Grandes Portugueses

René François-Ghislain Magritte; 21 de Novembro de 1898, Lessines, Bélgica – 15 de Agosto de 1967, Bruxelas, Bélgiga.

Sem dúvida que fará parte da lista.

Eh pá!… Mas nem sequer era português!…
Não faz mal. Leva na mesma o meu voto.

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Num mundo sem PC… II

Ha!…, bons tempos.

Em que a inconsciente da Beatriz Costa cantava de rabo alçado à beira da água na Aldeia da Roupa Branca: “Ó rio não te queixes, / Ai o sabão não mata, / Ai até lava os peixes, / Ai põe-nos cor de prata” e impunemente fazia a barrela à peixeirada.
…Tinha sorte de não levar com o Greenpeace a chagar-lhe a mioleira com a preservação da Natureza.
Mas na volta até tinha razão, era capaz de fazer menos mal à peixeirada engolir um pirolito de sabonária que engolir hoje litradas de descargas de suiniculturas e passar a nadar de costas.

Bons tempos, os do Restaurador Olex.
Em que apesar da xenofobia horríííível de falar de “um preto de cabeleira loira e um branco de carapinha“, a mocidade era incentivada a usar “aquilo com que nasceu”.
Bons tempos, sem anorexias doidas, bulimias galopantes, corridas em manada (não só da mocidade!) para “clínicas de estética”, para cortar, esticar, repuxar, acertar, paralisar, acrescentar, alisar, encher, etc., num circo de horrores interminável, contrário ao que o Olex dizia que… “é natural e fica bem“.

Bons tempos… os das bigodaças à iraquiana.

Ponto por ponto

Anda tudo em polvorosa por causa de João Jardim.
(E sendo ele como é, o que ele deve gozar com isso…)

É facto consumado a sua demissão da chefia do Governo Regional da Madeira. E a sua recandidatura a novo mandato.
E as notícias apanharam todos em contrapé.
Tem razão o PS quando diz que o PSD não foi tido nem achado na decisão de Jardim (ainda que seja uma estupidez a conversa dos “reféns“, da “autoridade” e da “instabilidade“).
Tal como o PS, que se vê desarmado à boca de mais uma disputa de eleições regionais na Madeira.
(Ensinamento que todos já deviam ter retirado há muitos anos: “estar sempre preparado para as venetas de João Jardim!“)

O Presidente do Governo Regional demite-se como forma de “protesto contra as medidas do executivo socialista da República“, tendo-as denunciado desde o início como gravosas e arbitrárias no que toca à Madeira.
E recandidata-se, porque nunca foi sua intenção deixar o mandato a meio, governa com maioria e tem obra feita e em curso no arquipélago que quer ver concluir.

Mas e de permeio?“…
Exactamente!

Num momento em que o País atravessa uma crise mais profunda que a económica e que a de auto-confiança: a crise da participação cívica, João Jardim dá aos madeirenses a oportunidade de dizerem nas urnas de que lado acham que está a razão de um conflito institucional que opõe o Governo Central e o Regional.

Claro que tem algo de populista.
Claro que se o PSD-Madeira ganhar as eleições a Lei das Finanças Regionais não retrocede um milímetro.
Claro que – a não ser que caia um santinho do altar abaixo – o PS-Madeira será de novo derrotado numas eleições que, pela banalização do rol de vitórias eleitorais a que João Jardim que já perdeu a conta, não terão sequer um impacto por aí além.
Claro! Claro!

Mas cortemos um pouco com o maldito do PC. (Que nos diz que o senhor é um nepotista e um mauzão e um malcriado e um gordo.)
Paremos um pouco para pensar por cabeça própria.

Não é coerente que um eleito num cargo político que se manifesta de forma tão agressiva em ruptura com o poder central que o tutela e lhe altera as regras do mandato a meio, dê de novo à população voz para se exprimir a favor ou contra a sua continuação em funções sob as novas regras?
Devolver a voz ao povo” que se governa não é a maior dádiva da democracia? É que era capaz de jurar que tinha sido essa a argumentação que nos idos dias de Santana Lopes levou Sampaio e os seus simpatizantes a justificar uma convocação de Legislativas…
Jardim leva o seu protesto até às últimas consequências.

