A Quinta Coluna

Perguntava o Geolouco: Eu fui! E tu, onde estiveste?” – falava da manifestação de professores de 8 de Março.
Eu estive lá, claro. Com muitos m
ilhares de colegas meus. Ao lado de pessoas de que gosto e que não via há muito tempo, num reencontro tanto feliz como amargo.

Numa manifestação mais de imperativo cívico que de afirmação corporativa.
Apoiada amiúde por passantes que não sendo docentes se solidarizavam com uma luta que – percebida em amplitude – vai muito para além dos muros das escolas.

Numa capacidade de mobilização nunca julgada possível pelo Ministério da Educação, pelos sindicatos, ou sequer por muitos dos que participaram no protesto.
(Pelo meu lado, sempre dissera acreditar, e que menos de 100.000 pessoas na rua sempre seria confundível com as
50.000 do PCP pouco tempo antes. Felizmente não me enganei.)

Mas não nos iludamos. Não só não eram 100.000 os professores presentes, como no dia de hoje e de amanhã não será possível contar com tal número de professores a lutar no terreno por aquilo que se impõe.

Em espelho com a estratégia montada pelo Ministério da Educação e pelo Governo, de desagregação da – esfrangalhada – classe docente e sua intimidação, também a gigantesca maré de mobilização que cresceu à vista de todos teve um atípico efeito galvanizador, que em muitos casos menos se traduziu em genuína adesão do que em constrangido mimetismo profissional, da parte de quem sem concepção teórica sobre a matéria aderiu por ocasião, de quem pouco assertivo foi levado pelos outros, de quem por simples cinismo, cobardia ou conveniência aderiu contrafeito ao movimento…
…Tendo muitos mesmo OPTADO por não estar sequer no protesto.

O que não é iludível é que estamos num cenário de guerra.
E que numa guerra não se fica no meio.

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Tenho proposto neste blog uma e outra vez que neste País só há duas formas de lidar com os problemas: ignorando-os ou ficando histérico perante a sua absurda constatação. E a saga desta Educação não foge à regra.

Foram décadas em que não se resolveram os problemas do Ensino em Portugal (grandes, profundos, graves) e estão por demais feitos os diagnósticos, a comprovação no terreno e a antevisão apocalíptica das suas consequências.

– Onde reside uma relevante culpa dos docentes. Que a uma conversa de Sala de Professores a que sempre assisti e em que sempre participei, anos a fio, não fizeram corresponder em tempo útil o devido escândalo e a devida luta.
Numa lamentável sujeição ética e indiferença prática. –

E, subitamente, este Ministério e este Governo….

…A “descoberta” escandalizada de falhas graves no sistema – número circense que cobre de vergonha quem se lhe presta furtando-se à memória da sua culpa em Governos da Nação que inscreveram o seu nome na só hoje “escandalosa” situação – …
…E a histeria.



Convivas pobres numa Europa e num Mundo Ocidental tíbios, snobes e bem-pensantes, entendeu-se que os “resultados” da Educação em Portugal eram incompatíveis com a face da honradez lusa – mero mosaico hoje de signos e cifras aleatórios.

E assumiu-se, sem margem para engano, que os necessários “resultados” na Educação não haveriam de ser o moroso produto de uma moldura de tempo, antes veriam criada à sua medida a improbabilidade física de um tempo próprio, que os parisse – não se prevendo por isso, nunca, à partida que os “resultados” viessem a ser obtidos, mas produzidos em galope esforçado.

Restava – alijados os incómodos escrúpulos do critério e do nexo – chocalhar a árvore da escola até à raíz mais funda, para tombar a fruta verde e espantar a pardalada da fútil opinião pública; claro que com o cuidado de não sobressaltar o pachorrento gigante docente…

E tal foi feito distraindo-o, paralisando-o, debilitando-o.

Distraindo-o, dispersando-lhe a atenção, obrigando-o a focar-se simultaneamente num número impossível de tópicos díspares: Estatuto da Carreira Docente, Estatuto do Aluno, Gestão Escolar, Ensino Especial e outros avulsos “pedagógicos” e “organizativos”, enleando o gigante em discussões e análises deliberadamente estéreis, de propostas conscientemente inviáveis na forma ou irrecuperáveis no conteúdo, num processo maquinadamente disparatado e absurdo.

Paralisando-o, em suma. Ao sobrelegislar – abrupta e insensatamente – ao sobreburocratizar a função docente, ao sobrecarregá-la em horário, atribuições, responsabilidade, por fim intimidando-a, os obreiros dos “resultados” educativos concretizaram a sua prostração.

Mais: fechando os canais de comunicação, os fazedores de “resultados” mantiveram sitiados os professores meses a fio – não reconhecendo os sindicatos como representantes dos professores a quem a sua acção divina se dirigia; e não ouvindo senão em palestras para os órgãos directivos das escolas os professores, uma vez que estes não possuíam interlocutores validados para chegar à celeste presença dos seus superiores hierárquicos…
…O que se traduziu na séria debilitação da sua intervenção cívica.

Enquanto chacais ideológicos, cúmplices, freteiros ou meramente velhacos se encarregavam de abocanhar na praça pública os membros em sangue de uma classe docente progressivamente sujeita à chacota e ao libelo.


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Mas não esqueçamos que houve uma manifestação a 8 de Março. Que tudo coloca em perspectiva.

