O Bom Coração

Chegou-me por mão amiga há pouco uma petição que corre na net.
(Mais uma! Que povo mole como somos pelo menos na net petimos até mais não, é por tudo e é por nada.)

…Uma petição que comove.

Os atentos devem ter visto que o Bloco de Esquerda reuniu aí há dias em Lisboa as suas tropas.
E que foi um espectáculo e uma (nova) consagração do guru Louçã à frente de um partido que – tal como o PP – insiste até à morte que não é um one man show.

Mas só os mais atentos devem ter ouvido que a Joana Amaral Dias foi corrida da Mesa Nacional do partido.
(Adoro os nomes pinocas que estas coisas têm… Soam a country club ou a corte de Luís XV, e pertencer a uma coisa destas deve ser assim do outro mundo…)

Parece que a rapariga andava a faltar aos treinos – ainda que refira faltas justificadas.
…Enquanto que “tem tido uma presença regular nas televisões e em colunas de jornais, como comentadora política“. (O que o partido “valoriza muito“, atente-se!)
Parece que não há mais lugar para ela – afinal a Mesa Nacional do BE só tem 80 lugares disponíveis! Ela, que foi Mandatária para a Juventude na última – e inacreditável – campanha presidencial de Soares, contra o próprio Louçã. Quando no BE aparecem vozes a dizer que se calhar também lá não se pode falar de tudo com toda a gente…

O que levou a rapariga a “ficar surpreendida“. Como qualquer um, afirmo eu! (E triste, acrescento!…)

Daí a petição que corre com o seguinte texto:

”      Querem afastar a Joana Amaral Dias da nossa vista e dos nossos corações, querem silenciar a mais bela alminha que passeou pelos Passos Perdidos, querem castigar o único elo em comum que temos na politica portuguesa com a Ministra da Defesa de Zapatero, a Ministra da Família de Berlusconi ou a Primeira Dama de França. Não o podemos permitir!
Contra este atentado à liberdade, contra esta ofensiva às conquistas de Abril, contra este lápis azul sobre a igualdade, a paridade e a beleza no exercício da politica em Portugal vimos por este meio pedir aos senhores dirigentes do movimento/partido politico denominado por Bloco de Esquerda que mantenham Joana Amaral Dias nos orgãos nacionais, se possivel como porta-voz e mantenham Joana Amaral Dias nas listas à Assembleia da República.
Em nome da sanidade mental, em nome do combate à crise, em nome dos telespectadores da AR TV, em nome de Marx, Engels, Trotsky, em nome da liberdade,da igualdade e da fraternidade, em nome de Portugal.”

Ora – fora os evidentes problemas com a pontuação do seu autor – ninguém de bom coração pode rejeitar apadrinhar estas linhas, escritas trémulas de soluços, com o sangue solidário de quem sofre.


É uma causa nacional!  Uma urgência social! (Coisa para aí da envergadura de ir dar sangue de bandeirinha na mão pelas almas do IP3, junto ao carro das compras em Domingo de Banco Alimentar, um quarto de hora antes de ir adoptar um cão pulguento ao canil.)

É certo que a rapariga é Bloqueada. E que tem muito mau feitio. E que tem uma pose um pouco gazeada, de quem parece sob efeito de alguma coisa com fins medicinais… E que se limita a achar, a dizer e a fazer ou o que se prevê ou o que manifestamente é uma bacorada – isto, claro, até em virtude das características atrás explanadas…

Mas eu já assinei.

Lembro-me que fiquei muito feliz com a troca na política televisiva pela Odete Santos e não quero agora parecer ingtrato…

ASSINA TU TAMBÉM!

Juntos, em todo o País, já somos… quase 100. (Incluindo os alarves que entram em qualquer lado só para simular o uso da Língua Portuguesa e uma espécie de educação que alguém lhes deu.)

Mostra o teu lado desinteressado e solidário. Mostra o teu bom coração.

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A Dimensão de Si

Sempre achei muuuuuuuito conveniente aquela “aliança” PS-BE na Câmara Municipal de Lisboa.

(Sou o último à face da terra que pode – como tese – escrever contra entendimentos partidários de gestão – pelos magníficos resultados que atesto que podem daí resultar – mas há coisas mesmo muuuuito giras.)

