Páscoa

Pois é…, a Páscoa…

Está aí…

Pois…

Parece que já foi festa de boas-vindas à Primavera fecunda (o ovo germinante, o coelhito lascivo, …).
Parece que já foi celebração mística da morte e ressurreição de Cristo (…e para que fique em acta, eu sou assumidamente cristão).

Hoje, é uma solene quadra de enfarda de chocolate e açúcar. De arranjar uns dias para fugir à cidade. E só.

Não que eu tenha alguma coisa contra dar no chocolate ou contra ir desopilar para fora.
Apenas acho que somos cada vez mais uns tristes.

À força de nos despirmos do simbolismos, de sacudir conotações e de exorcizar outros fantasmas cujo pânico adivinhávamos atrofiarem a nossa pacata vida a três dimensões, vêmo-nos reduzidos a isto.
Burocratas indistintos de um calendário sem Estações.

…Mas há uma coisa de que gosto muito na Páscoa: não andar feito maluco a comprar prendas como no Natal!

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Os Pequenos Portugueses

A noite televisiva de Domingo foi mesmo um espanto.
Não estivesse o vídeo tão encostado e teria sido coisa para mais tarde recordar…

Poucas vezes uma emissão televisiva terá tido um ambiente tão de cortar à faca.
Várias tinham sido já as dicas de que Salazar ganharia a noite (isto é, de que a RTP – em primeiro lugar – ia ter de engolir um sapo XXL) e todos se foram comportando durante o serão como preparados para que acontecesse o que acabou por acontecer.

Começando pelo evidente pânico de Maria Elisa.
Com a larguíssima rodagem que tem nestas coisas, hesitou, gaguejou em frases de cinco palavras, justificou-se e ao programa diminuindo-lhe o peso da votação que produziria – deselegantemente, diga-se, depois de ter andado meses a impingir ao País a chamadinha patriótica a €0,60…
…Desculpou-se, tentando absurdamente descolar-se do resultado da sondagem que aconteceria no SEU programa – como se hoje alguém normal a carimbasse de fascista por ter abrilhantado a azarada soirée -, chamando a si a resistência cívica ao resultado que a dada altura viu irremediavelmente consumado.
Espectáculo triste.

Passando pelos dichotes dos presentes, muito “antisalazaristas”.
Ana Gomes, rudimentar e rasteira.
Leonor Pinhão, supletiva e supérflua.
Odete Santos, endemoninhada e enfadonha.

Acabando no “defensor” de Salazar, Jaime Nogueira Pinto…
(Que partindo do princípio que um homem daqueles não se “obriga” a ir ali fazer um papel daqueles, deve ter tido com a experiência dos meses mais lamentáveis da sua vida.)
…Que procurando defender o indefensável “Grande Português” de Santa Comba acabou por largar uma pérola próxima de “foi positivo para os povos africanos lutarem contra Portugal para obter a independência, porque assim cimentaram uma noção de Estado que vizinhos seus que receberam mais facilmente a independência ainda hoje não têm“!
“- Então munt’ óbrigadinho!…”

Um ambiente de hospício coroado com apoteótico final…

…Pingado apenas por uma gota da lucidez do defensor do Marquês, Rosado Fernandes, que perante o desfecho do retrato social deste País disse com as letras todas “A culpa é dos que roeram a corda! Agora aqui têm.”

Uma coisa destas, uma espécie de programa que alargou em sondagem, que retraiu para concurso, que terminou apelidado de “passatempo”, produziu o resultado mais mirabolante, mais espectacular, mais escandaloso, mais inacreditável, o mais inadmissível em democracia: 60,1% de votos válidos – isto é: perto de 96.000 pessoas – reconhecendo como “Maior Português” um de dois homens cujo ideal político para Portugal foi o de um País agrilhoado.


Episódio sombrio da História que por conveniência de todos a todos convém arrumar como um pesadelo imaterial de uma noite de Primavera.

…E como a sorte dos malandros é muita porque muitos tem a obrá-la, na segunda-feira o DN não trazia senão uma amostra de notícia na primeira sobre o assunto, …e o resto foi nada.


