"Um, dois, três, macaquinho do chinês…"

Então? O homem já voltou da China? Isto sem ele não é o mesmo!

Não que a viagem tenha sido grande festança…

Tenho para mim que ter ido à China depois de combinada a data e descombinada pelos chineses, que entretanto mandaram o Presidente Hu Jintao a um outro sítio qualquer onde se encontrou com alguém de relevo, foi um agachamento.
Ou por cobardia ou por casmurrice.

É certo que já conhecemos bem as duas a este Primeiro-Ministro, mas nem uma nem outra parecem cair bem quando saído de portas para um mundo diplomático que liga bastante a estas coisas.

“Um, …”

Nem se pode dizer que o contacto com o anfitrião de recurso, o vice-Presidente chinês, tivesse sido um grande acontecimento (os ministros dos Negócios Estrangeiros, dos Minérios e Energia, do Comércio e da Presidência também não ficaram para recebê-lo…).

O “Governo” português, que se dirigiu à China como embaixador da cristandade, viu esfarelarem-se as suas pretensões a concierge da Europa ou da lusofonia.

Como diz o povo: “Quem quer, faz. Quem não quer, manda.“.
Por isso, os chineses fizeram-se à estrada, mandaram Sócrates às urtigas e o Presidente num périplo… por África, incluído Moçambique.
Como lança num território apetitoso de recursos, prometedor em suporte estratégico e viável na óptica chinesa de desenvolvimento desenfreado.

“Lusofonia”? Chapéu!

“Europa”?…

Portugal vai ter a Presidência rotativa na segunda metade deste ano, mas nem assim mereceu ser recebido pelo Presidente chinês.
…Diz o site do “Governo” que pode ser que Sócrates ainda fale com Hu Jintao (ou vice-versa) lá para Novembro, por altura da cimeira entre a União Europeia e a China – com a Presidência de Portugal quase a acabar, portanto, e o desejado protagonismo portuguesito reduzido a nada.

Grandes embaixadores.

“… dois, ….”

Mas mesmo para nós. O que se aproveita numa perspectiva de construção de futuro?

Percebo que a panelita de barro corra a juntar-se à panelona de ferro, com o “crescimento de dois dígitos ao ano”, no fito de comer umas migalhas que lhe caiam da mesa. Isso percebo-o.

Mas o que nos traz de amadurecimento mental, de renovação de costumes, de aprendizagem de sustentabilidade, associarmo-nos à máquina de guerra industrial chinesa?
A um país cujo desenvolvimento corre espumando a par do envenenamento do ar e da água da população que o torna possível?
Associarmo-nos a um país cujo sucesso económico actual é planificado na exacta medida do Grande Salto em Frente ou da correspondente Campanha do Aço – com os mesmíssimos tiques, vícios e pecados…

O Homem do Pragmatismo bem diz que «Portugal pode oferecer muito à internacionalização da economia chinesa. Basta olhar para o mapa para se perceber logo a localização central de Portugal».
(Fora o “central“, que é um disparate, percebe-se onde quer chegar…)

Se a ideia é comer as tais migalhas enquanto as há, muito bem.
Pode ser que «para dar um novo impulso às nossas relações, [consigamos] mais empresas portuguesas presentes na China e […] mais empresas chinesas em Portugal» – apesar de os chineses serem totalmente suficientes em mão-de-obra e condições de produção acelerada.
Pode ser que s
e consiga ainda lá meter uns portugueses a criar suporte técnico para a esfalfante indústria chinesa.
Já vão é muito longe aquelas campanhas beatas de boicotar as produções deste e daquele porque “violavam direitos das criancinhas” ou “faziam dói-dóis ao ambiente“. É o neo-pragmatismo em acção.

Mais uns cobres bem-vindos. Alguns proventos um bocado ensanguentados…
E mais nada.

“… três, …”

Mas o pior não é tudo isto.
É ler a “imprensa oficial” chinesa e saber como vê a visita portuguesa.

Segundo o “New Beijing Daily”, “a visita de José Sócrates à China [visou] promover o comércio […] e melhorar o entendimento entre a Europa e a China“.
Blá,blá,blá… “promover o aumento do comércio bilateral e aproveitar a China, uma grande entidade económica, para fortalecer a economia portuguesa“. Isto é: “Está claro quem é «grande», quem ajuda quem, quem dá a mão e quem dá a esmola”.
Sócrates espera também nesta visita […] melhorar as relações sino-europeias durante a presidência portuguesa da União Europeia”.
Porque muito se resume ao “medo de que o desenvolvimento chinês ameace a esfera da tradicional influência europeia“.
Sobre Macau, diz o “New Beijing Daily” que “antigo território português se tornou mais próspero e estável depois da passagem administrativa para a China em 1999“, “o que faz com que o Governo português queira fazer uso da experiência chinesa nas áreas da reforma e do desenvolvimento“.
Para acabar, “Portugal espera que esta seja uma oportunidade para desenvolver a cooperação com a China noutros campos , como informação, biologia, protecção ambiental, medicina e metais“.

Esta é a leitura chinesa.
O “grande” poderio próprio, o “medo” europeu que ele inspira, uns caramelos que vão lá a casa tentar “melhorar relações“, a sorte que têm em “aprender” como se faz “reforma e desenvolvimento” e a “oportunidade” de ouro de levarem lá para a província modelos de “INFORMAÇÃO ou PROTECÇÃO AMBIENTAL”.

“… macaquinho do chinês.”

Se não fosse lá também em meu nome, não me importava da tristes figuras que o Homem do Pragmatismo fizesse no estrangeiro.

Assim, dói-me um bocado que aplauda em público na última década, a China [ter] vindo a desenvolver uma relação muito amistosa com a comunidade internacional” e os dois países “partilharem os mesmos pontos de vista sobre as questões mundiais“.

E preocupa-me o que pensará “Espanha, Espanha, Espanha”, vítima do adultério socrático, que esquecida a paixoneta castelhana dá hoje as relações com a China como “absolutamente prioritárias”.

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