No Choco

Há três meses atrás o CP lançava um desafio no Quintus: esclarecer, afinal de contas, até que ponto o Choque Tecnológico estava a mudar a Educação nas escolas.
(…Se  ninguém reparou no pormenor do “há três meses atrás“, fico mais aliviado…)

Na altura não lhe repondi, pelo meu vício de ou fazer as coisas por todo ou nem sequer as começar para as deixar em metade.
E porque se alguma coisa aprendi nos (já, meu Deus?…) anos de bloguice, foi que todos os assuntos são circulares e que se se não apanham na primeira maré de oportunidade ela lá voltará para de novo passar.

E a oportunidade pode ser agora.

Dizia então o CP: “Criticamos o governo PS quando é preciso, [mas] se há ramo governativo que tem corrido bem é o do desenvolvimento do uso das tecnologias de informação nas escolas portuguesas. Em 2009, um em cada cinco alunos terá na Escola um computador com acesso à internet, haverá um videoprojetor por sala e um quadro interativo por cada três salas“, “tendência […] ainda reforçada com o concurso de ligação de todas as escolas a uma rede 48 mbps e a extensão do e-escolas ao 7 e 8 ano de escolaridade“.
Acrescentando então o CP com sensatez: “Se estes números se cumprirem (e falta apenas um ano para o comprovar), então as escolas portuguesas serão das mais tecnologicamente avançadas do mundo“; “se assim fôr, ficamos realmente impressionados“.

Pois bem, não há – como previa – razão para grandes impressionismos.

É que – obediente a outro vício meu – só consigo encarar esta ou outra “revolução tranquila” como sérias numa óptica de estratégia, não de táctica. Isto é, numa lógica de resposta global e integrante, não numa perspectiva de tapa-buracos, como é o caso.

Em primeiro lugar, é SEMPRE mais fácil comprar uma solução que construí-la!

Como neste caso foi muitíssimo mais fácil o “Governo” assinar um par de diplomas – carregar no célebre botão que faz coisas acontecerem – que pensar uma plano estruturado e sólido.
(O dinheiro não é seu, dispõe dele com ligeireza.)

É que a chave do parágrafo do CP está aqui: “tem corrido bem [o] desenvolvimento do uso das tecnologias de informação nas escolas“.
Porque não tem corrido bem, de facto!

É um delírio – posto a coberto pela ignorância sobre o terreno da maior parte dos portugueses – dizer o “Governo” que “em 2009, um em cada cinco alunos [tenha] na Escola um computador”. (Ou como disse recentemente Mário Lino: “queremos em 2010 estar em dois alunos por computador“.)
Primeiro porque não vão tê-lo, segundo porque não o poderiam ter!

Não vai tê-lo porque o ratio actual está actualmente longíssimo desse número e porque se agora a tal da “crise” o vai financeiramente impedir, já antes não se percebia bem de onde – Europa, clasulado prévio de contratos de operadoras com o Estado,… – viriam os fundos para permitir tal maná.
Não poderia nunca tê-lo porque se já esse aluno “em cada cinco” mal cabe em salas com turmas sobrelotadas muito menos as salas de aula portuguesas suportariam a ocupação física desse tipo de aparato.
…Já sei que a resposta podem ser os famosos portáteis. Mas não. Essa não é uma resposta asseada para quem faz diariamente o número do “carreiro de formigas” com os seus alunos quando pretende usar as TICs na sua aula e vai levantar os portáteis a um ponto da escola para os usar em resma noutro oposto – com as óbvias perdas de tempo e paciência associadas. (O que – atenção! – por motivos de segurança do material, no contexto das escolas portuguesas, não poderia aliás ser de outra forma!)

…”Com acesso à internet“.
Neste momento (Fevereiro de 2009) nem mesmo escolas “de referência” para o Ministério, nem mesmo escolas especialmente empenhadas no uso das Tecnologias no seu dia-a-dia, têm acessos aceitáveis à net. (Afirmo-o com todas as letras.)
As ligações ainda são baixas em velocidade e a havê-las não cobrem em wireless a totalidade do recinto escolar – a cobertura física teria custos atronómicos! E se escolas tiverem pretendido montar uma rede como deve ser para servir as suas necessidades, terão sido instadas pelo Ministério a fazê-lo com os seus prórios – e inexistentes – fundos. Isto muito antes da “crise”!
…Para não falar do harware, das máquinas que se usam, também elas muitas a precisar de extrema unção.
Ou da graça de não haver qualquer forma eficaz prevista – em pen, em disco, etc., à falta de net – para os alunos que usam os portáteis na escola armazenarem os seus trabalhos em progresso! Os portáteis que usam hoje podem estar ocupados amahã, “amanhã” o seu trabalho pode ter sido apagado por um outro utilizador, o que confere ao trabalho com as TIC uma carga de impoderabilidade e ligeireza a que muitos professores não se prestam. (A última esmola, foram umas pens que o projecto Electrão deu às escolas – uma pen por turma a girar no início e no final da aula por todos os computadores de todos alunos, roubando-lhes metade do tempo útil. E fica tudo dito.)