Hoje, o episódio já lá vai, sem grande alarido, que notícias há muitas, e o que dá dinheiro mediático é vender papel novo e não papel reciclado.

“Mais vale”; acha Portugal.
Que perguntarmo-nos nos olhos que coisa é esta que somos hoje…

Bem pode a RTP insistir em vai-não-vira plantar no header da página do “Grande Salazar” o general Humberto Delgado, que o mal está feito e não dá para desfazê-lo.

Enfim, qual a novidade?
Muito pasto do mesmo, para bucho de Pequenos Portugueses.

Os Enormes Portugueses



É verdade. Fiquei a ver o final da votação dos “Grandes Portugueses” da RTP.
O que é que querem?
…Toda a gente sabe que não se deve abrandar na auto-estrada para espreitar o despiste. Ou olhar directamente aquele detalhe anatómico que foge à simulação esforçada. Mas este circo a pegar fogo, tinha mesmo que vê-lo!

Vou repetir-me. (Que não sendo nem bruxo nem especialmente esperto já tinha dito em relação a este “concurso” da RTP que “a culpa não foi de quem respondeu, foi culpa de quem perguntou“.)
Mas qualquer pessoa de bom-senso percebia que aquilo só podia dar asneira.

Entre os matos do popularismo desportivo, do militantismo artístico, da picardia política, do facciosismo académico, o apelo a uma opinião nacional sobre uma matéria destas sempre se atolaria na profunda ignorância do que fomos e no total desprezo pelo que somos. Inegáveis e inultrapassáveis.
Sempre desembocaria no absurdo de insistir em de alguém ter a resposta solene e cabal a uma questão que simplesmente não compreende.

…Como veio a comprovar-se.

É um absurdo a votação em Salazar como “Grande Português”. (Como o seria no segundo dos classificados: Cunhal.)
Como explicá-lo? Explicá-lo a quem nele votou…
Como compreendê-lo? E, mais difícil, como aceitá-lo?

Claro que, como disse o brilhante Portas, a dada altura as votações resvalaram para o ódio relativo – a Salazar e a Cunhal – levando muitos a votar em reflexo, perante a mera possibilidade da vitória abominável.

Mas isso não explica tudo.

Bem pode berrar a senhora deputada Odete Santos que “a propaganda ao fascismo é proibida pela Constituição“. Que não vai a lado nenhum.
Pelo menos enquanto não perceber que o problema é ela. E a sua ideologia. E o seu partido. E a classe política que integra. E a sociedade portuguesa democrática, parlamentar, europeia, moderna, quotidiana, toda, que se sente mal consigo e em si. Que quer ao mesmo tempo esconder-se num canto e fugir. Gritar e nunca mais fazer ouvir a sua voz.
Uma sociedade portuguesa que sente que a vida tem de ser mais que isto e que vê corrompida uma identidade de que já não se recorda. E que por isso não sabe sequer se tem.

Portugal é uma parolândia quando em Santa Comba se propõe um museu sobre Salazar e se pensa que por aí ficará no mapa. E quando umas carradas de “antifascistas” vão lá à terra espicaçar os indígenas, com a GNR de permeio a evitar alterações da ordem maiores que a troca de mimos…
Quando há um “concurso” que nos pergunta sobre o “Grande Português”, a resposta cresce na rua e a oposição ao votando clama pela “votação útil”, transformando um programa da treta em fórum legítimo de luta ideológica.

Retratos equivalentes de um mesmo País de charruas e bandas largas. De almotolias e simplexes.
Um País entretido a discutir o passado imperfeito na urgência do presente. A jogar partidas de acerto de calendário de uma competição há muito extinta .

E agora o que ainda mais faltava era ficarmos todos muito preocupados. Muito chocados com o “concurso” da RTP. Considerando como causas as consequências, considerando como doença os sintomas.
E desatarmos a discutir, a reflectir, a teorizar sobre a vergonha que caiu sobre nós. E a esgalhar soluções geniais como chegar lá pelo ciclo geracional da formação cívica nas escolas.
Portugal é uma parolândia.

