Apostas de peixe

(Ou é muita coincidência, ou vai para aí uma pouca-vergonha de que só me vou apercebendo a pouco e pouco.)

Fui outra vez ao cinema. (E por isso a culpa deve ser minha, ou algo assim.)
E não é que a resma de publicidade do aquecimento voltou a trazer água no bico?

Fui ver “O Gang do Pi”; que é uma espécie de rapadura do que do “À Procura de Nemo” e do “Gang dos Tubarões” tinha restado dizer sobre peixarias animadas e suas desventuras, ou seja, nada!

E para além da secura do filme, mais uma surpresa publicitária, desta vez numa sala Lusomundo.

Então não é que entre os spots destinados à plateia de “Maiores de 6” surgiram 2 da Bwin (Bet and Win)?!…

Sim. Já me disseram que é um preciosismo da minha parte. Mas continuo a achar uma monstruosidade.

É que o jogo a dinheiro – não a feijões como nos serões de outrora, com Loto e paródia -, seja na net seja noutro lado, é uma entretenga séria, para maiores de 18 anos, potencialmente aditiva, tratada com pinças por quem a explora e tutela.

O próprio site da Bwin deixa claro que o registo online se destina a adultos,

e tem a “preocupação” de exibir uma página sobre os perigos do jogo e do seu vício!…

…Porque a Bwin tem “consciência da sua responsabilidade social para com a sociedade, querendo portanto cumpri-la activamente“.
Social“, “sociedade“, lindo!…
Sendo que “este compromisso fundamental perante os clientes, o público em geral e os próprios colaboradores foi colocado no centro do [seu] interesse nos últimos meses“.
Nos “últimos meses” !?!…

Há sempre a possibilidade destes besugos se estarem a virar para o cluster das Corridas de Peixes ou para as Competições de Enfardar Douradinhos, e tal…, e estarem a desbravar terreno a reboque dos filmes de bonecos.

…Afinal as apostas deles não vão desde o Futsal à Fórmula1?, dos Dardos ao Ciclismo?, do Biatlo ao Críquete?, do Futebol Americano ao Esqui Alpino?, do Boxe à Política (!!) ?
Está na hora de alargar a base.

Não o fazem é com o meu consentimento.

E porque estamos numa de criancices, desta vez fiz mesmo queixinhas à ASAE.
Deus lhes dê muita saúde.

A Nóia

A Nóia não é já mais que uma saída passada.

Uma estrada sem fim, é afinal um caminho.

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O par de óculos de Lenka

Gostei muito deste cartaz.
Incisivo, elaborado, sóbrio.

Impecável, a forma subtil como o par de Lenka se destaca, seduzindo o público-elas às lojas da OptiClinic, na mira de um par assim.
…Que senhoras dos seus pares, muitas mulheres haverá que os trazem resguardados e só em casa os expõem – prejudicando a saúde.

Impecável, a maneira discreta como o público masculino é levado a parar, contemplar e reflectir.
O vistoso par de Lenka é hino à emancipação. Da mulher que em tempos idos era mero objecto, mas que mostra hoje sem pejo seu volume social.

Exibindo o seu par, Lenka estimula a visão e combate o preconceito – demonstrando contra boatos que o trunfo de uma “loura” pode ser o seu par de óculos.

Gostei muito deste cartaz.
Ver que a progressiva inteligência dos nossos publicitários não se limita ou dirige a gente unifocal.

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…E a China aqui tão perto – Parte II – Lama e Portugal

E a espiral do mundo enrola mais uma vez.

Tal como em em 2001, quando durante um “Governo” Guterres se instalou o pânico na formalidade socialista, de novo a vinda a Portugal de um inofensivo septuagenário provoca a convulsão própria a um País eternenamente em vias de crescimento, como o nosso.

Estive no Pavilhão Atlântico.

De forma egoísta – mais por mim que pelo Dalai Lama – mas tive de estar.

