O estado da Nação

Portugal é um País sem alma.

Não sei se alguma vez a teve. Se a terá perdido no percurso.
Se a saga da Conquista aos mouros, se a gesta dos Descobrimentos, se o projecto colonial, momentos em que Portugal foi epicentro e motor de um mundo atento, nos fizeram crescer de alguma forma, se nos ensinaram algo que já não transportemos hoje. Que nos caracterizasse, que nos estruturasse, que nos guiasse agora – que dolorosamente nos falta.

Defendo que não. Que tal crescimento nunca existiu.

Para o bem e para o mal, um espanhol sabe quem é. Como um francês, um inglês, um alemão.
Sabem quem são porque sabem quem têm ao seu lado. E na identidade, na especificidade que reconhecem no conjunto dos seus, reflectem-se e compreendem-se a si mesmos.

Os portugueses não.

Portugal é uma mole esquizofrénica – confundida amiúde sem inocência com um grupo heterogénio ou plural – de interesses indolentemente aceites como sinónimo de vontades, num delírio auto-gerido de horizonte imediato (na forma e na substância), comprimida na prensa mecânica da apatia.

Mas é pior que isto.

Portugal é um feudo lato de dois tipos de oligarcas.

Os oligarcas da sociedade. Que vão e vêm, em ciclo e em círculo. Que assumem rotativamente relevo na logística do hospício e concertam entre si irmãmente a partilha do naco público. Ladeados cúmplices pelos seus desiguais, apajentados servilmente por uma corte oficial de subalternos, seguidos de perto por uma horda sedenta da sua vez.

E os oligarcas da mentalidade. Os que saídos de vários caldeirões de mixórdia cultural constituem um círculo cerrado de admissão controlada, recruta iniciática, sinalética críptica e quotização periódica. Um pastiche trapalhão de moral, ética, política, estética, filosofia,…, dúctil ao extremo das histriónicas propostas dos seus associados; inflexível perante a heterodoxia dos ingénuos leigos. Que tutelam militarmente a superfície mental e intelectual da Nação, incluso o espaço aéreo.

Dois grupos de oligarcas que são um só.
O dos péssimos portugueses, vergonha da nossa suja e esbofeteada cara, que impunemente ocupam lugar um no nosso meio.

Mas o pior de tudo está ainda noutra morada.

Quando no jogo dum mundo mercantil, global e frio, que desde o início da História põe e dispõe de nações, populações, continentes, trupes de bairro exibem as suas rábulas de ditame paroquial.

Quem manda no mundo – isto é: no exíguo Portugal – é o poder religioso! É o poder da política! É o poder económico!
Sendo que nenhum dos três tem cá a sua origem, escolheu ter cá uma sede, ou delegação executiva.
Daí vivermos na contingência de cumprirmos o calendário da nossa vida em conjunto, de acordo com regras ditadas….

…Mas vivermos ainda cobertos da camada de ridículo de vivermos encenando, representando, aplaudindo ou mesmo sequer tolerando a momice e a monice do corso grosseiro e grotesco da sociedade portuguesa, é a pura crueldade.
Como à indignidade, à desonra, ao desespero, ao derradeiro insulto, acrescer ainda a farsa.

Viver em terra queimada – Pátria estéril – sem presente nem futuro, se a alma não for encontrada.

10 de junho e a Nação.

Os Pequenos Portugueses

A noite televisiva de Domingo foi mesmo um espanto.
Não estivesse o vídeo tão encostado e teria sido coisa para mais tarde recordar…

Poucas vezes uma emissão televisiva terá tido um ambiente tão de cortar à faca.
Várias tinham sido já as dicas de que Salazar ganharia a noite (isto é, de que a RTP – em primeiro lugar – ia ter de engolir um sapo XXL) e todos se foram comportando durante o serão como preparados para que acontecesse o que acabou por acontecer.

