O Adeus à China

[Acabaram há uns tempos os Paralímpicos de Pequim e já se pode fazer um retrato actualizado da China, aliviado da mediatização e propaganda a que estivemos maciçamente sujeitos – o que ajuda, todavia, ao esboço da retratada.]

A China é para mim um verdadeiro exemplo.
– E pela sua envergadura um grande exemplo.

Um exemplo de como nada – nem sequer um património de 6000 anos – protege em definitivo uma civilização da decadência.

Nação do papel (e da História), da imprensa (e da Comunicação), do papel-moeda (e do Estado), da pólvora (e da Guerra), da seda (e do Intercâmbio), do garfo (e da Civilidade), da bússula (e da Aventura), a China foi ponto de partida para muitos momentos da realização Humana.
Nação da Grande Muralha e da língua em uso mais antiga do mundo.

"China" em caracteres chineses (tradicionais e simplificados).

Mas isso foi outrora.

O século XX chinês contou-se em poucas palavras.

Fim da China dinástica, guerras de influência intestinas, convivência forçada entre nacionalistas e comunistas face ao inimigo japonês, retomar do conflito interno após a vitória na II Grande Guerra, triunfo do comunismo,… até hoje.
Com tudo de bom que se sabe que o comunismo já trouxe às Nações da Terra.

A infalibilidade, o voluntarismo, a planificação da sociedade e do pensamento, as purgas, os assassínios em massa, as grandes fomes.

Quando a 1 de Outubro de 1949 – fez agora aninhos – a China comunista de Mao Tsé Tung entrou em Revolução Cultural, a vida dos chineses mudou para sempre.
Com Movimentos de Cem Flores – através do que de mais perverso os Estados podem ser – os pensadores independentes foram chacinados sem piedade, como exemplo, como necessidade absoluta de qualquer regime que faça da ignorância e da alienação a chave do seu sucesso.
Com Grandes Saltos em Frente – com políticas megalómanas e desvairadas – o povo foi condicionado a ignorar as suas básicas necessidades e a seguir os ditames abstractos e alucinados de um governo unipessoal que o garroteou devagar. (Como quando na Campanha das Quatro Pragas os chineses foram instados a matar pardais por “comerem sementes”, o que resultou em pragas maciças de insectos e, de novo, fome…)
Com a repressão brutal da filosofia, da política, das artes, da religião, da comunicação, do academismo.

Entretanto um mundo a mudar, fora de portas. Entretanto o comunismo a ruir a toda a volta.

E um povo – apesar do pesado lastro de um passado recente de sofrimento e miséria – desejoso de fazer parte de algo novo e melhor.

…Que se o capitalismo dá para alguns, porque não há-de um governo pô-lo ao serviço – absurdo – de uma causa que, como qualquer outra, precisa de finanças?…

Quando falei neste post dos “empatas” da opinião, era disso que falava: da hipocrisia – o mundo está cheio delas – de continuar a mostrar a China como farol de virtude, último bastião de uma pureza de intenções e objectivos globais independente da cavalgada selvagem do capitalismo e da materialidade…

…A China, exemplo caprichoso e acabado da decadência provocada pela sub-cultura do capital.
Poucos Países como ela terão levado tanto ao extremo o fito do lucro. Do ganho pecuniário. Do encaixe. Da Balança Comercial.
Com total desprezo pelo equilíbrio, pela razão, pela humanidade ou pela vida.

A coberto da pureza e da transcendência do seu desenvolvimento alarve, a China achou-se livre para fuçar alarve no capital mais sangrento.
– China que ninguém ousaria jamais apelidar de “capitalista”, tal a sua retórica, tal a sua prática políticas… –

Só que o facto é que aconteceu. Ponto.

Hoje a China é um País com um ar, um solo, com recursos hídricos em boa parte envenenados pela total incúria do seu “desenvolvimento”.
A mineração desenfreada, o consumo brutal de carvão na indústria com “emissões de CO2” gigantescas de que já é campeã mundial – com a conivência da “comunidade internacional” que se marimba porque a China está “a desenvolver-se” -, as descargas industriais tóxicas nos leitos de rios e lagos,… fazendo com que a China tenha as dez mais poluídas cidades do mundo.

