Eu Vou…

…boicotar este fim-de-semana (e não só) as principais petrolíferas.
Apesar de antigo cliente da BP.

Vivemos um momento-chave para testar a saúde da(s) nossa(s) democracia(s ocidentais).


Por motivos que ninguém sabe explicar (isto é, sustentar) os preços dos combustíveis escalam tabelas.
E se em Fevereiro deste ano era notícia surpreendente a queda da barreia psicológica dos 100 dólares por um barril de matéria viscosa tirada de um buraco lá para o Médio Oriente ou quejando, em Maio ouvia-se com espanto que esse valor já ia nos 124 dólares e não parou entretanto de subir…

Parecendo certo a todos – excepto para algum iludido – que a subida não tem fim certo.

A morte deixa sempre uma desculpa e por isso vários motivos de passado recente têm servido para explicar as altas do petróleo nos mercados e nas carteiras: a aventura americana no Iraque, a superprocura de combustíveis de uma Índia e de uma China em expansão industrial, as doideiras de Chávez na Venezuela, o dólar enfraquecido em que se negoceiam os combustíveis, comportamentos histéricos nos mercados e reservas influenciados pela fobia de más notícias sobre diminuição de capacidade de poços em exploração, etc.

Mas dizem que nenhum motivo chega aos calcanhares do maior responsável pela subida em flecha dos preços dos combustíveis: a boa da especulação.
Há por aí uns gabirús (mais ou menos singulares, mais ou menos corporativos) que se entretêm a brincar com os preços de matérias combustíveis; como quem o faz com acções, moeda, ouro, açúcar ou carne de porco, obtendo daí avultados lucros sem mexer uma palha…

Eu disso sei pouco.
O que sei são duas coisas: os preços vão subindo e niguém faz nada.

Os preços irem subindo atribui responsabilidade às petrolíferas, imorais.
Os mercados de origem dos combustíveis não só não são infinitos, como vendem os barris de crude a preços concertados, como também quem o adquire são multinacionais que o aspergem sobre todo o globo. Logo, não se justificariam disparidades gritantes de preços que disparam nuns países e não tanto noutros.
E mesmo a questão fiscal não é justificativa neste ponto já que os impostos aplicados, se não sobem, não estão no grosso de tais aumentos.

Tudo agravado por uma crónica “coincidência” dos valores de aumento de uma petrolífera poderosa para a outra do lado, situação que sitia o consumidor, encravado pela comodidade na sujeição a regras despóticas de mercado em cartel.

Mas subsiste a questão do fazer-se algo contra tal situação.
“Fazer-se”, quem tem a responsabilidade delegada pelos portugueses para agir: o “Governo” da Nação.

Que em vez de assistir de poltrona aos saltos de preços – já na casa das duas dezenas desde o início do ano – deveria ter-se mexido em tempo útil e exigido à Autoridade da Concorrência que se tivesse já manifestado quanto às suspeitas de cartelização combustível que correm pela praça.

Um “Governo” a quem – por ter dado tanto trabalho a inventar o travesti do défice de 7% em 2005 e a “equilibrar” as contas do País de lá para cá – não passa pela cabeça desenvolver qualquer intervenção fiscal ou financeira, qualquer medida de estratégia nacional de salvaguarda de cidadãos ou sectores-chave. É que as ajudas de emergência poriam alguns cidadãos “em situação de desigualdade face a outros sectores” (!!) e as “medidas de apoio apenas [a sectores-chave] não colheriam, seguramente, o apoio da opinião pública“. (!!!)

Um “Governo” que sobre a situação de ruptura que se vive tem saídas como as do Ministro da Economia – em termos de “demónios“, “especulação selvagem“, “fazer o que se pode” e “aposta nas energias renováveis” – que nos deixam sérias dúvidas sobre se o incompetente estará ou não a gozar connosco.

Antes o “Governo” tem a lata de desfilar no palco europeu e global as suas “preocupações” genéricas e futuristas.
Isto é, longe da terra, das gentes deixadas à sua sorte, com a anuência do próprio País lorpa que somos.

Um “Governo” que em vez de sacudir a água do capote quando comparada a taxa de IVA em Portugal e Espanha, devia assumir sem rodeios a fatia choruda que lhe cabe no arrecadamento de impostos sobre o preço artificialmente elevado dos combustíveis e que por critério exclusivamente político não intervém.

Por isso, aderir ao boicote. Este fim-de-semana e não só.

Não se pode boicotar de uma só vez todos os responsáveis por esta situação – recordar que em 2004 a Cepsa e a Esso foram investigadas por poder ter concertado preços – , mas já me fico pelas maiores petrolíferas a operar por cá. Que maior sangria nos provocam ao atestar um depósito.
A BP, a Repsol e a GALP…
…A nossa GALP, a nossa menina, a nossa jóia da coroa, que já este ano está a ter lucros colossais graças a uma chulice consentida que não reverte a favor do Estado que a favorece nem sequer dos desgraçados dos gasolineiros que vêm a clientela a retrair-se ou a fugir para Espanha.


