Jargão “Hi-Tech”

imag0101

Mais uma Graaaaaande Entrevista. Enooooorme!

Por motivos de agenda – que um caramelo qualquer de que não ouvi o nome não pôde estar ontem no estúdio da RTP – a Procuradora Cândida Almeida senta-se à frente de Judite de Sousa.

Por obra do Altíssimo, no mesmo dia em que o sr. Pinto de Sousa achou que tinha de vir a público – pela vigésima vez – fazer importantes esclarecimentos sobre “campanhas negras“, “provações“, “derrubes políticos“, “poderes ocultos“, “notícias difamatórias“, “informação selectiva“, “manipulação“, “calúnias“, apareceu no canal do Estado a dar-lhe corda a Directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal.

imag0100Vi. Com atenção.

Mas confesso a dificuldade para acompanhar aquele jargão técnico dos magistrados e juristas.

Percebi bem, isso sim – até pela repetição – que o sr. Pinto de Sousa “não está a ser investigado“… neste momento, quero dizer! E que se fosse hoje nem a expressão “ [ter] «solicitado, recebido ou facilitado pagamentos»” teria sido aplicada ao Primeiro-Ministro… ainda que amanhã não se saiba!
(Por tudo isso sou eu um crente na alvura do cavalheiro.)

Mas já não percebi bem foi aquela parte em que a senhora Procuradora disse – de forma muito técnica – que a associação duvidosa de Sócrates ao licenciamento do Fripóre foi feita pela primeira vez numa denúncia anónima à PJ, em 2004, “num parágrafo inocente, metido à força, [em que] aparecia o nome de José Sócrates e da mãe“.

Desconheço o termo jurídico “num parágrafo inocente“. E o “metido à força” também.

Teria sido importante a pedagogia do povo ignorante, feita por alguém que veio à pantalha para propositadamente trazer a luz da verdade e da justiça ao caos.

Mas não lhe chegou a boca para tanto. Foi pena.

Fica de certeza para a próxima.

“Só Tu É Que Me Entendes…”

238806

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros considerou […] que o eventual envolvimento de José Sócrates no caso [Fripóre] parece envolto numa campanha de «raiva»” [link]

 

Folgo muito em ver que o senhor já anda melhor das costinhas.

…O que lhe permite voltar a fazer apostolado da vida com coluna vertebral.

O Direito ao Café

imag0090

Estive ontem a assistir a um bocadito da audição no Parlamento de Dias Loureiro por causa das baldrocas do BPN.
– Aquela “comissão parlamentar” fantástica, presidida pela grande especialista nestas podas que é a deputada Maria de Belém.

E deu-me algum nojo.

Não a condução dos trabalhos, que não acompanhei.
Não o teor do depoimento, cujo fio não me interessei por seguir.
Mas o tom com que Dias Loureiro se apresentou a depor.

Um tom informal, blasé, descomplexado, solto, tu-cá-tu-lá, ingénuo, insuportável.

Não suporto que alguém como Dias Loureiro, para tratar assuntos como o afundar de um banco por onde passou, no momento em que o “Governo” despejou milhões meus sobre fogos acesos por gente do seu meio, sentado no Parlamento, no contexto histórico da discussão da sua saída do Conselho de Estado, um “Senador” da Nação, adopte este tipo de tom para responder numa Comissão de Inquérito.

Não suporto ouvi-lo contar as conversas de bastidores entre os tubarões da sombra da sociedade portuguesa, os seus entendimentos e os seus acordos titânicos, os seus negócios e decisões passíveis de sacudir o País como ondas sísmicas, os seus golpes de rins de interesse à margem da Nação, com o mesmo tom com que o homem comum narra no café a outro homem comum episódios da sua vida comum.

dl_untitled

 …Fantástico como alguns sujeitos se vestem com a roupa da superioridade quando lhes agrada e vestem os panos da humildade quando muito bem lhes convém.

