“A Colonização Exemplar”

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Ninguém cala Mário Soares.
O que é pena. E já o digo há anos.

Veio um dos “pais da Democracia portuguesa” – assim se lhe topam alguns tiques e algumas parecenças – dizer com todas as letras, a propósito do 25 de Abril, que “a descolonização foi óptima” e que ela “admirou muitos países“.

É difícil hoje alguém acompanhar-me no salto de memória que faço a há uns vinte anos atrás, quando passava na RTP2 um programa – de que já não retenho sequer o nome – em que dois pesos-pesados da política nacional, João Jardim e Almeida Santos, faziam o que agora se chama “comentários” ou “análises” políticas semanais. (Com a ingenuidade e candura com que ainda se convivia então com a televisão…)

Falava-se um dia na bendita da “descolonização” (termo que sugere algo como chamar um tipo lá a casa para acabar à bombada com as baratas ou com a rataria)…
…E explicava Almeida Santos – mais um dos papás “disto” que temos hoje – como se passaram algumas das reuniões bilaterais que culminaram na “independência” das colónias portuguesas em África. Por exemplo uma com Samora Machel, em Moçambique, país de que viria a ser o primeiro Presidente. 
Explicava o tom informal, descontraído, com aquela natural pitada de azia de se sentarem à mesma mesa “colonizadores” e “colonizados”, mas um tom por vezes até galhofeiro.
Explicava Almeida Santos – em tom espertalhote – que, a dada altura, face a graçolas da parte dos seus interlocutores, chegou a contar a seguinte anedota…

Um dia, vem da picada um menino com ar preocupado ao pé da mãe e diz-lhe:
– Mãe, eu matei um macaco!
Ao que a mãe responde:
– Então para que fizeste isso? Mas deixa lá, filho. Qual é o problema?
Replicando o menino:
– Entã, agora não sei o que é que hei-de fazer à bicicleta!
” 

 …Anedota espirituosa que teria arrumado – pelo seu recorte de intelecto, depreende-se – quem se sentava do outro lado da mesa.

Ora, este naco de memória – enterrado algures nas profundezas do inconveniente arquivo da RTP – mostra o deboche que de parte a parte presidiu ao glorioso momento da “negociação” dos termos da “descolonização” portuguesa.
E como alguém que ainda hoje a considere “óptima” está num estado de senilidade e de inimputabilidade absolutas.

Se a “descolonização” foi “óptima“, o dr. Soares tem obrigação de explicar como pessoalmente se calhar isso até foi verdade. (E, já agora, também o dr. Almeida Santos e outros…)

Porque o que ficou de “óptimo” desta “descolonização” para o relato objectivo da História foi a miséria dos portugueses brancos que abandonados regressaram, a miséria dos portugueses negros que abandonados ficaram, o choque social de um Portugal que “descolonizou” – como diz o dr. Soares – “em tempo recorde” e o choque social de territórios africanos “descolonizados” largados da mão à sorte de aventureiros políticos e cleptocratas.
…Com a celebração embasbacada – mas distante! – de países como a França, por esta altura ainda em ressaca de um Maio de 68 de semelhante calibre.

Campo de Camacupa, Angola, 2001, quando uma multidão de jovens refugiados esperava receber cobertores dos Médicos Sem Fronteiras - © Louise Gubb

 O desprezo pela ética destes lords da política nacional não é novo. Mas a cada dia que passa torna-se cada vez mais insuportável.

Como se torna incompreensível que ninguém se lhes meta ao caminho e lhes explique de uma vez por todas que se a sociedade portuguesa ainda olha com desconfiança uma revolução de 74 em que se propôs aos portugueses algo tão simples e linear como “viver em liberdade” e seus frutos, é muito por culpa sua, dos seus papéis dúbios e sombrios, do esgoto em que algo tão puro em conceito veio rapidamente a tomar forma.

É este ainda o estado da Nação.

Coutada Azul-áurea

Não é a primeira vez que faço o elogio dos “media dos malucos”. Aqueles jornais, revistas, canais de televisão, que por vezes se esquecem do País em que laboram e se permitem – contra todas as expectativas – dizer o que lhes apetece, apenas porque é preciso ser dito.

