No Choco

Há três meses atrás o CP lançava um desafio no Quintus: esclarecer, afinal de contas, até que ponto o Choque Tecnológico estava a mudar a Educação nas escolas.
(…Se  ninguém reparou no pormenor do “há três meses atrás“, fico mais aliviado…)

Na altura não lhe repondi, pelo meu vício de ou fazer as coisas por todo ou nem sequer as começar para as deixar em metade.
E porque se alguma coisa aprendi nos (já, meu Deus?…) anos de bloguice, foi que todos os assuntos são circulares e que se se não apanham na primeira maré de oportunidade ela lá voltará para de novo passar.

E a oportunidade pode ser agora.

Dizia então o CP: “Criticamos o governo PS quando é preciso, [mas] se há ramo governativo que tem corrido bem é o do desenvolvimento do uso das tecnologias de informação nas escolas portuguesas. Em 2009, um em cada cinco alunos terá na Escola um computador com acesso à internet, haverá um videoprojetor por sala e um quadro interativo por cada três salas“, “tendência [...] ainda reforçada com o concurso de ligação de todas as escolas a uma rede 48 mbps e a extensão do e-escolas ao 7 e 8 ano de escolaridade“.
Acrescentando então o CP com sensatez: “Se estes números se cumprirem (e falta apenas um ano para o comprovar), então as escolas portuguesas serão das mais tecnologicamente avançadas do mundo“; “se assim fôr, ficamos realmente impressionados“.

Pois bem, não há – como previa – razão para grandes impressionismos.

É que – obediente a outro vício meu – só consigo encarar esta ou outra “revolução tranquila” como sérias numa óptica de estratégia, não de táctica. Isto é, numa lógica de resposta global e integrante, não numa perspectiva de tapa-buracos, como é o caso.

Em primeiro lugar, é SEMPRE mais fácil comprar uma solução que construí-la!

Como neste caso foi muitíssimo mais fácil o “Governo” assinar um par de diplomas – carregar no célebre botão que faz coisas acontecerem – que pensar uma plano estruturado e sólido.
(O dinheiro não é seu, dispõe dele com ligeireza.)

É que a chave do parágrafo do CP está aqui: “tem corrido bem [o] desenvolvimento do uso das tecnologias de informação nas escolas“.
Porque não tem corrido bem, de facto!

É um delírio – posto a coberto pela ignorância sobre o terreno da maior parte dos portugueses – dizer o “Governo” que “em 2009, um em cada cinco alunos [tenha] na Escola um computador”. (Ou como disse recentemente Mário Lino: “queremos em 2010 estar em dois alunos por computador“.)
Primeiro porque não vão tê-lo, segundo porque não o poderiam ter!

Não vai tê-lo porque o ratio actual está actualmente longíssimo desse número e porque se agora a tal da “crise” o vai financeiramente impedir, já antes não se percebia bem de onde – Europa, clasulado prévio de contratos de operadoras com o Estado,… – viriam os fundos para permitir tal maná.
Não poderia nunca tê-lo porque se já esse aluno “em cada cinco” mal cabe em salas com turmas sobrelotadas muito menos as salas de aula portuguesas suportariam a ocupação física desse tipo de aparato.
…Já sei que a resposta podem ser os famosos portáteis. Mas não. Essa não é uma resposta asseada para quem faz diariamente o número do “carreiro de formigas” com os seus alunos quando pretende usar as TICs na sua aula e vai levantar os portáteis a um ponto da escola para os usar em resma noutro oposto – com as óbvias perdas de tempo e paciência associadas. (O que – atenção! – por motivos de segurança do material, no contexto das escolas portuguesas, não poderia aliás ser de outra forma!)

…”Com acesso à internet“.
Neste momento (Fevereiro de 2009) nem mesmo escolas “de referência” para o Ministério, nem mesmo escolas especialmente empenhadas no uso das Tecnologias no seu dia-a-dia, têm acessos aceitáveis à net. (Afirmo-o com todas as letras.)
As ligações ainda são baixas em velocidade e a havê-las não cobrem em wireless a totalidade do recinto escolar – a cobertura física teria custos atronómicos! E se escolas tiverem pretendido montar uma rede como deve ser para servir as suas necessidades, terão sido instadas pelo Ministério a fazê-lo com os seus prórios – e inexistentes – fundos. Isto muito antes da “crise”!
…Para não falar do harware, das máquinas que se usam, também elas muitas a precisar de extrema unção.
Ou da graça de não haver qualquer forma eficaz prevista – em pen, em disco, etc., à falta de net – para os alunos que usam os portáteis na escola armazenarem os seus trabalhos em progresso! Os portáteis que usam hoje podem estar ocupados amahã, “amanhã” o seu trabalho pode ter sido apagado por um outro utilizador, o que confere ao trabalho com as TIC uma carga de impoderabilidade e ligeireza a que muitos professores não se prestam. (A última esmola, foram umas pens que o projecto Electrão deu às escolas – uma pen por turma a girar no início e no final da aula por todos os computadores de todos alunos, roubando-lhes metade do tempo útil. E fica tudo dito.)

Sobre o “videoprojetor por sala e [o] quadro interativo por cada três salas“, outra miragem.