Após uma eleição autárquica intercalar que não correreu tão bem assim ao PS quanto os festejos finais fariam crer – é certo que afastaram Carmona Rodrigues; é certo que apagaram do mapa o candidato-de-papel Fernando Negrão; é certo que o PCP-CDU foi prescindido – foi necessário arranjar um complemento vitamínico para o arranque do executivo acabado de mandatar.
O testemunho recebido era pesado, a intenção – como se vê hoje – não era bem bem revolucionar o funcionamento da edilidade num mini-mandato politicamente intimidador e havia que criar condições de… gestão. Mera gestão.

E que melhor solução para garantir esta paz?
Comprar ao preço do mercado o maior eventual foco de formigueiro político, Sá Fernandes, que é como quem diz: o Bloco de Esquerda.
(…Que por “formigueiro” se entende “não-parar-quieto-sempre-a-melgar” e não forçosamente “não-parar-de-observar-pertinente-e-construtivamente-lacunas-e-propor-soluções-alternativas”!)

“- Toma lá o Ambiente, os Espaços Verdes, o Plano Verde e vê se te calas…
“- Ó soudoutor, pulamordedeus, obrigadinho.

Um cartaz populista...

 

…e um populista à boleia do cartaz.

 

 Mas “o Zé” não explicou para que fazia falta, quem o quis comprar não procurou perceber e o dito não procurou explicar.
O que resultou num casamento de absoluto sucesso. Atesta-o o sucesso nada menos que milagreiro do exercício do executivo em funções.

É que numa espécie de Midas Selectivo, Sá Fernandes tanto toca e apodrece como toca e purifica.
(Longa escola de theoria e praxis bloquistas…)
…Mística arte neste momento ao feliz serviço da CML.

Recordo quando, em Abril de 2007, no momento da inauguração do famoso Túnel do Marquês em Lisboa, Sá Fernandes continuava perante as câmaras a sua descarada campanha de auto-promoção…
…Após a famosa providência cautelar que suspendeu a obra – menos os seus custos – durante sete meses e custou aos munícipes uns 4 milhões de euros
(Convindo que, apesar de tudo, o número de circo foi certeiro, já que lhe grangeou hoje o lugarzinho no pelouro que tem!)

Recordo que como tipo humilde e desapegado dizia então o senhor: “A razão de estar aqui hoje é principalmente para dizer aos cidadãos para andarem muito devagar, numa descida muito perigosa“.
Como bom cidadão que é, amigo do seu amigo, bom crist… bem, cristão se calhar não, mas provavelmente um indivíduo muito bonzinho.

…Declaradamente um arrivista, um alarmista, um populista. Como até ao presente – o Diabo seja surdo! – a superlativa perigosidade do Túnel veio a comprovar-se. 

Mas não esquecer que o dom do toque funciona em dois sentidos.
Toca, destrói. Mas também toca, alivia.

Há dias, dizia o senhor com a lata dos desavergonhados, após ter caído uma m®dit@ de uma chuvada de meia hora que ia afogando Sete Rios – que os próprios bombeiros e munícipes atribuíram em boa parte à falta de limpeza de sarjetas e demora de intervenção no momento – que “Se chover muito este Inverno vai haver aborrecimentos em Lisboa“.

Toca, alivia.

O que “antigamente” se chamava “caos” provocado pela chuva, hoje é um “aborrecimento”.
O que “antigamente” se chamava “inundações”, hoje é capaz de estar aí para umas “maçadas com águas”.
O que “antigamente” se chamava “perdas materiais” resultantes de “cheias”, hoje devem ser para aí uns “imprevistos” ou uns “contratempos”…
…Tudo graças àquele toque milagroso e subtil que tudo resolve.

Sei que o senhor chegou à Câmara há meia dúzia de dias. Mas se ninguém o forçou para lá, tinha obrigação de só ir se levasse consigo soluções precisas que não o tornassem – mais – um inútil lá dentro.

E muito menos tolero este tipo de discurso.
Adoro esta raça de gente.
Os certos. Os correctos. Os infalíveis. Os exemplos.

