Gato de Colo

Detesto expressões como “eu bem disse”, “eu já sabia” ou “quem é que tinha razão?”. Detesto mesmo.

Para além de serem irritantes não acrescentam nada de bom a situações que forçosamente já não são as melhores e nunca têm uma intenção construtiva senão para o ego de quem as usa.

Mas quando num post que já lá vai eu falava dos Gato Fedorento e da onda muito alta em que foram postos a surfar, mais ou menos previa asneirada que daí poderia decorrer.


Parece que uma ordem judicial ordenou a apreensão de um número da revista TvMais já nas bancas, a pedido de Ricardo Araújo Pereira.
O humorista
terá interposto uma providência cautelar nesse sentido pela publicação não autorizada de fotografias da sua casa.
Desta feita a Justiça foi célere, tendo levado um dia a pronunciar-se, ainda a tempo de impedir a aleivosia da venda das ditas revistas durante a semana a que dizia respeito.
Em complemento, foi produzida uma decisão judicial que impede a Flash, o 24 Horas e a Nova Gente de “qualquer futura publicação de factos não autorizados relativos aos Gato Fedorento“.

Só para não ficarem dúvidas de que os Gato não estão para brincadeiras.


Mas mais que encontrada a solução, mantém-se o problema.

A revista saiu e a bernarda rebentou no dia seguinte a Ricardo Araújo Pereira ter ido ao Departamento de Investigação e Acção Penal prestar declarações sobre a queixa de ameaças de que foi alvo depois da famosa colocação no Marquês de Pombal do cartaz-chacota a um outro do PNR sobre mais ou menos imigração.

A própria Produções Fictícias, que representa o quarteto, situa em comunicado o episódio das ameaças “na sequência de intervenções político-humorísticas, como por exemplo as relativas ao referendo sobre […] Interrupção Voluntária da Gravidez e ao cartaz do PNR“.

Intervenções político-humorísticas“…
É precisamente disso que falo.

Precisamente disso falei no tal post distante de há um ano atrás.

Dizia eu então que assistíamos a um “duplo fenómeno[: o] dos comediantes-políticos, totalmente novo em Portugal, e para o qual prevejo um tristíssimo fim[, e] o dos Gato como novos pioneiros cívicos do Rectângulo à beira-mar“.

Do que não corrijo absolutamente nada.

E está lançado o Gato.

Quando o Gato decidiu abandonar o terreno do Atum, da Ganda Volta, do Kunami ou do O Meu Marido Não Anda Metido na Droga, em que não só é genial como enquadrado no que dele se exige (apenas e só ser engraçadinho, que é o ofício que escolheu…), abriu escancarada uma porta que agora teima à força – não sendo tal coisa possível – deixar só meia fechada.
Quando tão protagonista escolheu meter a colher num domínio estranho ao seu, comprou-o com ganhos e custos.

Que não dá para associar “o cartaz do Marquês” ao “o boneco do aborto”…
Enquanto o “boneco” do Prof. Marcelo e das suas contradições, em dias de Referendo da Despenalização do Aborto, apareceu no programa dos humoristas, foi mais uma peça de um puzzle social em que o País discutiu, debateu e decidiu, estando todos convocados…
…O cartaz dos quatro Gatos, de gozo ao do PNR, na mais movimentada rotunda da capital, foi um acto desvairado deliberadamente hostil. Movidos pelo capricho soberbo de emendar pelo próprio punho um disparate, “o cartaz” foi a um extremo a que nenhum partido sequer foi – nem mesmo os mais extremados em sentido contrário – o da resposta à letra a um partido extremista nos seus próprios termos e modos.
Momento em que o Gato perdeu totalmente a santidade que agora parece evocar.

Só a ânsia de promoção, só o marketing mais básico justificaram a proeza. Inconsequente e fútil.

Ao mixordarem as águas do que são diferentes mundos, querendo promiscuidade que o Estado de Direito avisa dever evitar-se, semearam o seu azar e vêm agora exigir a esse mesmo Estado que acautele os seus Direitos, de cidadãos ofendidos – quando por birra e estupidez não cuidaram arriscá-los.
Dizia a Produções Fictícias que publicar certas coisas “pode afectar a sua segurança“…

Gatinho assanhado. Gatinho superior. Gatinho vitimizado.

