Jargão “Hi-Tech”

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Mais uma Graaaaaande Entrevista. Enooooorme!

Por motivos de agenda – que um caramelo qualquer de que não ouvi o nome não pôde estar ontem no estúdio da RTP – a Procuradora Cândida Almeida senta-se à frente de Judite de Sousa.

Por obra do Altíssimo, no mesmo dia em que o sr. Pinto de Sousa achou que tinha de vir a público – pela vigésima vez – fazer importantes esclarecimentos sobre “campanhas negras“, “provações“, “derrubes políticos“, “poderes ocultos“, “notícias difamatórias“, “informação selectiva“, “manipulação“, “calúnias“, apareceu no canal do Estado a dar-lhe corda a Directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal.

imag0100Vi. Com atenção.

Mas confesso a dificuldade para acompanhar aquele jargão técnico dos magistrados e juristas.

Percebi bem, isso sim – até pela repetição – que o sr. Pinto de Sousa “não está a ser investigado“… neste momento, quero dizer! E que se fosse hoje nem a expressão “ [ter] «solicitado, recebido ou facilitado pagamentos»” teria sido aplicada ao Primeiro-Ministro… ainda que amanhã não se saiba!
(Por tudo isso sou eu um crente na alvura do cavalheiro.)

Mas já não percebi bem foi aquela parte em que a senhora Procuradora disse – de forma muito técnica – que a associação duvidosa de Sócrates ao licenciamento do Fripóre foi feita pela primeira vez numa denúncia anónima à PJ, em 2004, “num parágrafo inocente, metido à força, [em que] aparecia o nome de José Sócrates e da mãe“.

Desconheço o termo jurídico “num parágrafo inocente“. E o “metido à força” também.

Teria sido importante a pedagogia do povo ignorante, feita por alguém que veio à pantalha para propositadamente trazer a luz da verdade e da justiça ao caos.

Mas não lhe chegou a boca para tanto. Foi pena.

Fica de certeza para a próxima.

“Só Tu É Que Me Entendes…”

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O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros considerou […] que o eventual envolvimento de José Sócrates no caso [Fripóre] parece envolto numa campanha de «raiva»” [link]

 

Folgo muito em ver que o senhor já anda melhor das costinhas.

…O que lhe permite voltar a fazer apostolado da vida com coluna vertebral.

O Direito ao Café

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Estive ontem a assistir a um bocadito da audição no Parlamento de Dias Loureiro por causa das baldrocas do BPN.
– Aquela “comissão parlamentar” fantástica, presidida pela grande especialista nestas podas que é a deputada Maria de Belém.

E deu-me algum nojo.

Não a condução dos trabalhos, que não acompanhei.
Não o teor do depoimento, cujo fio não me interessei por seguir.
Mas o tom com que Dias Loureiro se apresentou a depor.

Um tom informal, blasé, descomplexado, solto, tu-cá-tu-lá, ingénuo, insuportável.

Não suporto que alguém como Dias Loureiro, para tratar assuntos como o afundar de um banco por onde passou, no momento em que o “Governo” despejou milhões meus sobre fogos acesos por gente do seu meio, sentado no Parlamento, no contexto histórico da discussão da sua saída do Conselho de Estado, um “Senador” da Nação, adopte este tipo de tom para responder numa Comissão de Inquérito.

Não suporto ouvi-lo contar as conversas de bastidores entre os tubarões da sombra da sociedade portuguesa, os seus entendimentos e os seus acordos titânicos, os seus negócios e decisões passíveis de sacudir o País como ondas sísmicas, os seus golpes de rins de interesse à margem da Nação, com o mesmo tom com que o homem comum narra no café a outro homem comum episódios da sua vida comum.

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 …Fantástico como alguns sujeitos se vestem com a roupa da superioridade quando lhes agrada e vestem os panos da humildade quando muito bem lhes convém.

Mas não cola.
Tanto não cola que é um insulto…

E seria agradável, de vez em quando, ver cair sobre estes deuses que a seu prazer vertem o maná sobre a Terra – e sobre as próprias cabeças! – uma pragazinha bíblica na proporção do seu poder.

Não faz parte da ordem da Natureza, mas sempre equilibrava as coisas.

Padrões

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Inesgotável capacidade de inventar…

O que seria de nós este Inverno sem o padrão fashion da laçada à enforcado nos cachecóis?

…Para o ano inventamos outra.

