Rir-se Três Vezes

Este cavalheiro é Luís Campos Ferreira. Deputado do PSD.

…Que pela sua bancada se insurgiu contra a aprovação solitária no Parlamento, pelo PS, da Lei do Pluralismo e da não Concentração dos Meios de Comunicação Social.
(Ou, em rigor, da aprovação exclusiva pelo PS das alterações que o PS fez à Lei já votada exclusivamente pelo PS na Assembleia e entretanto não promulgada pelo Presidente da República, que a criticou.)

Mas não foco tanto a peculiaridade da pressa desta legislação, que atropela a reflexão que a União faz neste momento e que quando chegar a conclusões nos vai obrigatoriamente vincular (e desdizer?); nem a graça desta preocupação com “concentrações” de órgãos de informação nacionais, quando a concentração de media em mãos estrangeiras (por exemplo espanholas) não merecem preocupação por aí além; ou a curiosidade da exigência de garantia pelos próprios media (!) de “serem plurais”, de “darem voz a diferentes sensibilidades”, numa clara intromissão em quem lá está, o que lá faz e a opinião que tem, numa cavalgada muito além das competências da ERC; ou a comovente bondade de determinar em definitivo que o Estado não terá parte em meios de comunicação, no que pareceria ético da parte de quem ao privilégio prescinde, mas não esconde o garrote que quer colocar aos media locais – por exemplo na inconveniente Madeira; foco apenas a intervenção pontual deste deputado.

Dizia o dr. Luís Campos Ferreira no Parlamento, dirigindo-se ao Primeiro-Ministro: “Ó senhor engenheiro, dê-me um pouco de atenção. O país precisa de mais liberdade de expressão.”
…Socorrendo-se como é evidente da letra daquela música dos Xutos.

Só que me fez parecer aquela célebre figura do sujeito que quando ouve uma anedota se ri três vezes: quando a ouve, quando lha explicam e quando a percebe.

É que quando os Xutos falam dos que “andam na roubalheira“, dos que “nos andam a comer“, de quem “anda a enganar o povo que acreditou“, é bastante provável que se refiram a políticos quase com 10 anos de mandato de Deputado, com mandatos exercidos na política local, com cargos de destaque nas hierarquias partidárias, eventualmente “advogados-gestores”… Tal como o dr. Luís Campos Ferreira!
(Isto independentemente da injustiça que esta “caricatura de homem público” encerre ou – evidentemente – de o senhor não encaixar na caricatura em questão…)

O que é certo é que em política é fácil morrer pela boca.
…E que a cultura pop, ainda que não pareça, não é só pega e usa.
E que os Maria-vai-com-as-outras são mesmos uns tristes.

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Xutos Para o Canto

Tem piada. Precisar de chegar a esta idade para começar a gostar de Xutos & Pontapés.
(Que em verdade, não foi bem o que aconteceu.)

Fizeram sair o último álbum – chamado originalmente… “Xutos & Pontapés”…

… – e finalmente decidiram-se pegar – mesmo que de leve – o boi pelos cornos.

Falo de uma tendência para a música portuguesa (e arte, em geral) viver castrada perante a realidade em que se desenvolve. Num silêncio incomodativo da parte de quem deveria por conceito deter a máxima sensibilidade ao pulsar da sua sociedade e dá-lo a ver. (“Silêncio” quando não romance ou vida de cama com os poderes instalados.)

Que os Xutos agitaram.

No álbum ouve-se o tema “Sem eira nem beira”.
Que fala de um “engenheiro” a quem se pede um bocadinho de atenção.
Que refere esta “merda” que não muda.
Que acusa os ricos de saírem impunes e os pobres nem por isso.
Que denuncia a roubalheira que impera em Portugal.
Que fala das cumplicidades.
Que lamenta a falta de mudança de mentalidades – que não chega.

…O que já não é mau.

