“A Colonização Exemplar”

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Ninguém cala Mário Soares.
O que é pena. E já o digo há anos.

Veio um dos “pais da Democracia portuguesa” – assim se lhe topam alguns tiques e algumas parecenças – dizer com todas as letras, a propósito do 25 de Abril, que “a descolonização foi óptima” e que ela “admirou muitos países“.

É difícil hoje alguém acompanhar-me no salto de memória que faço a há uns vinte anos atrás, quando passava na RTP2 um programa – de que já não retenho sequer o nome – em que dois pesos-pesados da política nacional, João Jardim e Almeida Santos, faziam o que agora se chama “comentários” ou “análises” políticas semanais. (Com a ingenuidade e candura com que ainda se convivia então com a televisão…)

Falava-se um dia na bendita da “descolonização” (termo que sugere algo como chamar um tipo lá a casa para acabar à bombada com as baratas ou com a rataria)…
…E explicava Almeida Santos – mais um dos papás “disto” que temos hoje – como se passaram algumas das reuniões bilaterais que culminaram na “independência” das colónias portuguesas em África. Por exemplo uma com Samora Machel, em Moçambique, país de que viria a ser o primeiro Presidente. 
Explicava o tom informal, descontraído, com aquela natural pitada de azia de se sentarem à mesma mesa “colonizadores” e “colonizados”, mas um tom por vezes até galhofeiro.
Explicava Almeida Santos – em tom espertalhote – que, a dada altura, face a graçolas da parte dos seus interlocutores, chegou a contar a seguinte anedota…

Um dia, vem da picada um menino com ar preocupado ao pé da mãe e diz-lhe:
– Mãe, eu matei um macaco!
Ao que a mãe responde:
– Então para que fizeste isso? Mas deixa lá, filho. Qual é o problema?
Replicando o menino:
– Entã, agora não sei o que é que hei-de fazer à bicicleta!
” 

 …Anedota espirituosa que teria arrumado – pelo seu recorte de intelecto, depreende-se – quem se sentava do outro lado da mesa.

Ora, este naco de memória – enterrado algures nas profundezas do inconveniente arquivo da RTP – mostra o deboche que de parte a parte presidiu ao glorioso momento da “negociação” dos termos da “descolonização” portuguesa.
E como alguém que ainda hoje a considere “óptima” está num estado de senilidade e de inimputabilidade absolutas.

Se a “descolonização” foi “óptima“, o dr. Soares tem obrigação de explicar como pessoalmente se calhar isso até foi verdade. (E, já agora, também o dr. Almeida Santos e outros…)

Porque o que ficou de “óptimo” desta “descolonização” para o relato objectivo da História foi a miséria dos portugueses brancos que abandonados regressaram, a miséria dos portugueses negros que abandonados ficaram, o choque social de um Portugal que “descolonizou” – como diz o dr. Soares – “em tempo recorde” e o choque social de territórios africanos “descolonizados” largados da mão à sorte de aventureiros políticos e cleptocratas.
…Com a celebração embasbacada – mas distante! – de países como a França, por esta altura ainda em ressaca de um Maio de 68 de semelhante calibre.

Campo de Camacupa, Angola, 2001, quando uma multidão de jovens refugiados esperava receber cobertores dos Médicos Sem Fronteiras - © Louise Gubb

 O desprezo pela ética destes lords da política nacional não é novo. Mas a cada dia que passa torna-se cada vez mais insuportável.

Como se torna incompreensível que ninguém se lhes meta ao caminho e lhes explique de uma vez por todas que se a sociedade portuguesa ainda olha com desconfiança uma revolução de 74 em que se propôs aos portugueses algo tão simples e linear como “viver em liberdade” e seus frutos, é muito por culpa sua, dos seus papéis dúbios e sombrios, do esgoto em que algo tão puro em conceito veio rapidamente a tomar forma.

É este ainda o estado da Nação.

