Somague Parte I – Três Tristes Tretas

Escandaleira nacional: a Somague andou a pagar contas de campanha ao PSD.
Posto de forma curta e grossa.

Escândalo para os que olham o PSD como “partido fundador da democracia” (…e histórias da carochinha dessas) e porque a Somague é uma empresa de respeito da nossa praça – como é que se admite acontecer um descalabro destes?…
Escândalo para os que já vêem há muirto tempo a política portuguesa como uma rameira pouco asseada, de quem tanto estas práticas como outras que andem acoitadas não são senão naturais e previsíveis, encontrando-lhe refundados motivos de censura e desprezo.

Eu situo-me entre as duas perspectivas.
Tanto me merece respeito a instituição PSD (caso contrário não me respeitaria a mim mesmo) como à partida qualquer entidade individual, colectiva, pública, privada, nacional, estrangeira – por um elementar princípio de humildade cívica…
…Como – fruto da idade? – já não é de hoje uma profunda desconfiança que nutro sobre todas as interacções sociais e políticas, que desembocam amiúde nestas e noutras brincadeiras.

Acontece apenas achar que, invariavelmente, a notícia é outra.
Que a palhaçada, a sê-la assim reconhecida, mora noutro lado.

Para os mais mais alheados, três recortes de imprensa, à laia de ilustração, para enquadrar a coisa.

Recorte 1. Licí­nio Bastos detido no Brasil por suspeitas de corrupção, agita as águas do rectângulo, financiador que foi da campanha de Aní­bal Araújo, empresário socialista, como deputado do PS no circulo Fora da Europa, nas legislativas de 2005.
(…E tendo cedido instalações para uma sede da campanha presidencial de Cavaco Silva – por quem foi já condecorado.)

Recorte 2. Quatro mil donativos ao PP em 2004, passados só em 2005 por dois funcionários do partido arguidos no inquérito-crime «Portucale», não tinham nem nomes de gente real, nem identificação fiscal dos doadores, o que equivale a dizer que não têm rasto de origem.

Recorte 3. Suspeita-se que na festa partidária mais participada do País (pelo menos do continente…) possa haver ocultação de receitas. Talvez os euros ganhos pelo PCP nas febras, nas bandeirolas e nas t-shirts do Lenine na Festa do Avante não estejam afinal todos descarregados no livrinho de mercearia.

E mais uma Somague a compor o ramalhete…

Ora, e como é que isto ilustra a pobreza de mentalidade portuguesa? Em que é que isto faz luz sobre o caminho?
Decerto não pela via popularucha de café e esquina de “apertar com eles”, de “cadeia” e cacete, de endurecimento da legislação eleitoral, de financiamento dos partidos e de exercício de cargos públicos.
Para isso, teríamos de ter a montante uma opinião pública que verdadeiramente censurasse as más práticas – quando somos civicamente um povo de bananas e de amorfos – e um sistema de justiça que garantisse a implacável aplicação dos preceitos – não uma justiça-peneira de malha larga, permeável, conivente, amesentada, criminosamente negligente ela mesma.

A solução está à vista e chama-se transparência.

Se o nosso País não adoptar um sistema próximo do americano no que diz respeito à publicidade da esfera de influências em que se move a política, jamais se auto-regulará como podem prever exemplos decalcados à marreta de países civilizados.
Só a obrigatoriedade de divulgação dos “lobbies” que intervêm na vida política por via do seu financiamento dá uma mínima garantia de mudança de rumo.
Não colocando o enfoque na enganadora, manipulável e envergonhada contabilidade, mas forçando uma mentalidade de abertura, frontalidade e coragem na atribuição e aceitação de apoios. Escrutinável à luz do sol pelo cidadão atento.

Quem foram os financiadores queques de um PP populista e extremo? Quem foram os financiadores de um PSD e de um PS “partidos de poder”?, o que deram?, quanto? e em que momentos? Quem e como contribuiu para o cescimento de um PCP “latifundiário do imobiliário”? Quem foram os surpreendentes pais financeiros do único projecto parlamentar de extrema-esquerda da modernidade democrática portuguesa, chamado BE?

Nenhuma destas questões pode já ter resposta cabal.
Mas o futuro vai ainda a trempo. Se ao acabar com o jogo de escondidas acabarmos com as suspeições e em grande medida com as jogatanas.

Claro que podemos passar o resto da nossa vida tal como estamos.
E até acharmos que estamos bem. (Como o acham os próprios partidos.)