Finalmente – no seu Português de estivador e numa canção que enfim… – a banda assume que é capaz de fazer o que já se faz muito mais e muito melhor em países mais democráticos: os durões roqueiros serem um bocadinho mais contundentes com quem devem do que simples passeios em Festas do Avante e outras tretas de corte e reverência.

Por este rasgo, parabéns.
Subitamente – por uma vez – o País vê a possibilidade de pôr no canto o que lhe vai dentro. Que é tão rara.

Xutos & Pontapés
“Sem eira nem beira”

Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um “passou bem”

Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar, despedir
Ainda se ficam a rir

Eu quero aquerditar
Que esta MERDA vai mudar
E espero vir a ter uma vida bem melhor
Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer

É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir

Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar, a enganar
O povo que a
querditou

Conseguir encontrar mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a FODER

Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a…

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Dê-me um pouco de atenção

O Inútil. Mais uma vez…

Já não é a primeira vez que falo disto.

Cavaco Silva assume-se cada vez mais um perigoso Dupont em Belém do Dupond de S. Bento.

…Cada vez mais como um perigoso inútil.

Assiste-se a uma “crise” mundial e nacional (ou vice-versa) e a uma multidão portugueses que sofre cada vez mais com a incapacidade que governos sucessivos mostraram para nos preparar para um destes dias.

Há os que garantem que nada há a fazer no imediato para debelar este flagelo, há os que garantem que está a ser feito o melhor para evitar o pior.

Eu não sei. Não percebo de finanças. Só percebo de escrever posts e comer chocolates.

O que garanto é que não tenho a menor confiança no “Governo” actual. Que acredito que o que (não) fez antes da chegada da “crise”, em largos três anos, é boa parte do peso em cima dos ombros de quem sofre com os maus dias que correm. E culpo-o directamente por ter andado tanto tempo a rabejar a questão da chegada dos problemas a que agora alude para justificar a sua impotência.
Se não confiava em quem “governa” com a maré a subir, menos confio hoje com a água pelo pescoço.

…Do que se esperava uma reacção do Presidente da República.

Não que viesse governar o País, que não lhe cabe.
Mas que se envolvesse no traçar de um caminho, que influenciasse quem compete traçá-lo e se deixasse convencer por ele da inequívoca correcção das escolhas.
Que pela envolvência, pelo COMPROMISSO de mais um órgão de soberania – que não os partidários – com um projecto específico de futuro, fosse dado sinal ao país de que a confiança hoje mais ou menos se justificaria.

Só que o que se vê é outra coisa. O que se tem não é isso.

Temos um Presidente da República que “recebe indicadores sociais de alguma gravidade“. (…Tão bem que os meus miúdos já sabem o que é um eufemismo…)

É alguém que – tendo ao seu dispor da informação mais privilegiada da nação – vai mais ou menos quase tendo uma ideia do que se passa, por sinais que lhe chegam, difusos e esbatidos. Que insinua “não saber”.

É alguém que está “preocupado e triste“. Solidário com o cidadão. Sentado ao seu lado a partilhar a sua dor e a contemplar os amanhãs de esperança que virão.

Acontece que eu não o quero ao pé de mim.
Xô!

Quero-o lá no seu Olimpo – para onde o elegi – a assumir a responsabilidade que lhe toca na supervisão do que se passa nesta terra sem lei.
Quero-o sentado à mesa com o “Governo”. A inquirir, a discutir, a questionar, a sugerir, a argumentar – mesmo que o “Governo” não o queira.
Não são esses os poderes específicos do Presidente. Mas em tempo de “crise” não se encaixa na perfeição esse desvelo nas suas obrigações genéricas?

Pode até acontecer que a conversa seja curta. Que a sintonia seja total – como se teme que seja. Mas sempre teríamos um COMPROMISSO do Presidente no apoio ao rolo em que rolamos.
…Ou uma frontal oposição.
Fosse o que fosse.

Agora, paciência para périplos ao País com voz embargada de amor fraterno e olho brilhante da comoção na perda de quem se manté à margem, tirem-mos já daqui!

