O preço certo

A noite avança e a cama chega.
A contragosto mas paciente.

O xixi, os dentes, o pijama, o chocapic afectivo a destempo e redundante.
…E a historinha.

Hoje, uma historinha aleatória já repetida. Como já todas.
Um livro veterano de distantes guerras, sobre as vozes dos animais. Mas acolhido sem reservas.
…Historinha embelezada por precaução, aqui e ali, com uma curiosidade, um comentário e uma graça lançada pelo pai leitor – com sucesso, diga-se….

A certo passo, pergunta o livro “E a ti, o que te faz rir?“…

Inocentemente, os olhos do leitor brilharam, e a única resposta possível acendeu-se na sua mente:As histórias do papá!” Claro! Evidente.

Os olhos do M. suspenderam-se. Em pensamento. (Em perfeitamente desnecessários segundos de reflexão.)
…Até os seus lábios montarem primeiro um sorriso e depois começarem a articular a resposta.

Brincar com a S.L.!” …E os seus olhos iluminaram-se de plenitude.
Quando andamos a correr na escola” – com a mímica correspondente e um fluxo de pormenores inabalável.

Inocente e desenganado, o pai leitor sorriu também. Solidário no momento de celebração.
Não podendo deixar de pensar para si: “Reposta certa!“. Como sempre o seria.

Fútil o ganho de uma vitória, quando comparado com um triunfo de seis anos incompletos sobre a vida triste.
Um preço certo.

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Panorama Informativo

Já ouvi falar muitas vezes do paradigma informativo britânico.
O rigor, a profundidade, a isenção.
E estou tentado a mais ou menos acreditar. (Que é melhor que o português!, quero eu dizer…)
Mais tablóide, menos tablóide, bom e mau há-de haver em todo o lado, e no ranking internacional alguém será a referência!
 
Por isso algum espanto quando aqui há tempo vi o spot promocional do Panorama BBC da SIC Notícias.
À primeira vista um purgama decentezinho, com a tal chancela de qualidade informativa inglesa, vendido no canal português.

Tudo normal…
…Não estivessemos nós em Portugal, com o jeito especial que temos para asneirar.

É que o spot em questão na SIC Notícias é um autêntico absurdo.

Nuns tons incendiados de vermelho escaldante, imagens choque espreitam e recolhem-se, legendas brancas as seguem, com um off cavernoso a rematar solene algo do género: “Para que algumas coisas não tornem a acontecer…

Ora, que coisas seriam essas? As superlativamente sinistras “coisas” da História, elencadas em segundos, que há que a todo o custo evitar repetir?
Várias: a “Tortura no Iraque“, “Auschwitz“, o “Ku Klux Klan“, os “Neo-nazis“, a “Guerra no Líbano“… E fecha a lista, que mais urge dizer que o purgama passa lá para 4ªfeira, não sei a que horas.

O que me parece é que se calhar o chamariz televisivo precisava de uns retoquezitos – coisa pouca – que o tornassem mais completo.

É que algum espírito mesquinho poderia ler na lista das tais “coisas da História” da SIC uma ligeiríssima tendenciosite (…tendência acompanhada de inflamação!) para focar o que de direita a História apresentou de mais ranhoso, deixando de fora o que as esquerdas possam ter produzido também…

…Numa lista que, completa seria qualquer coisa do género: “Tortura no Iraque“, “Auschwitz“, o “Ku Klux Klan“, os “Neo-nazis“, a “Guerra no Líbano“, a “Tortura em Cuba“, a “Sibéria“, o “Weather Underground“, os “Neo-anarquistas“, a “Campanha do Aço“.

Isso sim, talvez uma listinha equilibrada…

Ficando a graça de que o spot feito pela SIC Notícias, tão politicamente carregado pelos seus autores como se vê, introduz um Panorama como o da semana passada, em que uma irmã doou metade do útero a outra, resolvendo-lhe com risco para a própria saúde o problema de infertilidade que a amargurava havia anos.
Um comportamento cívico e humano com que decerto ganharíamos se uma e outra vez “tornarem a acontecer…”

É o panorama jornalístico.

