O Calhau

Já não é novidade para ninguém. Não é com esse tom que o refiro.

É mais com incómodo intelectual.

Em mais uma edição do Correio da Manhã, Emídio Rangel volta a “escrever” uma crónica das suas. Com o seu estilo e no seu estilo habituais.
Mais uma vez sobre a temática que lhe é mais cara: o louvor a Sócrates. A quem chama “O Rochedo”.

Da sua cabeça formatada e pela sua pluma obediente desfilaram em carreirinho o que julga serem as superiores qualidades que comprovam o rochedismo do sr. Pinto de Sousa.

Uma liderança forte do partido e do Governo“, “a mesma força e a mesma determinação que exibia em 2004“, “o mérito, o trabalho e a dedicação, sem quebras“, “[a] capacidade de luta invulgar“, “[o] manter sempre índices elevados em todas as sondagens“, “podendo mesmo vir a reclamar de forma definitiva nova maioria absoluta“. “Foi, de certeza, muito difíci subir e descer montanhas, enfrentar dificuldades de monta, no partido e no País, e continuar como um rochedo, desafiando todas as intempéries“.

…Porque Rangel nos aviva a memória: “Sócrates teve e tem um inimigo interno perigoso e capaz de todas as tropelias, […] Manuel Alegre, que se revelou um homem capaz de atraiçoar os seus camaradas no momento em que sentir terreno apropriado para a façanha“.
Também […] as oposições a Sócrates usam mão de todas as armas, da Universidade Independente ao caso Freeport, para derrubar o político que tem ousado responder à letra às calúnias e às armadilhas postas para denegri-lo. São oposições que nem no momento em que o PR apela à unidade do País, nem na ocasião em que emergiu uma crise mundial de grandes proporções que afecta tudo e todos, são capazes de dar ajuda, uma solução, uma opinião de boa-fé“.
(Um rochedo se calhar apenas um pouco pintadote de uma e outra polémicas que lhe vão pousando em cima e escorrendo por si abaixo a sua clara marca.)

Mas Sócrates não é só um rochedo. É o único. Por isso está sozinho, na sua rochideza, no embate com os gajos normais que o retraem na sua marcha gloriosa.

…E há depois uns terceiros. Os sabujos.
Como Emídio Rangel.

E esta não é uma dicotomia de bolso – de bons e maus. Dicotomia cegueta é a do autor daquele texto.

O que afirmo é simplesmente que se Sócrates tem acertado (?) também tem falhado. E que da ponderação entre o acertar e o falhar o resultado prático para um País em retrocesso não convence. E que se se vai mantendo popular desta forma é graças ao controlo pidesco sobre os dissidentes e à arregimentação de uma corte laudatória de serviço. E que se hoje Sócrates ainda se permite falar no tom como fala com os seus interlocutores e à Nação, tal se deve exclusivamente à incapacidade de um povo castrado e “politicamente correcto” para lhe puxar os colarinhos e dar-lhe de vez em quando umas cabeçadas – apenas de vez em quando, no momento certo; não era rigorosamente preciso nada mais que isso.

E é precisamente nesta selecta turba de louvadores que encaixa Emídio Rangel. Naquela corja cromática que rodeia sempre a Corja dos políticos que exercem funções.
Lá saberão muito bem porquê…


Não me peçam é para lhes achar graça.

Porque quando Emídio Rangel redunda na fórmula estafada dos outros “a pensar de que os portugueses são todos estúpidos” faz o esboço do que o próprio pensa em actos.
…Pensando iludir alguém de que o seu justo juízo e as glórias que canta ao (seu) Salvador não são – num jogo de espelhos – tão evidentemente contaminadas de afeições e desamores como as críticas dos que só lhe vê defeitos.
É o discurso de um calhau destinado em esperança a outros calhaus que se deixem por si persuadir e arrebanhar.

Que eu não vejo só defeitos em Sócrates…

Se quando Sócrates ascendeu ao poder no PS “muitas foram as vozes que na altura afirmaram reticências à capacidade e à inteligência do jovem líder“, já aí eu lhe reconhecia créditos.
Sobre a sua “inteligência” não exageremos, mas sobre a esperteza e a tenacidade com que papou na corrida ao Secretariado-Geral João Soares e Manuel Alegre haveria muito a dizer…
E sobre capacidade de gestão de equipas e influências, que continua a demonstrar até agora, num País de sociedade policienta, de pensamento único, sob o medo – para o qual Ramalho Eanes alertava há poucos dias.

Se Emídio Rangel acredita no que diz, que “a crise, que ganhou agora maior expressão com os índices do INE, vai ser vencida [com] Sócrates” (como se a culpa fosse agora do INE…), é bom. Fica mais feliz. Fico aliás mais feliz por ele.

Mas eu não acredito, paciência.

Porque acho que o rochedo é mais parte do problema que da solução.
E que o que está a correr mal tem larga margem para passar a correr pior. (Muito fora “conjunturas”…)

Se [o Rochedo-]Sócrates tem hoje mais cabelos brancos [e o] seu rosto por vezes exibe o desgaste” tal deve-se a uma natural erosão.
À erosão de quem se arrogou a pureza, de quem se propôs a perfeição, começando depois a aparecer aos olhos do povileu, sob a força desgastante da Natureza, como um homem com duas pernas e dois braços. Para a surpresa dos calhaus, mais um gajo normal. Que o paleio auto-justificativo cada vez menos inocenta. Que cada vez mais precisa dos Rangéis e demais calhaus como muletas e dínamos.

…Que quando o rochedo se erodir de vez, em mil bocadinhos, vai de novo e em definitivo voltar a confundir-se com a pilha de cascalho que para aí há, de que é perfeitamente igual na essência.

[Publicado no Canto Aberto.]

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One Response to “O Calhau”

  1. Henrique Says:

    Calhau–>cagalhau–>cagalhães, um monte de esterco fedento, corrupto e mentiroso, sem escrúpulos, vaidoso, convencido, para além de outras “qualidades” que se lhe adivinham…


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