O Renovável Homem Admirado

Mais uma prova da nossa capacidade de nos maravilharmos com tudo e com nada.

Para conferir, está aí outro número da revista Visão.
Com uma capa… muito “gira”. Exibindo o seguinte texto.

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Supostamente esta “peça” actualiza-nos por esmola o ponto da evolução do Homem 2 milhões de anos depois.
Desde que com a sua cara peluda se pôs de pé, começou a andar por aí com uma pelacha manhosa a cobrir as carnes e de osso no nariz (pelo menos foi o que eu vi num filme…), a arrastar as mulheres pelos cabelos (também vi isso no mesmo filme), a sair para caçar e a coçar as partes nos momentos mais mortos (esta parte não vi nesse filme, mas deve ser verdade porque de algum lado há-de ter vindo o tradicional costume).

Dá-nos conta que o bicho-homem-século-XXI mudou radicalmente desde então.
Já não tem cara peluda – depila-se; já não enverga pelachas – perfuma-se; já não anda de osso no nariz – cuida das rugas; já não sai para caçar – fica a tratar dos filhos; já não arrasta as mulheres pelo chão – foge delas; já não partilha com os seus semelhantes o ritual de coçar as partes em público – partilha sentimentos.
Aliás, anda à procura “de um modelo de masculinidade alternativo aos dos nossos pais e avós” – que esse, como é evidente!, não lhe serve.

E preocupa-me – fora a parte da parvoíce – a montagem, a sementeira e a colheita deste protótipo modernaço de “indivíduo”. (Assim designado porque “macho” é um arcaísmo e “homem” parece que acentua a discriminação entre sexos.)
E não só deste protótipo mas dos muitos que avançam a par no mesmo sentido: o da desconstrução.
Desconstrução da norma – “esquadro” em latim – , desconstrução da tradição  – em latim, acto de entregar, transmitir, passar, ensinar.

Que sucesso e que paródia é hoje a desconstrução!

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E como se desconstrói?
Um homem… ups!, um “indivíduo”, pode ser na nossa “democracia” assim ou assado como quiser, está à vontade, o que é certinho é que se não for como manda a desconstrução vigente, não será de certeza um

HOMEM NOVO!

E claro que toda a gente ambiciona ser um

HOMEM NOVO!

…Ser parte desta dialética moderna!

Hoje um “indivíduo” deve tratar das suas rugas e depilar-se: deve ser fútil e gastar tempo em absurdos, criar para si dependências de futilidade, para que não venha a perder tempo com coisas como… sei lá… pensar, ou isso…

Hoje um “indivíduo” deve “perfumar-se” (com aspas porque literalmente também eu não ando a cheirar mal e não é disso que aqui se trata!): deve colocar especial atenção na sua aparência, no primeiro contacto, sabe aliás que a sua relação com os outros deve assentar na superficialidade, para que não dê por si um dia a comprometer-se ou a tomar posições…

Hoje um “indivíduo” deve assumir o papel de género do “acossado”: ido o tempo do marialvismo abusador, passado o tempo dos processos por assédio, faz agora parte das boas práticas que sejam eles a ser “investidos”.
Inverter alógica e abruptamente os papéis no jogo permite que o absurdo ponha em risco o próprio jogo. E feita a tábua rasa, estamos limpinhos para a formatação.

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Mas curiosamente – quem diria!, contra qualquer expectativa! – esta brincadeira tem aspectos negativos.

1º A mistura na caldeirada de palhaçadas e de coisas sérias, tornando-as palhaçadas todas.
Quando o meu filho nasceu, exerci o direito a Licença Parental que me cabia – pelo que fiquei sem receber uns meses (que diferença me fizeram) e desdentado no tempo de serviço docente, o que me vai ser lembrada até à data da reforma pelo generoso Estado Português. E refazê-lo-ia.
É uma opção própria dos dias de hoje. Os homens passam mais tempo com os filhos que antes. É importante. Devia ser assinalado. Não são depilações. Mas é uma palhaçada, porque está metida entre palhaçadas.

2º O parto pouco natural de uma coisa que ninguém sabe o que é, mas que como é modernaça deve ser o máximo!: essa coisa do “Homem Novo”. Essa coisa mediática-publicitária-política do “Homem Novo” que face ao presente negro e ao futuro incerto convida cada um a virar-se para a religião do fútil e do fácil. A desmontagem peça por peça do que é “um homem” – “um ser inteligente”, “um pai”, “um marido”, “um cidadão”, etc. – para remontar o conceito actualizado com uma série de aditivos, corantes, conservantes, que não pretendem mantê-lo como era ou o que de bom ele tinha, mas apenas eliminar e reconstruir de base uma “coisa nova” que já não é nada, mas que serve o propósito de fundar uma sociedade que também já não é nada.

3º  A inevitável procura “de um modelo de masculinidade alternativo aos dos nossos pais e avós“, que, como é evidente, não pode interessar, por remeter para o que ficou para trás e limitar a marcha triunfante do “Homem Novo”.
Quando até há bem pouco a memória e o exemplo dos nossos maiores era um património que nos centrava no mundo, hoje é uma perigosa ameaça. Distrai-nos a olhar para trás e diferencia-nos perigosamente. Pelo que que há que apagá-los.

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Vivemos já no mundo dos alfas e dos betas.
Dos predestinados e dos condenados. Dos viáveis e dos inviáveis. E há um alguém que se encarrega de o definir. Por razões que lá saberá e de que não tem de dar contas.

Podia olhar para esta capa da Visão apenas como uma uma anedota. (Que a rapaziada possa cumprir alguns destes mínimos, consegue-se bem para amostra, agora que seja assim…)
Mas opto por não fazê-lo.

Que o que me aflige não são as mariquices metrossexuais.
É o já se ter entrado na esfera dos “sentimentos“. Da nova norma do que cada um deve sentir. Para ser um

HOMEM NOVO!

bem entendido. Do que começa a ser “normal” ou não “um homem”, “um pai”, “um marido”, “um cidadão” sentir. E de como deve mostrá-lo: “em público“.

Só não apercebendo os monstros que brincam com estas coisas que a insatisfação e a raiva também são sentimentos.
Que também podem ser “mostrados em público“.

Ainda que possam – que chatice…- sair do padrão da moldura estética vigente.

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One Response to “O Renovável Homem Admirado”

  1. …”Estimada Leitora” « Pedro_Nunes_no_Mundo Says:

    […] February 19, 2009 — pedronunesnomundo Ainda há pouco tempo assinalei aqui uma capa da Visão a que achei muita […]


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