É perfeitamente inútil e alucinado prometer para cada sala um projector, olhando ao País pelintra que somos (ainda de antes da “crise”). Mas  de facto não é possível usar eficazmente os ditos quadros se não houver montado em plano elevado um projector – não levado para a aula debaixo do braço, como agora, montado à altura do tronco ou do rabo do professor, conferindo à aula uma inusitada valência de espectáculo de sombras chinesas.
Estou a frequentar uma acção de formação sobre o uso das TICs em sala de aula. Em que em parte se abordam os “quadros interactivos”.
…Espectaculares, espantosos, maravilhosos, revolucionários (ou nem tanto). Inúteis se não estiverem montados de forma funcional.
Sendo que tudo tem um preço alto, que as escolas – mais uma vez – não têm posses para o pagar sozinhas, que o Ministério até agora ainda não se mexeu (estando as autarquias cada vez mais estranguladas) e que – entrados no mundo ideal  dos projectos que se concretizam – as salas de aula portuguesas podem não estar sequer preparadas arquitectonicamente para receber uma tela fixa para projecção na famosa posição “perpendicular às janelas”.

Sobre o “e-escolas“, pouco há a dizer.
Foi astuto convidar as operadoras móveis a pagar parte do custo dos PCs aos pais das crianças, tornando-os mais acessíveis. Mas é uma falsidade dizer que as operadoras assumiram perder dinheiro aqui para o ganhar com as concessões de 3G contrapartidas.
É aqui exactamente que as operadoras vão recuperar o dinheiro investido – e não dado.
Na miragem de PCs baratos, resmas de pais – de um País pelintra, repito – lançaram-se de cabeça para a compra de uma pechincha atracada de uma despesa fixa de um serviço wireless contratado por uma eternidade e nada pechincha ele próprio.

“Comparticipação a sério do legislador na despesa com tecnologia no sentido de a democratizar?”, zero.
“Apoio fiscal a este tipo de despesa tão incentivada com palavras?”, zero.

Melhor ainda que ir às compras e montar estatística: mandar ir às compras e acrescentar-lhe uns pontos.

…Mas, e o Magalhães, em particular?

…Lá irei depois. Exclusivamente.

O que é certo é que o “Choque Tecnológico”, apesar da propaganda oficial, não passa – por hora – de uma manta de retalhos.
Que não reflete nem incorpora uma estratégia coerente de integração das TICs na vida educativa das escolas.
(E se para desmentir o que digo se apresentarem exemplos avulsos, respondo que é esse mesmo o problema de que falo.)

O “Governo” tem-se comportado mais ou menos como o tótó que quer ter o computador mais artilhado lá da rua e que na loja compra os componentes todos  que lhe vêm à mão desde que lhe pareçam os mais modernaços. Para depois chegar a casa e perceber que (para além de não saber como se montam) não jogam uns com os outros.
Apesar de serem os mais rebimbas que encontrou!

O “Governo” tentou (com o pouco dinheiro que há) comprar uma solução rápida e espampanante.
Carregou num botão e houve coisas que aconteceram…

Mas ainda que aprove mais este investimento que em estádios de futebol, ele está longe de sair de cabeças de quem saiba o que anda a fazer. Por cinismo ou pura incompetência.

Dizia o CP: “é ainda necessário reforçar a aposta na qualificação e na valorização dos professores (uma área que tem sido gravemente descurada)“.
E é verdade.
Como pode pretender-se introduzir revolucionárias ferramentas pedagógicas no Ensino (e uma nova filosofia) sem ter NENHUMA preocupação em dotar de conhecimentos/técnicas aqueles profissionais a quem vão ser exigidos os frutos da sua utilização?
Alguém não está a ser sério.

Como é possível apregoar a universalização do uso das tecnologias nas escolas quando a escolaridade obrigatória está objectivamente amputada – por razões financeiras e físicas que não há coragem para afrontar – nessa falsa preocupação?
Como é possível descarregar toneladas de computadores sobre as criancinhas do 1º e do 2º ciclos quando ninguém se preocupou em dar-lhes formação nas TICs? À semelhança do que acontece (só) no final do 3º ciclo.
É sempre mais fácil passar um cheque, num momento, que assumir um projecto e um compromisso de futuro.
Das pretensas “intenções”, das supostas cruzadas, vê-se assim a credibilidade.
Alguém não está a ser sério.

Como é tão-pouco possível que a quem compete – Ministério da “Educação” e “Governo” – não ocorra que se estamos à boca do portal para outra dimensão não seja revisto o que se estuda nas escolas da Nação tendo estas ferramentas sobrenaturais à disposição?
Que conteúdos são relevantes hoje, que competências novas se visam desenvolver, que estratégias frescas se podem aplicar, basicamente, que objectivos diferentes tem a Educação nestes tempos modernistas?
Se os tem, duvido.
E duvido que alguém nas altas esferas que passa cheques já tenha pensado sobre isso durante meia hora.
E por não acreditar que nisso já tenha pensado, não acredito… na seriedade deste filme.

Tudo isto é um ovo ainda fechado. No choco tecnológico.
Cheínho de expectativas mas que tanto pode estar podre e não vir a dar-nos nada (porque o desafio é exigente, competitivo e urgente), como dele pode nascer o mais amoroso pinto. (Desde que não seja “de Sousa”.)

Resta-nos ficar atentos, CP.

