a mudança da realidade, é ele que leva os tiros que só resvalam nele pela baixíssima qualidade da nossa imprensa. A intervenção dos jovens é fulcral, mas “têm conseguido melhorar o ambiente na freguesia e no bairro da Quinta da Fonte? Dependerá deles? E que prtessão tem feito o PR para provocar respostas eficazes?
Se o ex-PR Jorge Sampaio diz com o descaramento superior de um Presidente da Aliança para as Civilizações da ONU que “os eventos ocorridos neste bairro não surpreendem pelos problemas que se vêem há alguns anos relacionados com habitação, escolaridade, segurança social e apoio social e profissional destas pessoas“, importa confrontá-lo com os dois mandatos na Presidência e a mesma questão que se coloca a Cavaco Silva.
E sobre as culpas dos Governos sucessivos?, e sobre as deste “Governo”… tanto haveria a dizer.

E o resultado é que como sempre estamos desamparados, estamos sós, estamos mal conduzidos e mal defendidos pelos nossos eleitos.
Como sempre todos são vítimas e ninguém é culpado de nada.
Como sempre a “informação” é espectáculo, mais que responsabilidade. E as tretas derrubam qualquer resistência – dizia a Governadora Civil de Lisboa “Será dado tempo às partes para se acalmarem“…

Como sempre a Natureza se encarregará de encontrar uma solução.
neste caso como a do organismo preponderante englutir um menor.

Não quer dizer é que vamos no caminho certo.
Ou em qualquer caminho que seja.
Apenas o de deixar a Natureza englutir grupo a grupo entre si, até à aniquilação total.

Única coisa que cinicamente se aproveita: a bofetada àqueles que maquinalmente apelidam tudo e todos de “racista” por mera expressão de opinião franca.
Esses andam caladinhos, depois do deboche verbal dos últimos dias trocado entre “os ciganos” e “os pretos“.

A este assunto, ainda se há-de voltar.
Por força das circunstâncias.

Para a Tralha Cavaquista, Daqui Vai…

…Um Sentido Pontapé!

Num País em que todo o cão e gato tem direito a “biografias” em papel, na net e em canais da especialidade, o Sr. Pinto de Sousa não é excepção.
Saiu para os escaparates um
rolo de papel de folha simples sobre o percurso do político e do Homem que se fartou de bulir para cá chegar. (Confira-se o site da FNAC.)

“Cá”, à política, a Lisboa, ao sucesso, ao Governo, ao zénite do superior pensamento da Nação.

(Coitadinho, o que ele moirou para vingar desfavorecido na Beira…, o que ele batalhou para singrar sozinho na esfera do PS da metrópole…, o que ele suou para se formar no académico que é hoje…, o esforço que foi arrancar o seu poder actual às mãos aferrolhadas de Santana Lopes…, os tormentos que passa ainda agora, coitadinho, com uma imprensa tão atenta, isenta e agressiva…
Coitadinho…)


Por isso, para tal alma tudo é pouco.

Coube o frete…, isto é, a distinção, à sub-directora da Antena1, a jornalista Eduarda Maio, de quem até gosto.
…Que mais ou menos nos termos que se esperava explicou – em longos seis minutos – à RTP (!!!) o processo de postura da obra.
Como as dez horas de entrevista com o protagonista da biografia não autorizada“.
Como a extenuante pesquisa sobre a longa vida de salientes concretizações do “Menino de Ouro do PS” – termo da autoria de terceiros e que por isso não compromete a imparcial e inócua obra literária!

Mas ainda que triste, não é esta a parte mais lamentável.


Foram mais reveladores os próprios detalhes do parto do opúsculo.

Numa comovente cena de Natividade, vieram reunir-se em redor do Menino (de Oiro) os Reis Magos da nata VIP que pelas heterogéneas razões que lá saberão trouxeram os incensos e as mirras que lançaram na farta molhada das oferendas da circunstância.

Um deles: Dias Loureiro.

(…É difícil conciliar o reconhecimento da liberdade individual e universal de falar e agir de cada um com a censura e o asco que me sufocam e se me moldam em palavras… mas paciência.)