…E das mais miseráveis condições de trabalho das classes que teoricamente eleva à qualidade de senhores da terra.
Daquela terra!

Mas há sempre uns Jogos Olímpicos para entreter.

Que quem mente, descarado, mente sempre. Quem engana, sempre o faz. Quem não tem vergonha, todo o mundo é seu.
…E o “Mundo Ocidental”, sempre tão mavioso de ecumenismo, sempre tão indolentemente sedento de entretém, tudo quer, tudo devora, mistelas putrefactas barradas de exotismo.

“Ai que gira que é a China!, tão afável, agradável, tão moderna e ocidental…”
“Onde estão as atrocidades que se lhe atribuem e que ninguém vê?… Ah, bem parecia… Malvada manipulação! Coitadinho do PCC…”

“Que maravilha de festa!, viste aquele fogo todo?”
“…E aquela pequenita?…Tão fofinha e ladina?”
“E aquela tolerância, com tanta criança em palco, dos quatro cantos da China?”
“E aquela mistura tão gira do pequenito e do NBA, cada um com a bandeirinha?…”

Acontece que o fogo-de-artifício foi uma aldrabice, passado em diferido. Gravado, aquecido em micro-ondas e servido como fresco! (Com a curiosidade de que toda a gente o soube e só alguns se revoltaram!)
Acontece que a pequenita não cantou a ponta d’um corno. Foi escolhida pelo Partido por ser tão engraçadinha e mimou por cima da voz de uma criança – ao que parece – “inapresentável” o que lá lhes dava jeito para a cerimónia “em directo”. (Com a curiosidade de toda a gente ter sabido e alguns ainda acharem menor!)
Acontece que as criancinhas fruta-cores que tão bem ilustraram ao vivo a tolerância e equidade com que o governo chinês trata todas as etnias do país… eram todas (…) da etnia dominante na China.
Acontece que o “pequenito” e o gigantone não foram ali colocados ao acaso. O gigantone Yao Ming, jogador da NBA que adoçou a boca aos espectadores ocidentais, estava acompanhado por um sobrevivente especial do recente terramoto de Wenchuan. Um rapazito de nove anos que não só sobreviveu como heroicamente salvou dois colegas dos escombros e assim se tornou um ícone nacional – tragédia que motivou a ira de pais que questionaram o Governo sobre a fraca qualidade da construção das escolas que ruíram e provocaram centenas de mortos, por isso foram pagos para se calarem e desta forma ilusionados para atenuar paixões. Em mais um golpe de propaganda.

Quando na verdade a China continua ininterruptamente a manipular tudo e todos.

Seja ao “educar” populações menos conformes, seja ao limitar descaradamente o acesso interno à informação sobre o estado das coisas, seja ao impor com punho de ferro a sua vontade aos mariquinhas dos ocidentais que se lhe submetem – como no caso das bandeiras a meia-haste que os espanhóis não puderam pôr na Aldeia Alímpica aquando do acidente aéreo de Madrid, sendo desamparados pelo Comité Olímpico Internacional…
…Seja, por motivos de propaganda olímpica, ao ocultar por uma semana informação sobre o flagelo do leite envenenado, permitindo pelo menos durante mais esse tempo a contaminação de crianças prosseguisse.

Repugnante.

Valeu uma voz, durante os Jogos, que denunciou o que havia a denunciar.
A da – por vezes equívoca – Amnistia Internacional.

Fora isso, a paz. – E “os melhores Jogos Olímpicos de sempre”.

Para sempre, paz na nação. Paz no Mundo. Paz nas consciências.
Apesar da vergonha. Apesar do óbvio. Apesar do apelo.

Por isso, e cada vez mais, um adeus à China.

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A Grande Festa

Estou a assistir em directo à grande festa da inauguração dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Os gritos, o caos, o banho de sangue, a complexa coreografia da fuga à tortura por exercer o direito à palavra ou ao acto, a mentira, a hipocrisia do palco internacional.
Impressionante.
Um espectáculo de uma magnificência e de uma originalidade dignas em retrato da nação que o produziu.