E no universo dos media que não são “de referência”, encontram-se os jornais gratuitos. Ao que não é pago mas dado (supostamente) mão se reconhece valor…
Jornais este às vezes “malucos” também.

O Meia-Hora de hoje traz, por exemplo, algo que deveria fazer abanar os pilares da boa consciência nacional e não vi assim destacado noutros lados.

Vital Moreira, candidato socialista às eleições europeias, compara o Direito nacional e o europeu e conclui que como a Convenção Europeia dos Direitos do Homem traduz uma “visão libertária” da liberdade de expressão, deveria ser alterada para se aproximar ao que temos na nossa Constituição e na nossa legislação.

…É que lhe parece que em Portugal vai havendo – por contaminação europeia – “uma prevalência crescente da liberdade de expressão relativamente ao direito à honra e bom-nome.

Ora, por pontos:
1 – fica mal a Vital Moreira, no momento em que estamos, preocupar-se com tretas relativas como esta;
2 – sendo Vital Moreira o candidato que é, de quem é, fica-lhe mal esta conversa de “voz do dono”, inevitavelmente contaminada pela mediatização das sucessivas escandaleiras de Sócrates, cuja base de existência descaradamente coloca em causa refugiando-se no legalismo reinante no nosso Rectângulo;
3 – fica mal a Vital Moreira meter as suas cândidas e tecnicamente competentes mãos na mixórdia que é o folhetim das escandaleiras socratinas (vida pessoal, habilitações, vida profissional, desempenho político, comportamento cívico), recheado de cromos repetidos, pressões, “faltas de provas”, eventuais prescrições, “campanhas” e contra-campanhas, com que cada vez mais o constitucionalista faz questão de se lamentavelmente identificar;
4 – não é muito normal que um homem com o passado político de Vital Moreira – um comunista dos quatro costados té ter descoberto o elevador rosa para a esfera celeste – venha cuspir pelo canto da boca o epíteto de “libertário” a quem quer que seja.    

Basicamente, o que este candidato vem dizer-nos é que, chegado à Europa, vai lutar para que ela – Coutada Azul-áurea dos bem-pensantes em que a pequenita coutada lusitana se encontra encravada – faça recuar a liberdade de expressão para dar espaço à “honra” e ao “bom-nome” de incertos (?).

O que, para além de ser um supremo insulto, é um absurdo prático: acautelar obssessivamente o “bom-nome” de quem o não tem (e seus congéneres) por exclusiva culpa própria, porfiar cegamente na guarda de uma “honra” em que já ninguém pegaria em saldos, limitando o direito a pô-los em causa…

De quem é tudo menos ingénuo, inofensivo ou impotente. 
Não bastando centrais de propaganda privadas, arregimentações dos advogados mais eficazes ou a bonomia de comunicações sociais nacionais por inteiro, ainda há quem pretenda ter (…que terá!) a sua lança numa Europa decrépita e indolente que lhe ampare as costas a escrutínios legítimos e justificados.

Mas a consciência nacional só se sentiria abanar por estas avarias nos seus pilares profundos… se pilares tivesse. Se não se mantivesse doentiamente assente sobre dois ou três pilaretes, num crónico equilíbrio precário e circense.

Uma Vela

Ao lado das palhaçadas que se assinalam hoje, realiza-se à noite pelo País uma velada (que termo tão pateta…). Uma de uma sequência que vem tendo lugar.

…Pelos milhares de vidas interrompidas desde a benévola entrada em vigor da alterada Lei do Aborto a 15 de Julho de 2007.

Vão agora a caminho de 30.000.

Bati-me muito, nessa altura, dentro dos limites dos meus meios e da minha contenção, contra o que considero ainda ser um daqueles produtos culturais de consumo imediato que caracterizam a triste civilização hoje – e contra os quais me indigno.
E mantenho a mesmíssima posição.