Cada vez mais me ocorre a expressão usada por Vicente Jorge Silva – então recém-convertido à rosa – quando um dia julgou (e bem) ver regressar à política, depois do flop, o cortejo inevitável dos que apelidou de “tralha guterrista“.
…Ocorre-me a expressão, adaptada pelos tempos para a tralha cavaquista“.


Cada vez mais o aluvião do Rio Cavaco se revela um espessante poderoso do caldo barrento em que involuntariamente nadamos.
Cada novo rosto laranja que se reencontra, cada nova individualidade que sobressai e reforça posição no laranjal ou no Nacional Rectângulo, uma velha memória comum de colaboração política no Governo de um Cavaco-Primeiro; hoje um Cavaco-Sombra mais abrangente e tentacular que o que o seu magistério prevê, do que a sua amorfa prática sugere.

Cavaco Silva, o magnificamente sereno Presidente da República, monarca de cognome “O Inútil” (esta paga direitos ao Kaos), o “Cooperante Estratégico” com a farsa governativa, ainda assim não dorme.
E segundo um plano antigo e abrangente,
os seus tentáculos penetram na sociedade influenciando-a, controlando-a, manietando-a.

Dir-me-á alguém que sempre assim foi e sempre assim será…
Que o polvo soarista ainda aí está para lavar e durar. Que o sampaísta idem. Que o “-ista” agarrado a este ou agrafado àquele – fremente, sôfrego, subalterno, parasita – é uma fatalidade da política e da sociedade…
Seja-o.
Mas que não seja menor a inevitabilidade de o denunciar, quem o ache o insulto e a perversão que configura.

Porque não façamos confusões.

Cavaco Silva foi o maior Primeiro-Ministro que este País já teve. E sem parecenças de vir a perder o galardão para qualquer outro nas próximas décadas.
E a
quem a razão não se encontre politicamente toldada, aconselha-se a leitura do laudatório “As Reformas da Década”, onde os mais esquecidos poderão sempre recordar o percurso de um Portugal-Cavaco – saído de 40 anos de subdesenvolvimento e mais dez de bagunça revolucionária de plantar de estaca – que se actualizou, modernizou e dignificou perante si mesmo.

…Apenas as geniais palavras que serviram para caracterizar Mário Soares (“É um animal político, não é um animal ético.“) se vão aplicando ao discreto algarvio pacato e competente.

Cavaco, afinal, tinha “uma agenda”. Sua.
Um plano. Para si.
Um projecto e um propósito individuais de alcance duvidoso.
Tendo sido a corrida à Presidência a evidenciá-lo. Ao colocar-se acima e além de tudo.

E quando um Barão-Laranja Dias Loureiro se presta à dupla vassalagem de patrocinar o lançamento de um já miseravelmente propagandístico “O Menino de Ouro do PS”, ocorre a cada um de nós que nada é por acaso.

Disse que Sócrates “faz bem ao País“, pelo seu optimismo.
Disse que Sócrates “emociona” pelo “lado dos afectos“, pelo “amor pela sua terra“, pelos “valores que o amarram à vida“. Disse da sua enorme generosidade“, “sensatez e prudência“. Das suas qualidades de “coragem” de “homem trabalhador“.
Disse que Sócrates, “tal como Tony Blair” “é infatigável“. Que com a sua “coragem“, “capacidade de liderança” e “capacidade estratégica” está “muito longe de estar acabado“…

…E eu sinto, em partes iguais, desnorte e vergonha.

E se aparecem umas aves raras – por exemplo Paulo Teixeira Pinto (lá estão eles…) – a dizer coisas tão convenientes como que a «dicotomia “nós” e “eles” [é] “péssima” para o país», porque “cria descrédito” e “ajuda a minar o apoio social que as políticas possam ter“, é um pouco mais que suspeito.
Enquadra-se no estilo-neutro da Presidência, no estilo-suave da oposição laranja, no estilo-morto do espírito crítico dos moradores da Nação.

Que alguém chegasse um dia a assumir que não existem diferenças entre os partidos, seria de louvar.