Confirmo…

Confirmo.

Que o Magalhães traz erros de série.

Não erros de software, não erros de concepção, não erros políticos no bojo – lá hei-de ir muito brevemente!.
Mas erros daqueles dos bons. Bacoradas! …Num equipamento da “sociedade de informação”, ao domicílio das criancinhas do ensino mais tenro.

Confirmo-o.

Por exemplo, numa ferramenta muito fôfa chamada “Eu Sei” (ou, para os amigos, “Eu Antes de Usar Isto Sabia”), em que a criançada pode tentar seleccionar bicharada que cai pelo monitor abaixo, consoante os seus nomes sejam agudos, graves ou esdrúxulos, pode encontrar-se uma nova espécie animal:

o “Orangutango”.

Eu já nem levava a mal a rasquice dos gráficos do jogo – próprios de uns cliparts respigados sabe Deus de onde.
…Ou a rasquice da programação, que permite que os bonecos se amolhem uns sobre os outros sem ponta por onde se pegue para a selecção pretendida.
…Ou a tão tipicamente carregada pronúncia nortenha da voz que em off vai mandando fazer.
Mas isto pareceu-me um bocado demais.

E hoje sai a capa do Expresso!

Para quando algum “escândalo”?

No Choco

Há três meses atrás o CP lançava um desafio no Quintus: esclarecer, afinal de contas, até que ponto o Choque Tecnológico estava a mudar a Educação nas escolas.
(…Se  ninguém reparou no pormenor do “há três meses atrás“, fico mais aliviado…)

Na altura não lhe repondi, pelo meu vício de ou fazer as coisas por todo ou nem sequer as começar para as deixar em metade.
E porque se alguma coisa aprendi nos (já, meu Deus?…) anos de bloguice, foi que todos os assuntos são circulares e que se se não apanham na primeira maré de oportunidade ela lá voltará para de novo passar.

E a oportunidade pode ser agora.

Dizia então o CP: “Criticamos o governo PS quando é preciso, [mas] se há ramo governativo que tem corrido bem é o do desenvolvimento do uso das tecnologias de informação nas escolas portuguesas. Em 2009, um em cada cinco alunos terá na Escola um computador com acesso à internet, haverá um videoprojetor por sala e um quadro interativo por cada três salas“, “tendência […] ainda reforçada com o concurso de ligação de todas as escolas a uma rede 48 mbps e a extensão do e-escolas ao 7 e 8 ano de escolaridade“.
Acrescentando então o CP com sensatez: “Se estes números se cumprirem (e falta apenas um ano para o comprovar), então as escolas portuguesas serão das mais tecnologicamente avançadas do mundo“; “se assim fôr, ficamos realmente impressionados“.

Pois bem, não há – como previa – razão para grandes impressionismos.

É que – obediente a outro vício meu – só consigo encarar esta ou outra “revolução tranquila” como sérias numa óptica de estratégia, não de táctica. Isto é, numa lógica de resposta global e integrante, não numa perspectiva de tapa-buracos, como é o caso.

Em primeiro lugar, é SEMPRE mais fácil comprar uma solução que construí-la!

Como neste caso foi muitíssimo mais fácil o “Governo” assinar um par de diplomas – carregar no célebre botão que faz coisas acontecerem – que pensar uma plano estruturado e sólido.
(O dinheiro não é seu, dispõe dele com ligeireza.)

É que a chave do parágrafo do CP está aqui: “tem corrido bem [o] desenvolvimento do uso das tecnologias de informação nas escolas“.
Porque não tem corrido bem, de facto!

É um delírio – posto a coberto pela ignorância sobre o terreno da maior parte dos portugueses – dizer o “Governo” que “em 2009, um em cada cinco alunos [tenha] na Escola um computador”. (Ou como disse recentemente Mário Lino: “queremos em 2010 estar em dois alunos por computador“.)
Primeiro porque não vão tê-lo, segundo porque não o poderiam ter!

