“Um Contra Todos”?

Detalhe do "David" de Gian Lorenzo Bernini

Como numa corrida aos saldos de Inverno, por toda a Nação da Educação os docentes acorreram a entregar os seus “Objectivos Individuais”.
Falo dos “Objectivos Individuais” que o Decreto-Regulamentar 02/2008 de 10 de Janeiro refere – o DR da alteração à Avaliação do Desempenho Docente. Onde o docente enuncia os “objectivos” que se propõe alcançar no desenrolar da sua actividade no intervalo de tempo a que a Avaliação de Desempenho diga respeito.

Acontece que eu não fiz a entrega dos meus “Objectivos Individuais”.
Tendo disso dado conta, como me competia, ao órgão de gestão do meu agrupamento.
(Como a Declaração que aqui deixo linkada regista.)

Encontro-me agora – pela obstinação de respeitar a minha consciência e os meus princípios – no compreensível receio do que me possa profissionalmente acontecer.
Não porque me tivesse entretanto arrependido – quem age ponderadamente e com raíz na sua honra raramente terá razões para querer voltar atrás.
Mas por ser humano, e tão frágil como qualquer pessoa que dependa do rendimento do seu trabalho, tenha uma família a seu cargo e preze ao mais alto nível o seu bom-nome. (Assim não fosse e muito mais longe estaria pronto a ir.)
…E por saber com quem trato, o tipo de gente de quem espero uma sensatez correspondente à minha. Por saber que da cegueira e na vertigem tudo é de esperar.

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Ocorreu-me um texto lapidar do HS que li no Hora Absurda. Estávamos nós naquele período engraçado desta história em que o Ministério da Educação inventou o envio por mail dos Objectivos para os serviços centrais.
Dizia ele nesse seu texto.

Ao meu avaliador vou dizer apenas isto: avalia-me se te sentes capaz de o fazer, mas não me peças nada, entra nas salas onde eu estiver a dar aulas quando bem entenderes, pede autorização para consultar o meu processo na secretaria, lá encontras tudo o que eu já fiz nestes anos todos, que abonam a favor e contra mim. Também lá estão as faltas que ingenuamente pensei que eram «a descontar nas férias», também lá está o processo disciplinar que me levantaram quando me recusei a fazer substituições, coisa que ainda hoje não faço nem farei. Encontras lá as acções que fiz sobre como fotografar igrejas e vacas a pastar, as acções de como recortar papel para fazer acetatos animados quando já havia Power Point. […]
Vá lá, força nessa avaliação. Estou no 9.º escalão, não me interessa já subir para o 10.º e último, faço 57 anos daqui a alguns dias, logo que tenha 30 anos de serviço peço a reforma e vou plantar batatas. Palavra de honra!

Só nos distinguem vinte anos de idade, uns bons escalões e o ter acedido há muito tempo às “substituições” – que tenho como um mal relativo.
No resto, revejo-me nas suas palavras.

Vivemos um momento de aventureirismo educativo. Que como tudo o que rima com “educativo” terá a seu tempo o impacto de uma maré na sociedade em que vivemos.
Quem decide hoje a Educação não mostra certeza de porque o faz, através de que meios ou sequer com que consequências.
– O que parece (des)compensado com a euforia desvairada de arrancar, avançar, forçar e fazer chegar a uma meta ficcional uma carroça cada vez mais desengonçada, que chocalha, perde peças a cada passo do caminho e põe em risco todos os que lá vão dentro.

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E este é o sentimento geral dos professores do País. Que só por motivos mesquinhos não põem os pés à parede e dizem “Basta!”.
Não me refiro a uma mesquinhez íntima dos professores – esse discurso é o de outros. Refiro-me é à situação em que a nossa “Democracia” nos colocou, a de não ser certo para ninguém que por discordar, divergir, por levantar a sua voz, não seja visto como um “deficiente social”, um indesejado, um proscrito na sua própria casa e um corpo estranho a eliminar.

Sabendo que não devem, por acharem que “não podem”, os professores (com algumas excepções pelo meio) vão transigindo. Vamos dizendo que sim. Vamos deixando que aconteça e que nos aconteça, preferindo o conforto de pensar que nada se pode fazer.

…Até ao momento igualmente confortável de pensar que já nada há fazer, tal o ponto a que as coisas chegaram.
E a vida continua.

Mas nem sempre pode ser assim.
Não quando as perdas são tão altas.