Não me digam que não estão a ver…

Ou pelo menos no mesmo canal…

…E a China aqui tão perto – Parte II – Lama e Portugal

E a espiral do mundo enrola mais uma vez.

Tal como em em 2001, quando durante um “Governo” Guterres se instalou o pânico na formalidade socialista, de novo a vinda a Portugal de um inofensivo septuagenário provoca a convulsão própria a um País eternenamente em vias de crescimento, como o nosso.

Estive no Pavilhão Atlântico.

De forma egoísta – mais por mim que pelo Dalai Lama – mas tive de estar.

Não me seria possível perder a oportunidade de estar, assistir, testemunhar, de contribuir com a minha presença para um encontro com um dos mais admiráveis homens vivos.
Um dos homens mais queridos por um mundo porco e feio, e simultaneamente um dos indivíduos mais desconcertantes com que se possa contactar.

Estava quase cheia, a sala.

E foi com um enorme aplauso que a assistência recebeu o seu orador.

Durante cerca de duas horas, o Prémio Nobel da Paz desceu do pedestal em que alguns nobelizados de quintal que por aí andam se postam, dizendo com as letras todas que “só reconhecendo-nos como seres humanos simples e iguais, com todas as diferenças que nos distingam, tornamos possível o diálogo entre nós“.

Um diálogo que de facto existiu. Alcançado de forma curiosa.
Ao vazio de um banal e decepcionante período de perguntas(quase todas inúteis)-respostas, contrapôs-se, nascida de avassaladora capacidade de compreensão da natureza humana, uma comunicação do Dalai Lama cuja singeleza, acerto e profundidade totalmente dispensariam as réplicas de um pavilhão inteiro em sintonia.

Não foi no Domingo que mais intimamente conheci o Dalai Lama.
Numa palestra sobre “O Poder do Bom Coração”, foi enriquecedor mergulhar sem demagogia numa concepção diligente e emocionada sobre o Homem, a relação entre os homens e a viabilidade de uma vida em comum.
Mas aquilo que da sua superior sensibilidade e sabedoria mais pude recolher, fi-lo a partir de um livro lapidar para conhecer o pensamento do Dalai Lama-homem: Ética para o Novo Milénio. Leitura imprescindível se a humildade de cada um lhe permitir reconhecer a necessidade que temos de exemplos e de uma palavra de alento.

Se necessário, o testamento em vida de um homem superior que – contrariamente a outros certos nobelizados – ficará para a História.

O mais surpreendente do mega-evento-pop do Pavilhão Atlântico, foi constatar pessoalmente a desarmante naturalidade com que um estranho tibetano de 72 anos, recebido em todos os cantos do mundo civilizado com honras próximas das de um chefe de estado, encara um encontro formal com milhares de pessoas que se deslocam para o ouvir, e lhes fala de absolutos vitais como o Amor, a Compaixão ou a Felicidade.

Com a simplicidade com se descalçou e sentou, sorriu e pediu ajuda para o seu inglês hesitante, com que se coçou e bocejou sem disfarce com o à-vontade de uma criança, admitiu esquecer-se do que estava a dizer (tal o tempo que mediava das “traduções”), elogiou a arquitectura do recinto como nunca tendo visto semelhante, e gracejou respondendo a rir que a memória que mais presente lhe ficava do encontro era a do intenso calor dos projectores sobre o palco.

Sabedoria, simplicidade, despojamento.
O exemplo.

E a escandaleira de paróquia.

Enoja-me e revolta-me que apenas um jornal à borla tenha feito primeira página do encontro do Atlântico: o Metro…

…E que as televisões tenham dado ao acontecimento uma atenção pouco maior que a de rodapé.
É que o preconceito e os comprometimentos não são exclusivos da desgraçada da política, que tem costas largas.

Ainda que a política não deixe de ser, objectivamente, uma rameira desgraçada.

