Lisboa menina e moça

Olha que ele há coisas!…

Então não é que pode havarilegalidades na contratação de assessores e falsificação de documentos para pagar horas extraordinárias a avençados” na Câmara de Lisboa?!…

Olha que esta!…

Parece que se calhar “alguns trabalhadores avençados ganham muito mais do que os que pertencem ao quadro da autarquia“, com o “expediente de alegadamente incluir no contrato um cálculo de horas extras“!…
Sendo que “as irregularidades poderão abranger sobretudo os contratos de prestação de serviço, […] que não passam pelos recursos humanos e são tratados directamente pelos vereadores“, tratando-se de um problema “transversal a todos os pelouros, mesmo a gabinetes da oposição“.

C’um catano!… Que choque!…

Choque que ninguém tenha levantado estas lebres sarnentas já há mais tempo!!
Afinal parece mesmo que se justificavam algumas perguntas.

Quem pára a gangrena de Lisboa?
Ou posso perguntar melhor: porque não pára ninguém a gangrena de Lisboa?
Tantos assuntos pendentes para acertar…

Gato por lebre

O Gato Fedorento anda cada vez mais na boca do mundo.

Não obstante a desvalorização em bolsa que vão sofrendo semana a semana, como que tocados pela maldição da mediocridade da (actual) RTP, sei que semanalmente lá estou eu, a peneirar aturadamente o cascalho da “Espécie de Magazine” – não encontrando senão uma “espécie de pepitazita” aqui e ali, para amostra.

É o que há cá na terra, pronto… paciência. E não será mau de todo.

Mas a sua meteórica mediatidade das últimas semanas decorreu, não de qualquer nova lufada de génio televisivo, mas do raid nocturno do felino a um cartaz plantado na mais movimentada praça lisboeta.
Um cartaz do PNR em que o mal-estar nacional dos nossos dias vazava pelos poros da propaganda fácil contra os imigrantes.

Sem deixar cair a bola no chão, os bichanos decidiram esgalhar um cartaz de réplica ao original, fizeram-se caracterizar e fotografar, fizeram-no compor, imprimir e afixar, pagando do seu bolso (segundo se disse…) um cartaz-sósia do original, postado mesmo ao seu lado para chacota geral.
Tudo no intervalo de uma semana…

Lembrei-me disso neste Domingo, ao serão, ao dar mais uma vez uso à peneira.
Os Gatos aludiam sem cessar ao canudo da Farinha Amparo do senhor Pinto de Sousa e eu fazia contas de cabeça…

O Primeiro-Ministro manteve o seu esfíngico silêncio uns vinte dias (“silêncio“, porque os socialistas não têm “tabus“!) antes de se dignar falar… a “espécie de sátira” aconteceu no programa do fim-de-semana seguinte, mais quase meia-dúzia de dias… o que dá uma engonha dos miaus de quase um mês, desde a vinda a lume das notícias dos canudos do senhor Pinto até ao pegarem na deixa!
(Numa paródia, aliás, inofensiva, digna de meros gatinhos de colo!)

Eu entendo perfeitamente que a onda nacional seja a de bater no ceguinho do PNR (“ceguinho” porque Deus Nosso Senhor não lhe deu mais vista que aquilo…). Ele foi Governo e oposição, foram sindicatos, Câmara de Lisboa, num côro politicamente correcto e apatetado, contra algo que logo se previu que estaria ao abrigo da lei que confere aos cidadãos o direito de dizer as anormalidades que lhes apeteça, conquanto não a fira – como o PGR evidentemente veio confirmar.

Mas era capaz de jurar que há aqui uma discrepanciazita entre a dificuldade de se mexerem para denunciar as deformações de personalidade do senhor Pinto de Sousa numa antena semanalmente escancarada sobre o País e a presteza de parir um outdoor daquele tamanho – coisa para valentes horas de parto – para bater caprichosamente no ceguinho (inválido), o que se propuseram fazer espontânea e diligentemente.

Porque entendamo-nos.
O cartaz do PNR só pode ser visto como um abuso democrático se fôr levado a sério (e tanto deve ser assim visto como assim levado)…
…Na medida em que o do Gato seja levado a sério também.

Humores à parte, não sei onde está maior “parvoíce“.
Se na mensagem estapafúrdia mas politicamente legítima de “acabar com a imigração“, se na mensagem satírica de “com os portugueses não irmos lá“.
Passível de mil interpretações diferentes, “com os portugueses não irmos lá” é uma tirada infeliz, que não querendo ser nacionalista acaba não sendo sequer patriótica, que chega aos olhos dos portugueses numa fase difícil da vida em comum de um País congestionado, uma tirada chacoteira que atinge mais “os portugueses” referidos – diminuídos na sua capacidade -, do que os populistas visados, que agradecem a publicidade de uma dupla visibilização do seu monótono cartaz.
(…E refira-se, de passagem, a escandaleira constitucional que não seria qualquer outdoor que proclamasse “socialismo é parvoíce”, ou “comunismo é palermice“, ou “social-democracia é estultice“, ou “democracia-cristã é lorpice“, ou “lá-aquela-coisa-que-é-o-BE é sandice“!!!)