Nós somos enormes!… Mas seremos portugueses?
Porque este abre-olhos não vai servir de nada.

O que é muito mau.

Bons sonhos…

Num final de período escolar, desejos sinceros de um bom Dia Mundial do Sono.
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"A malta é jovens"…

Sim, sim, é um post gigantesco. Mas quem tem coragem de ir ao retrato?…

Os Jovens: essa população de aparecimento recente.

Para se transmitir, a aprendizagem tradicional não encontrava necessidade de separar durante anos os seus destinatários do mundo. Com a escolarização em massa, a própria adolescência deixou de ser um privilégio burguês e tornou-se uma condição universal.

Descontracção da ganga por oposição às convenções de vestuário, BD por oposição a literatura, rock por oposição a expressão verbal, a «cultura jovem», essa autêntica escola, afirma a sua força e a sua autonomia: como prova acabada, o sistema próprio de comunicação, bastante autónomo e predominantemente clandestino, veiculado pela cultura rock, para quem a emoção leva a melhor sobre a palavra, a sensação triunfa sobre a abstracção da linguagem, os ambientes sobre as significações elementares e numa abordagem racional, todos os valores estranhos se sobrepõem aos critérios tradicionais da comunicação ocidental e lançam uma cortina opaca, levantam uma defesa impenetrável às tentativas mais ou menos empenhadas dos adultos. Quer se oiça ou se toque, de facto, trata-se de se sentir «cool» ou de se libertar.

Assente nas palavras, a cultura em sentido clássico tem o duplo inconveniente de envelhecer os indivíduos dotando-os de uma memória que ultrapassa a da sua própria biografia, e de os isolar, condenando-os a dizer «Eu», isto é, a existir enquanto pessoas distintas. Através da destruição da língua, as guitarras abolem a memória, o calor da emoção substitui a conversação, o confronto dos seres independentes; em êxtase, o «Eu» dissolve-se no Jovem.

Esta regressão seria perfeitamente inofensiva, se o Jovem não estivesse hoje por toda a parte: bastaram duas décadas para que a dissidência invadisse a norma, para que a autonomia se transformasse em hegemonia e para que o estilo de vida adolescente mostrasse a sua via ao conjunto da sociedade.

A moda é o jovem; o cinema e a publicidade dirigem-se prioritariamente ao público dos quinze aos vinte anos; mil estações de rádio, quase todas com o som da mesma guitarra, a felicidade de liquidar a conversação. E está aberta a caça ao envelhecimento: enquanto que há menos de um século aquele que ansiava pela sua ascenção estava obrigado a lançar mão de todos os estratagemas para parecer mais velho do que era na verdadade, nos nossos dias, a juventude constitui um imperativo categórico de todas as gerações.

Uma neurose expulsa outra, os quarentões são os «teenagers» prolongados; quanto aos Anciãos, não são honrados em virtude da sua sabedoria (como nas sociedades tradicionais), não em virtude da sua seriedade (como nas sociedades burguesas) nem em virtude da sua fragilidade (como nas sociedades civilizadas), mas apenas e só se souberam manter-se jovens de espírito e corpo. Em resumo, já não são os adolescentes que, para escapar ao mundo, se refugiam numa identidade colectiva, é o mundo que corre desesperado atrás da adolescência.
Consiste nesta inversão a grande revolução cultural pós-moderna.

Que malefício se abateu sobre a nossa geração, fazendo com que, de súbito, se começassem a olhar os jovens como mensageiros de não se sabe que verdade absoluta? Apenas um delírio colectivo pode ter-nos feito considerar como mestres depositários de todas as verdades rapazes de quinze anos.

O terreno estava preparado e pode dizer-se que o longo processo de conversão ao hedonismo do consumo levado a cabo pelas sociedades ocidentais culmina hoje na idolatria dos valores juvenis. O Burguês está morto, viva o Adolescente! Um sacrificava o prazer de viver pela acumulação de riqueza; por uma igual impaciência perante a rigidez das normas morais e as exigências do pensamento, o segundo deseja, acima de tudo, divertir-se, descontrair-se, fugir pelo lazer às obrigações escolares, e por isso a indústria cultural encontra em si a forma de humanidade mais rigorosamente conforme à sua própria essência.