Pode ser muito beato olhar hoje sobre o que se passa em Myanmar e gemer aijesuses, expressar solidariedade, dizer que “somos todos birmaneses”, arranjar campanhas de fitinhas de cores, minutos de silêncio e tretas que tais.
Que não deixam de ser tretas.

Seja quando o Presidente Bush discursa sobre endurecimento de sanções, seja quando o senhor Pinto de Sousa, Presidente em exercício do Conselho Europeu, apela com vozinha trémula ao entendimentozinho entre as partes, a política dos homens barra a sua cara de lama e vergonha.

O Tibete foi invadido pela China comunista na década de 50.
Esventrado de forma sistemática, política e culturalmente durante décadas.
Tomado, mantido e subjugado pela força bruta.
À semelhança do que se passa na Birmânia; com a agravante do atropelo à soberania de um Estado pacífico.

Se na Birmânia foi reconhecido o papel no caminho da paz à Prémio Nobel Aung San Suu Kyi, foi pela sua pregação pela paz que Tenzin Gyatso, 14º Dalai Lama, recebeu a mesma distinção.
Em duas opções de vida paralelas, que a par da resistência não-violenta levam a indomável fome de determinação dos seus povos.

Mas a China, aqui tão perto, é aquilo que dela se vê.
E mais que isso não se admite.

Porque se Portugal está a criarum novo pilar da diplomacia portuguesa“, e ao pilar a China a suporta e sustenta, se as suas “maduras relações” colocam os países num nível de entendimento tão íntimo, porque o valor maior na “política a sério” é o dinheiro, torna-se natural que um País intelectualmente saloio como o nosso viva de gatas e se rebole na imundície com os mais sujos, que nos ditam comportamentos.


Se em 2001 o Dalai Lama foi tratado pelas instituições do Estado Português como um cão, fechada a porta do “Governo” Guterres, fechada a porta da Presidência Sampaio (que deu ao monge a esmola da paródia de se encontrar com ele às escondidas no Museu de Arte Antiga – que a imprensa afecta ousou insultuosamente chamar de “primeiro encontro do Prémio Nobel da Paz com uma alta figura do Estado português“), se à data apenas uma comissãozeca parlamentar (com excepção do PCP, atenção!) e a Autarquia de Lisboa se dignaram recebê-lo, o quadro repetiu-se decalcado em 2007, com a invenção de tapa-buracos para justificar o injustificável.

Com a pequena nuance de o consciencioso Presidente da Assembleia da República, dr Jaime Gama, que agora considerou o Dalai Lama digno da cortesia de uma recepção, ter sido o Ministro dos Negócios estrangeiros que em 2001 o ignorou, à sua mensagem, ao seu papel, ao seu símbolo de defesa dos Direitos Humanos massacrados na China.
Com a pequena curiosidade de desta vez não ser “um problema socialista” não dar cavaco ao Dalai Lama de visita a Portugal. É que o exercício da Presidência da República por um homem de direita não trouxe qualquer mais-valia à elevação do comportamento da política nacional.
…Deve ser do “pragmatismo”.

E assim continuamos a ser como somos – ao contrário daqueles que nos deveriam inspirar (com os alemães), à semelhança de maus companheiros (como os russos) – pequenos, enfezados e débeis.

Tenzin Gyatso é um subversivo. O Tibete está protegido. A China tem razão.
E está dito.

Eu faço escolhas. Fui ao Pavilhão Atlântico.
De forma egoísta, tive de lá estar, marcar uma posição.
E fomos milhares.

…E a China aqui tão perto – Parte I – "Cadáveres Como Nunca os Viu"

“O mundo é mesmo redondo”, estou farto de o dizer.

São inúmeras as situações em que nos deparamos com quadros repetidos, referências subitamente concretizadas, associações imprevistas…
Levando quase a pensar que as pontas soltas na narrativa humana não existem.

Tal se tornou mais uma vez verdadeiro com a coincidência da vinda do Dalai Lama a Portugal – e polemicazetas que mais uma vez suscitou – com a recta final da exposição do “Corpo Humano Como Nunca o Viu”, patente há meses lá para os lados da Rua da Escola Politécnica, com uma afluência de visitantes digna de registo….