A Caça ao Estúpido

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Afinal parece que a malta das notícias já se vai descosendo, como eu pedia.
Não só já o Sol, mas a SIC, a TVI, o Correio da Manhã, o Expresso, o Diário de Notícias e outros avançam com “investigações”, informações, cruzamentos de dados, análises e questões formuladas directa e indirectamente aos protagonistas, numa maré de perda de respeito ao dono e de zarpar rumo ao que é o seu trabalho sério: fuçar na lama e encontrar as trufas.

É a isso que todos temos direito. É isso que nos confere o código deontológico do jornalismo.

“Parece” que houve asneirada da grossa no nascimento do Freeport de Alcochete. E que está a vir à tona.

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Houve uma conferência de imprensa, dada live, de urgência, pelo Sr. José Sócrates Pinto de Sousa sobre o caso Freeport (daqui em diante referido como Fripóre.)
Que colocou o País na posição em que prefere estar:  a da Caça ao Estúpido.

Na conferência disse então Sócrates sobre o Fripóre:
não se lembra da conversa que teve com o tio sobre pagamentos ilícitos de 4 milhões de contos para aprovação em Portugal, durante um “Governo” em que estava, do maior outlet de toda a Europa;
2º a única reunião em que esteve presente foi convocada pelo Presidente da Câmara de Alcochete à data;
3º aliás, o processo de licenciamento do Fripóre não contou com nenhum tratamento de favor da parte do Ministério de Sócrates, nomeadamente um especial desembaraço;
4º e muito menos teria o Ministério de Sócrates favorecido os promotores do Fripóre ao torcer as regras ambientais que regem o País e a União, reajustando limites de uma Zona de Protecção Especial da Natureza…

…O que não podia estar mais em contradição com os factos até aqui apurados, parecendo ser a afirmação peremptória de cada um destes pontos um evidente risco para quem o faz.

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O já famoso tio de Sócrates afirmou com todas as letras que ajudou os senhores que queriam fazer o Fripóre a reunir com o sobrinho – mal-agradecidos que nem obrigado lhe disseram – porque “um gabinete de advogados” os informara que o preço de aprovação do projecto eram “4 milhões de contos“, ao que responderia Sócrates ao familiar que não era nada disso, “ele é que tratava desses assuntos“.
(…Sendo muito interessante que Sócrates não tenha depois mexido um dedo para apurar isso de andarem a pedir milhões a terceiros sob pretexto de aprovação de projectos sob a sua alçada!…)
Mais: um primo de Sócrates terá mesmo exigido aos senhores do Fripóre um pagamento pela intervenção da família no processo.
Pontos 1 e 2 ao ar. (Mesmo que Sócrates renegue a família aspergindo-a com água benta.)

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Sobre a estranha eficiência do processo de aprovação do Fripóre fica tudo dito no taxativo despacho do primeiro juiz de instrução do caso, que considerou encontrar nele “várias irregularidades e uma celeridade invulgar“.
Sobre os – chamemos-lhes – “ajustes” que a Zona de Protecção Especial sofreu às mãos do Ministério do Ambiente a três dias de saída de funções, não só a SIC apresentou um boneco que torna tudo muito claro, como o Secretário de Estado do Ambiente que veio depois de Sócrates confirmou o que era por demais sabido: que a União Europeia veio a chumbar as alterações do Ministério do “Engenheiro” e as obrigou a recuar.

Tudo num sentido diverso do afirmado pelo Primeiro-Ministro.

Ou seja, esperemos que, mais uma vez, Sócrates não tenha falado demais embaraçando-nos a todos.


É que já houve outro momento extremamente embaraçoso para todos com características semelhantes estas, envolvendo o “sr. Engenheiro”.
Regressos ao passado, suspeitas de irregularidades, “estão todos contra mim!“, grandes esclarecimentos ao País“, “não é assim que me derrotam!“, lágrima no canto da alma, “não foi isso, foi parecido“, “ai que eu não me lembro!“, “eu andei foi com más companhias“, “mas alguém consegue provar alguma coisa?!“… Fim!

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Daí eu falar da Caça ao Estúpido.

Não me interessa tanto saber se Sócrates meteu ao bolso dinheiro que não devia.

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Não me interessa se Sócrates admite conversas com o tio e se elas os comprometem.
Ou se gente à sua volta ganhou com o caso o que não podia ter ganho.
Não me interessa.

…Ou melhor, interessa-me muito. Imenso!

Não preciso é disso para formular uma opinião.
Para me colocar ao lado ou contra gajos que “apenas” pelo que é garantido que fizeram, que “apenas” pelo forma como o julgam desmentir, facilitam muito a vida a quem queira decidir-se.