Vontade de Pedir Desculpa

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Não é meu hábito contar aqui estas histórias e não vou agora começar.
É só um desabafo.

Senti vontade de pedir desculpa ao aluno X por todas as vezes que – tirando-me do sério pelo seu comportamento – perdi a paciência com ele.

Líamos na aula de 5º ano, em silêncio, quando me aproximei dele por pretexto de uma pergunta  qualquer.

Acrescentou então, plácido, sério, olhos-nos-olhos, sem aviso: “ó setôr, quando leio assim, oiço uma voz a gritar na minha cabeça“.
…E rematou a violência com um silêncio expectante, suspenso de uma resposta.

Não interessa o que se seguiu.
…Ou pelo menos tanto quanto a vontade que em mim cresceu. De a ele me desculpar pela encenação diária de uma ordem que lhe é alheia. De fazer parte de uma conspiração da norma que finge harmonizá-lo, quando não sabe verdadeiramente o que fazer com a sua inquietude.

“Desculpa-me sem o saberes, X.”

Agressões Selvagens

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Saiu a notícia de que o Ministério da Educação “pretende recrutar professores reformados para, em regime de voluntariado, colaborarem no apoio aos alunos nas salas de estudo, projectos escolares ou no funcionamento das bibliotecas, entre outras actividades“.

Para ficar tudo claro desde início, marco a minha posição.
E, numa terra em que só se fala e percebe de bola, deixo a imagem bolística daquilo em que se poderia traduzir a posição que marco: esta proposta do Ministério da Educação é uma agressão selvagem.

Na exacta medida das agressões ilustradas no singelo quelipe abaixo espetado…

…Elas são a imagem de como o Ministério joga este jogo.

Ponho já de parte a evidência engonheira de que o “voluntariado” é uma força desaproveitada na sociedade portuguesa – fonte de energia não rentabilizada, destino válido de vontades que canalizadas facilmente resgatam cidadãos válidos ao desânimo ou à frustração.
Esse é o óbvio.

Mas o jeito deste “Governo” para transformar o razoável no absurdo é muito grande.
E esta proposta de “voluntários” a trabalhar durante “um ano lectivo” na escola, num “mínimo de três horas por semana” é uma entrada a pés juntos a quem neste momento nas escolas resiste como pode às agressões diárias que lhe moem as carnes.

Algumas faltas duras cometidas nas grandes áreas que este “voluntariado” pretende cobrir:

1ª A falta de sentido.
Eu não preciso de reforços de Inverno vindos do “voluntariado” dedicados ao “apoio a visitas de estudo” – só assim.
É que para mim uma visita de estudo é tão séria como uma aula. É uma aula, na preparação, na preocupação com o seu desenrolar, na sua exploração para a aprendizagem. É serviço lectivo, não é “passeio”. Não delego a ninguém prepará-la, não levo qualquer um a acompanhar-me. Sei quem me é mais útil no contexto dos alunos que conduzo em visita. Não me fazem falta “apoios”.

2ª A falta de lógica.
Não faz sentido nenhum pôr “voluntários” a cruzar bolas para a área dos “projectos de melhoria da sociedade local” quando esses projectos já têm jogadores para essa posição.
“Projectos”, a havê-los e a serem projectos pedagógicos, estão na mão dos docentes. E não sou eu que o digo. O Decreto-Regulamentar 2/2008 que rege a “Avaliação” de Desempenho Docente contempla esse tipo de envolvimento dos professores como parâmetro da sua avaliação.
Diria que antes se percebesse o que são esses “projectos” e só depois se orçamentasse o plantel. Antes se percebesse a necessidade de “apoios”.

3ª A falta de fundamento.
Não é possível colocar “voluntários”no “apoio à formação de professores e pessoal não docente [ou no] planeamento e realização de formação para pais“.
Toda a gente sabe que não faz parte das “competências científicas” de um docente comum – não obstante os anos de experiência – a habilitação para dar esse tipo de formações. Pelo menos que não sejam meros encimentos de chouriços… Ou então o Ministério da Educação vai começar a dar formação de formadores aos “voluntários”?… Quando tem no total desleixo a formação dos docentes em funções?…

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4ª A falta de vergonha.
Ao propor que os “voluntários” façam “nas salas de estudo, projectos escolares ou no funcionamento das bibliotecas” trabalho de roupeiros, de membros de claque, de jogadores ou de treinadores, o Ministério da Educação mostra sem margem para dúvida reconhecer a falta de recursos humanos para numa escola gerir estruturas de apoio à docência, que nunca levou a sério.
Agora leva-as. Querendo-as a funcionar à borla.
Porque, contrariamente ao que o Ministério jura a pés juntos, não me custa nada acreditar que não só este é um remendo barato para o relvado esburacado, como os remendos vão amanhã passar a substituir as despesas com jardineiros.
(Quando se prepara para montar e pagar em “cada Direcção Regional de Educação uma estrutura própria” para gerir a “voluntariedade!)