Mas também um boicote simbólico ao actual “Governo” socialista.

Porque não nos iludamos: quando um País amorfo se mobiliza e provoca prejuízos eventuais a uma petrolífera na casa da dezena de milhão, é possível que comecem a fazer-se as perguntas certas.


Os portugueses já estão obrigados a alterar as suas rotinas em função da carestia descontrolada dos preços dos combustíveis.
Os sectores económicos que mais poderiam ser afectados, estão de facto a sê-lo. Indústria, transportes, agricultura, pescas, enfrentando em muitos casos um abismo só mitigado pela transferência do peso dos custos da sua actividade para as costas dos consumidores.

Os portugueses têm a consciência de que não sendo um Governo a estabelecer os preços de um mercado liberalizado ele pode e deve ter uma postura diferente da de mero espectador.

E neste – mais um – momento em que nas democracias ocidentais os cidadãos de corpo inteiro estão convocados para tomar uma posição perante um atropelo grosseiro e absurdo do conforto e da segurança com que os governantes tanto acenam, hipócritas, há os que a tomam e os que não.

Partíssemos nós do princípio que o “Fim das Ideologias” era uma realidade, temos frequentes oportunidades de solidariamente nos opormos a uma lógica egoísta, corrupta, dissimulada e fria que rege a nossa vida global.

Que a militância pode ser partidária mas tem sempre de ser de consciência.

Por isso vou. À minha meneira, à minha escala, pôr contra a parede quem me quer fazê-lo. Como atitude de auto-defesa, de auto-determinação.

Participar no boicote.
Vou!



Já ao Rock in Rio é que não. Não tenho muita pachorra para aquele tipo de coisas…

"Love Will Tear Us Apart"

(…Não só mas também.)


Numa cover dos Joy Division (que, por falar nisso, detesto), Susanna and the Magical Orchestra, do álbum Melody Mountain – uma das coisas mais bonitas que ouvi nos últimos tempos.

Via Lua da Loba, com direito a letra e tudo.

LOVE WILL TEAR US APART

When routine bites hard
And ambitions are low
And resentment rides high
But emotions won’t grow
And we’re changing our ways
Taking different roads

Then love, love will tear us apart again
Love, love will tear us apart again

Why is the bedroom so cold
Turned away on your side
Is my timing that flawed
Our respect run so dry
Yet there’s still this appeal
That we’ve kept through our lives

And love, love will tear us apart again
Love, love will tear us apart again

Do you cry out in your sleep
All my failings expose
Get a taste in my mouth
As desperation takes hold
Is it something so good
Just can’t function no more

When love, love will tear us apart again
Love, love will tear us apart again
Love, love will tear us apart again
Love, love will tear us apart again

"Another One Rides The Bus"

Um dos maiores parodiantes vivos: Weird Al Yankovic.
(Que a “paródia” é um estilo artístico a que nem todos chegam.)

Na sua primeira aparição televisiva. The Tomorrow Show de Tom Snyder; 1981.
Uma espécie de “Another One Bites the Dust” dos Queen – com direito a letra e tudo.

“ANOTHER ONE RIDES THE BUS”

Riding in the bus down the boulevard
And the place was pretty packed (Yeah!)
Couldn’t find a seat so I had to stand
With the perverts in the back
It was smelling like a locker room
There was junk all over the floor
We’re already packed in like sardines
But we’re stopping to pick up more, look out

(Chorus)
Another one rides the bus
Another one rides the bus
Another comes on and another comes on
Another one rides the bus
Hey, who’s gonna sit by you
Another one rides the bus

There’s a suitcase poking me in the ribs
There’s an elbow in my ear
There’s a smelly old bum standing next to me
Hasn’t showered in a year
I think I’m missing a contact lens
I think my wallet’s gone
And I think this bus is stopping again
To let a couple more freaks get on look out

(Chorus)

(cool sound effects)

Another one rides the bus

Another one rides the bus ow
Another one rides the bus hey hey
Another one rides the bus hey-ey-ey-ey ey ey eyyyyyy

The window doesn’t open and the fan is broke
And my face is turning blue (Yeah)
I haven’t been in a crowd like this
Since I went to see the Who
Well I should’ve got off a couple miles ago
But I couldn’t get to the door
There isn’t any room for me to breathe
And now we’re gonna pick up more yeaaah

(Chorus)

Gato de Colo

Detesto expressões como “eu bem disse”, “eu já sabia” ou “quem é que tinha razão?”. Detesto mesmo.

Para além de serem irritantes não acrescentam nada de bom a situações que forçosamente já não são as melhores e nunca têm uma intenção construtiva senão para o ego de quem as usa.

Mas quando num post que já lá vai eu falava dos Gato Fedorento e da onda muito alta em que foram postos a surfar, mais ou menos previa asneirada que daí poderia decorrer.