Dizia eu, então, sobre o dia seguinte ao da derrota pessoal que senti no referendo realizado:

Quem se ouviu na noite de 11 exigir aos “governantes” deste Estado alternativo as condições sociais, profissionais, financeiras, familiares e afins, que sustentem a gravidez de uma mulher portuguesa?
Que lhe permitam escolher. Encarar o seu futuro.
Que a resgatem do aborto – o tal mal indesejado – que candidamente se lhe oferece.
Quem se ouviu dizê-lo alto? Ninguém. Absolutamente ninguém.

Os “do poder” não se arriscam. Isto é, não se comprometem.
Os “das franjas” querem mais. Mais um voto aqui e ali. Hoje, já, que o tempo corre.

O aborto clandestino, que agora se normaliza, nunca foi o problema.
Nem as condições do fazê-lo.
Nem a pena a sujeitar-se mulheres para ele empurradas.
O problema é O ABORTO. Sempre foi e há-de ser. O drama, o perigo, o inimigo.
E a questão vertical – que nunca teve resposta porque nunca se perguntou – seria o que há a fazer para que ele nunca aconteça. Para que nunca seja a saída.

…E repito cada palavra.

Denunciava a hipocrisia e a inconsciência.
De nos permitirmos discutir e isolar pormenores do horror, simulando que por isso ele deixasse de o ser ou se tornasse aceitável.
De nos permitirmos mesclar (por vitória dos discursos ou por mera displicência) – num caldo fétido de horror – o que de mais maravilhoso a vida encerra em si: o legado generoso da sua continuidade.
…Despromovido de súbito a espécie de incómodo de uma civilização.  

Vi de novo, ainda há dias, o belíssimo A Lista de Schindler. O tal que foi aplaudido. O tal que ainda é mostrado piamente aos nossos jovens, como papão pedagógico face aos perigos iminentes para a liberdade do mundo.
O tal filme que tinha como tag: “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro.”

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…Mas isso não deve interessar.
Hoje, aqui, neste contexto.

Por isso fica uma vela, de tristeza e pouca esperança.

Os Filhos da Puta

…ou A Véspera do 25 de Abril 

O R. não teve culpa.
Esteve na rua errada quando alguém era atacado por um bando de selvagens e pretendeu intervir.
E daí não saiu bem.

Foi a pior das escolhas. Na sociedade porca que temos, os actos de nobreza e bravura escorrem como lixo solto varrido em aluvião para a sarjeta da indiferença. Para mais, os de um miúdo.

Mas nem os selvagens cobardes tiveram a culpa a sério. Umas bestas sem cabresto, bichos mal domesticados.

Culpados?, os Filhos da Puta coveiros de um Abril que nunca chegou a ser nem se deixará chegar. Todos! Todos, todos eles.

Todos os que evocados, invocados e convocados às exéquias anuais da nossa “Revolução” desfilarem este ano mais uma vez em infindável maratona encenada.

Todos os que, à nascença, tentaram subverter o princípio puro e simples do viver em liberdade, querendo colonizar à força o País e o bem-comum.
Todos aqueles que, depois, por tíbios e incapazes não sonharam à altura de um Sonho prometido, nem agiram à altura da História de uma Nação.
Todos, por fim, os que hoje, num País podre e estagnado, vão impingindo cartilhas, atamancando respostas, simulando-nos saídas, arrebanhando sentires para sua promoção, predadores do que resta, coveiros de um Abril que nunca chegou a ser nem se deixará chegar.

Filhos da Puta, hoje, todos, aqueles que dão corpo e textura à camada grassa de sebo da nossa democracia. E que assim a vão mantendo, porque tal lhes aproveita.

Todos os que brincam e gozam no recreio da política com as vidas de quem paga.
Os que têm as mãos sujas do hipotecar a Nação, tanto ontem como hoje. Os que não lhe deram progresso nem lhe dão educação. Os que não lhe dão a regra porque numa selva sem lei mais imperam os tiranos.

O R. não teve culpa de ser nobre e ser ingénuo. De um lado o seu feitio, de outro a sua idade… – nenhum digno de censura.
Mas nem os selvagens cobardes. Que numa terra normal, da decência e consciência, sofreriam quarentena do convívio dos humanos – atendendo à primazia da segurança e da paz – para mais tarde poderem, recuperados, completos, voltar à vida comum, com tudo que têm a dar.