Não vai tê-lo porque o ratio actual está actualmente longíssimo desse número e porque se agora a tal da “crise” o vai financeiramente impedir, já antes não se percebia bem de onde – Europa, clasulado prévio de contratos de operadoras com o Estado,… – viriam os fundos para permitir tal maná.
Não poderia nunca tê-lo porque se já esse aluno “em cada cinco” mal cabe em salas com turmas sobrelotadas muito menos as salas de aula portuguesas suportariam a ocupação física desse tipo de aparato.
…Já sei que a resposta podem ser os famosos portáteis. Mas não. Essa não é uma resposta asseada para quem faz diariamente o número do “carreiro de formigas” com os seus alunos quando pretende usar as TICs na sua aula e vai levantar os portáteis a um ponto da escola para os usar em resma noutro oposto – com as óbvias perdas de tempo e paciência associadas. (O que – atenção! – por motivos de segurança do material, no contexto das escolas portuguesas, não poderia aliás ser de outra forma!)

…”Com acesso à internet“.
Neste momento (Fevereiro de 2009) nem mesmo escolas “de referência” para o Ministério, nem mesmo escolas especialmente empenhadas no uso das Tecnologias no seu dia-a-dia, têm acessos aceitáveis à net. (Afirmo-o com todas as letras.)
As ligações ainda são baixas em velocidade e a havê-las não cobrem em wireless a totalidade do recinto escolar – a cobertura física teria custos atronómicos! E se escolas tiverem pretendido montar uma rede como deve ser para servir as suas necessidades, terão sido instadas pelo Ministério a fazê-lo com os seus prórios – e inexistentes – fundos. Isto muito antes da “crise”!
…Para não falar do harware, das máquinas que se usam, também elas muitas a precisar de extrema unção.
Ou da graça de não haver qualquer forma eficaz prevista – em pen, em disco, etc., à falta de net – para os alunos que usam os portáteis na escola armazenarem os seus trabalhos em progresso! Os portáteis que usam hoje podem estar ocupados amahã, “amanhã” o seu trabalho pode ter sido apagado por um outro utilizador, o que confere ao trabalho com as TIC uma carga de impoderabilidade e ligeireza a que muitos professores não se prestam. (A última esmola, foram umas pens que o projecto Electrão deu às escolas – uma pen por turma a girar no início e no final da aula por todos os computadores de todos alunos, roubando-lhes metade do tempo útil. E fica tudo dito.)

Sobre o “videoprojetor por sala e [o] quadro interativo por cada três salas“, outra miragem.

É perfeitamente inútil e alucinado prometer para cada sala um projector, olhando ao País pelintra que somos (ainda de antes da “crise”). Mas  de facto não é possível usar eficazmente os ditos quadros se não houver montado em plano elevado um projector – não levado para a aula debaixo do braço, como agora, montado à altura do tronco ou do rabo do professor, conferindo à aula uma inusitada valência de espectáculo de sombras chinesas.
Estou a frequentar uma acção de formação sobre o uso das TICs em sala de aula. Em que em parte se abordam os “quadros interactivos”.
…Espectaculares, espantosos, maravilhosos, revolucionários (ou nem tanto). Inúteis se não estiverem montados de forma funcional.
Sendo que tudo tem um preço alto, que as escolas – mais uma vez – não têm posses para o pagar sozinhas, que o Ministério até agora ainda não se mexeu (estando as autarquias cada vez mais estranguladas) e que – entrados no mundo ideal  dos projectos que se concretizam – as salas de aula portuguesas podem não estar sequer preparadas arquitectonicamente para receber uma tela fixa para projecção na famosa posição “perpendicular às janelas”.