5ª A falta de ética.
No meio de uma história de entradas por trás, cotoveladas e mãos nas bolas, que ainda não acabou de ser contada, que está a roubar gente aos relvados e a deixar desertas as bancadas dos que acreditam na Educação, no meio de uma história que está a revoltar as entranhas de quem olha para estes dirigentes da bola e os responsabiliza pela batalha campal periódica com que a Nação é brindada, é do supremo descaramento perguntar aos lesionados em campo se querem reentar para mais uma dose.
Dirigir-se a muitíssimos docentes que fugiram do Ensino por não suportarem mais jogar com infiltrações, propondo-lhes um “voluntariado” exercido “de livre vontade, sem remuneração” – como uma prenda que se dá – do qual ainda terão “no final de cada ano lectivo, [de elaborar] um relatório anual [...], no qual deve constar uma autoavaliação“.

 

Mas não é líquido que nenhum professor avance.

É que há-os mesmo que amam a profissão. Conheço alguns. Que reconhecem e assumem o papel social do desempenho da sua função. E que por isso podem desejar não a ver seccionada de um dia para o outro…

Agora, não é deles que falo!… Não é a eles que me refiro. (Até porque não é com a sua idade que se cometem em campo as agressões selvagens que passam no filmezinho acima…)

Refiro-me a um Ministério da Educação que afirma pela boca de um senhor Secretário de Estado que como “nenhum enfermeiro ou assistente social é substituído por existirem voluntários num hospital” numa escola os “voluntários” não vão suprir as faltas directas de gente para o exercício docente.
Sabendo – como sabe quem tenha uma remota ideia de como funciona uma escola – que tal é uma barbaridade e ainda assim o diz.

…Porque para gostar de bola não é preciso ser inteligente. Mas é preciso haver notícias!
Porque o campeonato é longo. E é preciso manter os adeptos entretidos com polemizações constantes!

“Degradação do estádio da Educação?” Não faz mal. Compensa.
Enquanto certa gente não vir o cartão vermelho, é jogo.

[Publicado no Canto Aberto.]

Efeito de Espelho

É hoje cumprida mais uma etapa na prova da palhaçada da Educação de Portugal, de novo com os seus mais salientes protagonistas em cena.

Vota-se na Assembleia da República uma coisa do PP sobre uma coisa qualquer sobre Avaliação.

Deve sem importante, tanto que o “Governo” não deixa os seus deputados votar como querem.
(“Ai não é o Governo?… Eu dessas coisas percebo pouco.”)
Tão importante que o “Governo” (…ou lá o que é) já disse aos deputados que não é para faltarem! (Diz o Ministro Augusto Santos Silva que é um  “assunto crítico“! ) É preciso estar toda a gente para barrar o PP e mais o resto da maralha!

Pelo que não se deve retirar daqui mais do que se espera…

Só retiro eu um pequeno detalhe deste quadro pitoresco.

É mais determinante a acção dos professores para corrigir o absentismo dos políticos que a dos políticos para reduzir o absentismo dos professores.

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Um “obrigado” não custava nada.

“Um Contra Todos”?

Detalhe do "David" de Gian Lorenzo Bernini

Como numa corrida aos saldos de Inverno, por toda a Nação da Educação os docentes acorreram a entregar os seus “Objectivos Individuais”.
Falo dos “Objectivos Individuais” que o Decreto-Regulamentar 02/2008 de 10 de Janeiro refere – o DR da alteração à Avaliação do Desempenho Docente. Onde o docente enuncia os “objectivos” que se propõe alcançar no desenrolar da sua actividade no intervalo de tempo a que a Avaliação de Desempenho diga respeito.

Acontece que eu não fiz a entrega dos meus “Objectivos Individuais”.
Tendo disso dado conta, como me competia, ao órgão de gestão do meu agrupamento.
(Como a Declaração que aqui deixo linkada regista.)

Encontro-me agora – pela obstinação de respeitar a minha consciência e os meus princípios – no compreensível receio do que me possa profissionalmente acontecer.
Não porque me tivesse entretanto arrependido – quem age ponderadamente e com raíz na sua honra raramente terá razões para querer voltar atrás.
Mas por ser humano, e tão frágil como qualquer pessoa que dependa do rendimento do seu trabalho, tenha uma família a seu cargo e preze ao mais alto nível o seu bom-nome. (Assim não fosse e muito mais longe estaria pronto a ir.)
…E por saber com quem trato, o tipo de gente de quem espero uma sensatez correspondente à minha. Por saber que da cegueira e na vertigem tudo é de esperar.

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Ocorreu-me um texto lapidar do HS que li no Hora Absurda. Estávamos nós naquele período engraçado desta história em que o Ministério da Educação inventou o envio por mail dos Objectivos para os serviços centrais.
Dizia ele nesse seu texto.

Ao meu avaliador vou dizer apenas isto: avalia-me se te sentes capaz de o fazer, mas não me peças nada, entra nas salas onde eu estiver a dar aulas quando bem entenderes, pede autorização para consultar o meu processo na secretaria, lá encontras tudo o que eu já fiz nestes anos todos, que abonam a favor e contra mim. Também lá estão as faltas que ingenuamente pensei que eram «a descontar nas férias», também lá está o processo disciplinar que me levantaram quando me recusei a fazer substituições, coisa que ainda hoje não faço nem farei. Encontras lá as acções que fiz sobre como fotografar igrejas e vacas a pastar, as acções de como recortar papel para fazer acetatos animados quando já havia Power Point. [...]
Vá lá, força nessa avaliação. Estou no 9.º escalão, não me interessa já subir para o 10.º e último, faço 57 anos daqui a alguns dias, logo que tenha 30 anos de serviço peço a reforma e vou plantar batatas. Palavra de honra!