Parece que uma ordem judicial ordenou a apreensão de um número da revista TvMais já nas bancas, a pedido de Ricardo Araújo Pereira.
O humorista
terá interposto uma providência cautelar nesse sentido pela publicação não autorizada de fotografias da sua casa.
Desta feita a Justiça foi célere, tendo levado um dia a pronunciar-se, ainda a tempo de impedir a aleivosia da venda das ditas revistas durante a semana a que dizia respeito.
Em complemento, foi produzida uma decisão judicial que impede a Flash, o 24 Horas e a Nova Gente de “qualquer futura publicação de factos não autorizados relativos aos Gato Fedorento“.

Só para não ficarem dúvidas de que os Gato não estão para brincadeiras.


Mas mais que encontrada a solução, mantém-se o problema.

A revista saiu e a bernarda rebentou no dia seguinte a Ricardo Araújo Pereira ter ido ao Departamento de Investigação e Acção Penal prestar declarações sobre a queixa de ameaças de que foi alvo depois da famosa colocação no Marquês de Pombal do cartaz-chacota a um outro do PNR sobre mais ou menos imigração.

A própria Produções Fictícias, que representa o quarteto, situa em comunicado o episódio das ameaças “na sequência de intervenções político-humorísticas, como por exemplo as relativas ao referendo sobre […] Interrupção Voluntária da Gravidez e ao cartaz do PNR“.

Intervenções político-humorísticas“…
É precisamente disso que falo.

Precisamente disso falei no tal post distante de há um ano atrás.

Dizia eu então que assistíamos a um “duplo fenómeno[: o] dos comediantes-políticos, totalmente novo em Portugal, e para o qual prevejo um tristíssimo fim[, e] o dos Gato como novos pioneiros cívicos do Rectângulo à beira-mar“.

Do que não corrijo absolutamente nada.

E está lançado o Gato.

Quando o Gato decidiu abandonar o terreno do Atum, da Ganda Volta, do Kunami ou do O Meu Marido Não Anda Metido na Droga, em que não só é genial como enquadrado no que dele se exige (apenas e só ser engraçadinho, que é o ofício que escolheu…), abriu escancarada uma porta que agora teima à força – não sendo tal coisa possível – deixar só meia fechada.
Quando tão protagonista escolheu meter a colher num domínio estranho ao seu, comprou-o com ganhos e custos.

Que não dá para associar “o cartaz do Marquês” ao “o boneco do aborto”…
Enquanto o “boneco” do Prof. Marcelo e das suas contradições, em dias de Referendo da Despenalização do Aborto, apareceu no programa dos humoristas, foi mais uma peça de um puzzle social em que o País discutiu, debateu e decidiu, estando todos convocados…
…O cartaz dos quatro Gatos, de gozo ao do PNR, na mais movimentada rotunda da capital, foi um acto desvairado deliberadamente hostil. Movidos pelo capricho soberbo de emendar pelo próprio punho um disparate, “o cartaz” foi a um extremo a que nenhum partido sequer foi – nem mesmo os mais extremados em sentido contrário – o da resposta à letra a um partido extremista nos seus próprios termos e modos.
Momento em que o Gato perdeu totalmente a santidade que agora parece evocar.

Só a ânsia de promoção, só o marketing mais básico justificaram a proeza. Inconsequente e fútil.

Ao mixordarem as águas do que são diferentes mundos, querendo promiscuidade que o Estado de Direito avisa dever evitar-se, semearam o seu azar e vêm agora exigir a esse mesmo Estado que acautele os seus Direitos, de cidadãos ofendidos – quando por birra e estupidez não cuidaram arriscá-los.
Dizia a Produções Fictícias que publicar certas coisas “pode afectar a sua segurança“…

Gatinho assanhado. Gatinho superior. Gatinho vitimizado.

Que o Gato, se é político, se é cívico, se é sério, acaba por ser bizarro querer ao mesmo tempo ter graça. Ou ir ligando o botão consoante lhe interesse.

Que gozo – gozo gozado – transversal e corrosivo será aquele por exemplo de um Manuel João Vieira – mais um homem inteligente.
Que tem carta branca total para bater em quem quiser – passada pela independência de quem não deve a ninguém – ou até concorrer a Belém, porque não se leva a sério – pelo menos na aparência – por não se dar ares de tutor.

Mas essa é uma parada alta que nem todos arriscam cobrir.
E o Gato é superior. Como todos já perceberam.



Não tenho por certo que as restrições exigidas pelo Gato estejam cobertas pela Lei.

Estar impedida “qualquer futura publicação de factos não autorizados relativos aos Gato Fedorento” pela imprensa parece-me totalmente irrealista e lírico (para não dizer pequeno-totalitário).

Se o Código Civil Português prevê no n.2 do art. 79º que “Não é necessário o consentimento da pessoa retratada quando assim o justifiquem a sua notoriedade […] ou quando a reprodução da imagem vier enquadrada na de lugares públicos, ou na de factos de interesse público ou que hajam decorrido publicamente“, parece-me haver aqui muita margem de manobra para a imprensa que continue a acompanhar em película o quarteto não fugindo com o rabo entre as pernas…
Desde que (n.3 do mesmo artº) “[do] retrato não [possa] resultar prejuízo para a honra, reputação, ou simples decoro da pessoa retratada.” Óbvio!

