Trevas do Vento Que Passa

Pode depender em boa parte de Manuel Alegre a – mesmo que seja – pequena correcção da estrumeira politico-cívica que urge a Portugal.

Votei Cavaco Silva nas últimas Presidenciais. E como sou pouco de bater com a mão no peito e de lamentar gestos – mesmo como forma de os alijar da minha consciência – não me arrependo.
Não o fiz por disciplina partidária – que há muito que, por taticismo, Cavaco Silva não se deixava confundir com o PSD – mas por respeito à minha lógica pessoal de vida.
Sou um cidadão com direito a voto, portanto não me abstenho.
Sou um cidadão que vai às urnas, portanto – até ao limite – não voto branco nem nulo.
Sou um homem de direita, não voto em candidatos de esquerda, com ideários de esquerda, de partidos de esquerda.

O que não significa que não tenha sido uma má escolha.

Apesar de arrufos pontuais – uns decorrentes de naturais choques filosóficos, outros de grosseiras inépcias do “Governo” – a sintonia entre Belém e São Bento tem sido total.
Se a quem compete governar não governiza, também a quem compete exercer o “magistério de influência” não influi.
No retrato largo da política do País, Cavaco e Sócrates aparecem lado a lado, de braço dado, solidários nas escolhas, coniventes nas asneiras, cúmplices nas ausências.

Mais tem sido Alegre quem mais sai ao caminho do “Governo”, chamando-o à responsabilidade do que falha no que julga ser o fazer bem e o agir correctamente.
(À “oposição” nem aqui aludirei…)

Tem sido Alegre a voz a impor-se de forma mais consistente ao vento que passa e que tudo ameaça levar.

Claro que se não formos ingénuos, não ignoraremos o propósito de Alegre vir a ser Presidente!
(…E como as suas intervenções parecem seguir os passos de um Cavaco que um dia teve de hostilizar o partido que lhe deu o pão da boca – política – para aparecer ao País como candidato “independente” e elegível.)
Mas no momento presente pouco me interessa se as suas motivações são mais ou menos egoístas, porquanto coincidam com a minha noção de urgência de que alguém trave a socialistização do Estado, a socratização da Nação, a definitiva canalhização da sociedade portuguesa baseada num largo espectro político de apoio.

Alegre apenas está refém de si mesmo. Refém da sua identidade e da sua história.
E o limite do seu discurso, da sua intervenção, é o limite natural e intransponível de um protótipo político com características muito definidas.

Manuel Alegre é, antes de mais – assim o vê o País, assim o vêem os seus companheiros de caminho e utopia, assim se verá a si próprio – um militante socialista.
Se hoje é uma figura notória e popular, tal se deve ao seu longo percurso partidário.
Se é hoje um ícone cultural da República, tal se deve tanto ao encanto político dos seus versejares no exílio como à sua elevação pela (sua) esquerda dominante a esse título.
Se é ouvido hoje atentamente pela comunicação é por ser figura de proa do maior partido de esquerda português…
…Se o País lhe deu 1 milhão de votos nas Presidenciais foi por sintetizar de forma perfeita o sonho de candidato que bate o pé a quem manda mas que – tranquilizador – por lhe partilhar do convívio não ameaça levar a Nação a loucuras.
Se hoje é ainda acompanhado por muitos que lhe secundam as palavras, é porque ainda ninguém lhes exigiu a escolha final entre Alegre o Partido.

Mas Alegre sabe o que são o Mundo, o País, os portugueses, o PS, José Sócrates e sabe como deseja ficar para a História.
E apesar do imperioso desígnio de Belém, que o tenta como a um homem, e de saber que precisa do PS para uma vitória contra Cavaco, Alegre continua entrado o século XXI o único socialista nacional de peso com um pensamento e um discurso claros, independentes e afirmativos.
(Com um minuto do vosso tempo, é clicar na imagem abaixo, do Movimento de Intervenção e Cidadania de Manuel Alegre, e ver a abrangência e a profundidade das reflexões que ali são produzidas! …Que põem a arder as pontudas orelhas do “Governo”…)

Acredito que a dúvida o habite. Que o taticismo político faça tanto parte do seu esqueleto como de outro político, mas o momento que vivemos não lhe permite impasses.

Há um País à espera.
Espero eu que não de um salvador, mas do contributo activo de todos os homens que o tenham a dar.
Já! Sem equívicos! Os que tiverem vozes mais altas, que mais alto gritem!
Contra todas as misérias que alastram e toda a tristeza que se instala.

E Manuel Alegre está convocado para tal. E ele o sabe. Intimamente ele o deseja.

O que não se tolera, nem sequer numa terra de cobardes, é a exibição da cobardia.
E se não quer ser confundido com alguém que está a meio caminho entre a denúncia do erro e o compromisso com ele, há que mexer-se.

Não lhe basta dizer que “se pudesse faria“, ou que se refreia para não fazer “o que já poderia ter feito“, ou que se calhar “ainda há-de fazer“.
Ninguém lhe gabará no futuro o trabalho meio-feito.


O que é facto é que Manuel Alegre treme o “Governo”. Agita o PS; que se contorce como que com uma carga de sarna.

O facto é que mesmo não se afirmando terminantemente contra a maré negra socialista obriga atiradores furtivos avençados pela nomenklatura a dispararem-lhe sobre os lombos, em sinal de nervosismo e descontrolo.

O que conseguiria se tivesse o golpe de asa que lhe falta para levar até ao fim a sua revolta?…

Dentro do PS, como é evidente!
Aí sim, terreno para plantar – não num partideco novo que criasse e morreria na segunda eleição que disputasse, apostando na sua extinção pessoal – que o PS é, de facto, um partido “da democracia portuguesa”. (O que quer que isso possa significar.)

Dentro do PS!
Com a coragem de denunciar que apesar da mesa farta de partido governante, em que sempre come mais um, o rei vai nu. O REI VAI NU!

Dentro do PS!
Dando exemplo aos restantes partidos de como alguém um dia pode transformar aterros de vício e mediocridade em partidos políticos decentes. (Ou um pouco mais decentes, concedamos…)

…Se o canto da Pátria não se duvidar que inspira este homem, está na hora que uma resposta sua se ouça, de vez.


Caso contrário, este seu poema – tão horrivelmente ilustrado pelos dias que correm – não terá em si exemplo do canto, da luta e da liberdade.

TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

[Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.]

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

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