Agressões Selvagens

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Saiu a notícia de que o Ministério da Educação “pretende recrutar professores reformados para, em regime de voluntariado, colaborarem no apoio aos alunos nas salas de estudo, projectos escolares ou no funcionamento das bibliotecas, entre outras actividades“.

Para ficar tudo claro desde início, marco a minha posição.
E, numa terra em que só se fala e percebe de bola, deixo a imagem bolística daquilo em que se poderia traduzir a posição que marco: esta proposta do Ministério da Educação é uma agressão selvagem.

Na exacta medida das agressões ilustradas no singelo quelipe abaixo espetado…

…Elas são a imagem de como o Ministério joga este jogo.

Ponho já de parte a evidência engonheira de que o “voluntariado” é uma força desaproveitada na sociedade portuguesa – fonte de energia não rentabilizada, destino válido de vontades que canalizadas facilmente resgatam cidadãos válidos ao desânimo ou à frustração.
Esse é o óbvio.

Mas o jeito deste “Governo” para transformar o razoável no absurdo é muito grande.
E esta proposta de “voluntários” a trabalhar durante “um ano lectivo” na escola, num “mínimo de três horas por semana” é uma entrada a pés juntos a quem neste momento nas escolas resiste como pode às agressões diárias que lhe moem as carnes.

Algumas faltas duras cometidas nas grandes áreas que este “voluntariado” pretende cobrir:

1ª A falta de sentido.
Eu não preciso de reforços de Inverno vindos do “voluntariado” dedicados ao “apoio a visitas de estudo” – só assim.
É que para mim uma visita de estudo é tão séria como uma aula. É uma aula, na preparação, na preocupação com o seu desenrolar, na sua exploração para a aprendizagem. É serviço lectivo, não é “passeio”. Não delego a ninguém prepará-la, não levo qualquer um a acompanhar-me. Sei quem me é mais útil no contexto dos alunos que conduzo em visita. Não me fazem falta “apoios”.

2ª A falta de lógica.
Não faz sentido nenhum pôr “voluntários” a cruzar bolas para a área dos “projectos de melhoria da sociedade local” quando esses projectos já têm jogadores para essa posição.
“Projectos”, a havê-los e a serem projectos pedagógicos, estão na mão dos docentes. E não sou eu que o digo. O Decreto-Regulamentar 2/2008 que rege a “Avaliação” de Desempenho Docente contempla esse tipo de envolvimento dos professores como parâmetro da sua avaliação.
Diria que antes se percebesse o que são esses “projectos” e só depois se orçamentasse o plantel. Antes se percebesse a necessidade de “apoios”.

3ª A falta de fundamento.
Não é possível colocar “voluntários”no “apoio à formação de professores e pessoal não docente [ou no] planeamento e realização de formação para pais“.
Toda a gente sabe que não faz parte das “competências científicas” de um docente comum – não obstante os anos de experiência – a habilitação para dar esse tipo de formações. Pelo menos que não sejam meros encimentos de chouriços… Ou então o Ministério da Educação vai começar a dar formação de formadores aos “voluntários”?… Quando tem no total desleixo a formação dos docentes em funções?…

global

4ª A falta de vergonha.
Ao propor que os “voluntários” façam “nas salas de estudo, projectos escolares ou no funcionamento das bibliotecas” trabalho de roupeiros, de membros de claque, de jogadores ou de treinadores, o Ministério da Educação mostra sem margem para dúvida reconhecer a falta de recursos humanos para numa escola gerir estruturas de apoio à docência, que nunca levou a sério.
Agora leva-as. Querendo-as a funcionar à borla.
Porque, contrariamente ao que o Ministério jura a pés juntos, não me custa nada acreditar que não só este é um remendo barato para o relvado esburacado, como os remendos vão amanhã passar a substituir as despesas com jardineiros.
(Quando se prepara para montar e pagar em “cada Direcção Regional de Educação uma estrutura própria” para gerir a “voluntariedade!)

5ª A falta de ética.
No meio de uma história de entradas por trás, cotoveladas e mãos nas bolas, que ainda não acabou de ser contada, que está a roubar gente aos relvados e a deixar desertas as bancadas dos que acreditam na Educação, no meio de uma história que está a revoltar as entranhas de quem olha para estes dirigentes da bola e os responsabiliza pela batalha campal periódica com que a Nação é brindada, é do supremo descaramento perguntar aos lesionados em campo se querem reentar para mais uma dose.
Dirigir-se a muitíssimos docentes que fugiram do Ensino por não suportarem mais jogar com infiltrações, propondo-lhes um “voluntariado” exercido “de livre vontade, sem remuneração” – como uma prenda que se dá – do qual ainda terão “no final de cada ano lectivo, [de elaborar] um relatório anual […], no qual deve constar uma autoavaliação“.

 

Mas não é líquido que nenhum professor avance.

É que há-os mesmo que amam a profissão. Conheço alguns. Que reconhecem e assumem o papel social do desempenho da sua função. E que por isso podem desejar não a ver seccionada de um dia para o outro…

Agora, não é deles que falo!… Não é a eles que me refiro. (Até porque não é com a sua idade que se cometem em campo as agressões selvagens que passam no filmezinho acima…)

Refiro-me a um Ministério da Educação que afirma pela boca de um senhor Secretário de Estado que como “nenhum enfermeiro ou assistente social é substituído por existirem voluntários num hospital” numa escola os “voluntários” não vão suprir as faltas directas de gente para o exercício docente.
Sabendo – como sabe quem tenha uma remota ideia de como funciona uma escola – que tal é uma barbaridade e ainda assim o diz.

…Porque para gostar de bola não é preciso ser inteligente. Mas é preciso haver notícias!
Porque o campeonato é longo. E é preciso manter os adeptos entretidos com polemizações constantes!

“Degradação do estádio da Educação?” Não faz mal. Compensa.
Enquanto certa gente não vir o cartão vermelho, é jogo.

[Publicado no Canto Aberto.]

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2 Responses to “Agressões Selvagens”

  1. Maria João Silva Says:

    Ao que parece isto do voluntariado ainda é uma proposta, que estou em crer poderá não ir avante. De qualquer maneira, mesmo que seja aprovada essa possibilidade, creio que os possíveis “voluntários” não vão aparecer nas escolas, porque infelizmente a esmagadora maioria dos reformados da profissão de professor não sentem vontade de voltar ás escolas, muito menos de forma voluntária. É preciso ter fé ….

  2. O. Braga Says:

    Gostei do cartão vermelho. E do resto também.


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