Não me seria possível perder a oportunidade de estar, assistir, testemunhar, de contribuir com a minha presença para um encontro com um dos mais admiráveis homens vivos.
Um dos homens mais queridos por um mundo porco e feio, e simultaneamente um dos indivíduos mais desconcertantes com que se possa contactar.

Estava quase cheia, a sala.

E foi com um enorme aplauso que a assistência recebeu o seu orador.

Durante cerca de duas horas, o Prémio Nobel da Paz desceu do pedestal em que alguns nobelizados de quintal que por aí andam se postam, dizendo com as letras todas que “só reconhecendo-nos como seres humanos simples e iguais, com todas as diferenças que nos distingam, tornamos possível o diálogo entre nós“.

Um diálogo que de facto existiu. Alcançado de forma curiosa.
Ao vazio de um banal e decepcionante período de perguntas(quase todas inúteis)-respostas, contrapôs-se, nascida de avassaladora capacidade de compreensão da natureza humana, uma comunicação do Dalai Lama cuja singeleza, acerto e profundidade totalmente dispensariam as réplicas de um pavilhão inteiro em sintonia.

Não foi no Domingo que mais intimamente conheci o Dalai Lama.
Numa palestra sobre “O Poder do Bom Coração”, foi enriquecedor mergulhar sem demagogia numa concepção diligente e emocionada sobre o Homem, a relação entre os homens e a viabilidade de uma vida em comum.
Mas aquilo que da sua superior sensibilidade e sabedoria mais pude recolher, fi-lo a partir de um livro lapidar para conhecer o pensamento do Dalai Lama-homem: Ética para o Novo Milénio. Leitura imprescindível se a humildade de cada um lhe permitir reconhecer a necessidade que temos de exemplos e de uma palavra de alento.

Se necessário, o testamento em vida de um homem superior que – contrariamente a outros certos nobelizados – ficará para a História.

O mais surpreendente do mega-evento-pop do Pavilhão Atlântico, foi constatar pessoalmente a desarmante naturalidade com que um estranho tibetano de 72 anos, recebido em todos os cantos do mundo civilizado com honras próximas das de um chefe de estado, encara um encontro formal com milhares de pessoas que se deslocam para o ouvir, e lhes fala de absolutos vitais como o Amor, a Compaixão ou a Felicidade.

Com a simplicidade com se descalçou e sentou, sorriu e pediu ajuda para o seu inglês hesitante, com que se coçou e bocejou sem disfarce com o à-vontade de uma criança, admitiu esquecer-se do que estava a dizer (tal o tempo que mediava das “traduções”), elogiou a arquitectura do recinto como nunca tendo visto semelhante, e gracejou respondendo a rir que a memória que mais presente lhe ficava do encontro era a do intenso calor dos projectores sobre o palco.

Sabedoria, simplicidade, despojamento.
O exemplo.

E a escandaleira de paróquia.

Enoja-me e revolta-me que apenas um jornal à borla tenha feito primeira página do encontro do Atlântico: o Metro…

…E que as televisões tenham dado ao acontecimento uma atenção pouco maior que a de rodapé.
É que o preconceito e os comprometimentos não são exclusivos da desgraçada da política, que tem costas largas.

Ainda que a política não deixe de ser, objectivamente, uma rameira desgraçada.

Pode ser muito beato olhar hoje sobre o que se passa em Myanmar e gemer aijesuses, expressar solidariedade, dizer que “somos todos birmaneses”, arranjar campanhas de fitinhas de cores, minutos de silêncio e tretas que tais.
Que não deixam de ser tretas.

Seja quando o Presidente Bush discursa sobre endurecimento de sanções, seja quando o senhor Pinto de Sousa, Presidente em exercício do Conselho Europeu, apela com vozinha trémula ao entendimentozinho entre as partes, a política dos homens barra a sua cara de lama e vergonha.

O Tibete foi invadido pela China comunista na década de 50.
Esventrado de forma sistemática, política e culturalmente durante décadas.
Tomado, mantido e subjugado pela força bruta.
À semelhança do que se passa na Birmânia; com a agravante do atropelo à soberania de um Estado pacífico.