…E como blogar é o exercício supremo do narcisismo, deixo duas metades da minha sensibilidade sobre a ocorrência desse alinhamento cósmico.

Começo pelo final, esclarecendo que, contrariamente a ter ido ver o Dalai Lama – naquela espécie de mega-show-pop da transcendência pagã – a visita à exposição d’ “O Corpo Humano como Nunca o Viu” – tradução benévola do escorrido original “Bodies“, que facilmente poderia dar em português uma coisa como “Cadáveres“, dependesse do tradutor – sempre esteve fora dos meus planos.

A referida exposição, que de início me pareceu um conceito grosseiro e depois um evento grotesco, evoluiu na minha óptica para algo ainda muitíssimo mais grave.
Pelo que o facto de acertar o seu final com o de Setembro, apenas me interessa como blogador na medida em que referi-la agora, comentando-a em retrospectiva, já não poderá ser tido como nenhuma tentativa pateta de boicote a esta feira de talho, charcutaria e fumeiro que tem ombreado em público com as suas congéres de hipermercado mais concorridas.

Não sei, mas fazer romagem para ver seres humanos esfolados que dão eurinho sonante a quem lhes recebe das entradas, provoca-me muita repulsa.
Vá-se lá saber porquê…

Já tenho ouvido da parte de gente que respeito basta argumentação no sentido de justificar a existência da dita exposição.
Mas o esforço argumentativo, mais me parece nalguns casos tentativa de remissão pela cedência à pulsão voyeurista incontrolável que os faz voar a contemplar o horror.

O mesmo confuso sentimento de pudor que obrigou a organização a um intróito rocambolesco do seu site, em que mistura num caldeirão transbordante a argumentação cienticista com a histórica, a filosofista com a pedagógica, a legalista com a ética, numa mescla sem cor nem nexo, que não fundamenta nada.

A) “O estudo da anatomia humana funcionou sempre sobre um princípio básico: Ver é Saber. Este mesmo princípio levou as culturas egípcia, grega, romana e islâmica a uma compreensão cada vez mais científica da forma humana. As dissecções públicas durante o Renascimento aumentaram este conhecimento, estabelecendo as bases para as nossas instituições médicas modernas e para esta exposição.

Logo:
Ver é saber” é um princípio último – exacto fundamento das experiências nazis em campos de concentração. Ninguém fundamenta historicamente as vastas e dispendiosas atrocidades clínicas nazis com a causa do sadismo ou da futilidade. “Ver e saber” foi o mote de testes de resistência eléctrica, térmica, à dor ou a variações de pressão; inoculações de doenças e privação de tratamento; inseminações, esterilizações e castrações; lacerações, ablações e amputações;…
E todas elas, sem margem para dúdida, contribuiram com sucesso – numa pânorâmica monstruosa – para uma “compreensão cada vez mais científica da forma humana“.
Mas a Ciência – digna de maiúscula – não legitima tudo.


B) A exposição utiliza espécimes humanos reais para lhe oferecer um manual visual do seu próprio corpo. Muitos de nós não sabem o que temos debaixo da pele – como o corpo funciona, do que necessita para sobreviver, o que o destrói, o que o reanima. O Corpo Humano como nunca o viu, é uma tentativa de remediar este infeliz conjunto de circunstâncias. Aproveite o conhecimento obtido na Exposição, alargue-o e utilize-o para ser um participante informado nos seus cuidados de saúde.

Logo:
Gratos pela diligência com que somos resgatados do “infeliz conjunto de circunstâncias” que nos mantinham na escuridão – como eu tristemente continuo… – vamos aos 100.000, pela mão de uma exposição que nos vende com sucesso infantil o marketing da sua verdade imprescindível, ser informados das verdades do mundo de que andávamos arredados.
Existe uma diferença subtil mas elementar entre as imagens de um acidente e as imagens de um acidentado. Pagando o preço que a contenção e o básico bom-senso exigem, não há seminários sobre álcool na estrada com mortos exangues em palco, não há filmes sobre dependências com overdoses em tempo real, não há informação nas escolas sobre comportamentos sexuais de risco com sexo explícito e em grande plano.
Porque existe um limite.
E “mostrar” não legitima tudo.