O que não significa que a adolescência se tenha tornado, por fim, a mais bela idade da vida. Outrora negados como povo, os jovens são hoje negados como indivíduos. A juventude é doravante un bloco, un monólito, uma quase-espécie. Já não se pode ter vinte anos sem aparecer de imadiato como porta-voz de uma geração «Nós, os jovens…»: os colegas atentos e os papás embevecidos, os institutos de sondagens e o mundo do consumo pretendem em conjunto a perpetuação deste conformismo e que nunca ninguém possa exclamar: «Tenho vinte anos, é a minha idade, não é o meu ser, e não deixarei ninguém encerrar-me nessa determinação.»

E os jovens são tão menos propensos a transcender o seu grupo etário, a sua «bio-classe », quanto todas as práticas adultas encetam, para se colocar ao seu nível, uma cura de desintelectualização: é verdade que na Educação, mas igualmente na Política (observe-se a competição pelo poder dos partidos, procurando «modernizar» o seu look e a sua imagem, a sua mensagem, enquanto se acusam mutuamente de ser «velhos de mentalidade»), no Jornalismo (não confessava o animador de um programa televisivo de informação que devia o seu sucesso aos espectadores de «menos de quinze anos apaparicados pelas mães»?), na Arte e na Literatura (de que muitas obras-primas estão já disponíveis, pelo menos em França, sob a forma «breve e artística» de clip cultural), na Moral (como o testemunham os megaconcertos humanitários em mundovisão) e na Religião (a julgar pelas viagens de João Paulo II).

Perante o resto do mundo, a população jovem não defende apenas gostos e valores específicos. Mobiliza áreas cervicais que não as da expressão linguística. Conflito de gerações, mas também conflito de hemisférios diferenciados do cérebro (o reconhecimento não verbal versus a verbalização).

A batalha foi acesa, mas aquilo que hoje apelidamos de comunicação, atesta-o: o hemisfério não-verbal acabou por triunfar, o clip levou a melhor sobre a conversação, a sociedade tornou-se enfim adolescente.

E, mesmo não sabendo aliviar as vítimas da fome, conseguiu encontrar, aquando dos concertos pela Etiópia, o seu hino international: We are the world, we are the children. Nós somos o mundo, nós somos as crianças“.

Alain Finkielkraut; La défaite de la pensée, Une société enfin devenue adolescente; Gallimard, 1987 (texto adaptado)

Traduzido mal e porcamente por este vosso criado…

LX


Quem pára a gangrena de Lisboa?

Ou posso perguntar melhor: porque não pára ninguém a gangrena de Lisboa?

É confrangedor (e misterioso…) a oposição não acabar com esta palhaçada.
O partido que sustenta o executivo permitir-se esta palhaçada.
O próprio executivo de Lisboa dar-se a este tipo de palhaçada.
(Por esta ordem lógica de entrada em cena.)

Claro que um melro palrador já me falou da impossibilidade de o executivo abandonar funções neste segundo, de repente. Com tantos assuntos ainda pendentes para acertar…
…E o que é mais giro é à oposição camarária tão-pouco interessar a repentina saída…
Tantos assuntos pendentes para acertar…

Seria de louvar a abnegação e a capacidade de trabalho desta gente.
Se fosse maior que a vontrade de os ver a fazer companhia ao distinto cavalheiro do post anterior.

(Por esta altura, aqueles que aguilhoam quem tem um cartão partidário consigo, como se eles fossem portadores deliberados de ébola, já deviam ter chegado à conclusão de que fora os que daí enriquecem, são muitos os que daí padecem.)

O elefante

Valentim Loureiro.
Um nome que evoca muitas coisas boas.

Uma delas é ir mesmo a julgamento, pela singela soma de” 26 crimes de corrupção activa na forma de cumplicidade e um crime de prevaricação“.

Não lhe desejo que seja condenado porque não lhe conheço a culpa. Mas desejo-lhe sobre o lombo todo o peso da lei que a apuração das suas culpas considere devido.