Sobre o “e-escolas“, pouco há a dizer.
Foi astuto convidar as operadoras móveis a pagar parte do custo dos PCs aos pais das crianças, tornando-os mais acessíveis. Mas é uma falsidade dizer que as operadoras assumiram perder dinheiro aqui para o ganhar com as concessões de 3G contrapartidas.
É aqui exactamente que as operadoras vão recuperar o dinheiro investido – e não dado.
Na miragem de PCs baratos, resmas de pais – de um País pelintra, repito – lançaram-se de cabeça para a compra de uma pechincha atracada de uma despesa fixa de um serviço wireless contratado por uma eternidade e nada pechincha ele próprio.

“Comparticipação a sério do legislador na despesa com tecnologia no sentido de a democratizar?”, zero.
“Apoio fiscal a este tipo de despesa tão incentivada com palavras?”, zero.

Melhor ainda que ir às compras e montar estatística: mandar ir às compras e acrescentar-lhe uns pontos.

…Mas, e o Magalhães, em particular?

…Lá irei depois. Exclusivamente.

O que é certo é que o “Choque Tecnológico”, apesar da propaganda oficial, não passa – por hora – de uma manta de retalhos.
Que não reflete nem incorpora uma estratégia coerente de integração das TICs na vida educativa das escolas.
(E se para desmentir o que digo se apresentarem exemplos avulsos, respondo que é esse mesmo o problema de que falo.)

O “Governo” tem-se comportado mais ou menos como o tótó que quer ter o computador mais artilhado lá da rua e que na loja compra os componentes todos  que lhe vêm à mão desde que lhe pareçam os mais modernaços. Para depois chegar a casa e perceber que (para além de não saber como se montam) não jogam uns com os outros.
Apesar de serem os mais rebimbas que encontrou!

O “Governo” tentou (com o pouco dinheiro que há) comprar uma solução rápida e espampanante.
Carregou num botão e houve coisas que aconteceram…

Mas ainda que aprove mais este investimento que em estádios de futebol, ele está longe de sair de cabeças de quem saiba o que anda a fazer. Por cinismo ou pura incompetência.

Dizia o CP: “é ainda necessário reforçar a aposta na qualificação e na valorização dos professores (uma área que tem sido gravemente descurada)“.
E é verdade.
Como pode pretender-se introduzir revolucionárias ferramentas pedagógicas no Ensino (e uma nova filosofia) sem ter NENHUMA preocupação em dotar de conhecimentos/técnicas aqueles profissionais a quem vão ser exigidos os frutos da sua utilização?
Alguém não está a ser sério.

Como é possível apregoar a universalização do uso das tecnologias nas escolas quando a escolaridade obrigatória está objectivamente amputada – por razões financeiras e físicas que não há coragem para afrontar – nessa falsa preocupação?
Como é possível descarregar toneladas de computadores sobre as criancinhas do 1º e do 2º ciclos quando ninguém se preocupou em dar-lhes formação nas TICs? À semelhança do que acontece (só) no final do 3º ciclo.
É sempre mais fácil passar um cheque, num momento, que assumir um projecto e um compromisso de futuro.
Das pretensas “intenções”, das supostas cruzadas, vê-se assim a credibilidade.
Alguém não está a ser sério.

Como é tão-pouco possível que a quem compete – Ministério da “Educação” e “Governo” – não ocorra que se estamos à boca do portal para outra dimensão não seja revisto o que se estuda nas escolas da Nação tendo estas ferramentas sobrenaturais à disposição?
Que conteúdos são relevantes hoje, que competências novas se visam desenvolver, que estratégias frescas se podem aplicar, basicamente, que objectivos diferentes tem a Educação nestes tempos modernistas?
Se os tem, duvido.
E duvido que alguém nas altas esferas que passa cheques já tenha pensado sobre isso durante meia hora.
E por não acreditar que nisso já tenha pensado, não acredito… na seriedade deste filme.

Tudo isto é um ovo ainda fechado. No choco tecnológico.
Cheínho de expectativas mas que tanto pode estar podre e não vir a dar-nos nada (porque o desafio é exigente, competitivo e urgente), como dele pode nascer o mais amoroso pinto. (Desde que não seja “de Sousa”.)