Só nos distinguem vinte anos de idade, uns bons escalões e o ter acedido há muito tempo às “substituições” – que tenho como um mal relativo.
No resto, revejo-me nas suas palavras.

Vivemos um momento de aventureirismo educativo. Que como tudo o que rima com “educativo” terá a seu tempo o impacto de uma maré na sociedade em que vivemos.
Quem decide hoje a Educação não mostra certeza de porque o faz, através de que meios ou sequer com que consequências.
- O que parece (des)compensado com a euforia desvairada de arrancar, avançar, forçar e fazer chegar a uma meta ficcional uma carroça cada vez mais desengonçada, que chocalha, perde peças a cada passo do caminho e põe em risco todos os que lá vão dentro.

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E este é o sentimento geral dos professores do País. Que só por motivos mesquinhos não põem os pés à parede e dizem “Basta!”.
Não me refiro a uma mesquinhez íntima dos professores – esse discurso é o de outros. Refiro-me é à situação em que a nossa “Democracia” nos colocou, a de não ser certo para ninguém que por discordar, divergir, por levantar a sua voz, não seja visto como um “deficiente social”, um indesejado, um proscrito na sua própria casa e um corpo estranho a eliminar.

Sabendo que não devem, por acharem que “não podem”, os professores (com algumas excepções pelo meio) vão transigindo. Vamos dizendo que sim. Vamos deixando que aconteça e que nos aconteça, preferindo o conforto de pensar que nada se pode fazer.

…Até ao momento igualmente confortável de pensar que já nada há fazer, tal o ponto a que as coisas chegaram.
E a vida continua.

Mas nem sempre pode ser assim.
Não quando as perdas são tão altas.

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O que fiz, fi-lo bem.

Por achar que devia.
Por manter – até às portas do desespero  – o respeito pelo processo e pela hierarquia a que ela me obriga.
Por tê-lo feito num timming responsável. Quando já não havia risco de a minha declaração fomentar mais confusão no processo de Avaliação do que a inevitável e já constatável.
Por tê-lo feito sozinho – como não preciso de mestres que me empurrem para o que acho justo, também não preciso de camaradas que me sustenham ou muito menos de discípulos atrás das minhas manias.
Por não ter pretendido fechar uma porta de que não tenho a chave – como dizia por outras palavras o HS. Se a Avaliação contempla os docentes, eu estou automaticamente por ela abarcado.

Se este modelo de Avaliação de Desempenho der frutos, serei o primeiro a beneficiar deles. Pelo que só posso esperar que, se avançar, seja o maior sucesso.

Entretanto, como expus na declaração que atrás referi, este modelo de Avaliação só me traz insegurança e incerteza pela efemeridade das suas regulamentações – permanentemente reformuladas e contraditas – fazendo com que não só o “conteúdo” e o “funcionamento” do modelo sejam elementos intranquilizadores no próprio processo, como numa perspectiva mais larga os seus “fundamentos” sejam passíveis de desconfiança, desaconselhando a adesão incondicional da parte de quem nele se encontra envolvido.

…Quando no nº 4 do artº 11º o DR 02/2008 de 10 de Janeiro diz ser “garantido ao docente o conhecimento dos objectivos, fundamentos, conteúdo e funcionamento do sistema de avaliação do desempenho”.

Não me peçam tanto.

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A história não está para acabar.
(Certamente a nível nacional, eventualmente a nível pessoal.)

Serão muitas as missas que ainda se vão rezar por este moribundo.
Muitas velinhas que muita gente se vai afanar a acender, com maior ou menor convicção.

O que é certo é que não devem contar comigo para as acender.
Ou para ter paciência para quem as acende.

Pior: cada vez mais são dois lados inconciliáveis, os dos que acendem as velinhas e o dos que as não acendem.
É que se o fundamental da actividade docente está noutro lado que não nestas tretas, não pode ser indiferente a ninguém profissionalmente sério julgar a degradação do que considera fundamental, na dimensão da origem do que o degrada e da identidade dos seus agentes.

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[Este post não teria sido possível sem a prestável ajuda do JPG do Apdeites - gente que tem rosto
para além da net e que no mundo real descubro ao nível da sua estatura virtual. A quem agradeço.]

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[Agradeço, como sempre, todos os comentários que tenham a deixar neste post - como em qualquer outro.
Apenas por motivos de ordem prática os comentários estão aguardando aprovação da parte do administrador.]

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Com Dedicatória


Hoje fiz greve. A segunda num mês. A quarta, em rigor, numa casa de professores.

E dedico-a, hoje, para variar.

Não só aos meus compatriotas, para o património nacional de quem contribuo com cada dia de ordenado deixado de colher em cada dia de greve, mas sentidamente a alguns colegas meus, que erram pelo País, personagens-tipo desta longa farsa vicentina em salas de professores.

Dedico-a àqueles professores bons. Não falo só de qualidade profissional, mas de bondade humana. Àqueles que lêem a realidade, se enojam com ela e que têm vontade de voltar a mesa do jogo. E que resistem.

Dedico-a àqueles professores que cândidos, iludidos ou cínicos se remetem e às suas esperanças para o quintal da bonomia. Que esperam uma solução que aparecerá num dia em que as coisas assim tenham de ser.