Que o PS e o PSD andam no alterne (ou alternância) político (-a, ou lá como se chama), gostaria de ver alguém reconhecer.
Que os pequenos partidos políticos apenas esperam para a sua sobrevivência ou um lugar à mesa grande ou que o circo pegue fogo de vez para correrem de baldinho, seria giro ver assumir…

Até lá, não me gozem. Não me insultem.

E se as tralhas partidárias se afastarem demasiado da realidade do País, estará na hora de uma reacção do País e dos Portugueses. De uma mudança.

Por isso, do fundo do meu coração laranja, para a tralha cavaquista, daqui vai
… um sentido pontapé!

A Quinta Coluna

Perguntava o Geolouco: Eu fui! E tu, onde estiveste?” – falava da manifestação de professores de 8 de Março.
Eu estive lá, claro. Com muitos m
ilhares de colegas meus. Ao lado de pessoas de que gosto e que não via há muito tempo, num reencontro tanto feliz como amargo.

Numa manifestação mais de imperativo cívico que de afirmação corporativa.
Apoiada amiúde por passantes que não sendo docentes se solidarizavam com uma luta que – percebida em amplitude – vai muito para além dos muros das escolas.

Numa capacidade de mobilização nunca julgada possível pelo Ministério da Educação, pelos sindicatos, ou sequer por muitos dos que participaram no protesto.
(Pelo meu lado, sempre dissera acreditar, e que menos de 100.000 pessoas na rua sempre seria confundível com as
50.000 do PCP pouco tempo antes. Felizmente não me enganei.)

Mas não nos iludamos. Não só não eram 100.000 os professores presentes, como no dia de hoje e de amanhã não será possível contar com tal número de professores a lutar no terreno por aquilo que se impõe.

Em espelho com a estratégia montada pelo Ministério da Educação e pelo Governo, de desagregação da – esfrangalhada – classe docente e sua intimidação, também a gigantesca maré de mobilização que cresceu à vista de todos teve um atípico efeito galvanizador, que em muitos casos menos se traduziu em genuína adesão do que em constrangido mimetismo profissional, da parte de quem sem concepção teórica sobre a matéria aderiu por ocasião, de quem pouco assertivo foi levado pelos outros, de quem por simples cinismo, cobardia ou conveniência aderiu contrafeito ao movimento…
…Tendo muitos mesmo OPTADO por não estar sequer no protesto.

O que não é iludível é que estamos num cenário de guerra.
E que numa guerra não se fica no meio.

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Tenho proposto neste blog uma e outra vez que neste País só há duas formas de lidar com os problemas: ignorando-os ou ficando histérico perante a sua absurda constatação. E a saga desta Educação não foge à regra.

Foram décadas em que não se resolveram os problemas do Ensino em Portugal (grandes, profundos, graves) e estão por demais feitos os diagnósticos, a comprovação no terreno e a antevisão apocalíptica das suas consequências.

– Onde reside uma relevante culpa dos docentes. Que a uma conversa de Sala de Professores a que sempre assisti e em que sempre participei, anos a fio, não fizeram corresponder em tempo útil o devido escândalo e a devida luta.
Numa lamentável sujeição ética e indiferença prática. –

E, subitamente, este Ministério e este Governo….

…A “descoberta” escandalizada de falhas graves no sistema – número circense que cobre de vergonha quem se lhe presta furtando-se à memória da sua culpa em Governos da Nação que inscreveram o seu nome na só hoje “escandalosa” situação – …
…E a histeria.



Convivas pobres numa Europa e num Mundo Ocidental tíbios, snobes e bem-pensantes, entendeu-se que os “resultados” da Educação em Portugal eram incompatíveis com a face da honradez lusa – mero mosaico hoje de signos e cifras aleatórios.

E assumiu-se, sem margem para engano, que os necessários “resultados” na Educação não haveriam de ser o moroso produto de uma moldura de tempo, antes veriam criada à sua medida a improbabilidade física de um tempo próprio, que os parisse – não se prevendo por isso, nunca, à partida que os “resultados” viessem a ser obtidos, mas produzidos em galope esforçado.

