Se Querem Que Eu Vos Conte


Posso? Agora?…
Querem que eu conte?

Tem sido bem divertido ver aparecer na boca dos génios do pensamento as palavras “Quinta da Fonte”.
Divertido. Surrealista.

Quando a Fernanda Câncio – sim, essa – fala da Fonte, ponho-me eu a pensar: “Ah, pois, ela sabe do que fala, que a sua santa avozinha morava lá num T2.
Ou o António Vitorino – “
Ah, sim, a caminho das Assembleias Gerais do Santander-Totta é vê-lo a beber mines no Café Mourão.”
Ou o Marcelo Rebelo de Sousa. Que como qualquer mortal também tem Google Earth em casa, o que lhe dá alguma noção de para que lado é que a Fonte fica.

Eu sei um pouco do que falo.
Eu sei onde é e o que é a Quinta da Fonte.

…Eu, o Geolouco, a MaisDia, o Jaime, a Loba, a AbelhaMaia, a I.R., o F.F. e tantos outros compadres a quem por razões que nós sabemos tiro o meu chapéu.



Já passei três vezes pela E.B. 2,3 do Alto do Moinho e uma pela
famosa – e até polémica –E.B. 2,3 da Apelação.

O que me fez ir ao baú repescar o Projecto Educativo da E.B. 2,3 da Apelação, cuja elaboração coordenei em 2000, com base na informação oficial disponível à altura.

Dizia então o Projecto Educativo, na “Caracterização do Meio Escolar”…

«A FREGUESIA DA APELAÇÃO:
O nome “Apelação” parece ter a sua origem numa peste ocorrida há vários séculos em Lisboa e arredores. A população veio refugiar-se neste lugar, que não estava afectado, “apellando” à protecção de Nª Sr.ª da Encarnação. Passou a freguesia em 1594. […]
Em 1991, segundo o censo efectuado, tinha 3419 habitantes. Com base na actualização dos cadernos eleitorais de 1998, calcula-se que a população da Freguesia seja de 9000 habitantes, tendo já em atenção os novos realojamentos da Quinta da Fonte. A Freguesia da Apelação tem uma elevada densidade populacional, sendo superior à média do Concelho, […] com forte grau de urbanização. […]
Praticamente não há população a trabalhar no sector primário, no entanto o sector secundário ocupa 51,6% e o terciário 46,9%. Predominam os operários industriais, tendo grande peso os indiferenciados – as actividades ligadas aos serviços pessoais e domésticos absorvem um grande número de postos de trabalho.

OS BAIRROS DA APELAÇÃO[…]
O BAIRRO DA QUINTA DA FONTE

A Urbanização da Quinta da Fonte é um empreendimento composto por um total de 776 fogos, destinados a realojamento. Pertencendo a maioria dos fogos à Câmara Municipal de Loures.
Metade dos residentes são provenientes da freguesia do Prior Velho, do Bairro Tete e da Quinta da Serra. 20% são provenientes da Quinta do Carmo, Freguesia da Portela. Os restantes 30% provêm de outras freguesias. Consequentemente, verifica-se uma grande diversidade socio-geográfica da população residente.
Há que considerar também uma grande diferenciação etnico-cultural que, segundo estudos feitos pela C.M.L., apontam para uma presença de 40% de famílias de etnia africana, 39% de famílias de etnia cigana e 21% de etnia branca. Numa análise por nacionalidade dos indivíduos residentes, predomina a nacionalidade portuguesa (71%), embora coabite com diferentes outras: cabo-verdiana, guineense, são-tomeense.
Segundo os mesmos estudos, a população idosa representa apenas 4% do total de indivíduos e 79% da população tem até 34 anos.
É de salientar que se verificam baixos escalões de rendimento, nomeadamente devido ao fraco grau de escolaridade, às baixas qualificações profissionais, ao desemprego e vínculo laboral precário. Numa análise por agregado familiar, o escalão de rendimento mais representativo é o de 55.000$ – 100.000$00. […]
A população activa desenvolve a sua actividade profissional na venda ambulante (maioria), na construção civil e em actividades ligadas a serviços domésticos e de limpeza.»

Uma povoação centenária de perfil rural avassalada nos anos 90 pela implantação de um maciço populacional edificado; uma sub-sociedade implantada mas não harmonizada ou integrada que desde então tentou o equilíbrio da influência e dos espaços; uma força de trabalho desqualificada terrivelmente vulnerável à instabilidade socio-económica; uma comunidade com as virtudes e os vícios de uma juventude em risco.

Um caldo inconsistente que fervia já assim há quase dez anos atrás…

Agora, tiros, agitação, choque das boas consciências.

Pude dizer no outro dia, no Fórum TSF, que antes de tudo há na discussão superficial da Fonte muita contaminação por asneira (talvez deliberada).