Se na Birmânia foi reconhecido o papel no caminho da paz à Prémio Nobel Aung San Suu Kyi, foi pela sua pregação pela paz que Tenzin Gyatso, 14º Dalai Lama, recebeu a mesma distinção.
Em duas opções de vida paralelas, que a par da resistência não-violenta levam a indomável fome de determinação dos seus povos.

Mas a China, aqui tão perto, é aquilo que dela se vê.
E mais que isso não se admite.

Porque se Portugal está a criarum novo pilar da diplomacia portuguesa“, e ao pilar a China a suporta e sustenta, se as suas “maduras relações” colocam os países num nível de entendimento tão íntimo, porque o valor maior na “política a sério” é o dinheiro, torna-se natural que um País intelectualmente saloio como o nosso viva de gatas e se rebole na imundície com os mais sujos, que nos ditam comportamentos.


Se em 2001 o Dalai Lama foi tratado pelas instituições do Estado Português como um cão, fechada a porta do “Governo” Guterres, fechada a porta da Presidência Sampaio (que deu ao monge a esmola da paródia de se encontrar com ele às escondidas no Museu de Arte Antiga – que a imprensa afecta ousou insultuosamente chamar de “primeiro encontro do Prémio Nobel da Paz com uma alta figura do Estado português“), se à data apenas uma comissãozeca parlamentar (com excepção do PCP, atenção!) e a Autarquia de Lisboa se dignaram recebê-lo, o quadro repetiu-se decalcado em 2007, com a invenção de tapa-buracos para justificar o injustificável.

Com a pequena nuance de o consciencioso Presidente da Assembleia da República, dr Jaime Gama, que agora considerou o Dalai Lama digno da cortesia de uma recepção, ter sido o Ministro dos Negócios estrangeiros que em 2001 o ignorou, à sua mensagem, ao seu papel, ao seu símbolo de defesa dos Direitos Humanos massacrados na China.
Com a pequena curiosidade de desta vez não ser “um problema socialista” não dar cavaco ao Dalai Lama de visita a Portugal. É que o exercício da Presidência da República por um homem de direita não trouxe qualquer mais-valia à elevação do comportamento da política nacional.
…Deve ser do “pragmatismo”.

E assim continuamos a ser como somos – ao contrário daqueles que nos deveriam inspirar (com os alemães), à semelhança de maus companheiros (como os russos) – pequenos, enfezados e débeis.

Tenzin Gyatso é um subversivo. O Tibete está protegido. A China tem razão.
E está dito.

Eu faço escolhas. Fui ao Pavilhão Atlântico.
De forma egoísta, tive de lá estar, marcar uma posição.
E fomos milhares.

…E a China aqui tão perto – Parte I – "Cadáveres Como Nunca os Viu"

“O mundo é mesmo redondo”, estou farto de o dizer.

São inúmeras as situações em que nos deparamos com quadros repetidos, referências subitamente concretizadas, associações imprevistas…
Levando quase a pensar que as pontas soltas na narrativa humana não existem.

Tal se tornou mais uma vez verdadeiro com a coincidência da vinda do Dalai Lama a Portugal – e polemicazetas que mais uma vez suscitou – com a recta final da exposição do “Corpo Humano Como Nunca o Viu”, patente há meses lá para os lados da Rua da Escola Politécnica, com uma afluência de visitantes digna de registo….

…E como blogar é o exercício supremo do narcisismo, deixo duas metades da minha sensibilidade sobre a ocorrência desse alinhamento cósmico.

Começo pelo final, esclarecendo que, contrariamente a ter ido ver o Dalai Lama – naquela espécie de mega-show-pop da transcendência pagã – a visita à exposição d’ “O Corpo Humano como Nunca o Viu” – tradução benévola do escorrido original “Bodies“, que facilmente poderia dar em português uma coisa como “Cadáveres“, dependesse do tradutor – sempre esteve fora dos meus planos.