Resta-nos ficar atentos, CP.

O Calhau

Já não é novidade para ninguém. Não é com esse tom que o refiro.

É mais com incómodo intelectual.

Em mais uma edição do Correio da Manhã, Emídio Rangel volta a “escrever” uma crónica das suas. Com o seu estilo e no seu estilo habituais.
Mais uma vez sobre a temática que lhe é mais cara: o louvor a Sócrates. A quem chama “O Rochedo”.

Da sua cabeça formatada e pela sua pluma obediente desfilaram em carreirinho o que julga serem as superiores qualidades que comprovam o rochedismo do sr. Pinto de Sousa.

Uma liderança forte do partido e do Governo“, “a mesma força e a mesma determinação que exibia em 2004“, “o mérito, o trabalho e a dedicação, sem quebras“, “[a] capacidade de luta invulgar“, “[o] manter sempre índices elevados em todas as sondagens“, “podendo mesmo vir a reclamar de forma definitiva nova maioria absoluta“. “Foi, de certeza, muito difíci subir e descer montanhas, enfrentar dificuldades de monta, no partido e no País, e continuar como um rochedo, desafiando todas as intempéries“.

…Porque Rangel nos aviva a memória: “Sócrates teve e tem um inimigo interno perigoso e capaz de todas as tropelias, […] Manuel Alegre, que se revelou um homem capaz de atraiçoar os seus camaradas no momento em que sentir terreno apropriado para a façanha“.
Também […] as oposições a Sócrates usam mão de todas as armas, da Universidade Independente ao caso Freeport, para derrubar o político que tem ousado responder à letra às calúnias e às armadilhas postas para denegri-lo. São oposições que nem no momento em que o PR apela à unidade do País, nem na ocasião em que emergiu uma crise mundial de grandes proporções que afecta tudo e todos, são capazes de dar ajuda, uma solução, uma opinião de boa-fé“.
(Um rochedo se calhar apenas um pouco pintadote de uma e outra polémicas que lhe vão pousando em cima e escorrendo por si abaixo a sua clara marca.)

Mas Sócrates não é só um rochedo. É o único. Por isso está sozinho, na sua rochideza, no embate com os gajos normais que o retraem na sua marcha gloriosa.

…E há depois uns terceiros. Os sabujos.
Como Emídio Rangel.

E esta não é uma dicotomia de bolso – de bons e maus. Dicotomia cegueta é a do autor daquele texto.

O que afirmo é simplesmente que se Sócrates tem acertado (?) também tem falhado. E que da ponderação entre o acertar e o falhar o resultado prático para um País em retrocesso não convence. E que se se vai mantendo popular desta forma é graças ao controlo pidesco sobre os dissidentes e à arregimentação de uma corte laudatória de serviço. E que se hoje Sócrates ainda se permite falar no tom como fala com os seus interlocutores e à Nação, tal se deve exclusivamente à incapacidade de um povo castrado e “politicamente correcto” para lhe puxar os colarinhos e dar-lhe de vez em quando umas cabeçadas – apenas de vez em quando, no momento certo; não era rigorosamente preciso nada mais que isso.

E é precisamente nesta selecta turba de louvadores que encaixa Emídio Rangel. Naquela corja cromática que rodeia sempre a Corja dos políticos que exercem funções.
Lá saberão muito bem porquê…


Não me peçam é para lhes achar graça.

Porque quando Emídio Rangel redunda na fórmula estafada dos outros “a pensar de que os portugueses são todos estúpidos” faz o esboço do que o próprio pensa em actos.
…Pensando iludir alguém de que o seu justo juízo e as glórias que canta ao (seu) Salvador não são – num jogo de espelhos – tão evidentemente contaminadas de afeições e desamores como as críticas dos que só lhe vê defeitos.
É o discurso de um calhau destinado em esperança a outros calhaus que se deixem por si persuadir e arrebanhar.

