Os Enormes Portugueses



É verdade. Fiquei a ver o final da votação dos “Grandes Portugueses” da RTP.
O que é que querem?
…Toda a gente sabe que não se deve abrandar na auto-estrada para espreitar o despiste. Ou olhar directamente aquele detalhe anatómico que foge à simulação esforçada. Mas este circo a pegar fogo, tinha mesmo que vê-lo!

Vou repetir-me. (Que não sendo nem bruxo nem especialmente esperto já tinha dito em relação a este “concurso” da RTP que “a culpa não foi de quem respondeu, foi culpa de quem perguntou“.)
Mas qualquer pessoa de bom-senso percebia que aquilo só podia dar asneira.

Entre os matos do popularismo desportivo, do militantismo artístico, da picardia política, do facciosismo académico, o apelo a uma opinião nacional sobre uma matéria destas sempre se atolaria na profunda ignorância do que fomos e no total desprezo pelo que somos. Inegáveis e inultrapassáveis.
Sempre desembocaria no absurdo de insistir em de alguém ter a resposta solene e cabal a uma questão que simplesmente não compreende.

…Como veio a comprovar-se.

É um absurdo a votação em Salazar como “Grande Português”. (Como o seria no segundo dos classificados: Cunhal.)
Como explicá-lo? Explicá-lo a quem nele votou…
Como compreendê-lo? E, mais difícil, como aceitá-lo?

Claro que, como disse o brilhante Portas, a dada altura as votações resvalaram para o ódio relativo – a Salazar e a Cunhal – levando muitos a votar em reflexo, perante a mera possibilidade da vitória abominável.

Mas isso não explica tudo.

Bem pode berrar a senhora deputada Odete Santos que “a propaganda ao fascismo é proibida pela Constituição“. Que não vai a lado nenhum.
Pelo menos enquanto não perceber que o problema é ela. E a sua ideologia. E o seu partido. E a classe política que integra. E a sociedade portuguesa democrática, parlamentar, europeia, moderna, quotidiana, toda, que se sente mal consigo e em si. Que quer ao mesmo tempo esconder-se num canto e fugir. Gritar e nunca mais fazer ouvir a sua voz.
Uma sociedade portuguesa que sente que a vida tem de ser mais que isto e que vê corrompida uma identidade de que já não se recorda. E que por isso não sabe sequer se tem.

Portugal é uma parolândia quando em Santa Comba se propõe um museu sobre Salazar e se pensa que por aí ficará no mapa. E quando umas carradas de “antifascistas” vão lá à terra espicaçar os indígenas, com a GNR de permeio a evitar alterações da ordem maiores que a troca de mimos…
Quando há um “concurso” que nos pergunta sobre o “Grande Português”, a resposta cresce na rua e a oposição ao votando clama pela “votação útil”, transformando um programa da treta em fórum legítimo de luta ideológica.

Retratos equivalentes de um mesmo País de charruas e bandas largas. De almotolias e simplexes.
Um País entretido a discutir o passado imperfeito na urgência do presente. A jogar partidas de acerto de calendário de uma competição há muito extinta .

E agora o que ainda mais faltava era ficarmos todos muito preocupados. Muito chocados com o “concurso” da RTP. Considerando como causas as consequências, considerando como doença os sintomas.
E desatarmos a discutir, a reflectir, a teorizar sobre a vergonha que caiu sobre nós. E a esgalhar soluções geniais como chegar lá pelo ciclo geracional da formação cívica nas escolas.
Portugal é uma parolândia.

Nós somos enormes!… Mas seremos portugueses?
Porque este abre-olhos não vai servir de nada.

O que é muito mau.

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