A pretensão de “protecção” das vedetas vai ao ridículo de querer abarcar “publicação de imagens das suas habitações, viaturas, familiares e amigos ou de circunstâncias que permitam a respectiva identificação pelo público“.

Ricardo Araújo Pereira (…com o Gato) ainda não o percebeu. Não quer percebê-lo. E pelos vistos tem consigo uma claque que lhe suporta a pretensão.

Quando usou o termo “idiotas para classificar os que dizem que a notoriedade tem custos para a vida privada, demonstra querer para si um estatuto diferente, especial. Único. Que ainda não existe mas que tem de ser criado particularmente para a sua reverenda pessoa.

Ou quando se insurgiu e disse que optou “por tomar uma decisão de cariz jurídico porque há sempre quem precise da ajuda do poder judicial para aprender os rudimentos do bom-senso e da urbanidade“. Iluminado e doutoral.

Quando o que sempre esteve em causa e arrastou toda a celeuma foi… a publicação de fotos da sua nova casa!!

Disse “ninguém tem o direito de esquadrinhar a [sua] vida privada”, que as pessoas que habitam consigo “não têm de pagar preço nenhum por uma fama que não têm nem desejam”…
Meia inconsciência, meia má-consciência.

Porque contrariamente ao que Ricardo Araújo Pereira diz, “o interesse jornalístico de saber onde, como e com quem vivo” não é de facto jornalisticamente “nulo“.

Para mim, é-o.
Mas não para a mole de fãs que tenta através das revistas beber da fama destas ou de outras estrelas – numa curiosidade que é mórbida mas que não foi inventada como castigo para estes pobres artistas da risota. O interesse não é nulo para os fãs que lhes pagam as contas. Que os ajudam a negociar contratos chorudos de programas ou publicidade.

Para mim o interesse é nulo, de facto.
Mas talvez não o seja para algumas más companhias, algumas sombras agoirentas que o Gato ganhou pela sua proeza “politico-humorística” que lhe deu o gosto ao papo mas cujos efeitos tem agora dificuldade de digerir.


Escrevia eu que «o humor genuíno sempre incomodou os poderes fátuos[, mas que] o humor de perfil, timming e propósitos selectivos arrisca-se a ser tão perigoso como os perigos que zurze».

Se esta for a “versão pós-moderna no humor de uma modernice que já campeia na política: a dos Homens Novos, dos cátaros, dos novos Iluminados que se opõem a uma velha tradição decadente (de que são eles parte integrante!)“, cada vez mais o Gato vai ter duas caras: a do engraçado profissional e a do revolucionareto amador. Que não combinam nem jogam.

Assumindo-se cada vez mais, pelos efeitos secundários que daí virão, não como uma lança nos podres desta terra mas um gato de colo, viciado, mole e cobarde.

Dexter

É possível a alguém viver a vida inteira atrás de uma máscara de normalidade?

Sim. E não.

Dexter

A terceira temporada de Dexter arranca no Outono…

Posted in Uncategorized. Tags: , , . Leave a Comment »

A Crueldade, Agora a Cores

[Como é usual em sites sobre fitas, aviso que este post pode conter spoilers, isto é, pode contar mais do que deve a alguém que queira ver de futuro o filme com a emoção de o descobrir por si mesmo! Ficam avisados.]

Aproveito o pretexto do Hola Lisboa – Festival de Cinema Ibero-Americano -, que vai decorrendo, para me referir ao filme Tropa de Elite de José Padilha.
Já era tempo.

De forma curta, o filme conta a história do Capitão Nascimento, do BOPE,- Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio – que recebe o comando de uma equipa de intervenção, com o objetivo de pacificar o Morro do Turano numa Rio de Janeiro de 1997 à espera da visita de João Paulo II.
Acontece que, ao mesmo tempo, a sua mulher grávida lhe pede para abandonar a corporação. Em contra-relógio o Capitão Nascimento tem de encontrar um substituto à altura do cargo. Talvez um de dois aspirantes do curso de formação; tão bons, tão íntegros, tão incompletos.
…Mas o ritmo das favelas não respeita os pequenos dramas pessoais.

Um filme fenómeno de popularidade.

Dizia o Globo Online de 12 de Novembro de 2007 que a película tinha já somado 2,1 milhões de espectadores no Brasil.
E que se estimavam 3 milhões de pessoas a assistir à versão pirata da longa-metragem antes e durante a sua passagem nas salas.
[O que não espanta. Sei que, em Portugal, vi o filme em “circuito alternativo” há quase meio ano, quando se espera só para o final deste mês a sua estreia por cá!…]

Sendo que nestas coisas o merchandising revela.
Desde jogos on-line, a “camisetas”, a propostas mirabolantes de “videogames” ou “figurinhas” – que ainda não foram levadas a sério nem sei como…


…A máquina comercial cavalga com tal sucesso que no Carnaval do Rio deste ano a “fantasia” de maior sucesso entre adultos e crianças foi a de “policial do BOPE”.