Não me esqueço de uma inacreditável reportagem que vi, em Março, encomendada por alguém à televizão Al-Jazeera, para as Eleições Intercalares de Lisboa, sobre esse tal Sá Fernandes.
(…Al-Jazeera, satélite, imigrantes, voto, BE… Got it ?)
Sá Fernandes, herói de Lisboa…
Porque é mesmo disso que falo.

Dessa insuportável superioridade moral que uma certa fauna política traz sequestrada por trela e desfila na rua.
– Uma fauna política que só através de uma gritante perversão dos fundamentos da democracia logra que esses mesmos fundamentos a tolerem a protejam e até beneficiem. –
Uma insuportável fauna política sem a elementar noção material da dimensão de si – que não é subjectiva. Que se afere friamente pela versão do voto popular em autoridade social.
Uma fauna política que cultivando o sortilégio de uma superior autoridade moral latente, se escusa às regras universais da democracia e se refugia numa retórica fundamentalista que, por fundamentalista que é, alguns seduz.

Já o disse muito e repito-o: a política é tendencialmente porca. E quem nela se move e não pretende sujar-se, submete-se a um esforço permanente e atroz para continuar distinguindo-se de alguma paisagem.
Mas mais porco que o porco é a presunção de uma superioridade por atestar e o seu festival mundano. Porque lhe acresce a estupidez. Atributo para além de feio de certa maneira evitável.

 
[Publicado no Canto Aberto.]

Somague Parte I – Três Tristes Tretas

Escandaleira nacional: a Somague andou a pagar contas de campanha ao PSD.
Posto de forma curta e grossa.

Escândalo para os que olham o PSD como “partido fundador da democracia” (…e histórias da carochinha dessas) e porque a Somague é uma empresa de respeito da nossa praça – como é que se admite acontecer um descalabro destes?…
Escândalo para os que já vêem há muirto tempo a política portuguesa como uma rameira pouco asseada, de quem tanto estas práticas como outras que andem acoitadas não são senão naturais e previsíveis, encontrando-lhe refundados motivos de censura e desprezo.

Eu situo-me entre as duas perspectivas.
Tanto me merece respeito a instituição PSD (caso contrário não me respeitaria a mim mesmo) como à partida qualquer entidade individual, colectiva, pública, privada, nacional, estrangeira – por um elementar princípio de humildade cívica…
…Como – fruto da idade? – já não é de hoje uma profunda desconfiança que nutro sobre todas as interacções sociais e políticas, que desembocam amiúde nestas e noutras brincadeiras.

Acontece apenas achar que, invariavelmente, a notícia é outra.
Que a palhaçada, a sê-la assim reconhecida, mora noutro lado.

Para os mais mais alheados, três recortes de imprensa, à laia de ilustração, para enquadrar a coisa.

Recorte 1. Licí­nio Bastos detido no Brasil por suspeitas de corrupção, agita as águas do rectângulo, financiador que foi da campanha de Aní­bal Araújo, empresário socialista, como deputado do PS no circulo Fora da Europa, nas legislativas de 2005.
(…E tendo cedido instalações para uma sede da campanha presidencial de Cavaco Silva – por quem foi já condecorado.)

Recorte 2. Quatro mil donativos ao PP em 2004, passados só em 2005 por dois funcionários do partido arguidos no inquérito-crime «Portucale», não tinham nem nomes de gente real, nem identificação fiscal dos doadores, o que equivale a dizer que não têm rasto de origem.

Recorte 3. Suspeita-se que na festa partidária mais participada do País (pelo menos do continente…) possa haver ocultação de receitas. Talvez os euros ganhos pelo PCP nas febras, nas bandeirolas e nas t-shirts do Lenine na Festa do Avante não estejam afinal todos descarregados no livrinho de mercearia.

E mais uma Somague a compor o ramalhete…

Ora, e como é que isto ilustra a pobreza de mentalidade portuguesa? Em que é que isto faz luz sobre o caminho?
Decerto não pela via popularucha de café e esquina de “apertar com eles”, de “cadeia” e cacete, de endurecimento da legislação eleitoral, de financiamento dos partidos e de exercício de cargos públicos.
Para isso, teríamos de ter a montante uma opinião pública que verdadeiramente censurasse as más práticas – quando somos civicamente um povo de bananas e de amorfos – e um sistema de justiça que garantisse a implacável aplicação dos preceitos – não uma justiça-peneira de malha larga, permeável, conivente, amesentada, criminosamente negligente ela mesma.