Afinal os professores não estão adormecidos.
Desanimados, frustrados, mas não resignados.

E se “algum” País teima em forçar a solução para a Educação onde ela não está, há que fazer ouvir alta a voz de quem ensina.
Se “algum” País persiste no massacre da classe profissional docente, há que sacudir esse jugo em nome de um orgulho que nunca mostrou e responder com firmeza a assunção da quota de culpa que lhe cabe na degradação do Ensino e o compromisso de um empenho na sua recuperação.

Porque também já há quem perceba o que está em causa e o que está em risco.

E cada vez mais é tarde demais para dar um murro na mesa.
Cada vez mais é tarde demais para dar seguimento à mobilização de 8 de Março.
Porque ou nos calamos de uma vez e damos sossego a nós próprios ou partimos de uma vez por todas o resto de uma porcelana contrafeita chamada Política Educativa destes fazedores de “sucesso” educativo.

Não há que esperar de um Presidente que com o navio a pique apela à calma.

Não há muito a esperar de sindicatos-salvíficos, antes parceiros excluídos da discussão pelo ME, de súbito sentados à mesa simulada da decisão, concedendo avanços ao adversário – numa guerra-a-ser total pela Educação em que não existem meias vitórias nem derrotas parciais.


Não há margem para o erro de considerar que os docentes obtiveram até agora qualquer tipo de vantagem numa guerra que ainda não passou da emoção e que por isso é
desdenhada e ridicularizada pelo adversário – porque, entendamo-nos bem, a guerra ainda não chegou sequer ao terreno.


Não há ilusões sobre a desunião que continua a grassar no seio dos docentes, mesmo sob as presentes circunstâncias.

Quando foi proposto aos professores dividirem-se criando uma casta de senhores do feudo, os professores aceitaram-no. E quando lhes foi proposto que ingressassem no clube, fizeram-no: uns como única forma de ascender na carreira, alguns automaticamente, outros voluntariosos, na vertigem de aceder ao patamar dos eleitos, dos que gerem, dos que avaliam.

Quando foi proposto que cada estabelecimento de ensino desse resposta ao processo de avaliação de professores engendrado pelo Ministério – sem regras claras, timmings certos ou sequer propósitos legítimos – houve escolas que o desenvolveram na medida de não incorrerem em incumprimento, outras que aderiram diligentes a um processo considerado legítimo nas suas sinistras especificidades, outras ainda que o adoptaram e refinaram com a devoção de quem apanha uma boleia oportuna para a caça inter pares.

Quando foi proposto que as escolas passassem a ser governadas por um Director verticalmente dependente do Ministério da Educação, com o poder de designar Coordenadores de Departamento para a corte de um Conselho Pedagógico unanimizado, tanto constituiu choque para uns, como algo natural para outros, como ainda outros tantos nem quiseram saber.
E o mesmo quando os professores foram declarados pelo ME incapazes de presidir ao “Conselho Geral” da escola/agrupamento – para depois voltar a palavra atrás.

Quando professores, como talvez nunca em Portugal, se mobilizaram em greve, em manifestação, em expressão do seu pensar e do seu sentir, face ao que honestamente consideram ser a desintegração do que resta da Educação Nacional, outros houve que os sujeitaram ao gozo, que lhes minaram a acção através de contra-manobras, que racionalizaram e tentaram ezvaziar os seus motivos, que ostensivamente os abandonaram à sua sorte – como se não fosse ela também a sua.

Cabe aos professores definirem já o que querem e ao certo a que estão dispostos para o alcançar.

Ao serviço dos obreiros do “sucesso” educativo que não sabem (ou não dizem tudo) o que pretendem para o Ensino, que intransigem, que recuam, que desautorizam e se desautorizam, que persistem em não corrigir-se, que ameaçam perante o obstáculo e desafiam todo o bom-senso e o comedimento, a Quinta Coluna com que o Ministério da Educação conta na estratégia de ganho de tempo e desarticulação de cristas da contestação docente, encarregar-se-á de manter o processo em curso à maior velocidade possível.

No dia de hoje e de amanhã não será possível contar com 100.000 professores a lutar no terreno por aquilo que se impõe.
Pior, os que se prestarem enfim a essa luta no terreno enfrentarão adversários tanto fora como dentro das portas da sua escola.

O que não é iludível é que estamos num cenário de guerra.
E que numa guerra não se fica no meio.

3 Responses to “A Quinta Coluna”

  1. Kaos Says:

    Contas aqui uma história para a história. Tens toda a razão quando dizes que o inimigo está junto de nós e que tudo fará para minar a luta de quem acredita numa melhor escola. Não podemos parar e de uma forma ou de outra temos de ir até ao fim. Não por nós, mas pelos nossos filhos a quem gostava de deixar um mundo com esperança
    um abraço

  2. A Larva « Pedro_Nunes_no_Mundo Says:

    […] problema é que se algo chegou à rua, da indignação, do sufoco escolar – mesmo em Março deste ano, numa inesquecível afirmação de autoridade moral docente e não só – tal não ficou a dever-se […]

  3. RUA! SIM, RUA! JÁ! « Pedro_Nunes_no_Mundo Says:

    […] me pareceu mal a 8 de Março o abuso de se esconder atrás de 100.000 vozes o grito incendiário de “Ministra para a […]


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