Idiotas Chipados


Está consumada. Uma barbaridade que nunca julguei possível.

O chipamento da vida dos cidadãos.

Claro que “apenas” nos carros em que se deslocam.
Claro que “só” por motivos utilitários e reactivos a uma insegurança que, como não respeita nada nem niguém, tem resposta pronta e adequada de quem nos “governa”.

Claro que é para o nosso bem….
Claro!

O que acontece é que cada vez menos gosto desta sociedade em que vivo.
Cada vez mais me inquieta que esteja a criar um filho inocente – futuro cidadão – para o entregar nas mãos de um monstro silencioso.
E por imperativos de moral e de razão não estar a artilhá-lo com as ferramentas de violência adequadas a responder-lhe, quando velho não me couber já a mim lutar num combate de uma outra dimensão, com a vitalidade que então já não terei.


Há muito que a questão do “divórcio entre cidadãos e os seus governantes” está ultrapassada…
[…O “divórcio” entre os cidadãos e o próprio “sistema democrático” que os rege nunca sequer esteve sobre a mesa, na medida em que ninguém se “divorcia” de algo a que nunca esteve intimamente ligado.]

…Hoje – resultado de um intrincado processo e de uma intrincada manipulação – os cidadãos estão divorciados de si mesmos. Cada qual já não procura saber o que pode fazer pela Nação, mas também já nem lhe interessa saber o que a “Nação” pode fazer por si – exercício penoso de intelecto e civismo a que ninguém se sujeita – cortado em qualquer sentido o cordão umbilical que o ligaria à comunidade dos seus semelhantes.

Hoje, o cidadão divorciado de si mesmo não procura intervir sobre o seu meio, atrofiado na sua iniciativa.
Não procura intervir sobre a quem, de forma diferida, poderia caberia essa intervenção, atrofiado na sua voz.
Hoje, o cidadão constitui o isolamento a sua forma de integração social.
[Que ai
nda que conducente à sua fragilidade e ao seu – inevitável – desespero, tanto o seduz pela ociosidade como lhe surge difuso na anestesia pop do mediatismo e do consumo.]


E, desenraizado, perde os seus referenciais. O seu contexto, a sua identidade e o seu auto-respeito.
Perde a noção de uma origem e de um futuro colectivos – cuja alusão o enchem de um espanto genuíno e de uma indiferença exuberante, nascidos da ignorância, da inconsciência e do orgulho.
Perde o sentido da sua existência.

E está pronto para a ceifa.

Quando o Presidente da República promulga o decreto-lei que permitirá a instalação de chips (…não, não são batatas!) em todos os veículos motorizados, sob pretextos de “facilitar o trabalho das forças de segurança, que terão acesso à informação sobre inspecção periódica e seguro automóvel, “permitir o reconhecimento de veículos acidentados e abandonados” e “ser utilizado na cobrança de portagens e outras taxas rodoviárias“, entende que as dúvidas relativas à reserva da intimidade da vida privada podem ser resolvidas pelo Governo“.

Ora, tanto os motivos alegados estão pela insignificância cobertos de ridículo, como o laçarote formal dado à ameaça da privacidade dos cidadãos acrescenta à estupefacção toda a repulsa possível.

Não existe motivo plausível para o controlo em tempo real da circulação individual.
Para a sua vigilância.
Para a sua indexação.
Para o seu arquivamento metódico.
Para a sua consulta cirúrgica.

Nem motivo plausível, nem justificação aceitável.

Só numa Nação em que mais por folclore que por convicção se desfraldam os pendões da luta democrática, se admite que se venda em hasta a liberdade de agir do cidadão.
…Porque é dela que se trata!
Se alguém não é livre no resguardo dos seus movimentos, é coarctado neles.

E quando a segurança dos cidadãos é prometida às mãos – não só dos políticos, mas – de um “Governo” que nasceu e vive sob o signo da manipulação, todo o alarme social seria justificado…


…Não fosse já o alarme social o último ingrediente necessário ao caldo da desarticulação da cidadania.

Cidadãos entorpecidos, superficiais e impotentes, não necessitam senão de um empurrão para que aos seus olhos qualquer fórmula manhosa de salvamento seja providencial.
A criminalidade crescente requer actos radicais.
[Aterrorizar/controlar. Enfraquecer/dominar.]