Começando pelo evidente pânico de Maria Elisa.
Com a larguíssima rodagem que tem nestas coisas, hesitou, gaguejou em frases de cinco palavras, justificou-se e ao programa diminuindo-lhe o peso da votação que produziria – deselegantemente, diga-se, depois de ter andado meses a impingir ao País a chamadinha patriótica a €0,60…
…Desculpou-se, tentando absurdamente descolar-se do resultado da sondagem que aconteceria no SEU programa – como se hoje alguém normal a carimbasse de fascista por ter abrilhantado a azarada soirée -, chamando a si a resistência cívica ao resultado que a dada altura viu irremediavelmente consumado.
Espectáculo triste.

Passando pelos dichotes dos presentes, muito “antisalazaristas”.
Ana Gomes, rudimentar e rasteira.
Leonor Pinhão, supletiva e supérflua.
Odete Santos, endemoninhada e enfadonha.

Acabando no “defensor” de Salazar, Jaime Nogueira Pinto…
(Que partindo do princípio que um homem daqueles não se “obriga” a ir ali fazer um papel daqueles, deve ter tido com a experiência dos meses mais lamentáveis da sua vida.)
…Que procurando defender o indefensável “Grande Português” de Santa Comba acabou por largar uma pérola próxima de “foi positivo para os povos africanos lutarem contra Portugal para obter a independência, porque assim cimentaram uma noção de Estado que vizinhos seus que receberam mais facilmente a independência ainda hoje não têm“!
“- Então munt’ óbrigadinho!…”

Um ambiente de hospício coroado com apoteótico final…

…Pingado apenas por uma gota da lucidez do defensor do Marquês, Rosado Fernandes, que perante o desfecho do retrato social deste País disse com as letras todas “A culpa é dos que roeram a corda! Agora aqui têm.”

Uma coisa destas, uma espécie de programa que alargou em sondagem, que retraiu para concurso, que terminou apelidado de “passatempo”, produziu o resultado mais mirabolante, mais espectacular, mais escandaloso, mais inacreditável, o mais inadmissível em democracia: 60,1% de votos válidos – isto é: perto de 96.000 pessoas – reconhecendo como “Maior Português” um de dois homens cujo ideal político para Portugal foi o de um País agrilhoado.


Episódio sombrio da História que por conveniência de todos a todos convém arrumar como um pesadelo imaterial de uma noite de Primavera.

…E como a sorte dos malandros é muita porque muitos tem a obrá-la, na segunda-feira o DN não trazia senão uma amostra de notícia na primeira sobre o assunto, …e o resto foi nada.


Hoje, o episódio já lá vai, sem grande alarido, que notícias há muitas, e o que dá dinheiro mediático é vender papel novo e não papel reciclado.

“Mais vale”; acha Portugal.
Que perguntarmo-nos nos olhos que coisa é esta que somos hoje…

Bem pode a RTP insistir em vai-não-vira plantar no header da página do “Grande Salazar” o general Humberto Delgado, que o mal está feito e não dá para desfazê-lo.

Enfim, qual a novidade?
Muito pasto do mesmo, para bucho de Pequenos Portugueses.

Os Enormes Portugueses



É verdade. Fiquei a ver o final da votação dos “Grandes Portugueses” da RTP.
O que é que querem?
…Toda a gente sabe que não se deve abrandar na auto-estrada para espreitar o despiste. Ou olhar directamente aquele detalhe anatómico que foge à simulação esforçada. Mas este circo a pegar fogo, tinha mesmo que vê-lo!

Vou repetir-me. (Que não sendo nem bruxo nem especialmente esperto já tinha dito em relação a este “concurso” da RTP que “a culpa não foi de quem respondeu, foi culpa de quem perguntou“.)
Mas qualquer pessoa de bom-senso percebia que aquilo só podia dar asneira.

Entre os matos do popularismo desportivo, do militantismo artístico, da picardia política, do facciosismo académico, o apelo a uma opinião nacional sobre uma matéria destas sempre se atolaria na profunda ignorância do que fomos e no total desprezo pelo que somos. Inegáveis e inultrapassáveis.
Sempre desembocaria no absurdo de insistir em de alguém ter a resposta solene e cabal a uma questão que simplesmente não compreende.