É isso que distingue um resistente de um queixinhas. Não se acobardar à última da hora.
A diferença é que, contrariamente a um Guterres ou a um Barroso que deixaram a meio mandatos para quem haveria de vir, João Jardim persevera no posto há trinta anos e desafia adversários sucessivos a depô-lo nas urnas – se o conseguirem. Não tem nada a ver com “guerrilha institucional“, ao contrário do que diz o porta-voz do PS, Vitalino Canas.
E o resto são cantigas.


Mas sobre o duelo Jardim/PC, não vou deixar ambiguidades.
Ponto por ponto.

Concordo com o pouco eloquente deputado Guilherme Silva quando disse queJosé Sócrates e o PS/Madeira fizeram um cerco a João Jardim, na aprovação da lei das Finanças Regionais“.
A discriminação negativa da Madeira em favor dos Açores é um erro – como se pode permitir que uma região com uma taxa de execução orçamental como a Madeira perca fundos para outra cujos governantes demonstraram incompetência para os gerir?
É o célebre “deitar dinheiro para cima do problema”.

Como percebo o que disse João Jardim sobre a necessidade absoluta de uma frente de “combate ao Governo Sócrates“, abarcando todas as forças politicas, sem excepção” desde que firmes neste propósito.
Há muito que esta “governação” atingiu o limite sensato de tolerância. Como homem, como profissional, como contribuinte, como cidadão, não me pode ser pedido mais.
Há muito que a falta absoluta de propósito, de projecto, de noção, de mesura, de decoro desta gente, os elevou a uma categoria de ameaça pública ao futuro comum que não pode merecer outro tratamento.

Da mesma forma que percebo o que dizia Jardim sobre as últimas Presidenciais: “os candidatos que se perfilam para Belém não defendem o interesse de Portugal“.
A clarividência de votar no menor dos males mas não ter ilusões sobre um mandato de um “Presidente Cavaco” com uma agenda própria desde há anos, potencial refúgio estratégico de políticas ínvias do “Governo”.

Em suma, é verdade que o País “está a ser conduzido por gente louca” e que “se Portugal não se livrar deste Primeiro-Ministro e deste Ministro das Finanças vai atravessar momentos dramáticos“.
Até porque “a asneira tem rosto e não é depois do mal feito que o país deve acordar“.

Para rematar, ultimamente e sobre os resultados do referendo do aborto, o Presidente do Governo Regional da Madeira disse[não haver] testículos para se dizer que referendo não [fora] vinculativo“.
“Nem para isso nem para mais nada”, acrescentaria eu.
Prisioneiros que insistimos em manter-nos do politicamente corecto que nos envenena e do comodismo mental, enfileiramos arrebanhados pelos caminhos por onde nos levam, sem tugir nem mugir.
Seja quem for, seja por onde for. E no fim… queixamo-nos.

Não dá para dissociar homens de políticos, pelo que o embrulho ficará sempre mal atado.
Mas até lá, João Jardim será referência de um home de coragem num mar de cobardes, um homem de acção e obra entre incapazes, um homem frontal e temerário no meio de convencionados.

E até ver… a Madeira é um jardim.

Estática de combate

Aí está.
Rápido e em força, o “Governo” retalia em função da afronta que o “Passeio do Descontentamento” constituiu para si e para o Estado.

Dez sargentos da Força Aérea vão ficar detidos nas respectivas unidades, a partir de amanhã e durante cinco a sete dias, depois de concluídos os processos disciplinares que foram abertos por terem participado no chamado «Passeio do Descontentamento»”.

O atribulado “passeio”, contra os cortes orçamentais na Defesa e a sua gestão, teve lugar em Novembro do ano passado, com centenas de militares a “passear” na Baixa.
Dignamente. No respeito pelos regulamentos que os proibem de se “manifestar”.
Sem os alaridos nem as palhaçadas festivaleiras que é hábito ver neste tipo de momentos.

O “passeio” acabou com A Portuguesa e o apelo ao Governo para abrir o diálogo com as associações de militares sobre as opções de Defesa Nacional do “Governo”.

Olha ao que eles foram apelar!…

O “passeio”, e a maneira como se lhe pegou, começou logo mal de princípio, com a sua peregrina proibição pelo Governo Civil de Lisboa, “por os organizadores não terem comunicado [a «manifestação»] no prazo legal de dois dias“.
Os militares, que nunca tiveram intenção de “manifestarizar” o seu protesto rua abaixo até à Praça do Comércio, decidiram realizá-lo na mesma.
Transformando-se o “passeio”, que se nunca fora ingénuo tão pouco fora o que se fazia parecer, numa forma deliberada de pelo menos fazer cair os seus participantes em desobediência à ordem do Governador Civil.