Mas não cola.
Tanto não cola que é um insulto…

E seria agradável, de vez em quando, ver cair sobre estes deuses que a seu prazer vertem o maná sobre a Terra – e sobre as próprias cabeças! – uma pragazinha bíblica na proporção do seu poder.

Não faz parte da ordem da Natureza, mas sempre equilibrava as coisas.

Padrões

image101

Inesgotável capacidade de inventar…

O que seria de nós este Inverno sem o padrão fashion da laçada à enforcado nos cachecóis?

…Para o ano inventamos outra.

A Caça ao Estúpido

socratedghs

Afinal parece que a malta das notícias já se vai descosendo, como eu pedia.
Não só já o Sol, mas a SIC, a TVI, o Correio da Manhã, o Expresso, o Diário de Notícias e outros avançam com “investigações”, informações, cruzamentos de dados, análises e questões formuladas directa e indirectamente aos protagonistas, numa maré de perda de respeito ao dono e de zarpar rumo ao que é o seu trabalho sério: fuçar na lama e encontrar as trufas.

É a isso que todos temos direito. É isso que nos confere o código deontológico do jornalismo.

“Parece” que houve asneirada da grossa no nascimento do Freeport de Alcochete. E que está a vir à tona.

freeport-pm-em-xeque_dest1

Houve uma conferência de imprensa, dada live, de urgência, pelo Sr. José Sócrates Pinto de Sousa sobre o caso Freeport (daqui em diante referido como Fripóre.)
Que colocou o País na posição em que prefere estar:  a da Caça ao Estúpido.

Na conferência disse então Sócrates sobre o Fripóre:
não se lembra da conversa que teve com o tio sobre pagamentos ilícitos de 4 milhões de contos para aprovação em Portugal, durante um “Governo” em que estava, do maior outlet de toda a Europa;
2º a única reunião em que esteve presente foi convocada pelo Presidente da Câmara de Alcochete à data;
3º aliás, o processo de licenciamento do Fripóre não contou com nenhum tratamento de favor da parte do Ministério de Sócrates, nomeadamente um especial desembaraço;
4º e muito menos teria o Ministério de Sócrates favorecido os promotores do Fripóre ao torcer as regras ambientais que regem o País e a União, reajustando limites de uma Zona de Protecção Especial da Natureza…

…O que não podia estar mais em contradição com os factos até aqui apurados, parecendo ser a afirmação peremptória de cada um destes pontos um evidente risco para quem o faz.

50912-42

O já famoso tio de Sócrates afirmou com todas as letras que ajudou os senhores que queriam fazer o Fripóre a reunir com o sobrinho – mal-agradecidos que nem obrigado lhe disseram – porque “um gabinete de advogados” os informara que o preço de aprovação do projecto eram “4 milhões de contos“, ao que responderia Sócrates ao familiar que não era nada disso, “ele é que tratava desses assuntos“.
(…Sendo muito interessante que Sócrates não tenha depois mexido um dedo para apurar isso de andarem a pedir milhões a terceiros sob pretexto de aprovação de projectos sob a sua alçada!…)
Mais: um primo de Sócrates terá mesmo exigido aos senhores do Fripóre um pagamento pela intervenção da família no processo.
Pontos 1 e 2 ao ar. (Mesmo que Sócrates renegue a família aspergindo-a com água benta.)

adeusfamilia
Sobre a estranha eficiência do processo de aprovação do Fripóre fica tudo dito no taxativo despacho do primeiro juiz de instrução do caso, que considerou encontrar nele “várias irregularidades e uma celeridade invulgar“.
Sobre os – chamemos-lhes – “ajustes” que a Zona de Protecção Especial sofreu às mãos do Ministério do Ambiente a três dias de saída de funções, não só a SIC apresentou um boneco que torna tudo muito claro, como o Secretário de Estado do Ambiente que veio depois de Sócrates confirmou o que era por demais sabido: que a União Europeia veio a chumbar as alterações do Ministério do “Engenheiro” e as obrigou a recuar.

Tudo num sentido diverso do afirmado pelo Primeiro-Ministro.