Mas a continuarmos assim, a única exclamação legítima saída da boca de cidadãos com alguma consciência e pudor, perante estes e tantos outros casos que hão-de seguir-se não será outra que: “Só!…”

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Hélder e o Rei do Kuduro

No princípio era o verbo…

…Inflamado, no Conselho Nacional do CDS-PP.

Por entre acusações trocadas de falta de “pêpêsismo” e insultos de f*lh* d* p*t* a voar das bocas assumidamente mais queques da política nacional – que queques na política portuguesa há muitos, mas não se assumem… -, Ribeiro e Castro e Paulo Portas esgrimiram os seus argumentos no fito de seduzir a nação democrata-cristã a arrebanhar-se à beira de um ou de outro.

É que, rasgada uma manhã de nevoeiro pelo troar de um Maserati, soube o País e o mundo que Paulo Portas estava de volta à presidência do PP.
(Isto posto sem cerimónias, que mal o senhor apareceu estava o desfecho traçado!)

Obrigado a abandonar o posto no caótico fim do Governo PSD-PP, agradeceu a Ribeiro e Castro ter-lhe mantido o lugar quente e firmou-se no propósito fácil de o apear em público e sem apelo.
Propósito ética e moralmente fácil.

Precisava apenas de conseguir vender ao partido a necessidade de eleições directas, sem recurso a congresso nacional – que mais dificilmente controlaria.
Foi o que pretendeu no Conselho Nacional de todas as peixeiradas.
Por exemplo a
alegada agressão à presidente do Conselho Nacional do CDS-PP, Maria José Nogueira Pinto, pelo deputado Hélder Amaral, durante a refrega…

Mais denúncias, menos desmentidos, mais disparates, menos melindres, fica o burlesco episódio, representativo do que uma família honrada (…) pode tornar-se com despiques de galarós.

Visto de fora, sinceramente, não tenho grande dificuldade em perceber melhor uma Nogueira Pinto que desabafava vir a não ser “nada nem ninguém” num partido “território onde alguns assaltam o poder” – ameaçando sair -, do que um Telmo Correia que inacreditavelmente lia dessas palavras a “tentativa de cisão” do partido.
Honestamente – como simplório cidadão – não me custa apontar a dedo onde vejo o grupo dos bandoleiros.

Não carecia o País do “debate” entre os concorrentes, na RTP.
Uma conversa de semi-chacha, de “tu-cá-tu-lá”, que não foi para nenhum, não foi para o PP, nem foi para ninguém.
Portas apontando a frouxidez de Ribeiro e Castro (já que criaria “uma oposição mais sólida a José Sócrates“); Ribeiro e Castro apontando Portas como “o líder da oposição ao longo deste ano“.
Grandes novidades…

E Ribeiro e Castro não prescindia de um congresso… até ter de capitular.

E vieram as directas. E a vitória de Portas.
Esmagadora. Previsível.

Numa época política em que estamos, do chamado “pragmatismo”, tanto me espanta num partido socialista um homem que de socialista nada tem – apenas um “certo ar promissor” vital para um partido em jejum -, como noutro democrata-cristão ver chegar à direcção um (re)novo presidente através da mais soez das manobras – totalmente irrecusável a promessa do melhor cão para a resposta ao do adversário.

Ainda que os Hélders desta “nova” vaga, discípulos do “novo” líder que optaram, se contem pelos 22% do total dos militantes do PP… (Uma vergonha que trespassa todo o País.)
…E que não se confundam com democratas-cristãos veneráveis como Narana Coissoró, que ameaçouafastar-se do partido” no caso da “via Portas” voltasse a dominar o PP.

Diz Paulo Portas, no discurso presente da “Primavera do CDS” e da “síntese de que o CDS precisa“: “Também sei que na sociedade portuguesa há preconceitos sobre este vosso amigo que aqui está. Vou lidar com eles com inteira naturalidade, prestar-lhes atenção e ter alguma ironia, que em política, como na vida, é preciso estar nisto com alguma boa disposição”.

Tem razão. Há preconceitos. Como o meu.

Contra indivíduos sem carácter que se pavoneiam por aí imaculados; como quem passeia no Parque.
Contra indivíduos cuja leveza de consciência atropela o pudor e aflora a demência.

Abatido o único líder partidário que me merecia algum respeito – pela sua evidente incapacidade de sobrevivência no meio – estamos cada vez mais entregues a um surrealismo político degenerativo.
Quem se seguirá nesta Arca de Noé?
O que se seguirá nesta orgia delirante?