Acuso os Filhos da Puta que olham a sociedade como enorme variável dos seus planos pessoais.
Acuso-os de não nos levarem – cegos e enfileirados – a caminho de coisa alguma.
Acuso-os de delapidarem, vis, grosseiros, debochados, a Educação de um povo e um futuro por inteiro.
Acuso-os do mal repetido que se tolera em desleixo.
Acuso-os de provocarem a perda e simularem o seu espanto.    

Ontem, véspera de feriado do Dia da Liberdade.
Hoje festança e orgia.
Não é assim que eu os sinto. Nem os que conhecem o R.

…A quem dou o meu abraço.

Coincidências

Ah, que bom! O PS admitiu que a propósito das “Europeias” se fale de “assuntos nacionais”…
Que bom! Assim já se podem fazer campanhas totalmente democráticas, sem ninguém com receios de ir contra a voz do dono.

Que ternura!…

Por falar nisso, encontrei uma foto inédita – que partilho convosco – do recente abraço de Vital Moreira à causa de Sócrates. 
…Que fôfo!

  

Xutos Para o Canto

Tem piada. Precisar de chegar a esta idade para começar a gostar de Xutos & Pontapés.
(Que em verdade, não foi bem o que aconteceu.)

Fizeram sair o último álbum – chamado originalmente… “Xutos & Pontapés”…

… – e finalmente decidiram-se pegar – mesmo que de leve – o boi pelos cornos.

Falo de uma tendência para a música portuguesa (e arte, em geral) viver castrada perante a realidade em que se desenvolve. Num silêncio incomodativo da parte de quem deveria por conceito deter a máxima sensibilidade ao pulsar da sua sociedade e dá-lo a ver. (“Silêncio” quando não romance ou vida de cama com os poderes instalados.)

Que os Xutos agitaram.

No álbum ouve-se o tema “Sem eira nem beira”.
Que fala de um “engenheiro” a quem se pede um bocadinho de atenção.
Que refere esta “merda” que não muda.
Que acusa os ricos de saírem impunes e os pobres nem por isso.
Que denuncia a roubalheira que impera em Portugal.
Que fala das cumplicidades.
Que lamenta a falta de mudança de mentalidades – que não chega.

…O que já não é mau.

Finalmente – no seu Português de estivador e numa canção que enfim… – a banda assume que é capaz de fazer o que já se faz muito mais e muito melhor em países mais democráticos: os durões roqueiros serem um bocadinho mais contundentes com quem devem do que simples passeios em Festas do Avante e outras tretas de corte e reverência.

Por este rasgo, parabéns.
Subitamente – por uma vez – o País vê a possibilidade de pôr no canto o que lhe vai dentro. Que é tão rara.

Xutos & Pontapés
“Sem eira nem beira”

Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um “passou bem”

Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar, despedir
Ainda se ficam a rir

Eu quero aquerditar
Que esta MERDA vai mudar
E espero vir a ter uma vida bem melhor
Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer

É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir

Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar, a enganar
O povo que a
querditou

Conseguir encontrar mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Mais força para lutar

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a FODER

Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a…

Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Dê-me um pouco de atenção

O Arcanjo. Mas, Por Partes…

Rodava ontem na TSF o escândalo de o PSD ainda não ter apresentado um candidato às europeias.
E o assunto tanto me interessa que acabei por lá ir dar – mais uma vez – o meu bitaite.

Comecei por achar totalmente irrelevante a questão em particular.
Isto da “corrida” de quem chega primeiro e bate com estrondo a lista no balcão do Tribunal Constitucional, é  próprio de um Portugal-taberneiro que não será o meu.

Para mais, como o disse no Fórum, bastava ao PSD apresentar o Manuel Luís Goucha à cabeça da lista e ganhava as eleições. Ponto; embrulhe que é para levar; venham as próximas! Não nos esqueçamos do País que temos e do povo que somos.
(Entretanto apresentou Paulo Rangel… e está lixado. Culpa apenas sua.)

Quando o PS apresenta o comunista-convertido Vital Moreira (dado curioso que escapa à perfeitamente limpa de referências políticas e bem arrumada biografia oficial da página da candidatura), dá-me mais que pensar.