Ou seja, esperemos que, mais uma vez, Sócrates não tenha falado demais embaraçando-nos a todos.


É que já houve outro momento extremamente embaraçoso para todos com características semelhantes estas, envolvendo o “sr. Engenheiro”.
Regressos ao passado, suspeitas de irregularidades, “estão todos contra mim!“, grandes esclarecimentos ao País“, “não é assim que me derrotam!“, lágrima no canto da alma, “não foi isso, foi parecido“, “ai que eu não me lembro!“, “eu andei foi com más companhias“, “mas alguém consegue provar alguma coisa?!“… Fim!

freeport-memoria-sobrinho
Daí eu falar da Caça ao Estúpido.

Não me interessa tanto saber se Sócrates meteu ao bolso dinheiro que não devia.

freeport-empresario-queria-comprar-ministro_deta

Não me interessa se Sócrates admite conversas com o tio e se elas os comprometem.
Ou se gente à sua volta ganhou com o caso o que não podia ter ganho.
Não me interessa.

…Ou melhor, interessa-me muito. Imenso!

Não preciso é disso para formular uma opinião.
Para me colocar ao lado ou contra gajos que “apenas” pelo que é garantido que fizeram, que “apenas” pelo forma como o julgam desmentir, facilitam muito a vida a quem queira decidir-se.

E a Caça ao Estúpido consiste exactamente nisto: ficar à espera. À espera que alguém em qualquer processo tenha sido tão terrivelmente estúpido que tenha metido a pata na poça. Que tenha cometido a estupidez suprema de deixar pontas soltas, rabos de palha a descoberto, em ilícitos criminais.
E fazer depender a opinião individual a que estamos obrigados do sucesso de uma caça a gambuzinos.

É isso o ficarmos à espera que “as entidades competentes” “apurem” e depois “se pronunciem”. Assim tipo, para não ser “injusto”, para não parecer “parcial” e tal…

Até lá, deixamos correr. Achamos indiferente – porque é achar indiferente o não apertar de imediato os calos a quem percebemos que meteu os pés pelas mãos onde eticamente lhe era vedado.
Deixamos correr. Porque é muuuuito mais confortável e a co
nsciência já não é o que era, nem a dos políticos nem a dos cidadãos.

Ora, as “entidades competentes” só podem pronunciar-se sobre o que é do âmbito estrito das investigações.
Só se podem pronunciar sobre matérias do âmbito da violação da lei.
Só se podem pronunciar sobre o que em Portugal faz prova.
Só se podem pronunciar no tempo próprio dos processos.

Eu não preciso das “entidades competentes” para julgar gravíssimos erros políticos – que elas não arbitram.
Não preciso
das “entidades competentes”para ter opinião sobre evidentes bizarrias técnicas – a que elas não chegam.
Não preciso de ficar à espera dessas “entidades” quando sei que a haver provas de violações de lei – caso do famoso vídeo inglês – pode dar-se o caso de elas não poderem sequer julgar à sua luz.
Não vou de certeza ficar
meses à espera de uma Justiça convenientemente morosa que se não me garante eficácia nem neutralidade, muito menos a solicitude que me permita uma opinião e uma posição como cidadão em tempo útil.

Por isso, boa caça. A quem gostar dela.

A minha conversa é outra.

A Meia Palavra

"O Advogado", de Honoré Daumier

"O Advogado", de Honoré Daumier

«Chegou-se ao ponto de não se poder confiar nos advogados», proferiu Marinho Pinto.
…Falava na abertura do Ano Judicial.

Endendo. Sendo apenas supérfluas as leituras supletivas que destas palavras se faz.
Para quê cansar-se o senhor Bastonário da Ordem dos Advogados a precisar que se referia a “perseguições e agressões morais
” aos mesmos?…

Quando se diz: «Chegou-se ao ponto de não se poder confiar nos advogados», não está tudo dito?

O Renovável Homem Admirado

Mais uma prova da nossa capacidade de nos maravilharmos com tudo e com nada.