A referida exposição, que de início me pareceu um conceito grosseiro e depois um evento grotesco, evoluiu na minha óptica para algo ainda muitíssimo mais grave.
Pelo que o facto de acertar o seu final com o de Setembro, apenas me interessa como blogador na medida em que referi-la agora, comentando-a em retrospectiva, já não poderá ser tido como nenhuma tentativa pateta de boicote a esta feira de talho, charcutaria e fumeiro que tem ombreado em público com as suas congéres de hipermercado mais concorridas.

Não sei, mas fazer romagem para ver seres humanos esfolados que dão eurinho sonante a quem lhes recebe das entradas, provoca-me muita repulsa.
Vá-se lá saber porquê…

Já tenho ouvido da parte de gente que respeito basta argumentação no sentido de justificar a existência da dita exposição.
Mas o esforço argumentativo, mais me parece nalguns casos tentativa de remissão pela cedência à pulsão voyeurista incontrolável que os faz voar a contemplar o horror.

O mesmo confuso sentimento de pudor que obrigou a organização a um intróito rocambolesco do seu site, em que mistura num caldeirão transbordante a argumentação cienticista com a histórica, a filosofista com a pedagógica, a legalista com a ética, numa mescla sem cor nem nexo, que não fundamenta nada.

A) “O estudo da anatomia humana funcionou sempre sobre um princípio básico: Ver é Saber. Este mesmo princípio levou as culturas egípcia, grega, romana e islâmica a uma compreensão cada vez mais científica da forma humana. As dissecções públicas durante o Renascimento aumentaram este conhecimento, estabelecendo as bases para as nossas instituições médicas modernas e para esta exposição.

Logo:
Ver é saber” é um princípio último – exacto fundamento das experiências nazis em campos de concentração. Ninguém fundamenta historicamente as vastas e dispendiosas atrocidades clínicas nazis com a causa do sadismo ou da futilidade. “Ver e saber” foi o mote de testes de resistência eléctrica, térmica, à dor ou a variações de pressão; inoculações de doenças e privação de tratamento; inseminações, esterilizações e castrações; lacerações, ablações e amputações;…
E todas elas, sem margem para dúdida, contribuiram com sucesso – numa pânorâmica monstruosa – para uma “compreensão cada vez mais científica da forma humana“.
Mas a Ciência – digna de maiúscula – não legitima tudo.


B) A exposição utiliza espécimes humanos reais para lhe oferecer um manual visual do seu próprio corpo. Muitos de nós não sabem o que temos debaixo da pele – como o corpo funciona, do que necessita para sobreviver, o que o destrói, o que o reanima. O Corpo Humano como nunca o viu, é uma tentativa de remediar este infeliz conjunto de circunstâncias. Aproveite o conhecimento obtido na Exposição, alargue-o e utilize-o para ser um participante informado nos seus cuidados de saúde.

Logo:
Gratos pela diligência com que somos resgatados do “infeliz conjunto de circunstâncias” que nos mantinham na escuridão – como eu tristemente continuo… – vamos aos 100.000, pela mão de uma exposição que nos vende com sucesso infantil o marketing da sua verdade imprescindível, ser informados das verdades do mundo de que andávamos arredados.
Existe uma diferença subtil mas elementar entre as imagens de um acidente e as imagens de um acidentado. Pagando o preço que a contenção e o básico bom-senso exigem, não há seminários sobre álcool na estrada com mortos exangues em palco, não há filmes sobre dependências com overdoses em tempo real, não há informação nas escolas sobre comportamentos sexuais de risco com sexo explícito e em grande plano.
Porque existe um limite.
E “mostrar” não legitima tudo.