Coutada Azul-áurea

Não é a primeira vez que faço o elogio dos “media dos malucos”. Aqueles jornais, revistas, canais de televisão, que por vezes se esquecem do País em que laboram e se permitem – contra todas as expectativas – dizer o que lhes apetece, apenas porque é preciso ser dito.

E no universo dos media que não são “de referência”, encontram-se os jornais gratuitos. Ao que não é pago mas dado (supostamente) mão se reconhece valor…
Jornais este às vezes “malucos” também.

O Meia-Hora de hoje traz, por exemplo, algo que deveria fazer abanar os pilares da boa consciência nacional e não vi assim destacado noutros lados.

Vital Moreira, candidato socialista às eleições europeias, compara o Direito nacional e o europeu e conclui que como a Convenção Europeia dos Direitos do Homem traduz uma “visão libertária” da liberdade de expressão, deveria ser alterada para se aproximar ao que temos na nossa Constituição e na nossa legislação.

…É que lhe parece que em Portugal vai havendo – por contaminação europeia – “uma prevalência crescente da liberdade de expressão relativamente ao direito à honra e bom-nome.

Ora, por pontos:
1 – fica mal a Vital Moreira, no momento em que estamos, preocupar-se com tretas relativas como esta;
2 – sendo Vital Moreira o candidato que é, de quem é, fica-lhe mal esta conversa de “voz do dono”, inevitavelmente contaminada pela mediatização das sucessivas escandaleiras de Sócrates, cuja base de existência descaradamente coloca em causa refugiando-se no legalismo reinante no nosso Rectângulo;
3 – fica mal a Vital Moreira meter as suas cândidas e tecnicamente competentes mãos na mixórdia que é o folhetim das escandaleiras socratinas (vida pessoal, habilitações, vida profissional, desempenho político, comportamento cívico), recheado de cromos repetidos, pressões, “faltas de provas”, eventuais prescrições, “campanhas” e contra-campanhas, com que cada vez mais o constitucionalista faz questão de se lamentavelmente identificar;
4 – não é muito normal que um homem com o passado político de Vital Moreira – um comunista dos quatro costados té ter descoberto o elevador rosa para a esfera celeste – venha cuspir pelo canto da boca o epíteto de “libertário” a quem quer que seja.    

Basicamente, o que este candidato vem dizer-nos é que, chegado à Europa, vai lutar para que ela – Coutada Azul-áurea dos bem-pensantes em que a pequenita coutada lusitana se encontra encravada – faça recuar a liberdade de expressão para dar espaço à “honra” e ao “bom-nome” de incertos (?).

O que, para além de ser um supremo insulto, é um absurdo prático: acautelar obssessivamente o “bom-nome” de quem o não tem (e seus congéneres) por exclusiva culpa própria, porfiar cegamente na guarda de uma “honra” em que já ninguém pegaria em saldos, limitando o direito a pô-los em causa…

De quem é tudo menos ingénuo, inofensivo ou impotente. 
Não bastando centrais de propaganda privadas, arregimentações dos advogados mais eficazes ou a bonomia de comunicações sociais nacionais por inteiro, ainda há quem pretenda ter (…que terá!) a sua lança numa Europa decrépita e indolente que lhe ampare as costas a escrutínios legítimos e justificados.

Mas a consciência nacional só se sentiria abanar por estas avarias nos seus pilares profundos… se pilares tivesse. Se não se mantivesse doentiamente assente sobre dois ou três pilaretes, num crónico equilíbrio precário e circense.

..E Fez-se Luz.

Duas notícias…

…Um País.

Que trata dos seus sem-abrigo.
Uns mais que doutros.

…E eu bem preocupado que venha a desmentir-se.

Trevas do Vento Que Passa

Pode depender em boa parte de Manuel Alegre a – mesmo que seja – pequena correcção da estrumeira politico-cívica que urge a Portugal.