Para conferir, está aí outro número da revista Visão.
Com uma capa… muito “gira”. Exibindo o seguinte texto.

image21

Supostamente esta “peça” actualiza-nos por esmola o ponto da evolução do Homem 2 milhões de anos depois.
Desde que com a sua cara peluda se pôs de pé, começou a andar por aí com uma pelacha manhosa a cobrir as carnes e de osso no nariz (pelo menos foi o que eu vi num filme…), a arrastar as mulheres pelos cabelos (também vi isso no mesmo filme), a sair para caçar e a coçar as partes nos momentos mais mortos (esta parte não vi nesse filme, mas deve ser verdade porque de algum lado há-de ter vindo o tradicional costume).

Dá-nos conta que o bicho-homem-século-XXI mudou radicalmente desde então.
Já não tem cara peluda – depila-se; já não enverga pelachas – perfuma-se; já não anda de osso no nariz – cuida das rugas; já não sai para caçar – fica a tratar dos filhos; já não arrasta as mulheres pelo chão – foge delas; já não partilha com os seus semelhantes o ritual de coçar as partes em público – partilha sentimentos.
Aliás, anda à procura “de um modelo de masculinidade alternativo aos dos nossos pais e avós” – que esse, como é evidente!, não lhe serve.

E preocupa-me – fora a parte da parvoíce – a montagem, a sementeira e a colheita deste protótipo modernaço de “indivíduo”. (Assim designado porque “macho” é um arcaísmo e “homem” parece que acentua a discriminação entre sexos.)
E não só deste protótipo mas dos muitos que avançam a par no mesmo sentido: o da desconstrução.
Desconstrução da norma – “esquadro” em latim – , desconstrução da tradição  – em latim, acto de entregar, transmitir, passar, ensinar.

Que sucesso e que paródia é hoje a desconstrução!

42-15968934

E como se desconstrói?
Um homem… ups!, um “indivíduo”, pode ser na nossa “democracia” assim ou assado como quiser, está à vontade, o que é certinho é que se não for como manda a desconstrução vigente, não será de certeza um

HOMEM NOVO!

E claro que toda a gente ambiciona ser um

HOMEM NOVO!

…Ser parte desta dialética moderna!

Hoje um “indivíduo” deve tratar das suas rugas e depilar-se: deve ser fútil e gastar tempo em absurdos, criar para si dependências de futilidade, para que não venha a perder tempo com coisas como… sei lá… pensar, ou isso…

Hoje um “indivíduo” deve “perfumar-se” (com aspas porque literalmente também eu não ando a cheirar mal e não é disso que aqui se trata!): deve colocar especial atenção na sua aparência, no primeiro contacto, sabe aliás que a sua relação com os outros deve assentar na superficialidade, para que não dê por si um dia a comprometer-se ou a tomar posições…

Hoje um “indivíduo” deve assumir o papel de género do “acossado”: ido o tempo do marialvismo abusador, passado o tempo dos processos por assédio, faz agora parte das boas práticas que sejam eles a ser “investidos”.
Inverter alógica e abruptamente os papéis no jogo permite que o absurdo ponha em risco o próprio jogo. E feita a tábua rasa, estamos limpinhos para a formatação.

42-16786593

Mas curiosamente – quem diria!, contra qualquer expectativa! – esta brincadeira tem aspectos negativos.

1º A mistura na caldeirada de palhaçadas e de coisas sérias, tornando-as palhaçadas todas.
Quando o meu filho nasceu, exerci o direito a Licença Parental que me cabia – pelo que fiquei sem receber uns meses (que diferença me fizeram) e desdentado no tempo de serviço docente, o que me vai ser lembrada até à data da reforma pelo generoso Estado Português. E refazê-lo-ia.
É uma opção própria dos dias de hoje. Os homens passam mais tempo com os filhos que antes. É importante. Devia ser assinalado. Não são depilações. Mas é uma palhaçada, porque está metida entre palhaçadas.