Sobre o “videoprojetor por sala e [o] quadro interativo por cada três salas“, outra miragem.

É perfeitamente inútil e alucinado prometer para cada sala um projector, olhando ao País pelintra que somos (ainda de antes da “crise”). Mas  de facto não é possível usar eficazmente os ditos quadros se não houver montado em plano elevado um projector – não levado para a aula debaixo do braço, como agora, montado à altura do tronco ou do rabo do professor, conferindo à aula uma inusitada valência de espectáculo de sombras chinesas.
Estou a frequentar uma acção de formação sobre o uso das TICs em sala de aula. Em que em parte se abordam os “quadros interactivos”.
…Espectaculares, espantosos, maravilhosos, revolucionários (ou nem tanto). Inúteis se não estiverem montados de forma funcional.
Sendo que tudo tem um preço alto, que as escolas – mais uma vez – não têm posses para o pagar sozinhas, que o Ministério até agora ainda não se mexeu (estando as autarquias cada vez mais estranguladas) e que – entrados no mundo ideal  dos projectos que se concretizam – as salas de aula portuguesas podem não estar sequer preparadas arquitectonicamente para receber uma tela fixa para projecção na famosa posição “perpendicular às janelas”.

Sobre o “e-escolas“, pouco há a dizer.
Foi astuto convidar as operadoras móveis a pagar parte do custo dos PCs aos pais das crianças, tornando-os mais acessíveis. Mas é uma falsidade dizer que as operadoras assumiram perder dinheiro aqui para o ganhar com as concessões de 3G contrapartidas.
É aqui exactamente que as operadoras vão recuperar o dinheiro investido – e não dado.
Na miragem de PCs baratos, resmas de pais – de um País pelintra, repito – lançaram-se de cabeça para a compra de uma pechincha atracada de uma despesa fixa de um serviço wireless contratado por uma eternidade e nada pechincha ele próprio.

“Comparticipação a sério do legislador na despesa com tecnologia no sentido de a democratizar?”, zero.
“Apoio fiscal a este tipo de despesa tão incentivada com palavras?”, zero.

Melhor ainda que ir às compras e montar estatística: mandar ir às compras e acrescentar-lhe uns pontos.

…Mas, e o Magalhães, em particular?

…Lá irei depois. Exclusivamente.

O que é certo é que o “Choque Tecnológico”, apesar da propaganda oficial, não passa – por hora – de uma manta de retalhos.
Que não reflete nem incorpora uma estratégia coerente de integração das TICs na vida educativa das escolas.
(E se para desmentir o que digo se apresentarem exemplos avulsos, respondo que é esse mesmo o problema de que falo.)

O “Governo” tem-se comportado mais ou menos como o tótó que quer ter o computador mais artilhado lá da rua e que na loja compra os componentes todos  que lhe vêm à mão desde que lhe pareçam os mais modernaços. Para depois chegar a casa e perceber que (para além de não saber como se montam) não jogam uns com os outros.
Apesar de serem os mais rebimbas que encontrou!

O “Governo” tentou (com o pouco dinheiro que há) comprar uma solução rápida e espampanante.
Carregou num botão e houve coisas que aconteceram…

Mas ainda que aprove mais este investimento que em estádios de futebol, ele está longe de sair de cabeças de quem saiba o que anda a fazer. Por cinismo ou pura incompetência.

Dizia o CP: “é ainda necessário reforçar a aposta na qualificação e na valorização dos professores (uma área que tem sido gravemente descurada)“.
E é verdade.
Como pode pretender-se introduzir revolucionárias ferramentas pedagógicas no Ensino (e uma nova filosofia) sem ter NENHUMA preocupação em dotar de conhecimentos/técnicas aqueles profissionais a quem vão ser exigidos os frutos da sua utilização?
Alguém não está a ser sério.