Votei Cavaco Silva nas últimas Presidenciais. E como sou pouco de bater com a mão no peito e de lamentar gestos – mesmo como forma de os alijar da minha consciência – não me arrependo.
Não o fiz por disciplina partidária – que há muito que, por taticismo, Cavaco Silva não se deixava confundir com o PSD – mas por respeito à minha lógica pessoal de vida.
Sou um cidadão com direito a voto, portanto não me abstenho.
Sou um cidadão que vai às urnas, portanto – até ao limite – não voto branco nem nulo.
Sou um homem de direita, não voto em candidatos de esquerda, com ideários de esquerda, de partidos de esquerda.

O que não significa que não tenha sido uma má escolha.

Apesar de arrufos pontuais – uns decorrentes de naturais choques filosóficos, outros de grosseiras inépcias do “Governo” – a sintonia entre Belém e São Bento tem sido total.
Se a quem compete governar não governiza, também a quem compete exercer o “magistério de influência” não influi.
No retrato largo da política do País, Cavaco e Sócrates aparecem lado a lado, de braço dado, solidários nas escolhas, coniventes nas asneiras, cúmplices nas ausências.

Mais tem sido Alegre quem mais sai ao caminho do “Governo”, chamando-o à responsabilidade do que falha no que julga ser o fazer bem e o agir correctamente.
(À “oposição” nem aqui aludirei…)

Tem sido Alegre a voz a impor-se de forma mais consistente ao vento que passa e que tudo ameaça levar.

Claro que se não formos ingénuos, não ignoraremos o propósito de Alegre vir a ser Presidente!
(…E como as suas intervenções parecem seguir os passos de um Cavaco que um dia teve de hostilizar o partido que lhe deu o pão da boca – política – para aparecer ao País como candidato “independente” e elegível.)
Mas no momento presente pouco me interessa se as suas motivações são mais ou menos egoístas, porquanto coincidam com a minha noção de urgência de que alguém trave a socialistização do Estado, a socratização da Nação, a definitiva canalhização da sociedade portuguesa baseada num largo espectro político de apoio.

Alegre apenas está refém de si mesmo. Refém da sua identidade e da sua história.
E o limite do seu discurso, da sua intervenção, é o limite natural e intransponível de um protótipo político com características muito definidas.

Manuel Alegre é, antes de mais – assim o vê o País, assim o vêem os seus companheiros de caminho e utopia, assim se verá a si próprio – um militante socialista.
Se hoje é uma figura notória e popular, tal se deve ao seu longo percurso partidário.
Se é hoje um ícone cultural da República, tal se deve tanto ao encanto político dos seus versejares no exílio como à sua elevação pela (sua) esquerda dominante a esse título.
Se é ouvido hoje atentamente pela comunicação é por ser figura de proa do maior partido de esquerda português…
…Se o País lhe deu 1 milhão de votos nas Presidenciais foi por sintetizar de forma perfeita o sonho de candidato que bate o pé a quem manda mas que – tranquilizador – por lhe partilhar do convívio não ameaça levar a Nação a loucuras.
Se hoje é ainda acompanhado por muitos que lhe secundam as palavras, é porque ainda ninguém lhes exigiu a escolha final entre Alegre o Partido.

Mas Alegre sabe o que são o Mundo, o País, os portugueses, o PS, José Sócrates e sabe como deseja ficar para a História.
E apesar do imperioso desígnio de Belém, que o tenta como a um homem, e de saber que precisa do PS para uma vitória contra Cavaco, Alegre continua entrado o século XXI o único socialista nacional de peso com um pensamento e um discurso claros, independentes e afirmativos.
(Com um minuto do vosso tempo, é clicar na imagem abaixo, do Movimento de Intervenção e Cidadania de Manuel Alegre, e ver a abrangência e a profundidade das reflexões que ali são produzidas! …Que põem a arder as pontudas orelhas do “Governo”…)

Acredito que a dúvida o habite. Que o taticismo político faça tanto parte do seu esqueleto como de outro político, mas o momento que vivemos não lhe permite impasses.