Dedico-a àqueles professores que se sentem exaustos numa luta desigual e que desistem de lutar. Porque têm esse direito supremo e porque a luta vai longa.

Dedico-a àqueles professores que, cobardes, não sendo obrigados ao combate, o simulam, tudo simulam, o combate e o seu contrário, mantendo-se em cima de um muro inventado. Enganando-se a si mesmos e vendendo-se ao vazio.

Dedico-a àqueles professores que são melhores que eu. Ou que se julgam melhores que eu. Que me olham superiores e que tentam ridicularizar a minha revolta racionalizando-a.

Dedico-a àqueles professores que julgam perceber-me. Que julgam fácil ler-me e aos meus motivos. E que não percebendo nada preenchem os espaços em branco com golpes de imaginação.

Dedico-a àqueles professores que têm mais a perder que eu na luta diária pela decência. Ou que pelo menos encontram aí o álibi de alma para pacificar as suas consciências.

Dedico-a aos fala-baratos. Àqueles professores que do falar fazem a sua força, mas que verdadeiramente não têm nada de relevante a dizer. E por saberem que o dizer é irmão do agir.

Dedico-a àqueles professores que detêm o tráfego da opinião. Que sabem quem pensa o quê e que assim compartimentam quem pensa em nichos. Que detêm o cadastro de quem opina e registam no caderno quem o fez ou devia tê-lo feito.

Dedico-o àqueles professores que estão acima do ensino. Que não precisam dele. Que desfilam por ele. Que desprezam os seus rituais. Que se enfastiam com que se aborrece com o que se passa no ensino, porque na verdade o seu reino não é deste mundo.

Dedico-a àqueles cuja maravilhosa capacidade criativa descobre maneiras de até no modesto ensino tricotar teias de interesses. Formas de jogar influências pequeninas, em tabuleiros de cartão, para no final recolher as migalhas do seu labor.

Dedico a minha greve de hoje à maravilhosa multidão de professores portugueses que, por serem humanos, professores e portugueses, são uma multidão de maravilhosa variedade.

…Que continua sem saber o que quer nem até onde está disposta a ir para o alcançar.

Cíclico. Clínico. Crónico. Mas…

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Estou isolado, agredido e não tenho nenhuma disposição para deixar-me humilhar.
O que faz de mim uma ameaça potencial à convenção.

(…”Potencial”, que sou um tipo português, ocidentalizado e fleumático.
Que não faz mal a uma mosca, que quer paz e sossego e que para agravar tenta ser um bom cristão.
Mas…)

…Qualquer homem que não seja desprovido de coluna, cérebro e tomates (*), quando colocado sob estas circunstâncias, torna-se  um sério risco para quem o submete.

Estou farto de repetir que estou encravado entre um “Ministério” da Educação reles e autoritário – parte de um “Governo” autoritário e reles – e um sindicalismo comodista, bazófias e polichinelo.

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Por isso considerar lamentável que dia 11 não haja de novo Greve de Professores.

(Perceba-se que ainda bem que não há: não tenho ordenado que me permita infindamente dobrar dias de perda de vencimento – quadrados quando em casa os professores são dois…
E eu trabalho para me sustentar!)

Mas, evidentemente, a haver greve, seria o primeiro a aderir-lhe.
Porque se me disponho com colegas meus a manifestações, vigílias, greves, agravando-me os malefícios que os capatazes da profissão diariamente me impõem, esse é um acto evidente de desespero.
De inconformismo, de raiva, de resistência perante quem insiste em insultar-me e em exigir-me agradecimento, mas sobretudo de desespero. De esvaziamento de alternativas. De fim de linha.

Se a revolta está transbordada, é tarde para contê-la.

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Triste País, em que a qualidade das figuras públicas nivela à altura da cintura.
(Dizia alguém que “o estúpido é mais danoso que o malévolo“.
Enquanto que do malévolo se sabe o que esperar, a maravilhosa imprevisibilidade do estúpido deixa-nos na eterna surpresa do sentido do seu gesto.)

E deste surrealista “processo negocial” entre dois colossos da estupidez cada vez mais, por definição, parece irrealista esperar uma solução racional.

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Quando o “Governo” deu de caras com o Ensino descobriu nele duas oportunidades de ouro.
Primeira: a oportunidade de compensar a sua incompetência orçamental; sangrando-o sem pudores.a-custa-profs

Segunda: a oportunidade de fazer do “seu” Ensino a anti-montra da sua inépcia; incapaz de levar o País em frente, engendra nos resultados escolares prova para-povo-ver do milagre do seu toque; inábil na racionalização do Estado e do trabalho dos cidadãos, simula um desígnio e uma visão inabaláveis para a Escola aos olhos do País; impotente para afrontar verdadeiros grupos de pressão, veste-se de machão quando se dirige em palavras e actos ao Ensino e a quem o mantém – o que supostamente valeria de amostra.

E o “sindicalismo” assistiu impassível e mudo à soez cavalgada do “Governo” em ambas as selas…

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…Depois da monstruosa e pacífica aprovação das alterações ao Estatuto da Carreira Docente, do novo modelo de Autonomia, Gestão e Administração das escolas, das alterações ao Estatuto do Aluno, da introdução de regras de ingresso na carreira, assistindo – numa palavra – à desvalorização generalizada do papel e da prática docentes pelo “Governo”, apenas me resta o desespero perante o caos.