(Falo de Vital Moreira. Ou, como também é conhecido, “Utael” – espécie de um nome de arcanjo inventado: em sânscrito, “O meu Senhor é uma fera”. Ou, para ser milimetricamente exacto, “Utael-uuuuuu-amálgama-com-aquele-traço-horizontal-por-cima-típico-da-palavra-Moreira”.)

Vital Moreira, que agora apresentou um livro reader’s digest de 10 anos dos seus próprios escritos sobre a Europa, é figura de proa de uma campanha. Mas uma campanha muito maior que a pindérica “campanha das europeias”.
E é isso que é preocupante.

Se há tempos andei a ganir neste blog, como cachorro à chuva, pela esmola de uma vez na vida ser ouvido no contexto da pilhagem nacional, não vou agora calar-me perante a festa da candidatura do Arcanjo Utael.
(…E do seu Dupont Rangel.)

A sacola de asneiras – que os latinos diziam que carregamos às costas e ignoramos porque à frente apenas trazemos pendente outra com as nossas qualidades – que eu censuro ao Arcanjo Utael pode ser procurada e facilmente encontrada na net.
Quem quiser procurá-la, encontra-a. (Quem não quiser, pergunto-me se chegará a ter justificação para continuar a ler este post…) Que vá ao Causa Nossa, o blog que o candidato partilha com figuras de relevo da República como Ana Gomes.

Um empurrãozinho?…

Escrevia o senhor a 17 de Junho de 2008, sobre a nega irlandesa às pretensões transformistas do funcionamento da União “aprecio em particular a proposta de sufragar – por ocasião das eleições ao Parlamento Europeu em Junho de 2009 – o projecto de um Acordo, Mas, atenção, sufragar um tal acordo não significa sufragar este Tratado: neste cenário caberá aos partidos políticos apresentar programas eleitorais […] que os vinculem claramente [ao] Tratado de Lisboa [porque] defendem a aplicação do Tratado de Lisboa – se necessário a 26.
Ou seja, os nacionais dos vários países da União tinham mais era que ver passar o combóio dos cozinhados nas altas esferas da política europeia e dizer humildemente “amén“. Depois, mais tarde – tarde demais, entenda-se – lá poderiam opinar se achavam bem que Portugal corresse atrás do combóio em andamento ou ficasse no cais.
…Numa sinistra lógica de acto consumado, de chantagem política, de “quem não quer, larga” tão ao estilo de algumas cabeças socialistas.
Porque, segundo Utael, “o referendo [do aborto] ensinou-me a não fetichizar os referendos. É que nem 50 por cento dos portugueses se deram ao trabalho de ir votar… Como que a lembrar aos homens políticos – ‘vocês são eleitos por nós para decidir’. Eu, por mim, assumo essa responsabilidade.
Ora é essa horrífica perspectiva, a de senhores como ele fazerem o “sacrifício” de asumir o fardo de decidir pelos portugueses em matérias em que objectivamente há pessoas – e muitas – que põe pés à parede perante o rumo dessas “decisões legitimadas” de uma classe política tão benemérita mas corrompida por diversíssimas seduções.

Sobre o desenrascar do “problema” irlandês e a possibilidade de enfiar boca abaixo aos irlandeses novo referendo, dizia ainda nesta data: “não há nada de antidemocrático nisso. Se fosse em Portugal, o mesmo referendo poderia ser convocado já a partir de 15 de Setembro. E é evidente que os eleitores podem mudar livremente de opinião.” Pois, só que “esse” referendo, em Portugal, NÃO ACONTECEU!, também por culpa sua!