Este paquiderme da sociedade – não do desporto, nem da política, mas da sociedade – representa o que de piorzinho nós temos para dar e para consumir na lareira doméstica das nossas mezinhas do futuro.

Não se lhe reconhecem tantas obras na terra quanta a basófia com que se passeia por uns media que o querem a passear, para uma população que vota e revota nele para que se passeie, numa impunidade grosseira que só uma espécie de líder partidário – o seu – quebrou, ao fazê-lo concorrer como independente em Gondomar.
(Veja-se bem ao que isto chegou. Quem são os guardiões da virtude desta terra!…)
Mas vai vencendo.
Vencendo de tal forma que a dada altura não se percebe se vence o País, se vence com o País o conjunto dos que o recusam.

Este vencedor nato, fatal símbolo do homem português de hoje, vai a julgamento.

Parece que o PS de Gondomar exigiu a sua suspensão de mandato. (Patética manobra – ainda que adequada – no meio de tanta imundície.)
Mas também parece que o senhor major não está nada para aí virado.
E como não? Se o cavalheiro não se rege pelas regras da decência da generalidade dos cidadãos… Qual o espanto?

O que é desgostante é que uma manada de bestas imundas neste País – repito: não sei se o cavalheiro será condenado pelos crimes de que está acusado… – continuem impunemente a passear-se.
A passear-se.
Por aí.
E que haja já muitos aprendizes de alimária que lhes anseiam o patamar ou que estão há muito em estágio para ele.

Vasculhe-se. Cave-se. Desmonte-se. Puna-se. Para ver se pouco a pouco a vergonha de pertencer a uma certa parte deste País nos vai aliviando os ombros.

Cada vez mais na mesma

O sr. Ministro da Administração Interna “não reconhece qualquer legitimidade ao relatório do Departamento de Estado norte-americano que aponta críticas a Portugal sobre os direitos humanos“.

Assim.
Curto e grosso.
Ah pois é!…

Eu ainda pensava, ingénuo, que esta coisa do “não reconheço legitimidade” era um artifício de linguagem parlamentar. Uma entretenga daquelas do “ah e tal… e defesa da honra“, para encanar a perna à rã…
Mas venho afinal a saber que no mundo real é alavanca de pensamento e engrenagem de faladura.

Ora o sr. dr. António Costa “não reconhece legitimidades“. Restaria saber porquê.

É que se o problema do sr. Ministro é a proveniência do documento que referencia Portugal, fazia melhor em estar calado.
Os Estados Unidos da América, bandidos, cometem atropelos aos direitos humanos? Sim, dizem que sim. E ainda por cima com provas!
Mas por cometerem esses atropelos deixam de ter “legitimidade” para falar sobre o assunto? E é o sr. Ministro que vai decretar quem tem essa “legitimidade” ou não?
Só mesmo na sua cabeça!

Desde há anos e anos que os Reports on Human Rights Practices do Departamento de Estado americano são produzidos e publicitados, incidindo sobre quase 200 países e a forma como aí andam os direitos humanos.
Produzidos pelo de que melhor há no mundo de observatórios multidisciplinares e publicitados como forma de propaganda – claro! – através da qual o governo americano tenta arrolhar as vozes oficiais mundiais sobre as suas próprias más práticas, confrontam o planeta com o facto de supostamente não haver quem possa atirar a primeira pedra à América neste domínio.

Lógica cowboyesca que exactamente o sr. Ministro da Administração Interna compra e cavalga!

Se conseguisse ser mais sério, falaria de outro modo.
Rebateria os dados do relatório americano, descredibilizá-los-ia na sua eventual falta de verdade ou rigor, pô-los-ia na balança com as falhas americanas e responsabilizaria os seus autores por nunca se reportarem (uma curiosidade destes habituais Reports) aos próprios Estados Unidos e (com um pouco de inteligência) faria brilhar o que este fenomenal “Governo” tem feito (??) para salvaguardar os direitos humanos entre portas.