 

Imagens de perfeição

E volta e meia lá aparece ele. O gigantone do Bruno Nogueira.

…E não me refiro à campanha para o Millenium-BCP, em que explica como ninguém, com a sua graça singular, que o banco dá asas aos jovenzinhos para que se possam endividar até à crista da moleirinha como fazem os grandes.

Falo da campanha da Superbock Sem Álcool.

Ele anda na praia, ele anda de autocarro turístico, ele anda espojado pelo chão da sala, ele anda de limosine, ele anda empicoitado num poste dos telefones, ele anda numa jangada…
É só rir, esta galeria de humor!

Aliás, basta aceder ao site da Superbock para começar logo o humor.
…Naquele ponto em que é perrguntado ao internauta se não preferirá o acesso em “English“, em “Español” ou em “Angola“.

…Ou naquele outro em que o acesso ao pecaminoso site é bloqueado a menores por um sofisticado processo de validação de idade em que o internauta responde à pergunta se tem “mais de 16 anos” ou não.

Mas é a vertente televisiva que me anda a dar urticária.

Sob a capa do cumprimento de uma legislação da publicidade que é esburacada e permissiva, estes clips publicitários passam em qualquer canal a meio da manhã, da tarde ou da noite.

A qualquer momento do dia televisivo, lá está o “humorista” a papaguear que é “peeeerfeita!” a cerveja que foi pago para vender. Numa campanha extremamente agressiva no número de hits por hora.

É que tenho para mim que aqueles espectadores que pela idade a legislação publicitária pretende proteger de certos anúncios a horas inapropriadas não devem ser muito sensíveis à subtileza da cerveja “com álcool” ou “sem álcool”.
Digo eu.

Numa campanha competitiva – a Superbock não pretende de forma nenhuma perder a primazia das vendas de volta para a Sagres!! – que visa como todas arrebanhar e fidelizar bebedores.
Que no “álcool” ou no “sem álcool” serão sempre muito bem-vindos!

A próxima campanha inofensiva já idealizada nestes moldes é a da Marlboro. Com a Floribella. Com vários clips televisivos promocionais, transmitidos a qualquer altura do dia ou da noite..
Como por exemplo a menina desgrenhada, uma manhã, deitada numa cama de casal desfeita, de cigarro na mão; a menina de cabeça enfiada na sanita da casa de banho de uma discoteca, de cigarro levantado numa mão, como Os Lusíadas salvos a nado; ou a menina ao volante sem cinto nem mãos na rodela, a falar ao telemóvel e a comer uma sande de torresmo com a mão com que segura um cigarro com a ponta de dois dedos.

Ponto em comum, o slogan: “É peeeerfeito, o tabaco Marlboro à base de erva cidreira!“.
…Mais a tentativa de fazer a Floribella passar por menina – como outros passarem por humoristas.

O Gato Maltês. Toque de piano. Falar francês.

Os franceses votaram. Os franceses escolheram.
(E se calhar bem. )

Não sou versado em política francesa (…se nem sequer na portuguesa!) e por isso não posso dar grandes sentenças; mas tenho dois olhinhos como qualquer um, e naturalmente a opinião anda-lhes a reboque.

Quando a certeza de “segundas voltas” se afigura, confesso que muito do meu interesse por eleições se dispersa durante as “primeiras”. Seja em França, ou não.
Pelo que nem o fantasma Le Pen nem a recordação do inacreditável resultado da primeira volta das presidenciais gaulesas anteriores me mobilizaram grande coisa.

…Primeiro ponto a favor dos franceses: a eles sim.
A eleição mobilizou-os massivamente desde início – como algo que os tocava directa e pessoalmente -, muito para além do que é compreenível a uma sociedade portuguesa papalva e amorfa.
Os eleitores franceses não admitiram a repetição do cromo da FN, descartando-o à partida, rejeitaram o centrão e partiram para a segunda volta.

Em palco: Sarkozy e Royal.
Direita e esquerda. Num cenário histórico ocidental de suposto pós-velório das ideologias.