A solução está à vista e chama-se transparência.

Se o nosso País não adoptar um sistema próximo do americano no que diz respeito à publicidade da esfera de influências em que se move a política, jamais se auto-regulará como podem prever exemplos decalcados à marreta de países civilizados.
Só a obrigatoriedade de divulgação dos “lobbies” que intervêm na vida política por via do seu financiamento dá uma mínima garantia de mudança de rumo.
Não colocando o enfoque na enganadora, manipulável e envergonhada contabilidade, mas forçando uma mentalidade de abertura, frontalidade e coragem na atribuição e aceitação de apoios. Escrutinável à luz do sol pelo cidadão atento.

Quem foram os financiadores queques de um PP populista e extremo? Quem foram os financiadores de um PSD e de um PS “partidos de poder”?, o que deram?, quanto? e em que momentos? Quem e como contribuiu para o cescimento de um PCP “latifundiário do imobiliário”? Quem foram os surpreendentes pais financeiros do único projecto parlamentar de extrema-esquerda da modernidade democrática portuguesa, chamado BE?

Nenhuma destas questões pode já ter resposta cabal.
Mas o futuro vai ainda a trempo. Se ao acabar com o jogo de escondidas acabarmos com as suspeições e em grande medida com as jogatanas.

Claro que podemos passar o resto da nossa vida tal como estamos.
E até acharmos que estamos bem. (Como o acham os próprios partidos.)

Mas a continuarmos assim, a única exclamação legítima saída da boca de cidadãos com alguma consciência e pudor, perante estes e tantos outros casos que hão-de seguir-se não será outra que: “Só!…”

Batem leve, levemente…

Alguém viu esta notícia?

Segundo ela, o consumo de “drogas leves” “pode conduzir à amputação de membros ou mesmo à morte celular contínua“.
É o que afirma Armando Mansilha, um português a coordenar o “European Registry of Training Centers”.
O professor e investigador da Faculdade de Medicina do Porto afirma que o consumo deste tipo de drogas actua “de forma lenta mas progressiva“.

Essa é a parte fácil de perceber.
Difícil de perceber é nesta notícia a conjugação de palavras “Contrariamente ao que normalmente se pensa, não são apenas as drogas ‘pesadas’, como heroína e cocaína, que provocam doenças de foro vascular mas também as chamadas ‘leves’“.

É que para “jornalismo a sério” (…) esta conjugação peculiar soa muito a cantiga do bandido.

Contrariamente ao que normalmente se pensa“?!?… O que é que isto quer dizer exactamente?

Normalmente“?!
Pensa“?, quem?!…

Eu não penso isso. Nunca pensei.
Por isso é que me oponho, como sempre, às despenalizações, liberalizações ou lá o que querem, de “drogas leves”.

Por ser demasiado evidente e antecipável uma “conclusão” destas!

A quem pode aproveitar uma notícia destas, desculpabilizadora, que mete toda a gente no mesmo saco do “pensa-se” (portanto é normal) para não se salientar ninguém, é quem possa estar entalado por obra da sua grande bocarra em relação ao tema.
Um algué
m – todos os alguéns – que possa já ter assumido compromissos populistas nesta matéria e agora precise de mão amiga que lhe alije a carga.

Não sei… Eventualmente…
Alguma juventude partidária, ou algum partido político
Será?…


Mas lá que a notícia dá jeito, isso dá!

Abortos

Acabei de ouvir numa peça jornalística (sim, porque alguém o pôs no ar!) sobre o referendo do aborto o sr. Louçã declarar sem mais:

Quem é pelo ‘sim’ é pela decência, quem é pelo ‘não’ é pela indecência.”

Eu, que não tenho obrigação de aturar este tipo de coisos nem tempo a perder a argumentar contra isto, apenas afirmo: esta “campanha” pré-aborto vai ser exactamente igual à anterior.

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