Mas não ficou por aqui.
Dias antes escrevera, no contexto da nega irlandesa, que “[auscultados,] somente 8% dos eleitores declararam ter ‘um bom conhecimento do Tratado’ (e pelo que se conhece da sociologia das sondagens, esse número deve pecar por excesso). Mesmo assim, cerca de 65% dos inquiridos acharam que podiam votar a favor ou contra. […] O que não é racional é submeter a decisão popular matérias que, pela sua manifesta complexidade, a generalidade dos eleitores não pode razoavelmente compreender. […] A oposição ao Tratado jogou explicitamente na ignorância. O seu principal slogan era ‘Vote Não porque você não sabe.’
Ao melhor nível – por exemplo – de uma sólida formação soviética, os “ignorantes” (ou seja, “toda a gente”) devem ser poupados ao confrangedor espectáculo de serem ouvidos e darem as suas patéticas opiniões. É para isso que servem os “intelectuais”, os “educadores do povo”: informados e ilustrados, e por isso quasi-infalíveis. E por isso inquestionáveis.
Fora de questão está, como é óbvio, INFORMAR, sobre aspectos fulcrais de uma vida QUE LHES DIZ RESPEITO, os pobres dos ignorantes… Para depois os chamar a participar nas decisões sobre o seu futuro.
Abençoados os que saíram à rua na Irlanda para dizer aos eleitores mais descontraídos: “Se não sabem, não saltem no escuro.” Porque é precisamente disso que se trata!

Que esta coisa do “Nós, europeus” faz-me lembrar um texto engraçado que li, estudante, sobre as maravilhas da educação colonial – neste caso no Norte de África francês.

Descrevia uma situação em que miuditos negros – “pieds noirs” magrebinos – liam e recitavam à volta de manuais escolares os feitos dos “nos père, les Gaulois“, “os nossos antepassados, os Gauleses“.

É neste ponto em que estamos, mais ou menos.
Quando Utael fala do “nós, europeus” sinto-me de imediato (considerado) um miudito de um território estrangeiro, a quem por força recitam histórias fantasiosas, que querem forçar a replicá-las e a aceitá-las como uma espécie de reescrita da sua própria história e identidade.

Armado em Malcolm X (olha para o que me havia de dar!…) diria eu que não aterrei na Europa, “esta” Europa aterrou sobre mim.
Uma “Europa” cada vez mais hostil, que não sou forçado a aceitar. Ou sequer a tolerar como se me insinua.

E nesta batalha angelical, em que farei fatalmente parte dos errados e dos malditos, lutarei com todo o gosto.

Sumo Artífice

Por definição, um Papa é um bom alvo…

Para começar, o Papa é um velho – pelo que, nos dias estilizados que correm, não devia sequer ter o descaramento de desfilar a sua inestética figura na passerelle mediática do mundo ocidental higiénico e eugénico, quanto mais de impingir a sua visão do mundo, datada e arcaica, própria da cabeça de um velho.

Depois, o Papa é um estrangeiro – portanto não tem que meter o bedelho no que se passa na minha rua, opinar sobre o meu viver; não me conhece de lado nenhum, não conhece o que está à minha volta, as regras do agir no contexto em que eu ajo; é uma figura intrusiva e excedentária.

O Papa fala numa língua ininteligível – apesar de articular todas as línguas do mundo, exprime-se em conceitos e em absolutos, quando eu não vivo sob conceitos nem absolutos, mas ao compasso do momento, e tudo à minha volta marca o ritmo da dança das minhas circunstâncias; que podem maniatar-me mas tornam a minha vida vivível: o que temo, o que amo, o que desejo, o que tenho, o que perco, onde vou, onde estou, o que sou neste preciso instante, rodeado por detalhes; o Papa vive numa dimensão paralela.

O Papa está à frente de uma Igreja e ensaia por isso limitar o meu livre livre-arbítrio à sua medida – pretende colonizar com a sua presença e a sua mensagem a minha cabeça, arrombando-lhe as trancas da razão para nela se plantar e florescer; pretende entrar na minha cabeça e no meu intelecto (a que ele insiste em chamar “a minha alma”);  e ninguém gosta que se lhe pregue morais que lhe atrofiem as “liberdades”.

…Sendo que anda sempre vestido de branco no meio das pessoas normais, o que – para além de não ser normal – lhe remata o perfil e o põe mesmo a jeito.

Refiro-me “ao Papa”. Qualquer Papa.

E é fatal, numa irremediável contradição de termos, que quanto mais fiel “o Papa” for aos princípios que a sua Igreja lhe exige que defenda – e que se comprometeu a propalar – mais exposto esteja ao inevitável libelo do mundo transitório a que se dirige.
De onde resida a sua coerência lhe virá a dificuldade em explicá-la.

