A Dimensão de Si

Sempre achei muuuuuuuito conveniente aquela “aliança” PS-BE na Câmara Municipal de Lisboa.

(Sou o último à face da terra que pode – como tese – escrever contra entendimentos partidários de gestão – pelos magníficos resultados que atesto que podem daí resultar – mas há coisas mesmo muuuuito giras.)

Após uma eleição autárquica intercalar que não correreu tão bem assim ao PS quanto os festejos finais fariam crer – é certo que afastaram Carmona Rodrigues; é certo que apagaram do mapa o candidato-de-papel Fernando Negrão; é certo que o PCP-CDU foi prescindido – foi necessário arranjar um complemento vitamínico para o arranque do executivo acabado de mandatar.
O testemunho recebido era pesado, a intenção – como se vê hoje – não era bem bem revolucionar o funcionamento da edilidade num mini-mandato politicamente intimidador e havia que criar condições de… gestão. Mera gestão.

E que melhor solução para garantir esta paz?
Comprar ao preço do mercado o maior eventual foco de formigueiro político, Sá Fernandes, que é como quem diz: o Bloco de Esquerda.
(…Que por “formigueiro” se entende “não-parar-quieto-sempre-a-melgar” e não forçosamente “não-parar-de-observar-pertinente-e-construtivamente-lacunas-e-propor-soluções-alternativas”!)

“- Toma lá o Ambiente, os Espaços Verdes, o Plano Verde e vê se te calas…
“- Ó soudoutor, pulamordedeus, obrigadinho.

Um cartaz populista...

 

…e um populista à boleia do cartaz.

 

 Mas “o Zé” não explicou para que fazia falta, quem o quis comprar não procurou perceber e o dito não procurou explicar.
O que resultou num casamento de absoluto sucesso. Atesta-o o sucesso nada menos que milagreiro do exercício do executivo em funções.

É que numa espécie de Midas Selectivo, Sá Fernandes tanto toca e apodrece como toca e purifica.
(Longa escola de theoria e praxis bloquistas…)
…Mística arte neste momento ao feliz serviço da CML.

Recordo quando, em Abril de 2007, no momento da inauguração do famoso Túnel do Marquês em Lisboa, Sá Fernandes continuava perante as câmaras a sua descarada campanha de auto-promoção…
…Após a famosa providência cautelar que suspendeu a obra – menos os seus custos – durante sete meses e custou aos munícipes uns 4 milhões de euros
(Convindo que, apesar de tudo, o número de circo foi certeiro, já que lhe grangeou hoje o lugarzinho no pelouro que tem!)

Recordo que como tipo humilde e desapegado dizia então o senhor: “A razão de estar aqui hoje é principalmente para dizer aos cidadãos para andarem muito devagar, numa descida muito perigosa“.
Como bom cidadão que é, amigo do seu amigo, bom crist… bem, cristão se calhar não, mas provavelmente um indivíduo muito bonzinho.

…Declaradamente um arrivista, um alarmista, um populista. Como até ao presente – o Diabo seja surdo! – a superlativa perigosidade do Túnel veio a comprovar-se. 

Mas não esquecer que o dom do toque funciona em dois sentidos.
Toca, destrói. Mas também toca, alivia.

Há dias, dizia o senhor com a lata dos desavergonhados, após ter caído uma m®dit@ de uma chuvada de meia hora que ia afogando Sete Rios – que os próprios bombeiros e munícipes atribuíram em boa parte à falta de limpeza de sarjetas e demora de intervenção no momento – que “Se chover muito este Inverno vai haver aborrecimentos em Lisboa“.

Toca, alivia.

O que “antigamente” se chamava “caos” provocado pela chuva, hoje é um “aborrecimento”.
O que “antigamente” se chamava “inundações”, hoje é capaz de estar aí para umas “maçadas com águas”.
O que “antigamente” se chamava “perdas materiais” resultantes de “cheias”, hoje devem ser para aí uns “imprevistos” ou uns “contratempos”…
…Tudo graças àquele toque milagroso e subtil que tudo resolve.

Sei que o senhor chegou à Câmara há meia dúzia de dias. Mas se ninguém o forçou para lá, tinha obrigação de só ir se levasse consigo soluções precisas que não o tornassem – mais – um inútil lá dentro.

E muito menos tolero este tipo de discurso.
Adoro esta raça de gente.
Os certos. Os correctos. Os infalíveis. Os exemplos.

Não me esqueço de uma inacreditável reportagem que vi, em Março, encomendada por alguém à televizão Al-Jazeera, para as Eleições Intercalares de Lisboa, sobre esse tal Sá Fernandes.
(…Al-Jazeera, satélite, imigrantes, voto, BE… Got it ?)
Sá Fernandes, herói de Lisboa…
Porque é mesmo disso que falo.

Dessa insuportável superioridade moral que uma certa fauna política traz sequestrada por trela e desfila na rua.
– Uma fauna política que só através de uma gritante perversão dos fundamentos da democracia logra que esses mesmos fundamentos a tolerem a protejam e até beneficiem. –
Uma insuportável fauna política sem a elementar noção material da dimensão de si – que não é subjectiva. Que se afere friamente pela versão do voto popular em autoridade social.
Uma fauna política que cultivando o sortilégio de uma superior autoridade moral latente, se escusa às regras universais da democracia e se refugia numa retórica fundamentalista que, por fundamentalista que é, alguns seduz.

Já o disse muito e repito-o: a política é tendencialmente porca. E quem nela se move e não pretende sujar-se, submete-se a um esforço permanente e atroz para continuar distinguindo-se de alguma paisagem.
Mas mais porco que o porco é a presunção de uma superioridade por atestar e o seu festival mundano. Porque lhe acresce a estupidez. Atributo para além de feio de certa maneira evitável.

 
[Publicado no Canto Aberto.]

One Response to “A Dimensão de Si”

  1. Clavis Prophetarum Says:

    excelente texto, bem documento emuito acutilante!
    e que expõe uma das alianças mais contra-natura da politica portuguesa e o maior erro jamais cometido pelo BE…
    A sua viabilidade como “projeto alternativo” sai daqui ferida de morte, sendo a questão das mordomias dos acessores e o desperdício de dinheiros públicos (no “bloqueio do túnel”) um caso exemplar para as gerações vindouras.
    se as houver ou se estas ainda se estiveram para ralar, o que é duvidoso…


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