Pela desobediência e pelo facto de se terem apresentado fardados alguns dos “passeadores”, logo o “Governo” se apressou a reagir.

Atacando a vertente civil o Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, veio dizer que sendo a “manifestação” “ilegal“, teriam lugar “consequências disciplinares“, e pela vertente militar o Ministro da Defesa, Severiano Teixeira, reforçouface à participação na iniciativa de alguns militares no activo fardados” que há “regras muito claras […] a esse respeito” e que aqueles militares que infringirem as regras assumem naturalmente a responsabilidade“.

E com que ficamos nós em mãos?

Haverá quem me diga: “um «Governo» que corta a direito, que não cede, que não vacila nas suas opções, que faz frente a qualquer que seja a corporação que defenda os seus privilégios…“.
Mas eu penso sempre naquela máxima de o paranóico ser a única pessoa que tem razão.

E vejo neste tipo de atitude pesporrenta, autoritária, intimidatória e repressiva a queda de um regime democrático às mãos de uma corja sectária, produzida em laboratório segundo as normas universais do politicamente correcto, da eugenia modernista e da plutocracia doutrinante.

Claro que são teorias da conspiração, claro!
Claro que o que aconteceu aos agentes da PSP que caíram na tentação de exercer a crítica sindical das atitudes do “Governo” é mera coincidência.

Mas… e não for?

E se o “direito à indignação” do avô Soares (fosse isso o que fosse…) tivesse sido revogado por decreto sem nos terem dito nada?
E se o último reduto da participação cívica: o protesto, tivesse sido já tomado de assalto na calada da noite?
E se a derradeira reserva moral e física dos direitos dos cidadãos – as forças policiais e militares – face aos usurpadores da democracia, estivessem a ser drenadas da sua força anímica vital?
E se um mero décimo disto for real?…

O “Governo” da Nação decidiu reprimir os militares que, mesmo por obrigação moral, brio e orgulho casterense, não se acobardaram em mostrar que neste País não somos todos feitos de sebo. Tentando paralisar-lhes a vontade.
Porque neste combate, imobilizar é vencer.

Não importa que fazendo-o se fragilize a soberania da Nação e o resppeito por nós mesmos.

Nada importa.

O meu albergue espanhol é a Língua Portuguesa


Professor. De Língua Portuguesa.
À laia de sandes mista.

Duas formas em uma de ser agredido pelo no que outros descubram humor.

Saio à rua, olho em volta e confirmo, repetidamente, que a “sociedade” portuguesa não está mobilizada para me facilitar a tarefa. Sequer interessada em não ma complicar. E muito menos presente para fazer a sua parte.
Na formação de miúdos. Na Língua e no civismo.

Andarei a remar contra a maré? A brincar às escondidas? A adiar o óbvio?

Deixemos passar mais um dia.
(Em que não posso permitir-me ceder a esta onda.)
…E ver se poderá isto piorar.

A caixa que mudou o mundo

Desde os seventies que a vida deixou de ser como era.
Com o advento do microondas, o fluxo espaciotemporal sofreu uma deformação cujos resultados espirais se sentem e expandem ainda hoje.
Antes: comprava-se, cozinhava-se, comia-se, sobrava, ia fora. Fluxo contínuo linear.
Depois: compra-se, cozinha-se, guarda-se, compra-se, recozinha-se, come-se, guarda-se, requenta-se, recome-se, evita-se que vá fora. Fluxo descontínuo, irregular, paradoxal e infinito.

E posta para trás das costas a limitação do espaço e do tempo, a ficção tomou conta das nossa vidas.
Em todos os domínios.

Quando recentemente, a 14 de Fevereiro, o senhor Secretário de Estado da Educação propalou a notícia de que as “Aulas de substituição contribuíram para baixa nas faltas de professores“, inscreveu-se no fluxo irregular das notícias de microondas.

Dizia o cavalheiro – que menos não é que tal! – que “a introdução das aulas de substituição contribuiu para a baixa em 40 por cento do absentismo dos professores“; ainda que seja apenas “mais um elemento” a juntar a “outros dados adicionais“.

