Terror Íntimo

Há 200 anos nascia Edgar Allan Poe.
Com direito a tudo o que faz da vida de um autor celebrado um cromo clássico. O abandono, o vício, a doença, a morte.
…Como se fossem este os ingredientes que destilados pela caneta de um homem o tornassem mais lúcido face à realidade.

Poe e os seus terrores íntimos.
As ameaças à fragilidade do Homem, à sua integridade, à sua sanidade.

Contos contados na primeira pessoa, num jogo de máscaras de ocultar e revelar.
Histórias de mistérios intrincados.
Narrativas de um pavor verosímil partilhado pelo leitor.

Edgar Allan Poe. Que abriu os portões para o medo. (No que seria seguido por Lovecraft.)

Hoje já ninguém procura o arrepio pintado a tinta no livro.
Hoje já ninguém precisa de guia na fronteira do terror – alucinado diário pronto-a-vestir. Transferimo-lo do seu lugar natural, no fundo do nosso peito reverente e desperto, para as nossas mãos práticas e insensíveis, julgando manipulá-lo a nosso gosto.
Hoje cada um julga controlar o Pêndulo no seu Fosso. Hoje ninguém precisa de Poe.

Mas essa é uma culpa nossa. Não sua.

Dali, o génio secundário

Já li muito sobre Dali. Muito mesmo.
E a profunda afinidade que me merece cresceu cimentando-se a par da displicência com que vi muitos avaliadores da (sua) Arte tratá-lo e retratá-lo.

Dizia o filósofo que “tudo é opinião”.
E o tudo transformado em opinação é um ininterrupto contaminado – naturalmente contaminado – pela “mundanal afeição”; identidades, experiências, proximidades, simpatias, interdependências, osmoses, regem as vidas e os juízos humanos.
E a Arte sempre foi uma manta de retalhos, mais que de sensibilidades, de coutadas privadas.

E Dalí nunca foi um herói artístico.

Dalí nasceu burguês. Primeiro pecado.
Tão burguês como os patetas que lho condenaram até ao dia da morte, mas inaceitavelmente mais burguês que um Pablo Picasso de linhagem de artistas ou de um André Breton nascido pobrezinho – fôssemos nós medir o “burguesismo” de cada um…

Dalí foi um comodista. Segundo pecado.
Nascido numa Espanha profunda, foi apadrinhado estudar em França, lá se associou a um movimento artístico, fugiu para os EUA aquando da II Guerra por lá desenvolvendo os seus interesses e vendendo a sua arte, e regressou consagrado a uma Espanha rendida, para o resto da sua vida.
(…Porque ninguém mais partiu rumo à França cultural moderna e contemporâna perseguindo um sonho artístico; ninguém mais fugiu da Europa para a América aquando da Guerra; ninguém mais por lá ficou quando o proveito o sugeria (por exemplo o próprio Breton, do “genial” anagrama Salvador Dali – Avida Dollars“); nunca se viram outros artistas a gerir financeiramente a sua carreira nem a beneficiar do seu auge.

Dalí foi um conservador. Terceiro pecado.
Nascido catalão, foi-o até ao fim da vida, tanto na influência como na expressão – ainda que contrariamente ao eventual parolismo de quem mais se “cosmopolizou” tenha sido um homem do mundo.
Foi homem de um casamento – menos dois que Breton – e de uma paixão na sua vida, Gala – ficando a milhas da colorida vida de um Picasso: sinais indesmentíveis de uma tacanhez e um conformismo deploráveis.
Admitido por Breton no seio do “seu” movimento surrealista pelo reconhecido talento (“Com Dalí abrem-se, talvez pela primeira vez, todas as grandes janelas mentais.” André Breton, 1929), sempre destoou do comunismo-trotskismo latente nas suas hostes, desde a sua entrada até ao momento da sua expulsão.

Dalí foi um livre pensador. E falador. Quarto pecado.
É precisamente o bom-gosto, e só ele, que tem o poder de esterilizar e é sempre o primeiro entrave à função criativa“.
Aquele que se recusa a imitar seja o que for, não produz coisa nenhuma.”
Se se possuir grande talento, para ganhar um respeito crescente e duradouro, convém ainda no início da juventude dar um forte pontapé na sociedade que se ama, e depois tornar-se um snob.”
Não nos preocupemos com sermos modernos. Infelizmente, façamos o que fizermos, é a única coisa que não podemos evitar“.
O termómetro do sucesso é apenas a inveja dos infelizes.”

Dalí foi um agitador compulsivo. Um elemento imprevisível e incontrolável. Quinto pecado.
Tenho sistematicamente de criar confusão, liberta a criatividade. Tudo que é contraditório gera vida“.
A coisa pior é a liberdade.
A liberdade de qualquer tipo é o pior para a criatividade.”
Neste momento sou o melhor. Não digo isto por vaidade – é que os outros são tão maus…
O motivo para alguns retratos não ficarem tão próximos do modelo real é algumas pessoas não fazerem qualquer esforço para se parecerem com o seu retrato.”
A UNESCO é um autêntico lixo […] Qualquer organização para o bem das pessoas é impossível. É preciso o contrário. Os jovens precisam de montes de dificuldades para virem a atingir alguma coisa“.
Aos seis anos quis ser cozinheiro. Aos sete, Napoleão. E deste então a minha ambição nunca parou de crescer.”
As sociedades democráticas não são adequadas à publicação de retumbantes revelações como as que costumo fazer“.
A guerra nunca fez mal a ninguém, excepto aos que morrem“.
Só há uma diferença entre um louco e eu. O louco julga que é são. Eu sei que sou louco“.
…E o apoio a Franco na Guerra Civil Espanhola.
…E o louvor a Garcia Lorca sob o regime de Franco.
…E a sua afirmação monárquica e anárquica.
…E a saudação a Ceausescu…

Dalí foi um artista mercantilista, degenerado e subversor do surrealismo que André Breton (“o Papa”, como o Dalí o apelidou) se viu obrigado a expulsar do “seu” grupo. Sexto pecado.
(Dalí, como Naville, Artaud, Soupault, Desnos, Aragon, Eluard, Hugnet, e outros, com quem pelos mais variados motivos Breton irremediavelmente se incompatibilizou em diferentes passos da vida do movimento, vindo a escorraçá-los.)

Dalí foi uma figura ímpar, manancial inesgotável de pretextos para as críticas dos seus antagonistas, mas deixou aqui e ali, pelo mundo, irredutíveis apreciadores, que não se reconhecendo no filão da sensibilidade alinhada não renegam a relevância que o artista teve para si.

Dalí, um génio secundário que veio a Portugal.

Sou suspeito na análise da exposição da colecção da Fondazione Metropolitan per l’Arte e la Cultura que está neste momento no (progressivamente) restaurado Palácio do Freixo, no Porto…

…Poderia dizer – objectivo – que Portugal é apenas o terceiro país do mundo onde se deslocou esta exposição italiana.
Que é uma oportunidade única de contactar com peças originais que se inscreveram na história da arte do século XX.
Que se trata de uma exposição de enorme riqueza pela variedade das peças apresentadas: estatuária e ilustração…

Mas fazer centenas de quilómetros para uma visita deste tipo, se depende da disponibilidade de cada um, depende definitivamente de um estado de espírito.