Restava – alijados os incómodos escrúpulos do critério e do nexo – chocalhar a árvore da escola até à raíz mais funda, para tombar a fruta verde e espantar a pardalada da fútil opinião pública; claro que com o cuidado de não sobressaltar o pachorrento gigante docente…

E tal foi feito distraindo-o, paralisando-o, debilitando-o.

Distraindo-o, dispersando-lhe a atenção, obrigando-o a focar-se simultaneamente num número impossível de tópicos díspares: Estatuto da Carreira Docente, Estatuto do Aluno, Gestão Escolar, Ensino Especial e outros avulsos “pedagógicos” e “organizativos”, enleando o gigante em discussões e análises deliberadamente estéreis, de propostas conscientemente inviáveis na forma ou irrecuperáveis no conteúdo, num processo maquinadamente disparatado e absurdo.

Paralisando-o, em suma. Ao sobrelegislar – abrupta e insensatamente – ao sobreburocratizar a função docente, ao sobrecarregá-la em horário, atribuições, responsabilidade, por fim intimidando-a, os obreiros dos “resultados” educativos concretizaram a sua prostração.

Mais: fechando os canais de comunicação, os fazedores de “resultados” mantiveram sitiados os professores meses a fio – não reconhecendo os sindicatos como representantes dos professores a quem a sua acção divina se dirigia; e não ouvindo senão em palestras para os órgãos directivos das escolas os professores, uma vez que estes não possuíam interlocutores validados para chegar à celeste presença dos seus superiores hierárquicos…
…O que se traduziu na séria debilitação da sua intervenção cívica.

Enquanto chacais ideológicos, cúmplices, freteiros ou meramente velhacos se encarregavam de abocanhar na praça pública os membros em sangue de uma classe docente progressivamente sujeita à chacota e ao libelo.


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Mas não esqueçamos que houve uma manifestação a 8 de Março. Que tudo coloca em perspectiva.

Afinal os professores não estão adormecidos.
Desanimados, frustrados, mas não resignados.

E se “algum” País teima em forçar a solução para a Educação onde ela não está, há que fazer ouvir alta a voz de quem ensina.
Se “algum” País persiste no massacre da classe profissional docente, há que sacudir esse jugo em nome de um orgulho que nunca mostrou e responder com firmeza a assunção da quota de culpa que lhe cabe na degradação do Ensino e o compromisso de um empenho na sua recuperação.

Porque também já há quem perceba o que está em causa e o que está em risco.

E cada vez mais é tarde demais para dar um murro na mesa.
Cada vez mais é tarde demais para dar seguimento à mobilização de 8 de Março.
Porque ou nos calamos de uma vez e damos sossego a nós próprios ou partimos de uma vez por todas o resto de uma porcelana contrafeita chamada Política Educativa destes fazedores de “sucesso” educativo.

Não há que esperar de um Presidente que com o navio a pique apela à calma.

Não há muito a esperar de sindicatos-salvíficos, antes parceiros excluídos da discussão pelo ME, de súbito sentados à mesa simulada da decisão, concedendo avanços ao adversário – numa guerra-a-ser total pela Educação em que não existem meias vitórias nem derrotas parciais.


Não há margem para o erro de considerar que os docentes obtiveram até agora qualquer tipo de vantagem numa guerra que ainda não passou da emoção e que por isso é
desdenhada e ridicularizada pelo adversário – porque, entendamo-nos bem, a guerra ainda não chegou sequer ao terreno.


Não há ilusões sobre a desunião que continua a grassar no seio dos docentes, mesmo sob as presentes circunstâncias.

Quando foi proposto aos professores dividirem-se criando uma casta de senhores do feudo, os professores aceitaram-no. E quando lhes foi proposto que ingressassem no clube, fizeram-no: uns como única forma de ascender na carreira, alguns automaticamente, outros voluntariosos, na vertigem de aceder ao patamar dos eleitos, dos que gerem, dos que avaliam.

Quando foi proposto que cada estabelecimento de ensino desse resposta ao processo de avaliação de professores engendrado pelo Ministério – sem regras claras, timmings certos ou sequer propósitos legítimos – houve escolas que o desenvolveram na medida de não incorrerem em incumprimento, outras que aderiram diligentes a um processo considerado legítimo nas suas sinistras especificidades, outras ainda que o adoptaram e refinaram com a devoção de quem apanha uma boleia oportuna para a caça inter pares.