Ora, para quem não andasse a dormir, esta fora exactamente a notícia de três dias antes.

O Público noticiara que “Os professores estão a dar menos faltas. O absentismo dos docentes baixou para metade desde a entrada em vigor das aulas de substituição“…
(Notícia, atenção!, de relevância tal que remetia para a sua fonte avalizada: o Jornal de Notícias; que por sua vez perorara com amplitude das vantagens e desvantagens das aulas de substituição.)
…Como, três dias antes também, o Portugal Diário fizera saber que “Os docentes terão faltado menos desde que estão em vigor as aulas de substituição“.
(Que também citara o JN, acrescentando que aquele já citara “uma fonte do Ministério da Educação“!)

Cozinha, come, guarda, cozinha, come.

O que até seria interessante, se o Jornal de Negócios de 7 de Novembro do ano passado já não tivesse publicado uma entrevista com a senhora Ministra da Educação, a que apensara o sugestivo título “

Faltas às aulas dos professores caem 40%“.
Em que tratara o mesmo tema, na mesma perspectiva, com os mesmos números, na época em que a “notícia” ainda era notícia.
(Tão bem o sei, que me mereceu na altura uma postadela.)

Cozinha, come, guarda, cozinha, come, guarda, regorgita, requenta, come, guarda.

Perdidos neste labirinto sem início nem fim, sem etapas nem percurso, os senhores do Ministério da Educação erram num vácuo em que a forma de ocupar o seu espaço é dilatar-se no tempo, seja à custa de motivos salientes, seja à custa de servir tópicos ultracongelados prontinhos para os pouco exigentes que os queiram lambar.

Em vez de se empanturrarem e aos outros com esta espécie de enfardadura de microondas, com esta fast info, que não dá saúde a ninguém, aconselhar-se-ia a inclusão neste cardápio mistela do Ministério da Educação de uma coisinha mais gourmet.
…O cliente aprecia.
Sei lá, coisinhas com uma apresentação mais cuidada, com uma preparação um pouco mais amadurecida, com um ingredientezito qualquer mais sofisticado, adicionado um condimento qualquer um pouco mais exótico.

Por exemplo, retomar aquela história levantada por Francisco Louçã – que de tão mal explicada a todos interessaria repescar – que dava o senhor Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, a ter perdido o mandato no executivo da Câmara de Penamacor em 1993, por causa do seu absentismo.

Aquela história que o senhor Secretário de Estado rebateu e “deu por encerrada” ao apresentar “uma certidão passada pelo presidente da Câmara de Penamacor de que não consta nos arquivos camarários qualquer perda do seu mandato de vereador.”

Aquela história em que a Câmara de Penamacor reconheceu em comunicado que “
o executivo chegou a declarar a perda de mandato do agora Secretário de Estado da Educação e então vereador Valter Lemos na reunião camarária de 7 de Dezembro de 1993“.
E que o senhor Secretário de Estado Valter Lemos contestou, uma vez que “viria a ser declarada nula por não terem sido cumpridos determinados requisitos formais como a notificação e a audição do vereador“. Isto é, que na “secretaria” conseguira ver anulada.
Mais: que o senhor Secretário de Estado Valter Lemos contestou, alegando que “não lhe podiam ter sido marcadas faltas porque tinha suspendido o mandato em Outubro de 1993“. Isto é, de Outubro a Dezembro de 1993, período em que incorrectamente lhe teriam sido marcadas faltas, ter-se-iam realizado tantas ou tão poucas reuniões que teriam ditado a sua perda de mandato.
Pois…

Uma história com muito mais tempêro que isto.
Já que “formalmente, Valter Lemos não perdeu o mandato por excesso de faltas, pois o respectivo processo não foi organizado“, aliás, “deixou de exercer o cargo na sequência de um pedido de suspensão de mandato [que] também não terá respeitado a lei“, que neste momento ninguém sequer sabe onde pára, em que acta ficou registado ou sequer “quando foi aceite pela autarquia” – no que aparenta ser um caso grave de amnésia colectiva aguda.

É só uma sugestãozinha gastronómica que deixo.

Mas, fora as pobrezas de espírito do Ministério da Educação, as notícias são animadoras.
Se graças às aulas de substituição (dito assim por alto) os professores estiverem a faltar 40% de 40% de 40% do que faltavam, é óptimo para a Nação.
Como dizia um Primeiro Ministro que Deus tenha em descanso, “É fazer a conta…

Fechar o assunto

Escolher o blue pill mas assumi-lo.


