A Crueldade, Agora a Cores

[Como é usual em sites sobre fitas, aviso que este post pode conter spoilers, isto é, pode contar mais do que deve a alguém que queira ver de futuro o filme com a emoção de o descobrir por si mesmo! Ficam avisados.]

Aproveito o pretexto do Hola Lisboa – Festival de Cinema Ibero-Americano -, que vai decorrendo, para me referir ao filme Tropa de Elite de José Padilha.
Já era tempo.

De forma curta, o filme conta a história do Capitão Nascimento, do BOPE,- Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio – que recebe o comando de uma equipa de intervenção, com o objetivo de pacificar o Morro do Turano numa Rio de Janeiro de 1997 à espera da visita de João Paulo II.
Acontece que, ao mesmo tempo, a sua mulher grávida lhe pede para abandonar a corporação. Em contra-relógio o Capitão Nascimento tem de encontrar um substituto à altura do cargo. Talvez um de dois aspirantes do curso de formação; tão bons, tão íntegros, tão incompletos.
…Mas o ritmo das favelas não respeita os pequenos dramas pessoais.

Um filme fenómeno de popularidade.

Dizia o Globo Online de 12 de Novembro de 2007 que a película tinha já somado 2,1 milhões de espectadores no Brasil.
E que se estimavam 3 milhões de pessoas a assistir à versão pirata da longa-metragem antes e durante a sua passagem nas salas.
[O que não espanta. Sei que, em Portugal, vi o filme em “circuito alternativo” há quase meio ano, quando se espera só para o final deste mês a sua estreia por cá!…]

Sendo que nestas coisas o merchandising revela.
Desde jogos on-line, a “camisetas”, a propostas mirabolantes de “videogames” ou “figurinhas” – que ainda não foram levadas a sério nem sei como…


…A máquina comercial cavalga com tal sucesso que no Carnaval do Rio deste ano a “fantasia” de maior sucesso entre adultos e crianças foi a de “policial do BOPE”.

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Um filme também fenómeno de polémica.
Tanto no Brasil como
no estrangeiro.

Um pouco por todo o lado há referências e reacções a esta fita, difícil de contornar.

Não esqueçamos que a prestigiada revista Variety a apelidou – nem mais nem menos, curto e grosso – de “fascista“.
E, acrescentando que o epíteto não resulta senão de uma “incontestável constatação de facto”, condenou a concepção ultra-violenta do filme, a glorificação de um estilo “Rambo-policial” desenvolvido por protagonistas “psicopatas
” e a “ridicularização” do que considera ser o resíduo de “civismo” e “emoção” no enredo.


Facto, facto, é que não é um filme fácil.

Lia-se num DN Online de Fevereiro que se trata de um filme “realista“, o que “acentua polémica“. E se calhar é por aí.
Se calhar o mainstream e a crítica queque não estão preparados para este tipo de produto, que nem é uma pipoca de Hollywood, nem uma intelectualice de autor, nem um documentário, mantendo-se cinicamente na charneira destes universos.
Reproduzia o artigo que «
António Carlos Costa, presidente do Movimento Rio de Paz [, afirma que o] filme de José Padilha “não é fascista” como a revista Variety o classificou […]. “A polícia que nós temos é a que o filme descreve. Os traficantes também. Estamos vivendo num contexto socialmente esquizofrénico. Apesar da alegria e da hospitalidade do brasileiro, há hoje uma cultura de banalização da vida humana no Brasil que é chocante”».

Tropa de Elite tem uma enorme virtude: é um perfeito nivelador.
A reflexão inevitável que provoca parte do ponto zero do problema. Antes do ditar de sentenças, antes do atribuir de culpas, antes do formular de juízos. Nasce ao lado do frágil pilar da visão politicamente correcta e coloca-a em causa.

Quem salva a cara neste filme? Quem salva a cara na sociedade quotidiana do Rio?
Os traficantes, criminosos bárbaros?
A polícia, desmoralizada e conivente?
Os “caveiras“, amorais e cruéis?
Os civis das favelas, que por medo e por interesse acabam associados ao crime?
Os “grã-finos” da sociedade burguesa, filantrópica, liberal e cúmplice?