______________________

Um filme também fenómeno de polémica.
Tanto no Brasil como
no estrangeiro.

Um pouco por todo o lado há referências e reacções a esta fita, difícil de contornar.

Não esqueçamos que a prestigiada revista Variety a apelidou – nem mais nem menos, curto e grosso – de “fascista“.
E, acrescentando que o epíteto não resulta senão de uma “incontestável constatação de facto”, condenou a concepção ultra-violenta do filme, a glorificação de um estilo “Rambo-policial” desenvolvido por protagonistas “psicopatas
” e a “ridicularização” do que considera ser o resíduo de “civismo” e “emoção” no enredo.


Facto, facto, é que não é um filme fácil.

Lia-se num DN Online de Fevereiro que se trata de um filme “realista“, o que “acentua polémica“. E se calhar é por aí.
Se calhar o mainstream e a crítica queque não estão preparados para este tipo de produto, que nem é uma pipoca de Hollywood, nem uma intelectualice de autor, nem um documentário, mantendo-se cinicamente na charneira destes universos.
Reproduzia o artigo que «
António Carlos Costa, presidente do Movimento Rio de Paz [, afirma que o] filme de José Padilha “não é fascista” como a revista Variety o classificou […]. “A polícia que nós temos é a que o filme descreve. Os traficantes também. Estamos vivendo num contexto socialmente esquizofrénico. Apesar da alegria e da hospitalidade do brasileiro, há hoje uma cultura de banalização da vida humana no Brasil que é chocante”».

Tropa de Elite tem uma enorme virtude: é um perfeito nivelador.
A reflexão inevitável que provoca parte do ponto zero do problema. Antes do ditar de sentenças, antes do atribuir de culpas, antes do formular de juízos. Nasce ao lado do frágil pilar da visão politicamente correcta e coloca-a em causa.

Quem salva a cara neste filme? Quem salva a cara na sociedade quotidiana do Rio?
Os traficantes, criminosos bárbaros?
A polícia, desmoralizada e conivente?
Os “caveiras“, amorais e cruéis?
Os civis das favelas, que por medo e por interesse acabam associados ao crime?
Os “grã-finos” da sociedade burguesa, filantrópica, liberal e cúmplice?

Todos são colocados em causa.

…Para o que talvez nem todos estivessem preparados!

E o elenco!, angustiantemente jovem!…
Imagem de um Brasil cinematografado que não está às portas de nenhuma piedosa mudança de mentalidade de gerações, mas antes à boca de um vórtice que garantidamente o engolirá de uma vez, sem dor, nem consciência, nem esperança.

______________________

Polémicas à parte, o filme tem em si um duplo valor.
O artístico, tendo
vencido o Leão de Ouro do último Festival de Berlim para o Melhor Filme do Ano.
E o “tal” valor cívico. Parece que José Padilha já perdeu a conta aos convites a que acedeu para debater o filme, o livro que lhe esteve na origem e a realidade brasileira que os antecedeu, com milhares de pessoas que sentiram a necessidade de conhecer, discutir, exorcizar o que é uma face pestilenta do Brasil de hoje, que o filme descobriu.
[A própria equipa de filmagem viu-se atacada e roubada certa vez numa das etapas da rodagem do filme…]


A sociedade do Rio – e do Brasil – vive refém de um dilema: a incapacidade de gerir dentro da regra da democracia a marginalidade opressora, auto-suficiente e tentacular, e o aparente sucesso na imposição (?) da lei por uma falange das forças da autoridade com recurso à brutalidade e à cegueira.
Quando a notícia de um arrastão na praia provoca temor ao cidadão comum, a ocupação de uma favela – no topo da qual o BOPE hasteia a sua bandeira – não tranquiliza todos, porque nas palavras de um oficial responsável: “Diante do Bope, o bandido tem de tremer e sair enquanto está vivo, pois o Bope vem para fazer limpeza”.

O Caveirão (carro de assalto do BOPE), não é veículo da paz.
Esta força de elite – uma das mais eficazes do mundo – com trinta anos de serviço e a que números não oficiais atribuem apenas duas mortes em serviço até hoje, deixa atrás de si o rasto
de mortes inerente a cada “limpeza”, com um acréscimo de quase 20% de 2006 para 2007.
(Em Abril deste ano, uma
operação na favela Vila Cruzeiro, resultou no abate a tiro de mais nove alegados traficantes. )


Mas como não ceder ao encanto da oferta de lei e ordem numa terra de caos, nas mãos de quadrilhas?
Como não endeusar homens que contrariam singulares a regra de uma sociedade apodrecida?
…Ao extremo de alguém propor que “
a caveira, símbolo do Bope […] e o uniforme preto do batalhão se tornem patrimônios culturais do Rio de Janeiro“…
[Dizia o Gabriel o Pensador numa canção com outro tema: ” ‘Tá muito sinistro! Alô, prefeito, governador, presidente, ministro, / traficante, Jesus Cristo, sei lá… / Alguma autoridade tem que se manifestar!”.]