Não mudo uma vírgula ao que dizia o meu primeiro post sobre o assunto do aborto. Em Dezembro.
E a minha opinião pessoal sobre como as coisas correram, dá-la-ía hoje de novo, repetida palavra por palavra.

Agora, o balanço do referendo…

Foi uma tristeza a “necessidade” com que se apresentou o referendo aos portugueses e a facilidade com que o engoliram como solução.
Foi uma tristeza a “campanha” do aborto, que não correu com civilidade nem decência, apesar da doce náusea niveladora de agora se dizer que sim.
Foi uma tristeza o “civismo” demonstrado pelo populacho votante, que não exerceu como devia o seu dever democrático; repita-se o contrário quantas vezes se repetir, o mero decréscimo de 98 para cá não alivia a culpa de uma vergonhosa abstenção de 56%.
Foi uma tristeza a performance do Referendo, figura que jogava a sua última cartada e nem assim se impôs a uma Nação de pasmados; ao não conseguir legitimar a sua própria existência, referendo de “quase 50“, um “quase vinculativo“, não passou daquilo que era: o terceiro do pleno três, três referendos a que os portugueses chamados, viraram costas e fugiram.

É o triste País que somos.

Mas mais que triste, odiosa, é a tentativa beata pós-referendo resultado, de arregimentar portugueses, pô-los todos de mãos dadas, seguidinhos lado a lado, celebrando em comunhão a vitória do progresso, festejando a liberdade, os direitos das mulheres e a solução conquistada.
E eu não vou por aí. Não vejo motivo de festa, liberdades nem progressos, direitos ou soluções.

Uma coisa é o respeito pela vontade popular, outra coisa bem diferente é deixar-se converter, formatado em cristão-novo, e de um momento para o outro deixar de ver como absurdo para descobrir maravilhas na usura do aborto. E ceder a uma miragem politicamente correcta do consenso da vitória.
Não me puxem para aí.

Posto em termos corriqueiros: quando os libertadores das vontades propuseram ao País lidar com a prática do aborto, foi-lhe dado a escolher o blue pill ou o red pill.
Ou tomar um comprimido para aplacar a consciência ou tomar outro diferente que o levava de viagem às entranhas do problema remexendo-as com as mãos.
E o País soube optar.

Bastaria admitir a escolha do blue pill e a “solução” de consciência.
Mas não…
…Irritante viciozinho das narrativas heróicas.

Ao despenalizar o aborto ao limite de 10 semanas e ao convocar para a festa os votantes do contrário, pretende-se fechar o ciclo.
Dissipar a dissensão.
Unanimizar a versão de uma solução encontrada e burilar as arestas da ética da resistência.

Estranhamente, nas reacções televisivas aos resultados da noite, apenas Marques Mendes – mero quasi vertebrado – referiu as obrigações de um País pós-referendo, de um Governo, de uma classe de políticos relapsos, na busca das soluções para o problema do aborto que estava por encontrar.
Só o dito, e mais ninguém.
A mais ninguém se ouviu que aquilo que mais relevava estava ainda por talhar. Apenas festa e triunfo.

Quem se ouviu na noite de 11 exigir aos “governantes” deste Estado alternativo as condições sociais, profissionais, financeiras, familiares e afins, que sustentem a gravidez de uma mulher portuguesa?
Que lhe permitam escolher. Encarar o seu futuro.
Que a resgatem do aborto – o tal mal indesejado – que candidamente se lhe oferece.
Quem se ouviu dizê-lo alto? Ninguém. Absolutamente ninguém.

Os “do poder” não se arriscam. Isto é, não se comprometem.
Os “das franjas” querem mais. Mais um voto aqui e ali. Hoje, já, que o tempo corre.

O aborto clandestino, que agora se normaliza, nunca foi o problema.
Nem as condições do fazê-lo.
Nem a pena a sujeitar-se mulheres para ele empurradas.
O problema é O ABORTO. Sempre foi e há-de ser. O drama, o perigo, o inimigo.
E a questão vertical – que nunca teve resposta porque nunca se perguntou – seria o que há a fazer para que ele nunca aconteça. Para que nunca seja a saída.

Mas esse era o red pill.
Que Portugal não tomou.