E a Caça ao Estúpido consiste exactamente nisto: ficar à espera. À espera que alguém em qualquer processo tenha sido tão terrivelmente estúpido que tenha metido a pata na poça. Que tenha cometido a estupidez suprema de deixar pontas soltas, rabos de palha a descoberto, em ilícitos criminais.
E fazer depender a opinião individual a que estamos obrigados do sucesso de uma caça a gambuzinos.

É isso o ficarmos à espera que “as entidades competentes” “apurem” e depois “se pronunciem”. Assim tipo, para não ser “injusto”, para não parecer “parcial” e tal…

Até lá, deixamos correr. Achamos indiferente – porque é achar indiferente o não apertar de imediato os calos a quem percebemos que meteu os pés pelas mãos onde eticamente lhe era vedado.
Deixamos correr. Porque é muuuuito mais confortável e a co
nsciência já não é o que era, nem a dos políticos nem a dos cidadãos.

Ora, as “entidades competentes” só podem pronunciar-se sobre o que é do âmbito estrito das investigações.
Só se podem pronunciar sobre matérias do âmbito da violação da lei.
Só se podem pronunciar sobre o que em Portugal faz prova.
Só se podem pronunciar no tempo próprio dos processos.

Eu não preciso das “entidades competentes” para julgar gravíssimos erros políticos – que elas não arbitram.
Não preciso
das “entidades competentes”para ter opinião sobre evidentes bizarrias técnicas – a que elas não chegam.
Não preciso de ficar à espera dessas “entidades” quando sei que a haver provas de violações de lei – caso do famoso vídeo inglês – pode dar-se o caso de elas não poderem sequer julgar à sua luz.
Não vou de certeza ficar
meses à espera de uma Justiça convenientemente morosa que se não me garante eficácia nem neutralidade, muito menos a solicitude que me permita uma opinião e uma posição como cidadão em tempo útil.

Por isso, boa caça. A quem gostar dela.

A minha conversa é outra.

A Meia Palavra

"O Advogado", de Honoré Daumier

"O Advogado", de Honoré Daumier

«Chegou-se ao ponto de não se poder confiar nos advogados», proferiu Marinho Pinto.
…Falava na abertura do Ano Judicial.

Endendo. Sendo apenas supérfluas as leituras supletivas que destas palavras se faz.
Para quê cansar-se o senhor Bastonário da Ordem dos Advogados a precisar que se referia a “perseguições e agressões morais
” aos mesmos?…

Quando se diz: «Chegou-se ao ponto de não se poder confiar nos advogados», não está tudo dito?

O Renovável Homem Admirado

Mais uma prova da nossa capacidade de nos maravilharmos com tudo e com nada.

Para conferir, está aí outro número da revista Visão.
Com uma capa… muito “gira”. Exibindo o seguinte texto.

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Supostamente esta “peça” actualiza-nos por esmola o ponto da evolução do Homem 2 milhões de anos depois.
Desde que com a sua cara peluda se pôs de pé, começou a andar por aí com uma pelacha manhosa a cobrir as carnes e de osso no nariz (pelo menos foi o que eu vi num filme…), a arrastar as mulheres pelos cabelos (também vi isso no mesmo filme), a sair para caçar e a coçar as partes nos momentos mais mortos (esta parte não vi nesse filme, mas deve ser verdade porque de algum lado há-de ter vindo o tradicional costume).

Dá-nos conta que o bicho-homem-século-XXI mudou radicalmente desde então.
Já não tem cara peluda – depila-se; já não enverga pelachas – perfuma-se; já não anda de osso no nariz – cuida das rugas; já não sai para caçar – fica a tratar dos filhos; já não arrasta as mulheres pelo chão – foge delas; já não partilha com os seus semelhantes o ritual de coçar as partes em público – partilha sentimentos.
Aliás, anda à procura “de um modelo de masculinidade alternativo aos dos nossos pais e avós” – que esse, como é evidente!, não lhe serve.

E preocupa-me – fora a parte da parvoíce – a montagem, a sementeira e a colheita deste protótipo modernaço de “indivíduo”. (Assim designado porque “macho” é um arcaísmo e “homem” parece que acentua a discriminação entre sexos.)
E não só deste protótipo mas dos muitos que avançam a par no mesmo sentido: o da desconstrução.
Desconstrução da norma – “esquadro” em latim – , desconstrução da tradição  – em latim, acto de entregar, transmitir, passar, ensinar.