Como é possível apregoar a universalização do uso das tecnologias nas escolas quando a escolaridade obrigatória está objectivamente amputada – por razões financeiras e físicas que não há coragem para afrontar – nessa falsa preocupação?
Como é possível descarregar toneladas de computadores sobre as criancinhas do 1º e do 2º ciclos quando ninguém se preocupou em dar-lhes formação nas TICs? À semelhança do que acontece (só) no final do 3º ciclo.
É sempre mais fácil passar um cheque, num momento, que assumir um projecto e um compromisso de futuro.
Das pretensas “intenções”, das supostas cruzadas, vê-se assim a credibilidade.
Alguém não está a ser sério.

Como é tão-pouco possível que a quem compete – Ministério da “Educação” e “Governo” – não ocorra que se estamos à boca do portal para outra dimensão não seja revisto o que se estuda nas escolas da Nação tendo estas ferramentas sobrenaturais à disposição?
Que conteúdos são relevantes hoje, que competências novas se visam desenvolver, que estratégias frescas se podem aplicar, basicamente, que objectivos diferentes tem a Educação nestes tempos modernistas?
Se os tem, duvido.
E duvido que alguém nas altas esferas que passa cheques já tenha pensado sobre isso durante meia hora.
E por não acreditar que nisso já tenha pensado, não acredito… na seriedade deste filme.

Tudo isto é um ovo ainda fechado. No choco tecnológico.
Cheínho de expectativas mas que tanto pode estar podre e não vir a dar-nos nada (porque o desafio é exigente, competitivo e urgente), como dele pode nascer o mais amoroso pinto. (Desde que não seja “de Sousa”.)

Resta-nos ficar atentos, CP.

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3 Responses to “No Choco”

  1. Henrique Says:

    A minha escola tem bastantes computadores, muitos já bastante obsoletos. Excepto a utilização como máquina de escrever e de gestão da avaliação, para nada mais servem. As salas de TIC estão equipadas com muitos computadores, mas se se pretender fazer uma sessão para consultas na Internet, a lentidão inviabiliza o trabalho. Habituados que estamos ao acesso rápido de que a maioria dispõe em casa, qualquer performance menos boa na escola desmotiva a utilização. Por isso, nem se devia investir nada nas TIC porque é um investimento votado ao fracasso. Quadros interactivos também para quê? Vai acontecer o que aconteceu a outras técnicas de projecção, raramente se usam, só servem para “show off”.
    Mas aos poderes instalados sabe bem poder gastar dinheiro nas TICS. E então as negociatas?

  2. Clavis Prophetarum Says:

    Sim, já se percebeu que este Governo é excelso a Anunciar e um tanto medíocre (ou lento) a executar… Ainda assim, quero crer que no Global as coisas nesta vertente específica (da inserção de IT nas Escolas) as coisas estão melhores.
    Não concordo contudo, como os quadros eletrónicos (que acho um desperdício) ou a cedência de netbooks com XP (deviam correr Linux), mas comparando com governos anteriores, esta gestão é excelente…
    apesar de todo o marketing político (mais figurantes) e dos erros de percurso, penso eu de que…

  3. anape Says:

    Na globalidade subscrevo. Contudo, terei muito mais a acrescentar, pelo que começo pelo comentário anterior de C. P.:
    «(…)comparando com governos anteriores, esta gestão é excelente…(…)»
    Na minha opinião trata-se de uma perspectiva completamente irrealista. A única “gestão excelente” que vejo (eu e muitos professores, pais e técnicos) neste governo é a da propaganda (não confundir com publicidade), da negociata (mixórdia entre o público e o privado) e total desperdício do erário público.

    É evidente que nunca os professores/escolas foram ouvidos (nem convinha), por isso deu no que deu o “Choque Tecnológico”, uma total descoordenação de esforços e de dinheiros públicos!
    Para reforçar este desabafo, basta dizer que antes do “CT”, muitas escolas (a 30 Km de Lisboa) estavam completamente operacionais, com redes devidamente estruturadas, servidores e demais equipamentos (a maioria fruto de donativos empresariais), além de “informáticos” de apoio. Investiram (não gastaram!) milhares de euros para dotar as estruturas escolares com toda a panóplia de equipamentos/meios necessários, com base nos serviços prestados pela monopolista PT que nunca soube informar que redes iria desenvolver.
    De um momento para o outro a PTec coloca à porta das escolas uma “fibra óptica” não compatível com todo o equipamento e redes criadas nas escolas. De um momento para o outro deu-se o colapso e nada funciona, nem há internet, nem Prodesis. Também os novos cartões para alunos e professores que vieram substituir os antigos (que funcionavam) não funcionam mais. Um caos.
    De um momento para o outro o “CT” inviabilizou o pouco que levou anos a colocar em pleno… e sem soluções, mesmo num ano de eleições, espera-nos apenas “olhar” para os servidores a acumular pó.
    É esta a política e o país que temos! 😦


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