Há um País à espera.
Espero eu que não de um salvador, mas do contributo activo de todos os homens que o tenham a dar.
Já! Sem equívicos! Os que tiverem vozes mais altas, que mais alto gritem!
Contra todas as misérias que alastram e toda a tristeza que se instala.

E Manuel Alegre está convocado para tal. E ele o sabe. Intimamente ele o deseja.

O que não se tolera, nem sequer numa terra de cobardes, é a exibição da cobardia.
E se não quer ser confundido com alguém que está a meio caminho entre a denúncia do erro e o compromisso com ele, há que mexer-se.

Não lhe basta dizer que “se pudesse faria“, ou que se refreia para não fazer “o que já poderia ter feito“, ou que se calhar “ainda há-de fazer“.
Ninguém lhe gabará no futuro o trabalho meio-feito.


O que é facto é que Manuel Alegre treme o “Governo”. Agita o PS; que se contorce como que com uma carga de sarna.

O facto é que mesmo não se afirmando terminantemente contra a maré negra socialista obriga atiradores furtivos avençados pela nomenklatura a dispararem-lhe sobre os lombos, em sinal de nervosismo e descontrolo.

O que conseguiria se tivesse o golpe de asa que lhe falta para levar até ao fim a sua revolta?…

Dentro do PS, como é evidente!
Aí sim, terreno para plantar – não num partideco novo que criasse e morreria na segunda eleição que disputasse, apostando na sua extinção pessoal – que o PS é, de facto, um partido “da democracia portuguesa”. (O que quer que isso possa significar.)

Dentro do PS!
Com a coragem de denunciar que apesar da mesa farta de partido governante, em que sempre come mais um, o rei vai nu. O REI VAI NU!

Dentro do PS!
Dando exemplo aos restantes partidos de como alguém um dia pode transformar aterros de vício e mediocridade em partidos políticos decentes. (Ou um pouco mais decentes, concedamos…)

…Se o canto da Pátria não se duvidar que inspira este homem, está na hora que uma resposta sua se ouça, de vez.


Caso contrário, este seu poema – tão horrivelmente ilustrado pelos dias que correm – não terá em si exemplo do canto, da luta e da liberdade.

TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

[Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.]

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Ouvide, Agora, Senhores

Henrique Medina Carreira falou. De novo.
Disse-me o PCS.

No programa do Mário Crespo.

Como cortesia do JPG, do Apdeites, deixo mais três clips da sua colecção.
[O audio podia estar melhor, mas perante o relevo de um discurso como o que ali se ouve, tal queixa é pura mariquice.]

a) “Isto é um País? É uma brincadeira.
Nós estamos ao mesmo nível em que estávamos em 1910.
Nós estamos a endividar-nos a €48 milhões/dia.” “Isto esfuma-se tudo aí por sítios que agente nem sabe quais são.
Nós andamos a viver de tretas.” “O País anda a ser embebedado pela classe política.
Maioria absoluta é uma coisa excelente para gente competente, para gente sensata, para gente humilde.”
Os partidos são os bancos alimentares.

b) “Cada partido novo que se faz é mais uma porta para entrarem 30 sujeitos para irem arranjar um lugar.
As soluções nascem na base, com educação, com exigência, com rigor, com disciplina, com exemplo.
Novo partido?” “Casas de mulheres de má-vida já há muitas.
25 de Abril.” “Havia gente, havia ideias, havia um País e havia esperança.
Quando o estrangulamento externo chegar, este Governo vai ser réu.
Os ministros são uns mandaretes da situação.” “Começa por ser uma mentira a eleição; aqueles programas eleitorais.

Empregos.” “Dizer ‘eu crio 150.000’ é trafulhice eleitoral.” “Porque se disser coisas sérias as pessoas não prestam atenção.