Quando foi proposto que as escolas passassem a ser governadas por um Director verticalmente dependente do Ministério da Educação, com o poder de designar Coordenadores de Departamento para a corte de um Conselho Pedagógico unanimizado, tanto constituiu choque para uns, como algo natural para outros, como ainda outros tantos nem quiseram saber.
E o mesmo quando os professores foram declarados pelo ME incapazes de presidir ao “Conselho Geral” da escola/agrupamento – para depois voltar a palavra atrás.

Quando professores, como talvez nunca em Portugal, se mobilizaram em greve, em manifestação, em expressão do seu pensar e do seu sentir, face ao que honestamente consideram ser a desintegração do que resta da Educação Nacional, outros houve que os sujeitaram ao gozo, que lhes minaram a acção através de contra-manobras, que racionalizaram e tentaram ezvaziar os seus motivos, que ostensivamente os abandonaram à sua sorte – como se não fosse ela também a sua.

Cabe aos professores definirem já o que querem e ao certo a que estão dispostos para o alcançar.

Ao serviço dos obreiros do “sucesso” educativo que não sabem (ou não dizem tudo) o que pretendem para o Ensino, que intransigem, que recuam, que desautorizam e se desautorizam, que persistem em não corrigir-se, que ameaçam perante o obstáculo e desafiam todo o bom-senso e o comedimento, a Quinta Coluna com que o Ministério da Educação conta na estratégia de ganho de tempo e desarticulação de cristas da contestação docente, encarregar-se-á de manter o processo em curso à maior velocidade possível.

No dia de hoje e de amanhã não será possível contar com 100.000 professores a lutar no terreno por aquilo que se impõe.
Pior, os que se prestarem enfim a essa luta no terreno enfrentarão adversários tanto fora como dentro das portas da sua escola.

O que não é iludível é que estamos num cenário de guerra.
E que numa guerra não se fica no meio.

Aguentem-se…

…que é o que eu faço.
Desculpem lá a franqueza, mas perante a relevante efeméride, cá vai post.

Hoje o Tio Cavaco é bébé – gu-gu, gu-gu – faz um aninho.
Com um ano é um inconsciente. Mas como deve estar babada a Tia Maria Primeira, de ver o seu menino elevado a estandarte da Nação… Com toda a gente de roda “Claro, sô Presidente“, “Atão não, sô Presidente…“, “Ó sô Presidente, puramor de Deus“…
Que orgulho não deve ser…

(Aliás, a Tia Maria é o mais perto de ter uma Primeira Ministra que chega a Presidente da República que o satus quo vai permitir nos próximos séculos!)

E olha… aguentem-se!
Aqueles do “perigo para a democracia”, os do “papa-bolo-rei”, os dos “cantos d’Os Lusíadas”, etc. Esses todos, que agora meteram a viola no saco.
Aguentem-se! Que é o que eu faço.

Desde que percebi que o Tio Cavaco não era uma corrente de pensamento político que chegaria – inevitavelmente – a Belém. (Muito menos uma corrente eléctrica, que pusesse esta coisa a mexer.)
Desde que percebi – partidices à parte – que o que se poderia chamar Cavaco Presidente era um projecto de realização pessoal e não o corolário de um percurso contextual de experiência e prática política.
Desde que percebi que, dadas as infelizes alternativas, Cavaco Silva seria sempre o merecedor do meu voto presidencial.
Aguentei-me.

Como me aguento agora. Perante um Presidente (falto de corrente) que se limita a constitucionalizar a sua intervenção política. Que a um País em tensão se limita a sugerir comer pipocas enquanto os resultados são gerados pela elite “reformista” do rectângulo.

Aguentem-se.
Afinal são só mais quê?… 4? 9 anos?…

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Falar Claro – IV

Homens e mulheres viram as suas vidas marcadas pelo dia 11 de Fevereiro. Enquanto garantiram para si mesmos, à sua maneira, um lugar na história.

O Presidente Cavaco Silva também?…