______________________

Tropa de Elite é um filme amargo e pessimista.

Que na aparência de um final feliz – tendo em conta a premissa inicial – narra a destruição de todas personagens principais. Incapazes de contrariar uma voragem muito mais poderosa que elas, que as derruba no momento-chave da ilusão de que, ao apropriar-se dos sortilégios do mal, dominam o mal em si.

O Brasil vive, num fleuma e numa bonomia herdados de Portugal.
E samba, com uma força da terra que é da África e do Índio.
…E rodopia ao som do Rap das Armas – da banda sonora do filme. Impotente.

Que lhe reste – de facto – capacidade de se sentir violentado com a crueldade deste filme.
Que lhe reste algum tempo de alma para reflectir. Para escolher. Tem aqui um bom pretexto.
Ou poderá mais tarde não ter retorno o caminho do desvio.

E seria muito bom se cada um, de sua forma, tirasse a sua própria lição do Tropa de Elite.
É que o Brasil não é tão longe. E as suas cores são globais.

O Peso da Nação

Posted in Uncategorized. Tags: , . 1 Comment »

Ridículo

O milagre educativo português floresce e medra.
Com resultados cada vez mais positivos, frutos desejados da árvore reformadora da Srª Dª Mª de Lurdes Rodrigues.

_________________________


…Mas há sempre uma imundície que se cria em redor da árvore…

Então não diz Nuno Crato, Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, no dia em que mais de 230 mil alunos do 4.º e 6.º anos de todas as escolas portuguesas realizaram a Prova de Aferição de Matemática,
que a prova “não permite testar o que os alunos devem saber“?

Francamente!

E que «as provas não incidiram sobre o que os alunos devem saber e alguns cálculos exigidos eram “ridiculamente fáceis”»?…

E que «“não se testa o que os alunos sabem fazer, como o domínio dos conceitos e de algoritmos, mas a sua capacidade de interpretação e leitura”»?…

E não fala de um “número exagerado de questões demasiado elementares”?

Vá lá que, por precaução, Nuno Crato não quis afirmar que o facto se deva à necessidade do Ministério da Educação “apresentar resultados“…

Que má-língua!
Ridículo!

Tons Laranja

O partido dos laranjinhas fez anos. Tantos quantos a democracia (possível) desta terra, que ajudou a fundar.
Motivo para trocar palmadinhas nas costas e acender velas.
De aniversário.


Mas também de velório.
Após o falecimento, por doença degenerativa, de uma Direcção incapacitada há muito para o exercício prático de funções.
Alumia-se-lhe o cadáver ainda quente…

[…O que não deixa de encerrar algum absurdo: com um ano apenas de mandato, Luís Filipe Menezes e sua equipa conseguiram entrada merecida na galeria dos benfazejos do partido, por dois actos memoráveis.
Primeiro, ter apeado Marques Mendes do pavoroso sonho de vir a ser Primeiro-Ministro.
Segundo, ter saído pelo próprio pé antes de correr o risco de o sonhar também.]

Mas mais velinhas se acendem.
Agora de súplica e devoção.

Arrancou a corrida à liderança do PSD. E exige-se que um partido com tanta gente faça sobressair os seus melhores.

Como militante, votarei. Como sempre. Com a maior consciência da responsabilidade que o meu voto pode ter. – Sou dos que acreditam que o que desta eleição resultar tanto pode ajudar ao erguer desta Nação como ao seu enterro definitivo.

E neste contexto de desfile de candidaturas e candidatos, urge fazer uma reflexão definitiva sobre os candidatos que parece arredada do palco político.
– A reflexão de um social-democrata a que não só a oportunidade como a consciência e a coerência me obrigam.

___________________________________

Candidato Neto da Silva.
Ex-Secretário de Estado de Cavaco Silva.

Não conheço. Não sei quem é. E não voto em quem não conheço. Nem eu nem os outros portugueses. E se nele nunca votariam, por maioria de razão pouco sequer interessa o que o senhor tenha a dizer no presente contexto.

[É cruel, a verdade política.]

Candidato Patinha Antão.

Doutorado em Economia, Professor Universitário, Secretário de Estado-Adjunto, Vice-Director de Direcção-Geral, Chefe de Gabinete, Director de Gabinete, Deputado.

Uma das poucas figuras que pelo partido fala de Finanças como quem sabe do que fala e frequentemente tábua de salvação de um indigente Grupo Parlamentar laranja neste (…) domínio.

Já andou por muito lado, conseguiu mobilizar caramelos para recolher assinaturas por ele – que chegaram a vir a minha casa – mas os votantes não o encaram como um candidato “a sério” nesta eleição.
E se nele nunca votariam“…, idem aspas.

Candidata Manuela Ferreira Leite.

Economista, Directora de Departamento, Directora-Geral, Presidente de Conselho de Administração, Técnica Consultora, Chefe de Gabinete, Professora Universitária, Deputada, Secretária de Estado, Ministra por duas vezes, Membro do Conselho de Estado e Comendadora.