2º O parto pouco natural de uma coisa que ninguém sabe o que é, mas que como é modernaça deve ser o máximo!: essa coisa do “Homem Novo”. Essa coisa mediática-publicitária-política do “Homem Novo” que face ao presente negro e ao futuro incerto convida cada um a virar-se para a religião do fútil e do fácil. A desmontagem peça por peça do que é “um homem” – “um ser inteligente”, “um pai”, “um marido”, “um cidadão”, etc. – para remontar o conceito actualizado com uma série de aditivos, corantes, conservantes, que não pretendem mantê-lo como era ou o que de bom ele tinha, mas apenas eliminar e reconstruir de base uma “coisa nova” que já não é nada, mas que serve o propósito de fundar uma sociedade que também já não é nada.

3º  A inevitável procura “de um modelo de masculinidade alternativo aos dos nossos pais e avós“, que, como é evidente, não pode interessar, por remeter para o que ficou para trás e limitar a marcha triunfante do “Homem Novo”.
Quando até há bem pouco a memória e o exemplo dos nossos maiores era um património que nos centrava no mundo, hoje é uma perigosa ameaça. Distrai-nos a olhar para trás e diferencia-nos perigosamente. Pelo que que há que apagá-los.

42-21104202

Vivemos já no mundo dos alfas e dos betas.
Dos predestinados e dos condenados. Dos viáveis e dos inviáveis. E há um alguém que se encarrega de o definir. Por razões que lá saberá e de que não tem de dar contas.

Podia olhar para esta capa da Visão apenas como uma uma anedota. (Que a rapaziada possa cumprir alguns destes mínimos, consegue-se bem para amostra, agora que seja assim…)
Mas opto por não fazê-lo.

Que o que me aflige não são as mariquices metrossexuais.
É o já se ter entrado na esfera dos “sentimentos“. Da nova norma do que cada um deve sentir. Para ser um

HOMEM NOVO!

bem entendido. Do que começa a ser “normal” ou não “um homem”, “um pai”, “um marido”, “um cidadão” sentir. E de como deve mostrá-lo: “em público“.

Só não apercebendo os monstros que brincam com estas coisas que a insatisfação e a raiva também são sentimentos.
Que também podem ser “mostrados em público“.

Ainda que possam – que chatice…- sair do padrão da moldura estética vigente.

Efeito de Espelho

É hoje cumprida mais uma etapa na prova da palhaçada da Educação de Portugal, de novo com os seus mais salientes protagonistas em cena.

Vota-se na Assembleia da República uma coisa do PP sobre uma coisa qualquer sobre Avaliação.

Deve sem importante, tanto que o “Governo” não deixa os seus deputados votar como querem.
(“Ai não é o Governo?… Eu dessas coisas percebo pouco.”)
Tão importante que o “Governo” (…ou lá o que é) já disse aos deputados que não é para faltarem! (Diz o Ministro Augusto Santos Silva que é um  “assunto crítico“! ) É preciso estar toda a gente para barrar o PP e mais o resto da maralha!

Pelo que não se deve retirar daqui mais do que se espera…

Só retiro eu um pequeno detalhe deste quadro pitoresco.

É mais determinante a acção dos professores para corrigir o absentismo dos políticos que a dos políticos para reduzir o absentismo dos professores.

071106-min_faltas-prof-caem-40porcento_jornneg

Um “obrigado” não custava nada.

“Le Temps des Cerises…”

De um tempo de carneiros, que já lá vai…
Tão diferente deste em que vivemos.