Que sucesso e que paródia é hoje a desconstrução!

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E como se desconstrói?
Um homem… ups!, um “indivíduo”, pode ser na nossa “democracia” assim ou assado como quiser, está à vontade, o que é certinho é que se não for como manda a desconstrução vigente, não será de certeza um

HOMEM NOVO!

E claro que toda a gente ambiciona ser um

HOMEM NOVO!

…Ser parte desta dialética moderna!

Hoje um “indivíduo” deve tratar das suas rugas e depilar-se: deve ser fútil e gastar tempo em absurdos, criar para si dependências de futilidade, para que não venha a perder tempo com coisas como… sei lá… pensar, ou isso…

Hoje um “indivíduo” deve “perfumar-se” (com aspas porque literalmente também eu não ando a cheirar mal e não é disso que aqui se trata!): deve colocar especial atenção na sua aparência, no primeiro contacto, sabe aliás que a sua relação com os outros deve assentar na superficialidade, para que não dê por si um dia a comprometer-se ou a tomar posições…

Hoje um “indivíduo” deve assumir o papel de género do “acossado”: ido o tempo do marialvismo abusador, passado o tempo dos processos por assédio, faz agora parte das boas práticas que sejam eles a ser “investidos”.
Inverter alógica e abruptamente os papéis no jogo permite que o absurdo ponha em risco o próprio jogo. E feita a tábua rasa, estamos limpinhos para a formatação.

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Mas curiosamente – quem diria!, contra qualquer expectativa! – esta brincadeira tem aspectos negativos.

1º A mistura na caldeirada de palhaçadas e de coisas sérias, tornando-as palhaçadas todas.
Quando o meu filho nasceu, exerci o direito a Licença Parental que me cabia – pelo que fiquei sem receber uns meses (que diferença me fizeram) e desdentado no tempo de serviço docente, o que me vai ser lembrada até à data da reforma pelo generoso Estado Português. E refazê-lo-ia.
É uma opção própria dos dias de hoje. Os homens passam mais tempo com os filhos que antes. É importante. Devia ser assinalado. Não são depilações. Mas é uma palhaçada, porque está metida entre palhaçadas.

2º O parto pouco natural de uma coisa que ninguém sabe o que é, mas que como é modernaça deve ser o máximo!: essa coisa do “Homem Novo”. Essa coisa mediática-publicitária-política do “Homem Novo” que face ao presente negro e ao futuro incerto convida cada um a virar-se para a religião do fútil e do fácil. A desmontagem peça por peça do que é “um homem” – “um ser inteligente”, “um pai”, “um marido”, “um cidadão”, etc. – para remontar o conceito actualizado com uma série de aditivos, corantes, conservantes, que não pretendem mantê-lo como era ou o que de bom ele tinha, mas apenas eliminar e reconstruir de base uma “coisa nova” que já não é nada, mas que serve o propósito de fundar uma sociedade que também já não é nada.

3º  A inevitável procura “de um modelo de masculinidade alternativo aos dos nossos pais e avós“, que, como é evidente, não pode interessar, por remeter para o que ficou para trás e limitar a marcha triunfante do “Homem Novo”.
Quando até há bem pouco a memória e o exemplo dos nossos maiores era um património que nos centrava no mundo, hoje é uma perigosa ameaça. Distrai-nos a olhar para trás e diferencia-nos perigosamente. Pelo que que há que apagá-los.

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Vivemos já no mundo dos alfas e dos betas.
Dos predestinados e dos condenados. Dos viáveis e dos inviáveis. E há um alguém que se encarrega de o definir. Por razões que lá saberá e de que não tem de dar contas.

Podia olhar para esta capa da Visão apenas como uma uma anedota. (Que a rapaziada possa cumprir alguns destes mínimos, consegue-se bem para amostra, agora que seja assim…)
Mas opto por não fazê-lo.

Que o que me aflige não são as mariquices metrossexuais.
É o já se ter entrado na esfera dos “sentimentos“. Da nova norma do que cada um deve sentir. Para ser um

HOMEM NOVO!

bem entendido. Do que começa a ser “normal” ou não “um homem”, “um pai”, “um marido”, “um cidadão” sentir. E de como deve mostrá-lo: “em público“.

Só não apercebendo os monstros que brincam com estas coisas que a insatisfação e a raiva também são sentimentos.
Que também podem ser “mostrados em público“.

Ainda que possam – que chatice…- sair do padrão da moldura estética vigente.