…E Mário Crespo, que cada vez mais se assume um pouco-alinhado no rebanho do “yes, Minister“.

Quando batermos no fundo, não será por falta de avisos.

O Calhau

Já não é novidade para ninguém. Não é com esse tom que o refiro.

É mais com incómodo intelectual.

Em mais uma edição do Correio da Manhã, Emídio Rangel volta a “escrever” uma crónica das suas. Com o seu estilo e no seu estilo habituais.
Mais uma vez sobre a temática que lhe é mais cara: o louvor a Sócrates. A quem chama “O Rochedo”.

Da sua cabeça formatada e pela sua pluma obediente desfilaram em carreirinho o que julga serem as superiores qualidades que comprovam o rochedismo do sr. Pinto de Sousa.

Uma liderança forte do partido e do Governo“, “a mesma força e a mesma determinação que exibia em 2004“, “o mérito, o trabalho e a dedicação, sem quebras“, “[a] capacidade de luta invulgar“, “[o] manter sempre índices elevados em todas as sondagens“, “podendo mesmo vir a reclamar de forma definitiva nova maioria absoluta“. “Foi, de certeza, muito difíci subir e descer montanhas, enfrentar dificuldades de monta, no partido e no País, e continuar como um rochedo, desafiando todas as intempéries“.

…Porque Rangel nos aviva a memória: “Sócrates teve e tem um inimigo interno perigoso e capaz de todas as tropelias, […] Manuel Alegre, que se revelou um homem capaz de atraiçoar os seus camaradas no momento em que sentir terreno apropriado para a façanha“.
Também […] as oposições a Sócrates usam mão de todas as armas, da Universidade Independente ao caso Freeport, para derrubar o político que tem ousado responder à letra às calúnias e às armadilhas postas para denegri-lo. São oposições que nem no momento em que o PR apela à unidade do País, nem na ocasião em que emergiu uma crise mundial de grandes proporções que afecta tudo e todos, são capazes de dar ajuda, uma solução, uma opinião de boa-fé“.
(Um rochedo se calhar apenas um pouco pintadote de uma e outra polémicas que lhe vão pousando em cima e escorrendo por si abaixo a sua clara marca.)

Mas Sócrates não é só um rochedo. É o único. Por isso está sozinho, na sua rochideza, no embate com os gajos normais que o retraem na sua marcha gloriosa.

…E há depois uns terceiros. Os sabujos.
Como Emídio Rangel.

E esta não é uma dicotomia de bolso – de bons e maus. Dicotomia cegueta é a do autor daquele texto.

O que afirmo é simplesmente que se Sócrates tem acertado (?) também tem falhado. E que da ponderação entre o acertar e o falhar o resultado prático para um País em retrocesso não convence. E que se se vai mantendo popular desta forma é graças ao controlo pidesco sobre os dissidentes e à arregimentação de uma corte laudatória de serviço. E que se hoje Sócrates ainda se permite falar no tom como fala com os seus interlocutores e à Nação, tal se deve exclusivamente à incapacidade de um povo castrado e “politicamente correcto” para lhe puxar os colarinhos e dar-lhe de vez em quando umas cabeçadas – apenas de vez em quando, no momento certo; não era rigorosamente preciso nada mais que isso.

E é precisamente nesta selecta turba de louvadores que encaixa Emídio Rangel. Naquela corja cromática que rodeia sempre a Corja dos políticos que exercem funções.
Lá saberão muito bem porquê…


Não me peçam é para lhes achar graça.

Porque quando Emídio Rangel redunda na fórmula estafada dos outros “a pensar de que os portugueses são todos estúpidos” faz o esboço do que o próprio pensa em actos.
…Pensando iludir alguém de que o seu justo juízo e as glórias que canta ao (seu) Salvador não são – num jogo de espelhos – tão evidentemente contaminadas de afeições e desamores como as críticas dos que só lhe vê defeitos.
É o discurso de um calhau destinado em esperança a outros calhaus que se deixem por si persuadir e arrebanhar.