“Only for Sheep”, The Bureau, 1981

That man is in pain and he’s shouting so loud
There’s a space all around him a space in the crowd
He is olding his head like it’s gonna explode

It’s part of a new meaning
From deep in is soul

It is only for Sheep
only for sheep, for sheep
Yeah
Cos’ when you’re awake you’re a asleep
Yeah

You show us a new way you sound so sincere
How sweet it must be to be able to think so clear
But you are just another in a long line of fools

Giving us freedom
With a new set of rules

It is only for Sheep
only for sheep, for sheep
Yeah
Cos’ when you’re awake you’re a asleep
Yeah

It is only for Sheep
only for sheep, for sheep
Yeah

When you’re awake you’re a sheep, asleep

That man is in pain and he’s shouting so loud
There’s a space all around him a space in the crowd
He is holding his head like it’s gonna explode

It’s part of a new meaning
From deep in his soul

It is only for sheep
only for sheep, for sheep
Yeah
When you’re awake you’re a asleep
Yeah
It’s only
it’s only
it’s only for sheep
only for sheep, for sheep
Yeah
When you’re awake you’re asleep
Yeah
Yeah
Yeah
Yeah
Yeah, it’s only for sheep,
only for sheep, for sheep
Yeah
When you’re awake you’re a asleep
Yeeeaahh

[Com um obrigado à Loba.]

“Um Contra Todos”?

Detalhe do "David" de Gian Lorenzo Bernini

Como numa corrida aos saldos de Inverno, por toda a Nação da Educação os docentes acorreram a entregar os seus “Objectivos Individuais”.
Falo dos “Objectivos Individuais” que o Decreto-Regulamentar 02/2008 de 10 de Janeiro refere – o DR da alteração à Avaliação do Desempenho Docente. Onde o docente enuncia os “objectivos” que se propõe alcançar no desenrolar da sua actividade no intervalo de tempo a que a Avaliação de Desempenho diga respeito.

Acontece que eu não fiz a entrega dos meus “Objectivos Individuais”.
Tendo disso dado conta, como me competia, ao órgão de gestão do meu agrupamento.
(Como a Declaração que aqui deixo linkada regista.)

Encontro-me agora – pela obstinação de respeitar a minha consciência e os meus princípios – no compreensível receio do que me possa profissionalmente acontecer.
Não porque me tivesse entretanto arrependido – quem age ponderadamente e com raíz na sua honra raramente terá razões para querer voltar atrás.
Mas por ser humano, e tão frágil como qualquer pessoa que dependa do rendimento do seu trabalho, tenha uma família a seu cargo e preze ao mais alto nível o seu bom-nome. (Assim não fosse e muito mais longe estaria pronto a ir.)
…E por saber com quem trato, o tipo de gente de quem espero uma sensatez correspondente à minha. Por saber que da cegueira e na vertigem tudo é de esperar.

42-20907087

Ocorreu-me um texto lapidar do HS que li no Hora Absurda. Estávamos nós naquele período engraçado desta história em que o Ministério da Educação inventou o envio por mail dos Objectivos para os serviços centrais.
Dizia ele nesse seu texto.

Ao meu avaliador vou dizer apenas isto: avalia-me se te sentes capaz de o fazer, mas não me peças nada, entra nas salas onde eu estiver a dar aulas quando bem entenderes, pede autorização para consultar o meu processo na secretaria, lá encontras tudo o que eu já fiz nestes anos todos, que abonam a favor e contra mim. Também lá estão as faltas que ingenuamente pensei que eram «a descontar nas férias», também lá está o processo disciplinar que me levantaram quando me recusei a fazer substituições, coisa que ainda hoje não faço nem farei. Encontras lá as acções que fiz sobre como fotografar igrejas e vacas a pastar, as acções de como recortar papel para fazer acetatos animados quando já havia Power Point. […]
Vá lá, força nessa avaliação. Estou no 9.º escalão, não me interessa já subir para o 10.º e último, faço 57 anos daqui a alguns dias, logo que tenha 30 anos de serviço peço a reforma e vou plantar batatas. Palavra de honra!

Só nos distinguem vinte anos de idade, uns bons escalões e o ter acedido há muito tempo às “substituições” – que tenho como um mal relativo.
No resto, revejo-me nas suas palavras.

Vivemos um momento de aventureirismo educativo. Que como tudo o que rima com “educativo” terá a seu tempo o impacto de uma maré na sociedade em que vivemos.
Quem decide hoje a Educação não mostra certeza de porque o faz, através de que meios ou sequer com que consequências.
– O que parece (des)compensado com a euforia desvairada de arrancar, avançar, forçar e fazer chegar a uma meta ficcional uma carroça cada vez mais desengonçada, que chocalha, perde peças a cada passo do caminho e põe em risco todos os que lá vão dentro.