Que eu não vejo só defeitos em Sócrates…

Se quando Sócrates ascendeu ao poder no PS “muitas foram as vozes que na altura afirmaram reticências à capacidade e à inteligência do jovem líder“, já aí eu lhe reconhecia créditos.
Sobre a sua “inteligência” não exageremos, mas sobre a esperteza e a tenacidade com que papou na corrida ao Secretariado-Geral João Soares e Manuel Alegre haveria muito a dizer…
E sobre capacidade de gestão de equipas e influências, que continua a demonstrar até agora, num País de sociedade policienta, de pensamento único, sob o medo – para o qual Ramalho Eanes alertava há poucos dias.

Se Emídio Rangel acredita no que diz, que “a crise, que ganhou agora maior expressão com os índices do INE, vai ser vencida [com] Sócrates” (como se a culpa fosse agora do INE…), é bom. Fica mais feliz. Fico aliás mais feliz por ele.

Mas eu não acredito, paciência.

Porque acho que o rochedo é mais parte do problema que da solução.
E que o que está a correr mal tem larga margem para passar a correr pior. (Muito fora “conjunturas”…)

Se [o Rochedo-]Sócrates tem hoje mais cabelos brancos [e o] seu rosto por vezes exibe o desgaste” tal deve-se a uma natural erosão.
À erosão de quem se arrogou a pureza, de quem se propôs a perfeição, começando depois a aparecer aos olhos do povileu, sob a força desgastante da Natureza, como um homem com duas pernas e dois braços. Para a surpresa dos calhaus, mais um gajo normal. Que o paleio auto-justificativo cada vez menos inocenta. Que cada vez mais precisa dos Rangéis e demais calhaus como muletas e dínamos.

…Que quando o rochedo se erodir de vez, em mil bocadinhos, vai de novo e em definitivo voltar a confundir-se com a pilha de cascalho que para aí há, de que é perfeitamente igual na essência.

[Publicado no Canto Aberto.]

Agressões Selvagens

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Saiu a notícia de que o Ministério da Educação “pretende recrutar professores reformados para, em regime de voluntariado, colaborarem no apoio aos alunos nas salas de estudo, projectos escolares ou no funcionamento das bibliotecas, entre outras actividades“.

Para ficar tudo claro desde início, marco a minha posição.
E, numa terra em que só se fala e percebe de bola, deixo a imagem bolística daquilo em que se poderia traduzir a posição que marco: esta proposta do Ministério da Educação é uma agressão selvagem.

Na exacta medida das agressões ilustradas no singelo quelipe abaixo espetado…

…Elas são a imagem de como o Ministério joga este jogo.

Ponho já de parte a evidência engonheira de que o “voluntariado” é uma força desaproveitada na sociedade portuguesa – fonte de energia não rentabilizada, destino válido de vontades que canalizadas facilmente resgatam cidadãos válidos ao desânimo ou à frustração.
Esse é o óbvio.

Mas o jeito deste “Governo” para transformar o razoável no absurdo é muito grande.
E esta proposta de “voluntários” a trabalhar durante “um ano lectivo” na escola, num “mínimo de três horas por semana” é uma entrada a pés juntos a quem neste momento nas escolas resiste como pode às agressões diárias que lhe moem as carnes.

Algumas faltas duras cometidas nas grandes áreas que este “voluntariado” pretende cobrir:

1ª A falta de sentido.
Eu não preciso de reforços de Inverno vindos do “voluntariado” dedicados ao “apoio a visitas de estudo” – só assim.
É que para mim uma visita de estudo é tão séria como uma aula. É uma aula, na preparação, na preocupação com o seu desenrolar, na sua exploração para a aprendizagem. É serviço lectivo, não é “passeio”. Não delego a ninguém prepará-la, não levo qualquer um a acompanhar-me. Sei quem me é mais útil no contexto dos alunos que conduzo em visita. Não me fazem falta “apoios”.