Primeiro, sob o olhar de uma câmara indiscreta, omnipresente, em circuito fechado paternal sobre o homem…
…Depois, sob uma mesma câmara,
fria e penetrante, cerrado no abraço esmagador de um círculo fechado sem apelo.

(“Tal e qual como nos States…” – Pela boca tantos morrem…)
Tal como no livro de Orwell.


Mas contra a probabilidade, parece ter aparecido quem ouvisse a notícia.
Quem se pusesse a pensar e tirasse conclusão.
Parece que até houve mesmo alguém com opinião. E que ousou partilhá-la.
E que na largura da net chamou outros a fazê-lo.
…E que de novo mostrou que isso é fácil e é fértil.

Não fui eu, mas aderi. Porque o medo e a revolta também os transporto em mim.
Por mim, por quem passa a meu lado, por aqueles que me seguem e pelos que hão-de vir…
Porque o desgosto galopante de viver no idiotismo também me revolta as entranhas!

Por continuar a crer que a corja que nos apouca nada pode contra nós.
Queiramos. Façamos. Ousemos.
E ser livre pode ser já.

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Requintes de Malvadez

A net está repleta de uma fauna variada e rica.

Entre os anjinhos e os canalhas, os egoístas e os generosos, os lorpas e os sábios, os estetas e os alarves, os arruaças e os betinhos, navegamos aos sacões num mar encarpado onde, se incertos governamos a nossa balsa, nenhuma esperança existe de o domar.

No entanto, por vezes, de passagem, ao largo, vemos uma bóia que luz, um foguete lançado por alguém que ajuda…
…A encontrar alguma coisa de jeito nesta viável desolação de lixo e caos.

O blog chama-se Quintus. Nada demais.

Tem ideias, opiniões, bonecos… e requintes de malvadez!

De cada vez que o Clavis Prophetarum lança um dos seus enigmas, já percebi que um formigueiro de cuscos se precipitam sobre os livros, a net, as vizinhas mais velhas, para o desvendar primeiro e somar pontos com a resposta certa.
Inclusive eu… (Que já o pus nos meus
links.)

Tão simples, que espantam: os terríficos “Quids”.

…Quem se atreve?

"Say What?!…"

Há algum tempo atrás, a Mais Dia batia no iogurte.
Não para o tornar cremoso mas para lhe dar educação – que o magano teimava em atropelar a Língua que o sustenta.

Suspeita-se contudo que o problema não fique por aí.

Vide o exemplo…

“Miminhos”?… Em “buraquinhos”?!…
Mas que história é esta?…

Parece-me mais que este iogurte para a família está, isso sim, a atravessar uma espécie de crise exibicionista.

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"Slave to the Rythm"

Uma das melhores canções de sempre.
Um dos melhores clips de sempre…

[Não fosse sempre tão superlativa a nossa opinião das coisas…]

…Hoje tornado impossível pelo Politicamente Correcto, que nos envenena: “Ai que horror, falar de pretos e brancos!“, “Ai que horror, tanta nudez!“, “Ai que horror, uma criancinha explorada!“.

Como somos hoje – mais – puros e fúteis…

Grace Jones e uma overdose de 80’s.

Apreciem.

Rhythm is both the song’s manical and it”s demonic charge.
It is the original breath , it is the whisper of unremitting demand.
What do you still want to be said of the singer?

Ladies and gentlemen, miss Grace Jones:
Slave to the Rythm.

I’m just playin’ around, baby……

Work all day,
as men who know
wheels must turn
to keep the flow.

Build on up,
don’t break the chain,
sparks will fly
when the whistle blows.

Never stop the action,
keep it up, keep it up.

Never stop the action,
keep it up.

Work to the rhythm,
live to the rhythm,
love to the rhythm,
slave to the rhythm.

Axe to wood,
in ancient time.
Man machine,
power line.

Fire burns,
hearts beat strong.
Sing out loud
the chain gang song.

Never stop the action,
keep it up, keep it up.

Never stop the action,
keep it up.

Breath to the rhythm,
dance to the rhythm,
work to the rhythm,
live to the rhythm.
Love to the rhythm,
you slave to the rhythm.