2423348323_c0bb9ff72b

E este é o sentimento geral dos professores do País. Que só por motivos mesquinhos não põem os pés à parede e dizem “Basta!”.
Não me refiro a uma mesquinhez íntima dos professores – esse discurso é o de outros. Refiro-me é à situação em que a nossa “Democracia” nos colocou, a de não ser certo para ninguém que por discordar, divergir, por levantar a sua voz, não seja visto como um “deficiente social”, um indesejado, um proscrito na sua própria casa e um corpo estranho a eliminar.

Sabendo que não devem, por acharem que “não podem”, os professores (com algumas excepções pelo meio) vão transigindo. Vamos dizendo que sim. Vamos deixando que aconteça e que nos aconteça, preferindo o conforto de pensar que nada se pode fazer.

…Até ao momento igualmente confortável de pensar que já nada há fazer, tal o ponto a que as coisas chegaram.
E a vida continua.

Mas nem sempre pode ser assim.
Não quando as perdas são tão altas.

225345

O que fiz, fi-lo bem.

Por achar que devia.
Por manter – até às portas do desespero  – o respeito pelo processo e pela hierarquia a que ela me obriga.
Por tê-lo feito num timming responsável. Quando já não havia risco de a minha declaração fomentar mais confusão no processo de Avaliação do que a inevitável e já constatável.
Por tê-lo feito sozinho – como não preciso de mestres que me empurrem para o que acho justo, também não preciso de camaradas que me sustenham ou muito menos de discípulos atrás das minhas manias.
Por não ter pretendido fechar uma porta de que não tenho a chave – como dizia por outras palavras o HS. Se a Avaliação contempla os docentes, eu estou automaticamente por ela abarcado.

Se este modelo de Avaliação de Desempenho der frutos, serei o primeiro a beneficiar deles. Pelo que só posso esperar que, se avançar, seja o maior sucesso.

Entretanto, como expus na declaração que atrás referi, este modelo de Avaliação só me traz insegurança e incerteza pela efemeridade das suas regulamentações – permanentemente reformuladas e contraditas – fazendo com que não só o “conteúdo” e o “funcionamento” do modelo sejam elementos intranquilizadores no próprio processo, como numa perspectiva mais larga os seus “fundamentos” sejam passíveis de desconfiança, desaconselhando a adesão incondicional da parte de quem nele se encontra envolvido.

…Quando no nº 4 do artº 11º o DR 02/2008 de 10 de Janeiro diz ser “garantido ao docente o conhecimento dos objectivos, fundamentos, conteúdo e funcionamento do sistema de avaliação do desempenho”.

Não me peçam tanto.

2305402

A história não está para acabar.
(Certamente a nível nacional, eventualmente a nível pessoal.)

Serão muitas as missas que ainda se vão rezar por este moribundo.
Muitas velinhas que muita gente se vai afanar a acender, com maior ou menor convicção.

O que é certo é que não devem contar comigo para as acender.
Ou para ter paciência para quem as acende.

Pior: cada vez mais são dois lados inconciliáveis, os dos que acendem as velinhas e o dos que as não acendem.
É que se o fundamental da actividade docente está noutro lado que não nestas tretas, não pode ser indiferente a ninguém profissionalmente sério julgar a degradação do que considera fundamental, na dimensão da origem do que o degrada e da identidade dos seus agentes.

.

[Este post não teria sido possível sem a prestável ajuda do JPG do Apdeites – gente que tem rosto
para além da net e que no mundo real descubro ao nível da sua estatura virtual. A quem agradeço.]

.

[Agradeço, como sempre, todos os comentários que tenham a deixar neste post – como em qualquer outro.
Apenas por motivos de ordem prática os comentários estão aguardando aprovação da parte do administrador.]

.