…Como veio a comprovar-se.

É um absurdo a votação em Salazar como “Grande Português”. (Como o seria no segundo dos classificados: Cunhal.)
Como explicá-lo? Explicá-lo a quem nele votou…
Como compreendê-lo? E, mais difícil, como aceitá-lo?

Claro que, como disse o brilhante Portas, a dada altura as votações resvalaram para o ódio relativo – a Salazar e a Cunhal – levando muitos a votar em reflexo, perante a mera possibilidade da vitória abominável.

Mas isso não explica tudo.

Bem pode berrar a senhora deputada Odete Santos que “a propaganda ao fascismo é proibida pela Constituição“. Que não vai a lado nenhum.
Pelo menos enquanto não perceber que o problema é ela. E a sua ideologia. E o seu partido. E a classe política que integra. E a sociedade portuguesa democrática, parlamentar, europeia, moderna, quotidiana, toda, que se sente mal consigo e em si. Que quer ao mesmo tempo esconder-se num canto e fugir. Gritar e nunca mais fazer ouvir a sua voz.
Uma sociedade portuguesa que sente que a vida tem de ser mais que isto e que vê corrompida uma identidade de que já não se recorda. E que por isso não sabe sequer se tem.

Portugal é uma parolândia quando em Santa Comba se propõe um museu sobre Salazar e se pensa que por aí ficará no mapa. E quando umas carradas de “antifascistas” vão lá à terra espicaçar os indígenas, com a GNR de permeio a evitar alterações da ordem maiores que a troca de mimos…
Quando há um “concurso” que nos pergunta sobre o “Grande Português”, a resposta cresce na rua e a oposição ao votando clama pela “votação útil”, transformando um programa da treta em fórum legítimo de luta ideológica.

Retratos equivalentes de um mesmo País de charruas e bandas largas. De almotolias e simplexes.
Um País entretido a discutir o passado imperfeito na urgência do presente. A jogar partidas de acerto de calendário de uma competição há muito extinta .

E agora o que ainda mais faltava era ficarmos todos muito preocupados. Muito chocados com o “concurso” da RTP. Considerando como causas as consequências, considerando como doença os sintomas.
E desatarmos a discutir, a reflectir, a teorizar sobre a vergonha que caiu sobre nós. E a esgalhar soluções geniais como chegar lá pelo ciclo geracional da formação cívica nas escolas.
Portugal é uma parolândia.

Nós somos enormes!… Mas seremos portugueses?
Porque este abre-olhos não vai servir de nada.

O que é muito mau.

Grandes Portugueses

René François-Ghislain Magritte; 21 de Novembro de 1898, Lessines, Bélgica – 15 de Agosto de 1967, Bruxelas, Bélgiga.

Sem dúvida que fará parte da lista.

Eh pá!… Mas nem sequer era português!…
Não faz mal. Leva na mesma o meu voto.

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Grandes Portugueses

David Cronenberg; 15 de Março de 1943, Toronto, Canadá.

Sem dúvida que fará parte da lista.

Eh pá!… Mas nem sequer é português!…
Não faz mal. Leva na mesma o meu voto.

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Grandes Portugueses

Kate Bush; 30 de Julho de 1958, Bexleyheath, Kent, Inglaterra.

Sem dúvida que fará parte da lista.

Eh pá!… Mas nem sequer é portuguesa!…
Não faz mal. Leva na mesma o meu voto.

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Grandes Portugueses

Hannah Arendt; 14 de Outubro de 1906, Linden, Alemanha – 04 de Dezembro de 1975, Nova Iorque, Estados Unidos.

Sem dúvida que fará parte da lista.

Eh pá!… Mas nem sequer era portuguesa!…
Não faz mal. Leva na mesma o meu voto.

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