Mandar Homens Fazer Trabalho de Putos

Há dias houve perturbação da – normal – ordem no Parlamento.
…Alguém foi impedido de ouvir quando telefonava; alguém foi distraído enquanto lia; alguém foi interrompido enquanto gracejava para o lado; alguém no fundo pareceu querer testar o nível de concentração de um deputado comum – dos que funções de maior relevo não afastaram do hemiciclo numa tarde de relativo bom tempo.

E foi assim que o fez…

Afonso Candal, distinto tribuno de verbo cúspide e génio sombrio, entendeu em plena sessão fazer graça venenosa com a honoradez de intenções de José Eduardo Martins.

Este, temível parlamentar de verve tremente e verbo falsete, mandou-o à sorrelfa para oλ®λ£ΠΩ.

…Para conferir…

É o que acontece quando homens feitos tentam – com pouca qualidade – encarnar putos num papel que julgam fácil.

Um encarrila na de chacotear “o teu pai é careca!”. Numa pândega alarve que destoa da noção que os adultos têm de que na esfera dos crescidos  esse tipo de brincadeira pode dar direito a uns bons murros na tromba.

Outro refugia-se no “tens cara de cócó!”. Sem cuidar de lhe pagar com os murros na tromba que julgaria adequados – simbólicos ou literais – e sem noção de que o linguajar dos adultos é uma arma com recuo.

E assim se pinta o retrato. De homens armados em putos.
Porquê?
Porque como putos – acham que – é mais rápido chegarem onde querem. Mais fácil. E que graças ao expediente sempre depois podem alegar uma espécie de insanidade temporária para “interpretações dúbias” que as suas – anormais – intervenções possam ter…

A confirmá-lo, Afonso Candal diz que não insinuou “fosse o que fosse“, que “se tivesse algo a dizer, afirmava-o” e que “às vezes há mal-entendidos“.
Regressado que é à sua sanidade maior, ensaia com sucesso a ressaca de uma privação de sentidos de que já matou o vício e recolheu o proveito.

…Por seu lado, José Eduardo Martins sacode com uma mão a poeira da sua honra manchada e ainda por lavar, enquanto que com a outra coifa o cabelo desalinhado simulando semelhante regresso de um sono momentâneo.
Assume: “sou humano, erro, e manifestamente errei“, “da maneira como eu fui criado não se deixam passar em claro as ofensas à honra“, “ao senhor deputado Afonso Candal com certeza que não peço desculpas“.


Cada um, vitorioso por ter – como um puto – levado a melhor – dentro da sua cabeça.

Mas não nos enganemos. Porque nesta história de pseudo-putos, apesar das parecenças, os papéis são muito diferentes.

Afonso Candal pôde insinuar o que não poderia. E viu encerrado o episódio a contento, sem sequelas.
José Eduardo Martins tentou como pôde fechar – com a última palavra – o episódio da sua afronta.
…Sendo até à exaustão apontado a dedo o segundo, na têvê e nos demais, por ter usado um palavrão dentro das portas sagradas da Casa da Democracia.
…E poupado o primeiro, que ninguém atirou contra a parede, pretendendo apurar a fundo que história era aquela dos “interesses“, que lhe motivou a graça.

José Eduardo Martins  tem razão, quando diz que no Parlamento – e no País – é mais grave um palavrão que atentar contra a honra de terceiros. Arena em que é mais solene a forma que o conteúdo.
No Parlamento da Nação, insinuar, toldar, contaminar, atentar, são verbos conjugados num nível corrente do politiquês. Faz parte dos usos e costumes tornados lei pelo hábito. São tática, técnica e muleta de deficientes oratórios. E assim é que estamos bem.

Tudo isto sob um Presidente como Jaime Gama! De quem também já não esperava nada de especial… Ou sequer de diferente.

Mas não se perca de vista que, neste recreio de putos finos, no Parlamento (como no País), continua a haver o “bully” e o “vítima“.
Cada um laboratorialmente concebido, politicamente encartado, intelectualmente certificado pela sociedade e pelos media.
Uns satisfazendo a sua boçalidade intocável e visando a impunidade. Outros matando a fome a uma honra anémica e porfiando na sobrevivência tolerada.

Sendo que, enquanto todos se entendam e sejam felizes, está o País garantido.

[Publicado no Canto Aberto.]
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One Response to “Mandar Homens Fazer Trabalho de Putos”

  1. Anonymous Says:

    oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii


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