1º – “Esta foi uma rixa pontual. Apesar das tensões vividas no bairro, este é um cenário atípico.”
Não, não é. Sei-o e afirmo-o. E mesmo quem fingisse que não o saber não poderia iludir notícias como as de Março do ano passado, com “carros incendiados e tiros disparados” na Fonte, por “jovens”, durante a noite.

2º – “Estes foram desacatos provocados por desavenças entre vizinhos, que como problemas pessoais não podem confundir-se com choques rácicos.”
De facto não podem. Mas porque os conflitos raciais descambam em tiroteio e as “desavenças” acabam como há algum tempo atrás com uma larga saída da urbanização de ciganos desavindos entre si.

3º – “Os moradores da Fonte são vítimas da sociedade.
Em certa medida. Apenas.
O realojamento destes moradores foi feito em condições sociais a muitos títulos condenáveis. Mas não é menos verdade que foram – em grande parte – resgatados da miséria sanitária da vida que levavam em bairros de lata.
Atingido por estes um patamar de condições básicas de vida, competia-lhes – bem entendido, aos que nunca o fizeram – lutar pela fuga a uma dependência crónica dos rendimentos garantidos que eu pago (90% desta população, avançaram os jornais).
A actividade da(s) “venda(s) ambulante(s)” de ciganos não os auto-qualifica para exigir o que alguns moradores esforçados e honrados (ciganos ou não) exigem ao poder tutelar.
A importação a grosso de famílias africanas – com a conivência de um Estado relapso – até ao vigésimo grau de parentesco, para fogos e urbanizações que não expandem, não revela qualquer capacidade da parte deste grupo social de conceber para si mesmo um plano integrador na sociedade com condições mínimas de bem-estar.
…E miúdos que vão à escola receber a única refeição decente do dia, apenas senhas para o passe, o apoio financeiro da Acção Escolar, uma palavra de conforto, o conselho básico de higiene, são factos diários que competiria a estes grupos acautelar.
Dar o peixe e a cana e pôr a mesa e pré-mastigá-lo e vê-lo ficar na borda do prato? É demais.

4º – “O poder político tem estado atento ao isolamento social.
Em situações destas apenas releva se o problema está resolvido ou não.
Se em Loures o Presidente da Câmara foi politicamente colhido pela situação como que por um touro, também merece o que lhe acontecer. Dizer que lhe tem dado “atenção muito especial” é não dizer nada. Confessar-se “convencido que alguns problemas que surgiram no início do realojamento dos habitantes da Quinta da Fonte estavam solucionados” é invocar uma inadmissível ignorância. Recordar que “há pouco tempo numa festa na Quinta da Fonte […] tudo estava tranquilo e pacífico” é de uma pobreza demolidora.
Se o Presidente da República vai à Apelação para as fotos e para as palmas validar a mudança da realidade, é ele que leva os tiros que só resvalam nele pela baixíssima qualidade da nossa imprensa. A intervenção dos jovens é fulcral, mas “têm conseguido melhorar o ambiente na freguesia e no bairro da Quinta da Fonte? Dependerá deles? E que prtessão tem feito o PR para provocar respostas eficazes?
Se o ex-PR Jorge Sampaio diz com o descaramento superior de um Presidente da Aliança para as Civilizações da ONU que “os eventos ocorridos neste bairro não surpreendem pelos problemas que se vêem há alguns anos relacionados com habitação, escolaridade, segurança social e apoio social e profissional destas pessoas“, importa confrontá-lo com os dois mandatos na Presidência e a mesma questão que se coloca a Cavaco Silva.
E sobre as culpas dos Governos sucessivos?, e sobre as deste “Governo”… tanto haveria a dizer.

E o resultado é que como sempre estamos desamparados, estamos sós, estamos mal conduzidos e mal defendidos pelos nossos eleitos.
Como sempre todos são vítimas e ninguém é culpado de nada.
Como sempre a “informação” é espectáculo, mais que responsabilidade. E as tretas derrubam qualquer resistência – dizia a Governadora Civil de Lisboa “Será dado tempo às partes para se acalmarem“…

Como sempre a Natureza se encarregará de encontrar uma solução.
neste caso como a do organismo preponderante englutir um menor.

Não quer dizer é que vamos no caminho certo.
Ou em qualquer caminho que seja.
Apenas o de deixar a Natureza englutir grupo a grupo entre si, até à aniquilação total.

Única coisa que cinicamente se aproveita: a bofetada àqueles que maquinalmente apelidam tudo e todos de “racista” por mera expressão de opinião franca.
Esses andam caladinhos, depois do deboche verbal dos últimos dias trocado entre “os ciganos” e “os pretos“.