C) Num canto surrealista do site da exposição recolhemos toda a informação pertinente sobre “Doação de Órgãos” e “uso de cadáveres”.
A dissecação de cadáveres e a sua utilização para fins de ensino e de investigação científica assume efectivamente um papel essencial e insubstituível na didáctica das ciência das saúde, revestindo-se de incontestável importância no âmbito da formação geral e especializada dos profissionais da saúde e na evolução dos conhecimentos nesta área de saber.
Neste contexto, é lícita a dissecação de cadáveres, bem como a extracção de peças, tecidos ou órgão, de cidadãos nacionais, apátridas e estrangeiros residentes em Portugal, que venham a falecer no País, para fins de ensino e de investigação
.”

Logo:
Para além do cruzamento enovelado com as alíneas anteriores, ficamos instruídos da licitude da “dissecação de cadáveres” e “remoção de peças” à luz da legislação.
Portuguesa! Abrangente de práticas em território nacional! O que é absolutamente vazio – para não dizer canalha.
Partindo do princípio que a exposição vem a Lisboa para estar patente à visita e não para engrossar as fileiras dos seus miserandos esfolados, é formalmente tão irrelevante fornecer este links ao internauta como os da Associação do Ponto-de-Cruz ou da Federação Portuguesa do Jogo da Bisca.
As questões fulcrais são estas: quem são estas pessoas – hoje já nem sequer cadáveres?; e cadáveres, como se “cadaverizaram”?, ou quem os “cadaverizou”?; de que morreram?; onde?; quando?; quem os triou?, como? e porquê?, para esta exposição. Questões que através de uma manobra ilusionista ôca ficam sem resposta.

Estes são cidadãos chineses.
Que morreram.
Cujo corpo não foi reclamado.
Que foram postos a render.
Fim.
…É o que reza a versão corrente.

E se não se sabe mais nada, não interessa a ninguém sabê-lo.
É que, para mim, “saber é ver“. E se no nosso próprio Código Penal [aqui, em exemplo] é contemplado como Crime Contra a Sociedade o desrespeito pelos mortos (ao ponto de salvaguardar as suas cinzas ou mesmo o lugar onde repousem), passa-me absolutamente ao lado a preocupação mirone de saber detalhes do próprio processo degradante de liofilização a que os cadáveres foram sujeitos, por ser outra a minha preocupação: a da possibilidade de a venda de bilhetes a preços régios, mais o merchandising que lhe está a reboque, poderem não só estar a facturar para os bolsos de uns espertos como a dar cobertura a verdades sinistras.

Leia-se com olhos de ver a discussão e a polémica que circula na net [aqui na Wikipedia, para facilitar] sobre a eventualidade de ligação desta exposição – e de outros fenómenos chineses contemporâneos – com o “genocídio cultural” comunista chinês, exercido por exemplo sobre o grupo de inspiração budista Falun Gong, que não é claro que não cruze perseguição política, encarceramento, tortura, execussões e tráfico de órgãos – como denuncia a Amnistia Internacional.

[A simbologia Falun Gong, cuja cruz não tem nenhuma ligação directa com a suástica nazi!]

Como eu o vejo, esta “exposição” não é um lugar recomendável.
Não é um programa de família.
Não, se me dignar reflectir sobre o lugar que quero ter na “tal” da “globalização”.

Bem pode a propaganda organizar visitas para rebanhos de criancinhas, bem pode dar borlas aos dadores de sangue, ao INEM, às polícias, etc., bem pode ter patrocínios sonantes, bem pode estar a rebentar pelas costuras.

Não basta papaguear que “os espécimes nesta exposição foram tratados com a dignidade e respeito que merecem“. Porque isso pode exactamente significar ou ter significado coisas horríveis.

Não basta ter a chancela de supostos não-monstros para deixar de ser monstruosa.

Não basta a euforia tétrica da visita maciça a este freak show para que deixe de sê-lo.
Não basta barrá-la com texto para que esta exposição itinerante passe a ser legítima – texto também eu aqui invento, e muito.

A verdade é que ninguém suportaria visitar uma exposição destas com cadáveres recolhidos segundo a tal Lei nacional.
Cadáveres de portugueses encontrados mortos no Rossio, em Lisboa, ou na Ribeira, no Porto.
A verdade é que ninguém suportaria – em nome de um altíssimo benefício abstracto da ciência, da pedagogia, do desenvolvimento e da cultura – ver expostos, esfolados, esventrados, decepados para gáudio do populacho sedento, o seu pai.
A sua mãe.
O feto do seu filho que não nasceu.