“O Papa” – por ser tradicionalista – será sempre um entrave a um desenraizado pensamento “moderno”.
“O Papa” – por ser moralista – será sempre um entrave aos comportamentos “liberais” e libertários amoralizantes.
“O Papa” – por ser espiritualista – será sempre um entrave ao resvalar da atitude hedonista e material.
“O Papa” – por ser universalista – será sempre um entrave ao discurso casuístico, circunstancial, relativo e auto-justificativo.

Mas assumamos abertamente que o encaixe que as palavras do Papa conseguem no íntimo de cada um não depende de cumprirem mínimos de nenhuma espécie de razoabilidade genérica que transportem e que permita validá-las: o seu encaixe decorre maioritariamente de uma predisposição individual prévia para que em cada um elas façam ou não eco.
Salvo momentos de electrocussão mística (em que não acredito muito…), o sumo artifício de fazer chegar aos homens uma particular mensagem reveladora e salvífica depende da predisposição residente em cada homem para se auto-compreender e para se auto-suplantar.
(…Que, diga-se, não depende da intersecção de qualquer religião ou liderança espiritual para se manifestar de forma positiva na vida de cada um.)

Devo admitir que não simpatizo pessoalmente com a figura de Bento XVI, Joseph Ratzinger. (Todos nós funcionamos assim…)
O Homem que me habituei a respeitar em João Paulo II – o Karol Wojtyla-cidadão do mundo – ainda não o encontrei neste Papa. A afabilidade, a humildade, o esforço, o exemplo…
Precisará de tempo? Precisaria de ser outro homem? Será só pelo seu semblante sinistro? Não sei.

…Mas não simpatizar com ele não me impede de estar aberto às suas palavras, de reflectir sobre elas e de lhes encontrar uma eventual razoabilidade.
Como aconteceu durante a recente polemiqueta dos preservativos.

Disse Ratzinger que o problema da SIDA em África não se resolve só com dinheiro (que também é importante) se não houver esforço, se os povos africanos não se empenharem, que o flagelo não se resolve com a distribuição de preservativos, o que só vai piorá-lo“.
(…E porque nestas coisas cada um diz que se disse que disse, aqui fica o momento.)

Sendo que considero totalmente certo o que realmente foi dito.

Para poupar conversa, deixo de parte a argumentação “científica” que envolve a temática.
Como na anedota do contabilista, isto dos “estudos” vale o que vale e se há gente a arrancar cabelos devido ao absurdo científico da – assim lida – posição do Papa, também há quem afirme peremptório que não foi de todo uma baboseira o que ele disse.

Eu fico-me pelo senso comum.
E é neste pé que acho muita graça ao sururu levantado quer em Portugal, quer pelo mundo fora, chegando às mais altas instâncias, por gente lampeira que na dança de cadeiras do protagonismo do progressismo tudo fez para não ficar fora da fotografia.


Segundo o senso comum, somos convidados a ouvir bem o que se nos diz antes de sentenciar sobre tal.

O Papa usou o vocabulário do combate sério para parar a SIDA, nomeadamente da parte dos próprios africanos, dizimados como moscas pela propagação de uma doença mortal não transmitida de forma desconhecida, inevitável ou sequer inadvertida, mas através de estúpidos comportamentos de risco em que se persiste.
(África conta neste momento com quase 70% dos infectados com SIDA de todo o mundo, com clara tendência para piorar.)
Não falava de métodos paliativos ou placebos estatísticos.

E não há dinheiro (como o Papa disse) nem descargas de preservativos (como o Papa afirmou) sobre África que se oponham de forma eficaz e a prazo ao devorar de vidas por este genocídio, enquanto não houver uma mudança de comportamentos que o esvazie.
E apostar em paliativos – isso sim – é não só uma irresponsabilidade como uma brincadeira.
É uma brincadeira pretender que a introdução de um gadget manufacturado de importação venha resolver o dilema de uma população entalada entre uma desinibidíssima atitude cultural perante o sexo – independentemente de idades, estratos sociais ou credos dos seus elementos – e a morte que lhe chega através dela. É uma brincadeira pretender que é o uso quotidiano ou não do preservativo que dita o risco de contágio pelo HIV e não a manutenção de hábitos pouco menos que suicidas.