A este assunto, ainda se há-de voltar.
Por força das circunstâncias.

Ele fala, fala, fala… Ainda!

Ele há temas, tão sensíveis e “fracturantes”, que a sua análise e debate sempre acarreta a virulência e a acutilância de opiniões.

Há-os.
Como o aborto.

Por essa razão o Ex-Presidente da República, Dr Jorge Sampaio, não conseguiu conter-se, vindo a terreiro dar o seu contributo cívico.

Acontece que sabemos bem de quem falamos: o lacónico, profundo e relevante Dr Jorge Sampaio.
Homem que tanto nos habituou ao caco e à linearidade das suas intervenções, durante dez anos de mandatos.

O distinto cidadão (agora de corpo inteiro, já sem necessidade de recurso ao “panamá do cidadão” ostentado na cabeça) diz-nos que está “«espantado» e «triste» com alguns dos argumentos apresentados a propósito do referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez” – “aborto”, em português corrente.
«Numa perspectiva de observador”, fica “um pouco espantado, um pouco triste com alguns argumentos, já que não é a primeira vez que este debate se faz», acrescenta.

Bem, por um lado, dou-lhe razão. Ou dá-ma ele a mim.
Já não é a primeira vez que este debate se faz“. Como não é a primeira vez que esta campanha é suscitada. Como não é a primeira vez que este referendo se realiza….
O que (como eu digo sem descanso) os torna requentados, redundantes, racionalmente translúcidos. (“Mais valia marcar uma data para votar e passar por cima desta «campanha»!“, deixei eu escapar numa conversa noutro dia…)

Parece é divergir o Dr Sampaio na obrigação de “diversidade”, de “variedade”, dos argumentos hoje esgrimidos.
(O que é espantoso, discutindo as mesmas pessoas os mesmos assuntos nos mesmos termos de há oito anos atrás!)
Nesta campanha pré-referendo o que o Dr Sampaio queria eram “variedades”.

Mas se está tão preocupado que “ao fim de tantos anos de democracia [seja necessário] ter a capacidade de perceber o outro [de forma a] não transpormos algumas fronteiras que não são compatíveis com um debate democrático, sincero e franco», porque não começar o próprio por ter a capacidade de dar-se ele mesmo a perceber ao “outro“?

Por uma vez na vida, falar a direito, dizer ao que vem, desemerdar-se de uma vez, libertando-se da incapacidade crónica que tem de fazer frutificar as suas palavras!!!

Se continua com aquela mania do “Andem cá que eu quero ensinar-vos uma coisa fundamental sobre a democracia, a sinceridade e a franqueza: «Fico um pouco espantado, um pouco triste com alguns argumentos, já que já não é a primeira vez que se ouvem e se arriscam a ultrapassar algumas fronteiras»”, mais vale é calar-se bem calado e esperar de caneta em punho pelo dia do referendo sem nos chatear a cabeça.

Porque “debate «dignificador»” é cada vez mais aquele em que o senhor não entra.

Face A, face B

Momento televisivo de antologia.

Não, não!… Não estou a falar de nenhuma das duas entrevistas que tiveram lugar ontem.
Falo do facto genial de, simultaneamente, termos tido duas entrevistas deste coturno; mais: duas entrevistas que são cara e corôa, verso e reverso, a face A e a face B de uma mesma realidade política recente e actual.
Os espectadores tiveram de optar entre ver uma e outra (ou então ir dar uma volta para apanhar ar fresco), num acto de consciência e arbítrio. O que é muito bom.
Pessoalmente preferi assistir à entrevista de Santana Lopes (como uma boa parte dos portugueses preferiram), não dei o tempo por mal gasto e consideradas as análises que hoje já ouvi foi, de longe, mais interessante.

(Só gostava de saber qual das entrevistas foi atrás de qual – não acredito em “coincidências” destas. Seria muito revelador.)

Na entrevista, Santana demonstrou mais uma vez de forma linear e inequívoca – só ele neste País é obrigado a dar provas permanentes e sucessivas – que lhe foi feita politicamente a cama e ao seu Governo, por muito boa gente que lhe tirou proveitos.