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Pedro Nunes no Mundo Americano

Tenho uma surpresa para todos!

Parece que as regras das eleições americanas mudaram à última da hora!
…E eu decidi avançar.

Agradeço por isso o vosso maior apoio!…

(Apesar de a campanha já não estar a correr nada mal.)

Vodpod videos no longer available.

Com uma piscadela de olho ao Retrossexual.
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Dezanove Séculos Vos Contemplam


Para os lados da Turquia ocorreu um achado arqueológico.

Quando no fim deste mês arqueólogos resgatavam à terra a antiga cidade soterrada de Sagalassos, destruída por um terramoto por volta do século VI da Era de Cristo, depararam com o antigo lugar de uns banhosa públicos e neles com uma grandiosa estátua…

…Do imperador Marco Aurélio.

Marcus Aurelius Antoninus Augustus; 26 de Abril de 121 a 17 de março de 180.

Já lhe fiz alusão, em certo post. Imperador, homem, filósofo, autor…
Uma figura relevante na História da Humanidade.

Que agora nos revisita.


E não posso deixar de sentir profundamente que esta chegada acontece inesperada.
Sem aviso, sem preparação, sem sentido.

Quando, dezanove séculos depois, a imagem de Marco Aurélio ressurge do ventre da terra, que contas podemos nós prestar-lhe?
[A ele ou a qualquer outro homem que, não tendo conseguido vencer a lei do tempo, nos tenha deixado a sua presença, as suas palavras, as suas ideias, o seu ensinamento…]
Em que aproveitámos nós, durante dezanove séculos, o caminho de consciência e dever que desbravou?
Em que transformámos nós, hipócritas civilizados e higiénicos, o seu sólido ancoradouro moral? Humano, familiar, social, político…

Muitas vezes regresso à leitura dos Pensamentos de Marco Aurélio.
À sua serenidade, à sua simplicidade, à proposta da plenitude possível numa vida passageira.
Tão diferentes na dignidade das fórmulas de pacotilha para uma vida alegre, que nos sitiam.
Tão diferentes em humildade das sentenças sobre passado e futuro dos pensadores distróficos que nos acossam.
Tão diferentes em generosidade das ideologias informais que cegam os nossos olhos e nos levam titeritados…
…Dezanove séculos depois, tão esmagadoramente intemporais.


Para quem por aqui passe – invariavelmente uma pessoa de quem eu gosto – uma prenda.

Não “de mim”. Mas, irrompendo gloriosa de uma pesada terra impotente, da voz de um homem são.

Guia de bolso condensado para consultar avulso, a gosto, a tempo.

Objectivos de Vida
Não te deixes distrair com os incidentes que te chegam de fora.
Reserva-te um tempo livre para aprender qualquer coisa de bom e deixa-te de vaguear sem rumo. Já é tempo de te guardares duma vida de errância.
Bem loucos, com efeito, são aqueles que, por serem intriguistas, sentem o cansaço da vida e não têm um fim a que dirijam os seus esforços e, para o dizer de uma vez, as suas ideias.

A Força do Presente
Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde.
Assim, a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos e o que se perde é, por isso mesmo, igual.
O que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?

Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente, que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa pelos mesmos ciclos e pouco importa assistir ao mesmo espectáculo duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias, consistindo a perda no momento presente; não se pode perder o que não se tem.

O Controle do Suportável
Tudo o que acontece, acontece de forma que naturalmente o podes suportar ou naturalmente o não podes suportar.
Se é coisa que naturalmente és capaz de suportar, não protestes, senão mais depressa deitarás tudo por terra.
Lembra-te, todavia, que és naturalmente capaz de suportar tudo o que de ti depende tornar suportável e tolerável; basta que consideres que é o teu interesse ou o teu dever impor-te esse trabalho.

Serenidade da Alma
C
hamas infortúnio para o ser humano aquilo que não é um obstáculo à sua natureza?
Que queres? Aquilo que te sucede impede-te, por acaso, de ser justo, magnânimo, sóbrio, reflectido, prudente, sincero, modesto, livre, e de possuir as outras virtudes cuja posse assegura à natureza do ser humano a felicidade que lhe é própria?
Não te esqueças doravante, contra tudo aquilo que te possa trazer aflição, de recorrer a este princípio: «Acontecer-me isso não é uma desgraça; suportá-lo corajosamente é uma felicidade».