A sua entrada na corrida à Presidência do partido elevou a fasquia para todos os candidatos.
Mulher de longo currículo, muitas artes e imagem publicada de severidade e rigor, com uma longa e fiel corte de dependentes em cascata, é uma concorrente a ter em conta.

Pena é não ter assumido ainda a sua quota-parte de culpa no panorama em que hoje Portugal vive.
Não se é (?) impunemente membro de sucessivos Governos, aparecendo um belo dia como salvadora do País que se ajudou a moldar.
[E é assustadora a proximidade que se percebe entre a sua visão socio-política e a do “Governo” actual.]

Mais: Manuela Ferreira Leite contribuiu activamente para o descrédito em que a política hoje se encontra.
Engrossou a casta da clientela iluminada que assume indiferenciadamente qualquer mandato que esteja à mão, não deixou nem marca nem saudade nos Ministérios que dirigiu – Educação ou Finanças -, não disse “presente!” no momento da vida do seu partido em que era obrigada a fazê-lo (quando Durão Barroso saiu) e limitou-se a integrar o coro grego de agoiro de Direcções, em que muitos dos seus cortesãos se movimentam.

Agora, é mero rosto daquilo que a falange mendista consiga reacender após a derrota que lá vai e do seu objectivo de reconquistar o partido, encerrando um sonho mau em que tem vivido.

Candidato Pedro Santana Lopes.

Advogado, Professor Universitário e Regente, Presidente de Conselho Fiscal, Presidente de Conselho de Administração, Assessor de Gabinete, Adjunto de Ministro, Presidente de duas Câmaras Municipais, duas vezes Secretário de Estado, Deputado, Deputado ao Parlamento Europeu, Primeiro-Ministro, Presidente de Clube Desportivo, Comendador numa data de países.

Santana Lopes concorre fundamentalmente por si próprio. Não pelo seu partido.

Não entendendo que o epíteto de imortal da política mais faz dele um chato que um resistente, Santana pretende corrigir a História.
Uma História que não percebeu que avança, que muda e que se fecha.

Fui (e sou) dos poucos que ouvi afirmar alto que a trapaça institucional a que Santana foi sujeito pelo ex-Presidente Jorge Sampaio não passou disso mesmo. Uma canalhice de contornos partidários.
O Presidente da República concretizou um Golpe de Estado constitucional, interrompendo o mandato dum Governo quatro meses depois de ter optado pessoalmente por dar-lhe posse.
Sob pretexto levianamente aludido de (sic)uma série de episódios“, a que acrescentou (sic) “dispenso-me de os mencionar um a um pois são do conhecimento do País“, cobrando a um Governo de quatro meses a “obra consistente e estruturante na resolução dos problemas” não realizada.

…Mas isso é História Antiga. Passada. Encerrada.

Se Santana se considera hoje uma vítima sedenta dos seus tempos de Governo, não tem senão que engolir o sapo, procurar Sampaio a uma esquina escura ou esperar por uma encarnação em que concretize o seu desígnio de governante de sucesso.
Tudo mais, é puro delírio.

Mesmo que tenha consigo um resto de santanistas não encaixados no partido desde o seu desaire e uma falange de menezistas que prefere as apostas altas, não é a espécie de oposição ao “Governo” PS que desenvolveu em articulação com Filipe Menezes que o torna nem opção séria para o partido nem para o País.


Candidato Pedro Passos Coelho.

Economista, Professor Universitário, Gestor, Deputado, Autarca.

Com ele estão todos os outros menezistas. Isto é, todos os que ajudaram a eleger Luís Filipe Menezes Presidente contra Marques Mendes – mesmo que mais por missão que por convicção, como eu.

O seu currículo é curto. O que o ajuda, ou nem tanto.
Num País parolo como o nosso é possível que se olhe para Passos Coelho como um candidato politicamente menos capaz, por não ter estado tão amesendado como os seus concorrentes em cargos e lugares no Estado.
Mas a sua distância do Estado e do aparelho do Partido permitem-lhe uma independência de discurso em relação à degradação actual da Nação e ao pedido de confiança para agir que as demais figuras elegíveis não alcançam.
(Apesar de, com alguns apoios, estar tão mal acompanhado como os demais…)

Um homem novo; um discurso com um novo tom; eventualmente uma nova mentalidade… A única possibilidade em aberto do fraco leque de escolhas.

É ele que receberá o meu voto.

João Jardim. O candidato que nunca o foi.

Seria seu o meu voto. Fosse a sua candidatura mais que um espectro.
Por isso apoiei o seu avanço em altura própria. Quando o que parecia estar em causa era uma questão de apoios…

E a explicação da minha posição não precisa de muitas mais palavras do que as que escrevi na resposta ao Palácio do Marquês, que fez uma graça com a minha manifestação pública:
É essa a medida do meu patriotismo: não me interessar se João Jardim tinha possibilidades contra Sócrates ou sequer à frente do PSD. Apenas a certeza de que a podridão geral em que este País chafurda precisa de um, dois, dez João Jardim, que abanem este charco e nos façam abrir os olhos de uma vez. Tudo que lá não chegue, é jogar para o empate, é brincar com coisas sérias, é dar de comer à vergonha de não fazer nada contra este estado de coisas. Mas o JJ já não concorre. E o País respira tranquilidade e paz.