Jorge Sampaio, com o interesse socialista – o inconveniente Ferro Rodrigues já estava fora de jogo e o caminho aberto para o primo-ministeriável Sócrates.
Cavaco Silva e a sua mira da eleição presidencial – sem Santana e PSD no Governo, mais facilmente se escolheria um social-democrata (?) para Belém com um socialista (?) em S. Bento.
Jorge Sampaio, com o interesse próprio – como disse ontem Santana Lopes, o magistério de Sampaio só brilhou (?) por ter aberto a porta da Presidência a Cavaco (com a ascensão de Sócrates) e não a porta a Soares, que o poria “entre parêntesis”.
Marcelo Rebelo de Sousa e a sua sede de protagonismo – com proverbial “informação privilegiada” sobre o que se há-de passar no rectângulo, o prof. Marcelo soube que Santana era para (a)bater e pretendeu aos olhos da Nação renascer em popularidade e saliência pessoais, por compaixão pela pseudovítima que talhou em postas o Governo com as suas próprias mãos.
E o PS em bloco, evidentemente…
E algumas figuras do PSD, que assim ascenderam (ou não)…
E sectores – relevantes – da sociedade que viam a vida andar para trás.
Et cætera

O livro de Santana Lopes está escrito. Toda a gente escreve um.
A história escrever-se-á sozinha.

…E o que é certo é que (o ingénuo) Santana ainda anda por aí anda.

(Aplauso para o DN e uma das capas mais bem conseguidas que vi nos últimos tempos.)

Quem tem um Sampaio não precisa de um Nostradamus

Santana Lopes. O nome diz tudo.

De Encoberto a descoberto, de aspirante a desesperante, da promessa à pressa, a sua história contou-se em poucos meses, sob o signo da fugacidade e da incompletude.

O que não impede que o homem não tenha guardado muitas e boas razões de queixa do tratamento que teve às mãos dos bem-pensantes que muito bem lhe fizeram a cama em que o lorpa se deitou.

Mais que razão tem ele para o patético número da birra do morto em que chama “batoteiro” ao engº Sócrates, invejando o conforto político de que goza o PM socialista, um conforto tão laboratorialmente manipulado como o rosário das agruras que lhe foram acontecendo.

DÚVIDAS?…

Os de boa memória lembrar-se-ão do comunicado ao País do então Presidente Jorge Sampaio.
Tarde e a más horas (tanto foi o tempo que lhe levou a esgalhar um discurso justificativo à Nação), lá deu aos portugueses a esmola de u
ma explicação da dissolução de uma Assembleia da República democraticamente eleita e em regulares funções, contando com uma maioria estável constituída como suporte a um Governo empossado meses antes pelo dito.

Mas não sei se toda a gente terá bem presentes as suas palavras…
É que são muito engraçadas de ouvir, com um ouvido em Dezembro de 2004… e outro em Novembro de 2006!

Dizia o dr. Sampaio, então Presidente:

“Quando, no início do Verão passado, […] optei, após cuidadosa ponderação, por não dissolver a Assembleia da República e nomear o dr. Pedro Santana Lopes Primeiro-Ministro, […] decidi nesse sentido porque a maioria parlamentar me garantiu poder gerar um novo Governo estável, consistente e credível, que cumprisse o programa apresentado para a legislatura e fosse capaz de merecer a confiança do país e de mobilizar os portugueses para vencer os desafios inadiáveis que enfrentamos.”
[…]
No discurso que fiz no momento em que empossei o Governo, reafirmei [que] : ‘A conjuntura nacional, bem como o delicado contexto internacional, impõem ao Governo uma particular lucidez nas políticas e um rigor na gestão governativa, tal como aconselham a realizar obra consistente e estruturante na solução dos problemas’.
[…]
Entretanto, […] depois de lhe ter assegurado todas as condições necessárias para o desempenho da sua missão, o país assistiu a uma série de episódios que ensombrou decisivamente a credibilidade do Governo e a sua capacidade para enfrentar a crise que o país vive. Refiro-me a sucessivos incidentes e declarações, contradições e descoordenações que contribuíram para o desprestígio do Governo, dos seus membros e das instituições, em geral. Dispenso-me de os mencionar um a um, pois são do conhecimento do país. A sucessão negativa desses acontecimentos […] criou uma grave crise […] na relação de confiança entre o Estado e a sociedade [e do] prestígio das instituições democráticas.
[…]
Não fiquei surdo às vozes que defendem que o Orçamento para 2005 não responde satisfatoriamente às exigências de efectiva consolidação orçamental, condição necessária para se prosseguir o esforço de redução do défice público que os nossos compromissos internacionais e as necessidades do nosso desenvolvimento futuro tornaram indispensável. Entendi, no entanto, e sem que se possa ver nisso contradição, que era preferível dispormos de um Orçamento aprovado que assegurasse, desde o início do ano, o normal funcionamento da Administração Pública […].”

Hoje já não há Sampaio, já não há Santana, mas estas palavras continuam frescas do dia…

Apesar de, como em tudo na vida, até um visionário como Sampaio poder errar nas suas previsões.
Afinal, dizia ele aos portugueses a acabar a tal comunicação ao País:

“Vem aí, espero, um tempo de debate, de confronto de ideias, de elevação e exigência democráticas, […] serenidade, tolerância para com as opiniões diversas […].

…Eu também ainda estou à espera.
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