Todos são colocados em causa.

…Para o que talvez nem todos estivessem preparados!

E o elenco!, angustiantemente jovem!…
Imagem de um Brasil cinematografado que não está às portas de nenhuma piedosa mudança de mentalidade de gerações, mas antes à boca de um vórtice que garantidamente o engolirá de uma vez, sem dor, nem consciência, nem esperança.

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Polémicas à parte, o filme tem em si um duplo valor.
O artístico, tendo
vencido o Leão de Ouro do último Festival de Berlim para o Melhor Filme do Ano.
E o “tal” valor cívico. Parece que José Padilha já perdeu a conta aos convites a que acedeu para debater o filme, o livro que lhe esteve na origem e a realidade brasileira que os antecedeu, com milhares de pessoas que sentiram a necessidade de conhecer, discutir, exorcizar o que é uma face pestilenta do Brasil de hoje, que o filme descobriu.
[A própria equipa de filmagem viu-se atacada e roubada certa vez numa das etapas da rodagem do filme…]


A sociedade do Rio – e do Brasil – vive refém de um dilema: a incapacidade de gerir dentro da regra da democracia a marginalidade opressora, auto-suficiente e tentacular, e o aparente sucesso na imposição (?) da lei por uma falange das forças da autoridade com recurso à brutalidade e à cegueira.
Quando a notícia de um arrastão na praia provoca temor ao cidadão comum, a ocupação de uma favela – no topo da qual o BOPE hasteia a sua bandeira – não tranquiliza todos, porque nas palavras de um oficial responsável: “Diante do Bope, o bandido tem de tremer e sair enquanto está vivo, pois o Bope vem para fazer limpeza”.

O Caveirão (carro de assalto do BOPE), não é veículo da paz.
Esta força de elite – uma das mais eficazes do mundo – com trinta anos de serviço e a que números não oficiais atribuem apenas duas mortes em serviço até hoje, deixa atrás de si o rasto
de mortes inerente a cada “limpeza”, com um acréscimo de quase 20% de 2006 para 2007.
(Em Abril deste ano, uma
operação na favela Vila Cruzeiro, resultou no abate a tiro de mais nove alegados traficantes. )


Mas como não ceder ao encanto da oferta de lei e ordem numa terra de caos, nas mãos de quadrilhas?
Como não endeusar homens que contrariam singulares a regra de uma sociedade apodrecida?
…Ao extremo de alguém propor que “
a caveira, símbolo do Bope […] e o uniforme preto do batalhão se tornem patrimônios culturais do Rio de Janeiro“…
[Dizia o Gabriel o Pensador numa canção com outro tema: ” ‘Tá muito sinistro! Alô, prefeito, governador, presidente, ministro, / traficante, Jesus Cristo, sei lá… / Alguma autoridade tem que se manifestar!”.]

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Tropa de Elite é um filme amargo e pessimista.

Que na aparência de um final feliz – tendo em conta a premissa inicial – narra a destruição de todas personagens principais. Incapazes de contrariar uma voragem muito mais poderosa que elas, que as derruba no momento-chave da ilusão de que, ao apropriar-se dos sortilégios do mal, dominam o mal em si.

O Brasil vive, num fleuma e numa bonomia herdados de Portugal.
E samba, com uma força da terra que é da África e do Índio.
…E rodopia ao som do Rap das Armas – da banda sonora do filme. Impotente.

Que lhe reste – de facto – capacidade de se sentir violentado com a crueldade deste filme.
Que lhe reste algum tempo de alma para reflectir. Para escolher. Tem aqui um bom pretexto.
Ou poderá mais tarde não ter retorno o caminho do desvio.

E seria muito bom se cada um, de sua forma, tirasse a sua própria lição do Tropa de Elite.
É que o Brasil não é tão longe. E as suas cores são globais.

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