E ficou por dias decorado o Marquês com duas “espécies de anomalias”.

Entre a destruição do cartaz – legal – do PNR e a remoção compulsiva do cartaz – ilegal – do Gato, pouca história fica.
Apenas a de um segundo cartaz do PNR,

que insiste em vender a sua pílula.

Certeiro na defesa inquestionável do seu direito à expressão, mesmo que em sacrifício do elementar bom-senso, que desmonta a falácia das “ideias” que não se podem “apagar” pela simples razão de não existirem!

O que é relevante é este novo duplo fenómeno.
O dos comediantes-políticos, totalmente novo em Portugal, e para o qual prevejo um tristíssimo fim.
E o dos Gato como novos pioneiros cívicos do Rectângulo à beira-mar.

O humor genuíno sempre incomodou os poderes fátuos.

Mas o humor de perfil, timming e propósitos selectivos arrisca-se a ser tão perigoso como os perigos que “zurze”. A ser ainda mais ínvio e condenável que eles.
Arrisca-se a ser uma versão pós-moderna no humor de uma modernice que já campeia na política: a dos Homens Novos, dos cátaros, dos novos Iluminados que se opõem a uma velha tradição decadente (de que são eles parte integrante!).

Pode ser que não seja nada.
Pode ser que eu me engane.
Mas é bom não nos esquecermos de que esta lebre da democracia que hoje parece que o País segue com frenesi, não é senão o que é: um Gato.

Senhor Pinto de Sousa: Forte em Chocolate

Muito bem… Por força da boa educação e do bom-senso, deixei o Primeiro Ministro falar primeiro; agora falo eu.

Rola pela praça pública o Ovo de Colombo da vida académica do senhor engenheiro técnico (ai que mal que soa…) Pinto de Sousa.
Teve irregularidades?, não teve?, favorecimentos?, promiscuidades?… Pesa a polémica no que é a sua governação?, interessa sequer o tema ao País?

Como eu o vejo, muito se resume à epifania que tive ao pequeno-almoço: a vida académica do senhor Pinto de Sousa é uma caixa de Chocapic…

…Um autêntico “formato conveniência”.

Não me meto entre o Ministro do Ensino Superior e Marques Mendes.
(Um, que subserviente e regozijadinho louva o Pinto de Sousa-aluno “de certa maneira exemplar“, outro, delirante, que clama por “investigações independentes” à procura de nada.)
Tenho uma opinião própria.

O confrangedor número do serão de ontem foi uma humilhação. Mas muito menos para o Primeiro-Ministro que para um País incrédulo e chocado.
Ver o chefe do “Governo” despejar os bolsos do seu passado sobre a mesa da opinião pública foi espectáculo degradante que nunca esperei vir a ver.
Num formato absurdo e insultuosamente vendido ao espectador como “entrevista-de-balanço-de-dois-anos-de-mandato-porque-até-agora-o-PM-não-tivera-agenda-e-para-piorar-feita-por-jornalistas-pagos-pelo-próprio-Estado-em-que-aproveita-para-de-passagem-dar-umas-dicas-sobre-a-escandaleira-em-que-se-vê-envolvido”.

Mais confrangedor ainda, resultar a triste emissão da total inépcia do Primeiro-Ministro em enfrentar a borrasca que se lhe formou sobre a cabeça.
Primeiro persuadindo a imprensa de que “não havia notícia” – fiando-se na sua influência -, depois dissuadindo a imprensa de dar notícias sob ameaça de “processos legais” – fiando-se no seu poderio -, finalmente refugiando-se no silêncio de um esquecimento que acabou por não acontecer – fiando-se na sua inteligência.
Num total fracasso de gestão.

E o que resta é Chocapic.

* Sócrates escolheu a UnI para acabar a licenciatura por “ficar perto do ISEL” (as severas dificuldades de mobilidade que toda a gente lhe conhece assim o ditaram);
* Escolheu a UnI para acabar a licenciatura pelo “prestígio da universidade” “pelo menos naquela altura” (enquanto sacode a responsabilidade pela sua bagunça de secretaria);
* Cumpriu um plano de estudos talhado à medida da sua “turma”, a que um professor ministraria quatro cadeiras e um outro Inglês Técnico, “resumido a duas folhas manuscritas e com a menção quase ilegível de algumas disciplinas, sem data nem assinatura“;
* Cumpriu o plano de estudos, ministraradas quatro cadeiras por um socialista duas vezes integrante de “Governos” PS com o senhor Pinto de Sousa (primeiro como co-integrante, depois por si próprio admitido no “Governo”), e a última pelo próprio reitor da universidade, Luis Arouca, disposto a excepcionalmente dar uma cadeira que nem sequer seria curricular;
* Recentemente Luis Arouca dizia à imprensa “nunca ter dado qualquer aula nem feito qualquer avaliação a Sócrates“;
* “Frederico Oliveira Pinto, primeiro presidente do conselho científico da UnI e, na altura, professor de todas as cadeiras de Cálculo das licenciaturas de Engenharia, afirmou nunca ter visto José Sócrates naquela instituição“;
* “Frederico Oliveira Pinto adiantou que o processo de licenciatura do primeiro-ministro decorreu sem o seu conhecimento, uma vez que o plano de equivalências e de estudos de Sócrates «não foi submetido a apreciação de qualquer órgão académico»”.