Massacrados em tratamentos industriais.
Colocados em poses de lazer aviltantes.
Postos a render dinheiro como os hobbits de borracha da exposição do Senhor dos Anéis.

Porque – canalhice refinada – esta “exposição” não é para fins de ensino e de investigação científica – como professor, não aceito que TUDO e nada seja “ensino”; esta “exposição” não é essencial e insubstituível na didáctica das ciência das saúde” – é um mero Oceanário de entrada livre, sem lontras nem alforrecas, que quando partir não deixa órfãos; esta “exposição” naõ é de incontestável importância no âmbito da formação geral e especializada dos profissionais da saúde e na evolução dos conhecimentos nesta área de saber” – já que essa formação não se faz em “exposições”, não se faz no meio da turba tenebrosa de cuscos e tem os seus próprios cadáveres nas arcas das faculdades, que recolheu e manipula de acordo com o que a Lei prevê.

E a monstruosidade reside aí.
Em aceitarmos esta “exposição” como ela é. Sem a questionar.
Excepcionalmente isenta das regras do jogo.

A monstruosidade reside no facto de que como são mortos incógnitos,… não faz mal.
E mortos incógnitos do outro lado do mundo, menos perturbam ainda.
E como ficam tão giros a jogar à bola, tornam-se tournée e programa de fim-de-semana.

E com a China a meter-se pelos olhos dentro, assobiarmos para o lado, europeus, modernos, assépticos e cultos.

O Fim

Esta é a ilustração do fim.

De um jogo.
De um apuramento.
De um projecto desportivo personalizado.
De uma equipa de homens.
Da carreira de um treinador.
Da paixão de um País.
Do sistema de valores de uma cultura.
Do futuro como o conhecemos.

Mas nada de grave: depois de amanhã tudo será normalidade.

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*§%**#¨@!!!!! O meu vinho?…

Já sabe quem por aqui passa que me aflige a deseducação de miúdos por vícios de adultos.
(Deseducar os crescidos, muito bem… se os próprios se quiserem deseducar.)

E entra-nos pelos olhos dentro; para mais quando reincide.

Refiro-me à fase de engonha que por legítimo interesse de caixa a Castello Lopes agrafa aos filmes que exibe, mas que no caso da publicidade a leva a perder-se eticamente na exibição das sessões infantis.

Se já uma certa vez denunciei a desadequação etária de um trailer promocional passado pela Castello Lopes, irritou-me bastante mais ver publicitados os vinhos da Romeira no entretanto de ver em família um ogre verde aos saltos, um burro e um gato – inofensivos do ponto de vista formativo da jovem plateia.

Não sou um fundamentalista anti-álcool, mas sabendo que até socialmente já se aceita que não haja fretes à indústria e ao comércio da pinga em horário nobre, em patrocínios institucionais, etc., às três pancadas, não me parece que uma plateia de miúdos seja um alvo aceitável para a captação de fregueses.

Só por incúria?…

Como me irritou profundamente a forma artística como foi traduzida e legendada a versão original do filme Os Simpsons.
Sem quê nem porquê, por três vezes contadas se “ouviu” legendada “m€rd@”, saída da boca de elementos da família amarela de Springfield.

Gostava, a sério, de saber o que o pai dos Simpsons, Matt Groening, pensaria desta baixaria vocabular que nem nunca encontrei nas centenas de episódios d’Os Simpsons que vi ao longo dos anos na televisão, nem o argumento do filme inclui!

Falando nós de um filme para maiores de 6 anos…

Só tive pena de em nenhuma destas alturas me ter insurgido como da tal vez, em forma de livrinho de reclamações.
Agora que a ASAE até anda tão excitadinha.

Mas a ideia não era irmo-nos revezando?