Que o Gato, se é político, se é cívico, se é sério, acaba por ser bizarro querer ao mesmo tempo ter graça. Ou ir ligando o botão consoante lhe interesse.

Que gozo – gozo gozado – transversal e corrosivo será aquele por exemplo de um Manuel João Vieira – mais um homem inteligente.
Que tem carta branca total para bater em quem quiser – passada pela independência de quem não deve a ninguém – ou até concorrer a Belém, porque não se leva a sério – pelo menos na aparência – por não se dar ares de tutor.

Mas essa é uma parada alta que nem todos arriscam cobrir.
E o Gato é superior. Como todos já perceberam.



Não tenho por certo que as restrições exigidas pelo Gato estejam cobertas pela Lei.

Estar impedida “qualquer futura publicação de factos não autorizados relativos aos Gato Fedorento” pela imprensa parece-me totalmente irrealista e lírico (para não dizer pequeno-totalitário).

Se o Código Civil Português prevê no n.2 do art. 79º que “Não é necessário o consentimento da pessoa retratada quando assim o justifiquem a sua notoriedade […] ou quando a reprodução da imagem vier enquadrada na de lugares públicos, ou na de factos de interesse público ou que hajam decorrido publicamente“, parece-me haver aqui muita margem de manobra para a imprensa que continue a acompanhar em película o quarteto não fugindo com o rabo entre as pernas…
Desde que (n.3 do mesmo artº) “[do] retrato não [possa] resultar prejuízo para a honra, reputação, ou simples decoro da pessoa retratada.” Óbvio!

A pretensão de “protecção” das vedetas vai ao ridículo de querer abarcar “publicação de imagens das suas habitações, viaturas, familiares e amigos ou de circunstâncias que permitam a respectiva identificação pelo público“.

Ricardo Araújo Pereira (…com o Gato) ainda não o percebeu. Não quer percebê-lo. E pelos vistos tem consigo uma claque que lhe suporta a pretensão.

Quando usou o termo “idiotas para classificar os que dizem que a notoriedade tem custos para a vida privada, demonstra querer para si um estatuto diferente, especial. Único. Que ainda não existe mas que tem de ser criado particularmente para a sua reverenda pessoa.

Ou quando se insurgiu e disse que optou “por tomar uma decisão de cariz jurídico porque há sempre quem precise da ajuda do poder judicial para aprender os rudimentos do bom-senso e da urbanidade“. Iluminado e doutoral.

Quando o que sempre esteve em causa e arrastou toda a celeuma foi… a publicação de fotos da sua nova casa!!

Disse “ninguém tem o direito de esquadrinhar a [sua] vida privada”, que as pessoas que habitam consigo “não têm de pagar preço nenhum por uma fama que não têm nem desejam”…
Meia inconsciência, meia má-consciência.

Porque contrariamente ao que Ricardo Araújo Pereira diz, “o interesse jornalístico de saber onde, como e com quem vivo” não é de facto jornalisticamente “nulo“.

Para mim, é-o.
Mas não para a mole de fãs que tenta através das revistas beber da fama destas ou de outras estrelas – numa curiosidade que é mórbida mas que não foi inventada como castigo para estes pobres artistas da risota. O interesse não é nulo para os fãs que lhes pagam as contas. Que os ajudam a negociar contratos chorudos de programas ou publicidade.

Para mim o interesse é nulo, de facto.
Mas talvez não o seja para algumas más companhias, algumas sombras agoirentas que o Gato ganhou pela sua proeza “politico-humorística” que lhe deu o gosto ao papo mas cujos efeitos tem agora dificuldade de digerir.


Escrevia eu que «o humor genuíno sempre incomodou os poderes fátuos[, mas que] o humor de perfil, timming e propósitos selectivos arrisca-se a ser tão perigoso como os perigos que zurze».

Se esta for a “versão pós-moderna no humor de uma modernice que já campeia na política: a dos Homens Novos, dos cátaros, dos novos Iluminados que se opõem a uma velha tradição decadente (de que são eles parte integrante!)“, cada vez mais o Gato vai ter duas caras: a do engraçado profissional e a do revolucionareto amador. Que não combinam nem jogam.

Assumindo-se cada vez mais, pelos efeitos secundários que daí virão, não como uma lança nos podres desta terra mas um gato de colo, viciado, mole e cobarde.

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