Ainda se vislumbra ao longe aquele gag genial do Jerry Seinfeld sobre o capacete…

…Dizia ele que era uma prova de que o Homem não é assim tão esperto, já que não desiste de actividades que eventualmente lhe partem a cabeça, tento inventado um objecto que lhe permite evitar parti-la tanto sem abdicar do estilo de vida em que arrisca parti-la.
E que a obrigação do uso do capacete é ainda mais estúpida, já que se destina a proteger compulsivamente de se partirem cabeças cujo discernimento não permite perceber o perigo de comportamentos que arriscam parti-la, e a que afinal não conseguem renunciar…

Quando a Conferência Episcopal Regional da África Ocidental – que representa uma Igreja que não é de papel mas está no terreno diariamente com as vítimas da miséria em África – se pronunciou sobre esta polémica fê-lo de forma contundente. (Cf. Texto integral.)
Falou da manipulação descarada dos media das palavras do Papa, deliberadamente transformada de  mensagem global em patética “Guerra do Preservativo”.
Falou da degradação moral que grassa e com que se prefere condescender e fomentar a corajosamente denunciar e afrontar.
Falou do comportamento nauseante dos que pensam e falam pelos africanos, julgando que através do paternalismo mais os ajudam que chamando-os à sua responsabilidade individual e colectiva.
Falaram da importância da visita e da intervenção do Papa. Do seu apelo à dignidade e ao amor, como caminhos para o desenvolvimento de África. (…A que se juntaram nevrálgicas denúncias de corrupção de Estado, esclavagismo, neocolonialismo, fome, tráfico humano, guerras de conveniência, tortura ou lavagens de dinheiro existentes naquele continente, acrescento eu. Que até nem simpatizo muito com o senhor.)

em tempos me afirmei pelo preservativo. Como meio de evitar (ou evitar disseminar) a morte e o sofrimento.

Não faço é confusões. Entre o diminuir o risco de comportamentos ou diminuir os comportamentos de risco.

E se o campeão africano no combate à SIDA continua a ser o Uganda, que com a “Política A-B-C” reduziu o avanço da doença em dois terços, não são conversas fiadas que convencem sobre a eficácia a longo prazo de estratégias de intervenção imediatistas e mediáticas.

Se o problema em causa não fosse profundo, global, civilizacional, se o preservativo tivesse os poderes mágicos de eliminação, resolução ou sequer contenção de uma maré-SIDA, não existiria uma – já chamada – epidemia da doença em Washington. Capital do Mundo Ocidental, evoluído, instruído e adequadamente preservatizado.

Ironias… E alertas. E uma evidente urgência.

..E Fez-se Luz.

Duas notícias…

…Um País.

Que trata dos seus sem-abrigo.
Uns mais que doutros.

…E eu bem preocupado que venha a desmentir-se.

O Poder Absoluto

fahrenheit451

Vivemos tempos gloriosos.

Do global e do paroquial.
De conforto e de violência.
Do aparente e do grotesco.
De informação e de opacidade.
De promessa e de decepção.
De liberdade e de clausura.

Li com espanto no Hora Absurda que o blog Perspectivas pode ter sido obrigado a fechar portas no WordPress por acção de mão invisível.

…E já não seria a primeira vez que o OB veria interrompido o seu clamor no deserto, contra inimigos visíveis e invisíveis de um estar na vida e na sociedade hoje proibido pelo pensamento único do Estado Global vigente.


Acabou de passar o Dia Contra a Ciber-Censura.
…Que passou mesmo. Com estertor.
E o combate perdura. Contra os poderes a quem interessa manter a net sob a redoma do silêncio, detrás do biombo da publicidade.

Depois li no blog em questão que o WordPress culpou um bug por se ter queixado de “preocupação sobre algum do conteúdo do blog“.
E que foi resolvido.

Ainda bem que tudo volta aos eixos.
E que o maléfico “bug” foi derrotado.

Mas a praga de bicharada contiunua aí. Alguma dúvida?