A maneira desta gente negociar é uma só: pelo achómetro.

Uns “acham” que aos olhos do público devem mostrar força, então cerram os dentes e falam dramaticamente grosso.
Os outros, vendo-os enrijar, “acham” que não podem ficar atrás aos olhos do espectador e não mostrando fraqueza falam mais grosso ainda.
Os primeiros “acham” então que pode ser aconselhável variar o disco e mostrar abertura, então transigem sem explicação.
Os segundo, “acham” que estão a ficar expostos de carrancudos e transigem ainda mais, não podendo ficar atrás…
…Pelo meio, todos eles, quando transigem afirmam raquíticos a sua pujança, enquanto se obstinam proclamam grosseiros a sua abertura.

Num grande movimento circular. Digno da atenção clínica adequada. E que dificilmente tem remédio.
Não fossem estas a Terra e a gente que tão bem conhecemos.

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O “Ministério” da Educação não sabe o que anda a fazer. (Concedo-lhe o enorme benefício de acreditar ser esse o seu motivo!) Nem quando meteu as escolas na fossa em que se encontram, nem nos sketches aleatórios e viciados de “revisão de regras” de jogos de miúdos.
Os sindicatos passam por tudo a dormir. (Talvez a prova de que afinal os pobres não são verdadeiramente profissionais da sindicância…) Tanto no princípio deixaram instalar-se o abuso, como agora não têm respostas cabais para obstáculos específicos – porque infelizmente, mas em verdade, nalguns aspectos a sua noção da Educação é igual à do “Ministério”.
(Os professores – a sério -, claro, confirmam não ter iniciativa própria para escusar muletas e enfrentar os seus problemas (em que o “sindicalismo” se inclui).

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Mas…

(“There’s always a big but…“)

…Não é líquido que uns e outros não se possam entender.
Ou que não saibam como entender-se.
Melhor: que não venham a entender-se à margem dos professores, salvaguardada que esteja a parte de cada um.

A “participação” nestes processos é uma ilusão que eu não tenho.
Pessoalmente tenho mais a ilusão da INTERVENÇÃO…

Se nada dura para sempre, um dia este País terá de ver uma mudança.
E era bom que começasse já.

(*) Como toda a gente sabe, o tomate é um bom anti-oxidante.

Grave. Greve!

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Está dito o que havia a dizer.

(Ou talvez não esteja. E talvez não houvesse desde o início nada para ser dito…)

Neste momento, tudo está perdido. O nexo, o momento, a oportunidade, a face.
Por todos os jogadores do tabuleiro da Educação…

…Em que os professores não se contam!

Responsáveis pelo comodismo de não ter impulsionado a tempo a mudança, são corresponsáveis pelo caos.
Mas têm do seu lado o sólido álibi de ter estado demasiado ocupados a tratar dos Filhos da Nação. Inclusos os dos políticos e os dos sindicalistas.

Abandonados desde sempre pelos tuteladores de uma Educação negligenciada e manipulada, os professores mantiveram no terreno aberta ao (seu) público a porta da Escola possível nesta Nação à deriva.

Até que a Política, a par do seu histórico, crónico e criminoso desleixo pela Educação, decidiu perverter de vez o que ainda mantinha a Escola de pé e os professores em funções com um resto de dignidade. Tudo por um punhado de moedas e pela miragem de tornar a Escola um objecto do seu prazer.

Mas quem está nas escolas – sempre esteve! – não pode ceder sem luta!

A menorização das competências dos docentes para universalmente poderem deter responsabilidades de organização, o engendramento contabilístico e – por isso – cego de categorias sem correspondência à qualificação dos profissionais, o envenenamento da representatividade e participação na gestão escolar… E a mentira. E a manipulação e a chantagem…

Nada disto é a Escola.
Nada disto queremos ensinar aos nossos miúdos.

…Que se depender de nós crescerão muito diferentes dessa gente. Para lhes não continuar nem a gesta nem a miserável linhagem.
Que será deles – e nossa com eles – a vida nova de amanhã.

E no amanhã que me cabe, faço GREVE!
(Ao que um Homem chega.)
Amanhã e depois! E quando for!

(Convocar greves: único préstimo que aos sindicatos resta.)

A manifestação de desagrado já vai longe. E o inconformismo, e a revolta, e a repulsa.
Hoje, tudo que fique aquém da defenestração do friso que decora o meu Ministério, mais a sua podre argumentária e toda a sua corrupta semente, é menos que nada.

Que o caminho para onde corre Portugal é grave.
E ainda não desisti de me recusar a ter vergonha de ser professor!

(…Fazendo votos sinceros de que o meu primeiro motivo de vergonha não nasça já amanhã do comportamento dos que me ladeiam.)
    

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Abater Um País Como Um Cão

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Saigão cai. E com ela uma aventura voluntarista e sangrenta, que gabinetes alcatifados engendraram.