Mas não. “Não reconhece qualquer legitimidade ao relatório.” “Os Estados Unidos têm muito que se preocupar com o que se passa no seu país em termos de direitos humanos“.
No que se apouca a um infeliz miúdo birrento que no argumento do “quem diz é quem é” encontra o aconchego emocional.

Mas está com azar.
Porque quando cai na asneira de dizer que se ainda forem críticas da Amnistia Internacional ou outra quejanda, “Portugal aceita a avaliação” – assim nem pó, porque “nenhum país tem legitimidade para vir cá avaliar o que é que acontece“, muito menos os EUA – dá um tiro nos dois pés.

Num alegre debate sobre o assunto na Sic Notícias – daqueles em que o populacho participa – uma representante da AI disse com todas as letras que a Amnistia reconhece a existência de todos os pecadilhos atribuídos no Report a Portugal (que por acaso já nem são de hoje) !!
A saber: abusos das forças de segurança, más condições das cadeias, recurso excessivo da prisão preventiva e tráfico de mão-de-obra estrangeira e de mulheres.

Portanto, o que é que o sr. Ministro quer fazer? Sacudir a água do capote? Tapar o sol com a peneira? Cegar os lorpas?
Lesse as palavras de Condoleezza Rice na apresentação do Report de 2006 e pusesse a mão na consciência.

Liberty and human rights require state institutions that function transparently and accountably, a vibrant civil society, an independent judiciary and legislature, a free media and security forces that can uphold the rule of law.

Qual destes tópicos não dava sozinho um blog sobre a tristeza deste País?

Como curiosidade, a Amnistia Internacional…
Que em vez de se pronunciar sobre o Reports on Human Rights Practices sem ser obrigada – o que vem dos EUA tem mesmo peçonha para muita gente! – assobia para o lado e o ignora como se de uma papeleta cujo conteúdo e relevância não lhe tocasse de perto.

Até ao santo dia de hoje, no site da dita, nem uma notícia, nem uma referência, nem uma linkadela ao documento.

Apesar do site apelar obsessivamente – e bem – ao fim da violência sobre as mulheres, tão denunciada pelo Department of State.

A única menção aos EUA foi mesmo a de um médico do exército americano que se recusou a ir para o Iraque e que por isso enfrenta agora a justiça militar do seu país.
Médico do exército“, “recusou-se a ir para o Iraque“, “justiça militar“.

Grandes causas.
… Causas selectivas.

Estamos cada vez mais na mesma.

“Chocolate quente com a avó Mafalda”

“Chocolate quente com a avó Mafalda”

Ah, aquele aroma quente de caneca fumegante…
Esquecer tudo, e inalar o doce perfume profundo.
Esquecer o que não interessa, esquecer o resto do mundo,
Repousar e ser criança, por inteiro, um instante.

Tocar os lábios, em beijo, a vida em líquido ardente,
Experimentar o medo e a audácia numa mistura indistinta,
Desafiando as mãos, num recuo e numa finta
O perigo simulado de um chocolate quente.

Mas da vida se faz escola, futuro convencionado.
Muda-se à vista o que interessa.
E aprende-se a estar só.

Mesmo que as recordações me amarrem ao passado.
Mesmo que com urgência e sem pressa
Mais que nunca me apeteça
Dizer: obrigado, avó.

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Crónica da morte da América

A maior democracia do mundo viu morrer o seu ícone pop.

O Capitão América, abatido a tiro, esvai-se no sangue simbólico de uma Nação, sucumbindo às incessantes investidas dos seus inimigos.

(…Ok, sei que este exercício mental é difícil para muitos que, vivendo num País cujo último ícone patriótico conhecido foi o Zé oitocentista do Bordalo Pinheiro,
nem sabem nem querem saber o que isto é.
Mas esses, façam lá um esforço, …ou então podem sempre mudar de canal.
De qualquer forma, não é problema meu.)

A notícia da morte partiu dos Estados Unidos e depressa chegou a todo o lado!
Mas por um efeito-dominó que se encarrega de diluir os significados antes deles poderem ser apreendidos, o que nos chega são ecos difusos e não interpretações relevantes do óbito.