Que eu não vejo só defeitos em Sócrates…

Se quando Sócrates ascendeu ao poder no PS “muitas foram as vozes que na altura afirmaram reticências à capacidade e à inteligência do jovem líder“, já aí eu lhe reconhecia créditos.
Sobre a sua “inteligência” não exageremos, mas sobre a esperteza e a tenacidade com que papou na corrida ao Secretariado-Geral João Soares e Manuel Alegre haveria muito a dizer…
E sobre capacidade de gestão de equipas e influências, que continua a demonstrar até agora, num País de sociedade policienta, de pensamento único, sob o medo – para o qual Ramalho Eanes alertava há poucos dias.

Se Emídio Rangel acredita no que diz, que “a crise, que ganhou agora maior expressão com os índices do INE, vai ser vencida [com] Sócrates” (como se a culpa fosse agora do INE…), é bom. Fica mais feliz. Fico aliás mais feliz por ele.

Mas eu não acredito, paciência.

Porque acho que o rochedo é mais parte do problema que da solução.
E que o que está a correr mal tem larga margem para passar a correr pior. (Muito fora “conjunturas”…)

Se [o Rochedo-]Sócrates tem hoje mais cabelos brancos [e o] seu rosto por vezes exibe o desgaste” tal deve-se a uma natural erosão.
À erosão de quem se arrogou a pureza, de quem se propôs a perfeição, começando depois a aparecer aos olhos do povileu, sob a força desgastante da Natureza, como um homem com duas pernas e dois braços. Para a surpresa dos calhaus, mais um gajo normal. Que o paleio auto-justificativo cada vez menos inocenta. Que cada vez mais precisa dos Rangéis e demais calhaus como muletas e dínamos.

…Que quando o rochedo se erodir de vez, em mil bocadinhos, vai de novo e em definitivo voltar a confundir-se com a pilha de cascalho que para aí há, de que é perfeitamente igual na essência.

[Publicado no Canto Aberto.]

O Direito ao Café

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Estive ontem a assistir a um bocadito da audição no Parlamento de Dias Loureiro por causa das baldrocas do BPN.
– Aquela “comissão parlamentar” fantástica, presidida pela grande especialista nestas podas que é a deputada Maria de Belém.

E deu-me algum nojo.

Não a condução dos trabalhos, que não acompanhei.
Não o teor do depoimento, cujo fio não me interessei por seguir.
Mas o tom com que Dias Loureiro se apresentou a depor.

Um tom informal, blasé, descomplexado, solto, tu-cá-tu-lá, ingénuo, insuportável.

Não suporto que alguém como Dias Loureiro, para tratar assuntos como o afundar de um banco por onde passou, no momento em que o “Governo” despejou milhões meus sobre fogos acesos por gente do seu meio, sentado no Parlamento, no contexto histórico da discussão da sua saída do Conselho de Estado, um “Senador” da Nação, adopte este tipo de tom para responder numa Comissão de Inquérito.

Não suporto ouvi-lo contar as conversas de bastidores entre os tubarões da sombra da sociedade portuguesa, os seus entendimentos e os seus acordos titânicos, os seus negócios e decisões passíveis de sacudir o País como ondas sísmicas, os seus golpes de rins de interesse à margem da Nação, com o mesmo tom com que o homem comum narra no café a outro homem comum episódios da sua vida comum.

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 …Fantástico como alguns sujeitos se vestem com a roupa da superioridade quando lhes agrada e vestem os panos da humildade quando muito bem lhes convém.

Mas não cola.
Tanto não cola que é um insulto…

E seria agradável, de vez em quando, ver cair sobre estes deuses que a seu prazer vertem o maná sobre a Terra – e sobre as próprias cabeças! – uma pragazinha bíblica na proporção do seu poder.

Não faz parte da ordem da Natureza, mas sempre equilibrava as coisas.