* O diploma do senhor Pinto de Sousa foi emitido num solarengo Domingo, com assinaturas de Luís Arouca e de sua filha – reitor e chefe dos serviços administrativos da UnI, respectivamente;
* O senhor Pinto de Sousa disse não se lembrar já dos seus numerosos dois professores da UnI, quando confrontado com as “especificidades” da sua formação;
* Os documentos que provam a licenciatura de Sócrates, exibem o nome do aluno “manuscrito sem quaisquer referências adicionais, apenas com uma rubrica dos professores das cadeiras“;
* Luís Arouca, reitor na UnI, praeclaro e acumulante docente de Inglês Técnico do senhor Pinto de Sousa, forneceu aos jornalistas versões variadas e incompletas do que seria o “dossier da licenciatura” do aluno na UnI – de uma das vezes faltando documentos com a identidade dos docentes das suas cadeiras, de outra pautas de classificação que contrariavam as do certificado de habilitações final.

Irregularidades?, favorecimentos?, promiscuidades?…
Uma intrincada história, com evidente “formato de conveniência” e absoluta falta de clarificação.

Há quem sugira que a culpa deste bailado é dos blogs. Que na inconveniente modernidade levantam lebres como esta sem medos de donos que não têm, com os meios incensuráveis que a net coloca à sua disposição.
Há quem sugira que a culpa é da imprensa. Que se apega a histórias da vida privada das figuras públicas em vez de às “grandes questões”.
Há quem desenterre as “cabalas“, sempre úteis nestas ocasiões.
O que é estranho é que poucos admitam desbragadamente a pouca-vergonha latente em toda esta saga.
A evidência da mixórdia que vai na sociedade portuguesa, manietada por facções de uma mesma malfeitoria transpartidária, tentacular, contaminante, cleptómana e supralegal, cujo aparecimento desdenhoso mais uma vez ocorre em plena luz do dia em completa impunidade.

Em última análise, cada um acredita no que quer. No que está formatado para acreditar. Como lhe é permitido admiti-lo.

Mas para quem milita fielmente desde há dois anos na virtude do senhor Pinto de Sousa – cimento de um PS fracturado e céptico, garante de um “Governo” frágil e hipercentralizado – homem novo da política, da democracia, do civismo, perfeito de corpo e de espírito, aconselha-se uma pausa. Uma reflexão honesta.

A quem desde há dois anos escuda o senhor Pinto de Sousa das línguas do mundo com a superioridade das suas intenções e a lisura das suas práticas, escudando na sua altiva figura a pequena fé pessoal, aconselha-se o recolhimento. Pudor nas palavras e nos actos.

Porque se é certo que o Primeiro-Ministro saiu “vitorioso” da espécie de prestação política televisiva de ontem – pelo menos asssim a imprensa obediente o declara e as rigorosas sondagens telefónicas confirmam –

não é menos verdade que a reconstituição da sua carreira pública permite a construção do perfil de uma personalidade deformada.
Ou não indo mais longe, pelo menos tão deformada como a de demais protagonistas políticos; o que à sua escala divina já é mau o suficiente.

Cada vez mais somos uns tablóides. Que chafurdam no escândalo pelo ruído e pela poeira mas que não lhes retiram, por mais óbvias, as severas e dolorosas consequências.
Uns brasileiros. Rendidos ao princípio que já ousamos verbalizar do “desde que ele governe“… Abrindo desavergonhadamente a porta da condescendência à transgressão e à indignidade. Actualizando a paleta da ética, raspadas as cores secas da vigilância e da censura, e deixado em branco o que cabe a cada um de responsabilidade e crescimento.

Contrariamente à banalidade do senhor professor doutor engenheiro calista picheleiro Pinto de Sousa, que dava os que “temem as tempestades” a acabarem “rastejando“, apetece-me perguntar como será o céu de quem passe uma vida inteira a rastejar, a serpentear invertebrado por entre os pés, as pedras e o esterco do caminho…

Pesa a polémica no que é a sua governação?
Por mais que viva Pinto de Sousa, nunca se dirá decerto de si o que se pode dizer hoje de Sousa Franco.