Com a II Guerra Mundial a correr no campo de batalha, o nascimento do Capitão América corporizava em 1941 a vontade latente do povo americano de desequilibrar as forças do Eixo, entrando de vez num conflito que não sentiam como uma ameaça exclusiva à Europa.

Foi esse espírito heróico, patriótico e democrático que presidiu ao seu aparecimento.
E que é recuperado até hoje.

Acabada a Grande Guerra, as guerras do Capitão América perderam interesse faltas de um adversário épico à altura, e a personagem acaba por cair num parênteses histórico.

…Até ao crescendo da Guerra Fria.
De novo – titubeantemente em 1953 e em definitivo em 1964 – o Capitão América foi chamado a encarnar nas pranchas os valores do povo americano.

Infelizmente, pelo que isso possa representar do palco mundial, o herói nunca mais desapareceu.
Quer enfrentando ameaças domésticas à paz e à ordem pelas mãos de americanos – fazendo prevalecer o valor primordial do patriotismo…

.

…Quer ameaças estrangeiras ao estilo de vida americano, pelas mãos de inimigos globais – elevando, acima da legitimidade da resposta emotiva, a ética de uma filosofia de civilização.

Os comics sempre foram um espelho mágico, em que a realidade anamorfoseada se reflecte nua. Não só no caso do Capitão América.
Razão pela qual também o cenário de pesadelo americano pós-11de Setembro teve contrapartida directa dos quadradinhos.
Também o “PATRIOT Act“, segundo o qual a América aceitou suspender temporariamente a inviolabilidade das suas liberdades cívicas constitucionais em nome da salvaguarda da segurança comum, perante a ameaça terrorista – na vigilância, na investigação, na repressão. Uma América estupefacta e céptica com a cedência nos seus princípios ao jogo do inimigo.

Numa tentativa controlacionista desesperada o Governo dos Estados Unidos produziu o “Superhuman Registration Act”, como forma de minorar os potenciais riscos para a segurança interna de uma Nação, provenientes de super-heróis com incontroláveis poderes de destruição maciça.
Segundo o “Registration Act”, cada super-herói ficaria obrigado a revelar a identidade secreta, a circular sem máscara e a colocar-se directamente sob o poder federal.
Directivas em que a S.H.I.E.L.D. de Nick Fury se empenhou em fazer cumprir.

Apenas o Capitão América, à cabeça de um grupo de heróis cépticos e perplexos, não aceitou a pretensão do “Registration Act”; eclodindo a Guerra Civil no universo Marvel.

A Nação mais poderosa da Terra.
A maior democracia do mundo.
Dividida no pilar da sua unidade. Sitiada . Receosa. Perplexa e confusa.
…Nos comics e não só.

Tempo de decisões patrióticas e abnegadas.
Assim Steve Rogers, Capitão América, se desmascara e se entrega às autoridades como foragido à lei.
Sendo baleado mortalmente


Na morte simbólica do ícone do americanismo, pouco será por acaso.

Um Capitão América morto por um sniper, após décadas de lutas colossais corpo-a-corpo com os piores vilões. Num mundo em que o confronto bélico directo perde eficácia e mais se rege pela lei do dano cirúrgico inesperado e fulminante.
Um Capitão América morto nos degraus exteriores de um edifício público. Em plena rua. No coração do quotidiano americano. Uma morte próxima, familiar, íntima, distante dos palcos distantes onde inimigos da Nação eram mantidos longínquos.
Um Capitão América morto sem máscara. Não sem disfarce, mas sem identidade, sem essência. Descaracterizado, reduzido ao consenso e à homogeneidade.
Um Capitão América morto algemado atrás das costas. Voluntariamente impotente. Rendido a um suposto bem comum, a uma evidência benéfica discutível.

A crónica contemporânea de uma América de escolhas dolorosas. Mas por força das circunstâncias cada vez menos uma América com opções em aberto.
Uma América cuja morte é narrada no outro lado do espelho.

Enleada no perigo maior de perder a sua essência vital para não peder a sua segurança.

Uma América anamorfoseada.

(Uma sentida homenagem às minhas pobres páginas impressas, digitalizadas para esta ingrata função…)