C) Num canto surrealista do site da exposição recolhemos toda a informação pertinente sobre “Doação de Órgãos” e “uso de cadáveres”.
A dissecação de cadáveres e a sua utilização para fins de ensino e de investigação científica assume efectivamente um papel essencial e insubstituível na didáctica das ciência das saúde, revestindo-se de incontestável importância no âmbito da formação geral e especializada dos profissionais da saúde e na evolução dos conhecimentos nesta área de saber.
Neste contexto, é lícita a dissecação de cadáveres, bem como a extracção de peças, tecidos ou órgão, de cidadãos nacionais, apátridas e estrangeiros residentes em Portugal, que venham a falecer no País, para fins de ensino e de investigação
.”

Logo:
Para além do cruzamento enovelado com as alíneas anteriores, ficamos instruídos da licitude da “dissecação de cadáveres” e “remoção de peças” à luz da legislação.
Portuguesa! Abrangente de práticas em território nacional! O que é absolutamente vazio – para não dizer canalha.
Partindo do princípio que a exposição vem a Lisboa para estar patente à visita e não para engrossar as fileiras dos seus miserandos esfolados, é formalmente tão irrelevante fornecer este links ao internauta como os da Associação do Ponto-de-Cruz ou da Federação Portuguesa do Jogo da Bisca.
As questões fulcrais são estas: quem são estas pessoas – hoje já nem sequer cadáveres?; e cadáveres, como se “cadaverizaram”?, ou quem os “cadaverizou”?; de que morreram?; onde?; quando?; quem os triou?, como? e porquê?, para esta exposição. Questões que através de uma manobra ilusionista ôca ficam sem resposta.

Estes são cidadãos chineses.
Que morreram.
Cujo corpo não foi reclamado.
Que foram postos a render.
Fim.
…É o que reza a versão corrente.

E se não se sabe mais nada, não interessa a ninguém sabê-lo.
É que, para mim, “saber é ver“. E se no nosso próprio Código Penal [aqui, em exemplo] é contemplado como Crime Contra a Sociedade o desrespeito pelos mortos (ao ponto de salvaguardar as suas cinzas ou mesmo o lugar onde repousem), passa-me absolutamente ao lado a preocupação mirone de saber detalhes do próprio processo degradante de liofilização a que os cadáveres foram sujeitos, por ser outra a minha preocupação: a da possibilidade de a venda de bilhetes a preços régios, mais o merchandising que lhe está a reboque, poderem não só estar a facturar para os bolsos de uns espertos como a dar cobertura a verdades sinistras.

Leia-se com olhos de ver a discussão e a polémica que circula na net [aqui na Wikipedia, para facilitar] sobre a eventualidade de ligação desta exposição – e de outros fenómenos chineses contemporâneos – com o “genocídio cultural” comunista chinês, exercido por exemplo sobre o grupo de inspiração budista Falun Gong, que não é claro que não cruze perseguição política, encarceramento, tortura, execussões e tráfico de órgãos – como denuncia a Amnistia Internacional.

[A simbologia Falun Gong, cuja cruz não tem nenhuma ligação directa com a suástica nazi!]

Como eu o vejo, esta “exposição” não é um lugar recomendável.
Não é um programa de família.
Não, se me dignar reflectir sobre o lugar que quero ter na “tal” da “globalização”.

Bem pode a propaganda organizar visitas para rebanhos de criancinhas, bem pode dar borlas aos dadores de sangue, ao INEM, às polícias, etc., bem pode ter patrocínios sonantes, bem pode estar a rebentar pelas costuras.

Não basta papaguear que “os espécimes nesta exposição foram tratados com a dignidade e respeito que merecem“. Porque isso pode exactamente significar ou ter significado coisas horríveis.

Não basta ter a chancela de supostos não-monstros para deixar de ser monstruosa.