Viver Sempre Perfeitamente Feliz
Viver sempre perfeitamente feliz.
A nossa alma tem em si mesma esse poder, de ficar indiferente perante as coisas indiferentes. Ficará indiferente se considerar cada uma delas analiticamente e em bloco, lembrando-se que nenhuma nos impõe opinião a seu respeito nem nos vem solicitar; os objectos estão aí imóveis e somos nós que formamos os nossos juízos sobre eles e os entalhamos, por dizê-lo assim, em nós mesmos; e está em nosso poder não os gravar e, se eles se insinuam nalgum cantinho da alma, apagá-los de repente.

As Coisas Humanas São Efémeras E Sem Valor
Pensa de contínuo em quantos médicos morreram, eles que tinham tanta vez carregado o sobrolho à cabeceira dos seus doentes; quantos astrólogos que julgaram maravilhar os outros predizendo-lhes a morte; quantos filósofos após uma infinidade de ásperas disputas sobre a morte e a imortalidade; quantos príncipes depois de terem dado a morte a tanta gente; quantos tiranos que, como se fossem imortais, abusaram, com uma arrogância nunca vista, do poder, a ponto de atentarem contra a vida humana. Quantas cidades, se assim podemos dizer, morreram de raiz: Heliqué, Pompeia, Herculano, e outras que não têm conto! Enumera agora, um após outro todos aqueles que conheceste. Este, depois de prestar os últimos serviços àquele, foi posto de pés juntos no leito fúnebre por um terceiro a quem também chegou a sua vez.
E em tão pouco espaço de tempo! Em suma, as coisas humanas é considerá-las como efémeras e sem valor: ontem, um pouco de greda; amanhã, múmia e um punhado de cinzas. Esta minúscula duração vive-a em sintonia com a natureza e chega ao fim com a alma contente: como a azeitona madura que tombasse abençoando a terra que a criou e dando graças à árvore que a deixou crescer.

O Retiro da Alma
Há quem procure lugares de retiro no campo, na praia, na montanha; e acontece-te também desejar estas coisas em grau subido.
Mas tudo isto revela uma grande simplicidade de espírito, porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em nós mesmos.
Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais isento de ruídos, que na alma, sobretudo quando se tem dentro dela aqueles bens sobre que basta inclinar-se para que logo se recobre toda a liberdade de espírito, e por liberdade de espírito, outra coisa não quero dizer que o estado de uma alma bem ordenada.
Assegura-te constantemente um tal retiro e renova-te nele. Nele encontrarás essas máximas concisas e essenciais; que uma vez encontradas dissolverão o tédio e logo te hão-de restituir, curado de irritações, ao ambiente a que regressas.

A Fidelidade a Nós Próprios
De certo modo, o homem é um ser que nos está intimamente ligado, na medida em que lhe devemos fazer bem e suportá-lo.
Mas desde que alguns deles me impeçam de praticar os actos que estão em relação íntima comigo mesmo, o homem passa à categoria dos seres que me são indiferentes, exactamente como o sol, o vento, o animal feroz.
É certo que podem entravar alguma coisa da minha actividade; mas o meu querer espontâneo, as minhas disposições interiores não conhecem entraves, graças ao poder de agir sob desígnio e de derrubar os obstáculos. Com efeito, a inteligência derruba e põe de banda, para atingir o fim que a orienta, todo o obstáculo à sua actividade. O que lhe embaraçava a acção favorece-a; o que lhe barrava o caminho ajuda-a a progredir
.”

O homem comum é exigente com os outros; o homem superior é exigente consigo mesmo.

Marco Aurélio – Pensamentos
(via Citador.pt)

A Grande Festa

Estou a assistir em directo à grande festa da inauguração dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Os gritos, o caos, o banho de sangue, a complexa coreografia da fuga à tortura por exercer o direito à palavra ou ao acto, a mentira, a hipocrisia do palco internacional.
Impressionante.
Um espectáculo de uma magnificência e de uma originalidade dignas em retrato da nação que o produziu.


Não me digam que não estão a ver…

Ou pelo menos no mesmo canal…