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O que fiz, fi-lo bem.

Por achar que devia.
Por manter – até às portas do desespero  – o respeito pelo processo e pela hierarquia a que ela me obriga.
Por tê-lo feito num timming responsável. Quando já não havia risco de a minha declaração fomentar mais confusão no processo de Avaliação do que a inevitável e já constatável.
Por tê-lo feito sozinho – como não preciso de mestres que me empurrem para o que acho justo, também não preciso de camaradas que me sustenham ou muito menos de discípulos atrás das minhas manias.
Por não ter pretendido fechar uma porta de que não tenho a chave – como dizia por outras palavras o HS. Se a Avaliação contempla os docentes, eu estou automaticamente por ela abarcado.

Se este modelo de Avaliação de Desempenho der frutos, serei o primeiro a beneficiar deles. Pelo que só posso esperar que, se avançar, seja o maior sucesso.

Entretanto, como expus na declaração que atrás referi, este modelo de Avaliação só me traz insegurança e incerteza pela efemeridade das suas regulamentações – permanentemente reformuladas e contraditas – fazendo com que não só o “conteúdo” e o “funcionamento” do modelo sejam elementos intranquilizadores no próprio processo, como numa perspectiva mais larga os seus “fundamentos” sejam passíveis de desconfiança, desaconselhando a adesão incondicional da parte de quem nele se encontra envolvido.

…Quando no nº 4 do artº 11º o DR 02/2008 de 10 de Janeiro diz ser “garantido ao docente o conhecimento dos objectivos, fundamentos, conteúdo e funcionamento do sistema de avaliação do desempenho”.

Não me peçam tanto.

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A história não está para acabar.
(Certamente a nível nacional, eventualmente a nível pessoal.)

Serão muitas as missas que ainda se vão rezar por este moribundo.
Muitas velinhas que muita gente se vai afanar a acender, com maior ou menor convicção.

O que é certo é que não devem contar comigo para as acender.
Ou para ter paciência para quem as acende.

Pior: cada vez mais são dois lados inconciliáveis, os dos que acendem as velinhas e o dos que as não acendem.
É que se o fundamental da actividade docente está noutro lado que não nestas tretas, não pode ser indiferente a ninguém profissionalmente sério julgar a degradação do que considera fundamental, na dimensão da origem do que o degrada e da identidade dos seus agentes.

.

[Este post não teria sido possível sem a prestável ajuda do JPG do Apdeites – gente que tem rosto
para além da net e que no mundo real descubro ao nível da sua estatura virtual. A quem agradeço.]

.

[Agradeço, como sempre, todos os comentários que tenham a deixar neste post – como em qualquer outro.
Apenas por motivos de ordem prática os comentários estão aguardando aprovação da parte do administrador.]

.

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3 Responses to ““Um Contra Todos”?”

  1. JPG Says:

    Nos tempos altamente vigiados que vivemos, este seu (corajoso) texto apenas me merece um aplauso vigoroso, por um lado, e um alerta prudente, por outro: como tive a oportunidade de referir no Apdeites (cf. http://apdeites2.cedilha.net/?p=1235), havendo uma ameaça clara de procedimento disciplinar, este manifesto pode constituir matéria processual… nomeadamente por quebra do sigilo profissional (ou outra coisa qualquer que os tipos quiserem inventar).
    Espero bem estar enganado!

  2. Henrique Says:

    Meu caro, um post muito bem urdido e a minha vénia pela verticalidade demonstrada. Obrigado pela referência, mantenho o que disse então, sem alterar uma vírgula. A minha porta está sempre aberta, entrem e avaliem se quiserem. Também no tempo da PIDE era assim, nunca impedir os escroques de actuar, cada um que assuma a sua forma de estar.

  3. Rosana Says:

    Como é de esperar, eu também não entreguei nada! A minha convicção é tão forte como a de muitos deste país. Estou disposta a ir para a rua, se assim tiver que ser. Continuarei a percorrer este caminho e nada me levará a dizer, pensar ou fazer o contrário. “It’s getting cold here! We need a BLACK scarf and a fireplace to get warm” Estou contigo e com todos aqueles que pensam e agem com o mesmo princípio, o da soberania do povo. Beijinhos da contratada há 8 anos sem perspectivas sorridentes!
    Há que continuar a abrir caminho! De outra forma paramos, ou voltamos para trás…


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