Não basta a euforia tétrica da visita maciça a este freak show para que deixe de sê-lo.
Não basta barrá-la com texto para que esta exposição itinerante passe a ser legítima – texto também eu aqui invento, e muito.

A verdade é que ninguém suportaria visitar uma exposição destas com cadáveres recolhidos segundo a tal Lei nacional.
Cadáveres de portugueses encontrados mortos no Rossio, em Lisboa, ou na Ribeira, no Porto.
A verdade é que ninguém suportaria – em nome de um altíssimo benefício abstracto da ciência, da pedagogia, do desenvolvimento e da cultura – ver expostos, esfolados, esventrados, decepados para gáudio do populacho sedento, o seu pai.
A sua mãe.
O feto do seu filho que não nasceu.

Massacrados em tratamentos industriais.
Colocados em poses de lazer aviltantes.
Postos a render dinheiro como os hobbits de borracha da exposição do Senhor dos Anéis.

Porque – canalhice refinada – esta “exposição” não é para fins de ensino e de investigação científica – como professor, não aceito que TUDO e nada seja “ensino”; esta “exposição” não é essencial e insubstituível na didáctica das ciência das saúde” – é um mero Oceanário de entrada livre, sem lontras nem alforrecas, que quando partir não deixa órfãos; esta “exposição” naõ é de incontestável importância no âmbito da formação geral e especializada dos profissionais da saúde e na evolução dos conhecimentos nesta área de saber” – já que essa formação não se faz em “exposições”, não se faz no meio da turba tenebrosa de cuscos e tem os seus próprios cadáveres nas arcas das faculdades, que recolheu e manipula de acordo com o que a Lei prevê.

E a monstruosidade reside aí.
Em aceitarmos esta “exposição” como ela é. Sem a questionar.
Excepcionalmente isenta das regras do jogo.

A monstruosidade reside no facto de que como são mortos incógnitos,… não faz mal.
E mortos incógnitos do outro lado do mundo, menos perturbam ainda.
E como ficam tão giros a jogar à bola, tornam-se tournée e programa de fim-de-semana.

E com a China a meter-se pelos olhos dentro, assobiarmos para o lado, europeus, modernos, assépticos e cultos.

"Um, dois, três, macaquinho do chinês…"

Então? O homem já voltou da China? Isto sem ele não é o mesmo!

Não que a viagem tenha sido grande festança…

Tenho para mim que ter ido à China depois de combinada a data e descombinada pelos chineses, que entretanto mandaram o Presidente Hu Jintao a um outro sítio qualquer onde se encontrou com alguém de relevo, foi um agachamento.
Ou por cobardia ou por casmurrice.

É certo que já conhecemos bem as duas a este Primeiro-Ministro, mas nem uma nem outra parecem cair bem quando saído de portas para um mundo diplomático que liga bastante a estas coisas.

“Um, …”

Nem se pode dizer que o contacto com o anfitrião de recurso, o vice-Presidente chinês, tivesse sido um grande acontecimento (os ministros dos Negócios Estrangeiros, dos Minérios e Energia, do Comércio e da Presidência também não ficaram para recebê-lo…).

O “Governo” português, que se dirigiu à China como embaixador da cristandade, viu esfarelarem-se as suas pretensões a concierge da Europa ou da lusofonia.

Como diz o povo: “Quem quer, faz. Quem não quer, manda.“.
Por isso, os chineses fizeram-se à estrada, mandaram Sócrates às urtigas e o Presidente num périplo… por África, incluído Moçambique.
Como lança num território apetitoso de recursos, prometedor em suporte estratégico e viável na óptica chinesa de desenvolvimento desenfreado.

“Lusofonia”? Chapéu!

“Europa”?…

Portugal vai ter a Presidência rotativa na segunda metade deste ano, mas nem assim mereceu ser recebido pelo Presidente chinês.
…Diz o site do “Governo” que pode ser que Sócrates ainda fale com Hu Jintao (ou vice-versa) lá para Novembro, por altura da cimeira entre a União Europeia e a China – com a Presidência de Portugal quase a acabar, portanto, e o desejado protagonismo portuguesito reduzido a nada.

Grandes embaixadores.