Por Sarkozy, defendidos os “valores da França respeitada internacionalmente, da “França aos/pelos franceses”, da confiança e respeito individuais, do esforço e sua recompensa, da verdade e da ética – num argumentário tipicamente de direita completado com os valores transversais da solidariedade e do reformismo.

Por Royal, os “pilares de esquerda do trabalho para todos, do poder de compra, da melhoria da educação, da protecção social, do ambiente, do combate à violência – acrescentados com uma “França, mais forte” (evidente e cautelosamente em último…).

Desprezando a irresponsável e até perversa teoria da “tal” morte ideológica, tomara eu em Portugal, por uma vez, ser confrontado como a escolha de candidatos genuinamente distintos, que para além de se disputarem, se contestassem, se opusessem – como é sua solene obrigação política.
Ao invés de eleições de “Sócrateses” e “Cavacos” que cada vez tornam mais longínqua a probabilidade de umas eleições politicamente adultas e assumidas.
Cada vez mais uma miragem inconcretizável, a possibilidade de cada um se tornar e assumir politicamente aquilo que é.

E o que mim houvesse de francês votaria Sarkozy.
Mas Sarkozy não só por mero imperativo doutrinário.

Porque é um político com provas dadas – tanto de competência como de inépcia – e que por isso se escrutina.
Uma figura política com um percurso definido e vincado, que por isso se julga.
Uma personagem de carne e osso, de posições, propostas e convicções que não soçobram perante acusações de inconveniência no oceano da “correcção política”.

Nunca Segolène. Segolènes nunca.
Bem nos bastam as Segolènes portuguesas, versões engenhosas e engenheirosas, em formato Primo-Ministeriais. Primeiro Guterres, depois Sócrates.
Figuras “surpreendentes”, políticos de percurso “meteórico” e espírito “fulgurante”, invenções mediáticas de uma solução providencial de “democracia” e “modernidade”.
Salvadores de uma Nação às mãos dos podres, eternas promessas da Selecção e da República.
Ideias definidas, fora o chavão replicado?… Projectos estratégicos de desenvolvimento?… Perfil mental resultante de uma forma de ver a sociedade e a política?… Nada. Apenas o a postura blasé, de quem tem razão e não passa cartão a mal-vestidos. Apenas o “pragmatismo” que tudo explica, na falta da lógica e da autoridade mediada.

Quando Bernard-Henri Lévy – filósofo esquerdista por quem tenho algum respeito -, no site de candidatura de Segolène, lhe tece elogios fúnebres (…até ver), gabando-lhe o “sangue frio” da eleição e a “dupla batalha” do dentro e do fora do partido, não me convence.
O “sangue frio” de Segolène claudicou frequente e e comprometedoramente até ao debate final; a “dupla batalha” da candidata comprometeu o discurso da confiança dos franceses, da aposta num PS francês que não a mereceu.
Mas acerta quando fala do “frisson nouveau” duma “
vieille musique socialiste” moribunda.
Foi uma novidade a aplicação pura e dura à política fancesa de uma 3ª Via – já há muito fora de moda… – esgotadíssima pelos Guterres, Blairs, Shroeders ou Zapateros, esvaziada na essência, enchida com a palha do medidismo casuístico e do discurso redondo.

…E cada vez mais me convenço.

Fora isso, uma eleição que decorreu impecavelmente, com os cidadãos a fazer valer a sua voz.
E as reacções moralmente superiores que vamos estando infelizmente habituadosa ver e a ver branquear, das “vítimas”, dos “jovens”, dos “resistentes” sociais, que se encontraram contrariados nas suas legítimas pretensões – centenas de carros incendiados, violência, vandalismo, terror urbano, em nome da prevalência da candura sobre a força.
Um dia, outro e outro.

…O novo Presidente francês que parte para Malta para delinear o seu futuro próximo e o do país.
E uma Europa que só tem a ganhar se o gigante francês souber afirmar-se nacional e internacionalmente, ajudando a estabelecer uma aliança europeia entre estados soberanos, fortes e decididos, e não uma cooperativa de indigentes diplomáticos que ao som de uma marcha fúnebre entre o alegre e o soturno vai adiando o seu próprio fim natural.


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