Jardim, ao contrário de Santana, não concorre por si.
Faz política por si.

Disse-o em tempos e repito-o à exaustão:
«Como percebo o que disse João Jardim sobre a necessidade absoluta de uma frente de “combate ao Governo Sócrates”, abarcando “todas as forças politicas, sem excepção” desde que firmes neste propósito. […] Da mesma forma que percebo o que dizia Jardim sobre as últimas Presidenciais: “os candidatos que se perfilam para Belém não defendem o interesse de Portugal”. […] Em suma, é verdade que o País “está a ser conduzido por gente louca” e que “se Portugal não se livrar deste Primeiro-Ministro e deste Ministro das Finanças vai atravessar momentos dramáticos”. Até porque “a asneira tem rosto e não é depois do mal feito que o país deve acordar“.
Não dá para dissociar homens de políticos, pelo que o embrulho ficará sempre mal atado.
Mas até lá, João Jardim será referência de um homem de coragem num mar de cobardes, um homem de acção e obra entre incapazes, um homem frontal e temerário no meio de convencionados

Quem tivesse visto certa entrevista na RTP com a Judite de Sousa, teria esclarecido que “O Alberto João” é um genial cromo retórico com que Jardim distrai as atenções de papalvos enquanto governa sem que o aborreçam.

«Rigoroso, coerente, ponderado, incisivo, sobrando-lhe tempo de sobra para os recados às instituições, aos governantes e aos portugueses”, quando quer.
Mas perante a lôbrega pergunta: “E não teme os prejuízos políticos que daí possam vir?” e a resposta lapidar “Eu não tenho que pensar em mim.”, pouco ficou para dizer.
Claro que o dr João Jardim continuará amanhã a ser visto (ou queira-se fazer parecer) como um louco.
No Portugal do politicamente correcto [denunciar como ele o faz] é impensável. Só explicável por uma profunda perturbação mental.
Mas no fundo, nesta terra, quem são os alienados, quem são os carcereiros, quem está irremediavelmente fechado, onde e porquê?
Quantos homens destes seriam necessários para subverter a ordem instalada no hospício?
»

«Um político com defeitos públicos desfraldados e provocantes. Ao contrário de outros, com defeitozinhos privados e mesquinhos.
Um homem frontal. Ao contrário da casta dominante de castrados que nos governa.
Um governante de ideais, projectos e riscos. Ao contrário dos tíbios de verbo fácil que pululam e infestam uma política paralisada pelo politicamente correcto.
»

Mas a oportunidade perdeu-se e a fria realidade convoca-nos.

_______________________________

Exigir-se-ia que um partido com tanta gente fizesse sobressair os seus melhores. Isto é, alguns bons… Ou pelo menos uns candidatos melhores que estes…

Mas deixemos o reino de tons laranja decidir como quer desembrulhar a prenda que Menezes deixou no seu sapatinho…

[Esta foto não sofreu qualquer tratamento.]

O Maravilhoso CDS


Fui ao Cirque du Soleil.
E já espero que regresse, porque também voltarei.

Antes de entrar no chapiteau não me saía da cabeça um episódio memorável (como todos) do South Park em que “um” certo Cirque modernaço chegava à cidade, e que de tão pateta e abichanado como rentável levava os protagonistas a decidirem fazer eles também o seu para ganhar algumas corôas fáceis…

…Mas à saída fazia eu já parte da grande claque global do Soleil.


Mas – disparates à parte – o Cartman, o Kenny, o Kyle e o Stan estavam certos em duas coisas. Na máquina fabulosa que se adivinha por detrás do espectáculo e na sua desconcertante fachada de simplicidade.

Como é possível dissimular de forma tão simples eternidades inevitáveis de dolorosa rotina?
…E criar ao vivo beleza a partir de recursos tão básicos?

Como foi possível a alguém conceber uma extravagância técnica como o Quidam para um espaço assim?
Como foi possível antecipar o sucesso de tal intersecção do circo com a representação, com a coreografia, com a música, com o canto?…
Num espectáculo tão emocionante na sensibilidade como no riso?

Quidam parte de uma realidade que é a nossa: encarreirada, de duas dimensões, impassível, confortável mas dolorosa, convidando à viagem, ao absurdo, a outra coisa, a perdermo-nos, diferentes e maiores.
Através da metáfora da criança que o consegue….


Quão longe vai o circo da minha juventude, do terreiro poeirento, do palhaço enfarinhado, da bosta de leão sonolento, do número de magia que cansava perscrutar.

Se calhar é o tempo que passa.
Se calhar somos nós que crescemos.
Se calhar é só injusto.

Hoje a viagem faz-se de outras maneiras.

E esta é definitivamente uma delas.

Posted in Uncategorized. Tags: , . 1 Comment »