2ª A falta de lógica.
Não faz sentido nenhum pôr “voluntários” a cruzar bolas para a área dos “projectos de melhoria da sociedade local” quando esses projectos já têm jogadores para essa posição.
“Projectos”, a havê-los e a serem projectos pedagógicos, estão na mão dos docentes. E não sou eu que o digo. O Decreto-Regulamentar 2/2008 que rege a “Avaliação” de Desempenho Docente contempla esse tipo de envolvimento dos professores como parâmetro da sua avaliação.
Diria que antes se percebesse o que são esses “projectos” e só depois se orçamentasse o plantel. Antes se percebesse a necessidade de “apoios”.

3ª A falta de fundamento.
Não é possível colocar “voluntários”no “apoio à formação de professores e pessoal não docente [ou no] planeamento e realização de formação para pais“.
Toda a gente sabe que não faz parte das “competências científicas” de um docente comum – não obstante os anos de experiência – a habilitação para dar esse tipo de formações. Pelo menos que não sejam meros encimentos de chouriços… Ou então o Ministério da Educação vai começar a dar formação de formadores aos “voluntários”?… Quando tem no total desleixo a formação dos docentes em funções?…

global

4ª A falta de vergonha.
Ao propor que os “voluntários” façam “nas salas de estudo, projectos escolares ou no funcionamento das bibliotecas” trabalho de roupeiros, de membros de claque, de jogadores ou de treinadores, o Ministério da Educação mostra sem margem para dúvida reconhecer a falta de recursos humanos para numa escola gerir estruturas de apoio à docência, que nunca levou a sério.
Agora leva-as. Querendo-as a funcionar à borla.
Porque, contrariamente ao que o Ministério jura a pés juntos, não me custa nada acreditar que não só este é um remendo barato para o relvado esburacado, como os remendos vão amanhã passar a substituir as despesas com jardineiros.
(Quando se prepara para montar e pagar em “cada Direcção Regional de Educação uma estrutura própria” para gerir a “voluntariedade!)

5ª A falta de ética.
No meio de uma história de entradas por trás, cotoveladas e mãos nas bolas, que ainda não acabou de ser contada, que está a roubar gente aos relvados e a deixar desertas as bancadas dos que acreditam na Educação, no meio de uma história que está a revoltar as entranhas de quem olha para estes dirigentes da bola e os responsabiliza pela batalha campal periódica com que a Nação é brindada, é do supremo descaramento perguntar aos lesionados em campo se querem reentar para mais uma dose.
Dirigir-se a muitíssimos docentes que fugiram do Ensino por não suportarem mais jogar com infiltrações, propondo-lhes um “voluntariado” exercido “de livre vontade, sem remuneração” – como uma prenda que se dá – do qual ainda terão “no final de cada ano lectivo, [de elaborar] um relatório anual […], no qual deve constar uma autoavaliação“.

 

Mas não é líquido que nenhum professor avance.

É que há-os mesmo que amam a profissão. Conheço alguns. Que reconhecem e assumem o papel social do desempenho da sua função. E que por isso podem desejar não a ver seccionada de um dia para o outro…

Agora, não é deles que falo!… Não é a eles que me refiro. (Até porque não é com a sua idade que se cometem em campo as agressões selvagens que passam no filmezinho acima…)

Refiro-me a um Ministério da Educação que afirma pela boca de um senhor Secretário de Estado que como “nenhum enfermeiro ou assistente social é substituído por existirem voluntários num hospital” numa escola os “voluntários” não vão suprir as faltas directas de gente para o exercício docente.
Sabendo – como sabe quem tenha uma remota ideia de como funciona uma escola – que tal é uma barbaridade e ainda assim o diz.

…Porque para gostar de bola não é preciso ser inteligente. Mas é preciso haver notícias!
Porque o campeonato é longo. E é preciso manter os adeptos entretidos com polemizações constantes!

“Degradação do estádio da Educação?” Não faz mal. Compensa.
Enquanto certa gente não vir o cartão vermelho, é jogo.

[Publicado no Canto Aberto.]