“… dois, ….”

Mas mesmo para nós. O que se aproveita numa perspectiva de construção de futuro?

Percebo que a panelita de barro corra a juntar-se à panelona de ferro, com o “crescimento de dois dígitos ao ano”, no fito de comer umas migalhas que lhe caiam da mesa. Isso percebo-o.

Mas o que nos traz de amadurecimento mental, de renovação de costumes, de aprendizagem de sustentabilidade, associarmo-nos à máquina de guerra industrial chinesa?
A um país cujo desenvolvimento corre espumando a par do envenenamento do ar e da água da população que o torna possível?
Associarmo-nos a um país cujo sucesso económico actual é planificado na exacta medida do Grande Salto em Frente ou da correspondente Campanha do Aço – com os mesmíssimos tiques, vícios e pecados…

O Homem do Pragmatismo bem diz que «Portugal pode oferecer muito à internacionalização da economia chinesa. Basta olhar para o mapa para se perceber logo a localização central de Portugal».
(Fora o “central“, que é um disparate, percebe-se onde quer chegar…)

Se a ideia é comer as tais migalhas enquanto as há, muito bem.
Pode ser que «para dar um novo impulso às nossas relações, [consigamos] mais empresas portuguesas presentes na China e […] mais empresas chinesas em Portugal» – apesar de os chineses serem totalmente suficientes em mão-de-obra e condições de produção acelerada.
Pode ser que s
e consiga ainda lá meter uns portugueses a criar suporte técnico para a esfalfante indústria chinesa.
Já vão é muito longe aquelas campanhas beatas de boicotar as produções deste e daquele porque “violavam direitos das criancinhas” ou “faziam dói-dóis ao ambiente“. É o neo-pragmatismo em acção.

Mais uns cobres bem-vindos. Alguns proventos um bocado ensanguentados…
E mais nada.

“… três, …”

Mas o pior não é tudo isto.
É ler a “imprensa oficial” chinesa e saber como vê a visita portuguesa.

Segundo o “New Beijing Daily”, “a visita de José Sócrates à China [visou] promover o comércio […] e melhorar o entendimento entre a Europa e a China“.
Blá,blá,blá… “promover o aumento do comércio bilateral e aproveitar a China, uma grande entidade económica, para fortalecer a economia portuguesa“. Isto é: “Está claro quem é «grande», quem ajuda quem, quem dá a mão e quem dá a esmola”.
Sócrates espera também nesta visita […] melhorar as relações sino-europeias durante a presidência portuguesa da União Europeia”.
Porque muito se resume ao “medo de que o desenvolvimento chinês ameace a esfera da tradicional influência europeia“.
Sobre Macau, diz o “New Beijing Daily” que “antigo território português se tornou mais próspero e estável depois da passagem administrativa para a China em 1999“, “o que faz com que o Governo português queira fazer uso da experiência chinesa nas áreas da reforma e do desenvolvimento“.
Para acabar, “Portugal espera que esta seja uma oportunidade para desenvolver a cooperação com a China noutros campos , como informação, biologia, protecção ambiental, medicina e metais“.

Esta é a leitura chinesa.
O “grande” poderio próprio, o “medo” europeu que ele inspira, uns caramelos que vão lá a casa tentar “melhorar relações“, a sorte que têm em “aprender” como se faz “reforma e desenvolvimento” e a “oportunidade” de ouro de levarem lá para a província modelos de “INFORMAÇÃO ou PROTECÇÃO AMBIENTAL”.

“… macaquinho do chinês.”

Se não fosse lá também em meu nome, não me importava da tristes figuras que o Homem do Pragmatismo fizesse no estrangeiro.

Assim, dói-me um bocado que aplauda em público na última década, a China [ter] vindo a desenvolver uma relação muito amistosa com a comunidade internacional” e os dois países “partilharem os mesmos pontos de vista sobre as questões mundiais“.

E preocupa-me o que pensará “Espanha, Espanha, Espanha”, vítima do adultério socrático, que esquecida a paixoneta castelhana dá hoje as relações com a China como “absolutamente prioritárias”.