Apesar da superioridade nas armas, da sofisticação logística e do poder da máquina de propaganda, o exército estrangeiro sofre uma derrota em toda a linha, que só a retirada estratégica permite camuflar e evitar que seja esmagadora.
Os combatentes locais, mal nutridos, mal equipados, mas moralizados para a vitória, face a quem a força ocupante sempre se comportara como inimigo, usam o terreno contra ele e paralisam a sua descomunal força, cansam-no e enfraquecem-no, impotentes para um combate desigual em campo aberto.

O invasor, demasiado confiante num combate rápido e decisivo mas atolado na sua própria incapacidade de antever dificuldades e obstáculos óbvios do terreno, entra em colapso, confronta-se com a sua opinião pública que o acossa, vê decair o seu moral, percebe que perde totalmente o pé e desiste.

Para trás, apenas destruição.
E a eterna pergunta a todas as guerras, sobre a nobreza de uma escolha, sobre a utilidade das perdas.
…A que os gabinetes alcatifados jamais responderão.

De caminho, uma execução na via pública. Acto cobarde e Divino, vingança mesquinha e grandiosa, num espaço sem Deus nem Lei.

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Ontem foi dia de novo “Prós e Contras”.
Mais um serão com o que de mais parecido com um programa de debate aberto se consegue arranjar em Portugal.
…E de novo sobre a Educação.

(Digo “Prós e Contras”, porque foi razoavelmente possível – ao contrário de outras sessões – perceber a presença dos “contras” na discussão em causa.
Abençoada a alma que pôs aquilo na bebida do sr. Albino e o levou a – uma vez na vida – proferir algumas palavras de responsabilização directa do “Ministério” da Educação no caos que provocou.)

De um lado – apenas – o espectro da srª “Ministra” repetindo as ladaínhas das virtudes do “modelo” de Avaliação de Desempenho Docente, da flexibilidade para lhe introduzir alterações e da firmeza do propósito de o levar até ao fim – cada uma delas mais patética que a outra; e uma estudiosa das questões da Educação, no exercício absurdo e infrutífero de defender o “modelo” naquele palco e ao mesmo tempo declamar a sua independência de pensamento político.

Do outro, o Sumo-Sacerdote da sindicalidade docente, de dedo espetado à efígie da “Ministra” – talvez o dedo da mão que assinou o malogrado “Memorando de Entendimento” – esmagado entre aquele momento da história em que calou devendo ter gritado, e aquele outro em que gritou já ninguém o levando bem a sério; e uma professora a quem, como professora, deram mais papel de figurante que de protagonista neste palco reservado a grandes figurões.

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Fora a transformação nocturna do sr. Albino em noite de Lua Minguante, poucas foram as novidades do programa.

Apenas o aparecimento de um novo tom, de um novo discurso nesta grande bagunça que já tínhamos: o do “Ministério Vítima”.

Já não o discurso ridículo “do ovo e do tomate”, mas o da necessidade de deixar implementar o “modelo”, defendendo-o da coacção anti-democrática e violenta.
Neste programa ouviu-se dizer pela primeira vez que pessoas partidárias do “modelo” de Avaliação – já agora chamemos as coisas pelos nomes – foram “ameaçadas fisicamente” por outras, no sentido de o boicotar. Que estamos perante uma situação de prevalência de maiorias que têm de respeitar “as minorias” a quem pretendem tirar a voz.

O que, se hoje é degradante, poderá vir a ter alguma graça retroactiva daqui a trinta anos.

Não vou cansar-me a repetir o que já estou farto de escrever.
Afirmo apenas que os professores desta Nação condescenderam demais num processo que há anos se percebeu que acabaria nisto. (E daí a sua culpa.)
Afirmo que a BALDA na Educação não estava instalada antes destas “reformas” ainda que muito houvesse a fazer (e do que TUDO continua na mesma). A BALDA está instalada agora!

Um “Ministério” com roupas de mando e poderio, com voz de trovão e autoridade, apanha agora com ovos de putos irresponsáveis (que lhe não têm respeito) e está a braços com uma espécie de desobediência civil da parte dos seus tutelados (a quem não merece senão o respeito mínimo a que hierarquicamente estão obrigados), movidos pelo que de mais perigoso pode fazer agir um cidadão à beira do desepero: a visão da tomada do poder pelos Estúpidos.

Falar-se hoje de casos de coacção nas escolas para que o “modelo” de Avaliação seja suspenso, é um louvor à persistência, é um hino à paciência, um tributo ao profissionalismo de quem durante os últimos anos nas escolas, focando-se altruísta no que mais importa, deu o benefício da dúvida a um “Ministério” que mostrou não o merecer por não ser de confiança.
Fora a evidente natureza de caso de polícia de actos como esse (que ainda assim não me coíbo de seguramente classificar como paisagísticos no universo das escolas em conflito) – e que quem conhece tem obrigação de relatar, não em público mas à polícia – considero heróico que só no dia 24 de Novembro de 2008 se aluda pela primeira vez a EVENTUAIS actos desesperados da parte de quem vê a sua vida, a vida dos seus alunos, a vida da sociedade e a do País despejadas alarvemente pelo cano, apesar do seu esforço, apesar dos seus alertas, apesar da sua luta contra paredes de pedra.

Se os discursos e os actos estão cada vez mais inflamados no reino da Educação Nacional, há que assacar responsabilidades permanentes a quem contribui activamente para os apaziguar ou incendiar. Independentemente de o fazer de boa ou má-fé.

Tudo isto mete dó.

Entretanto, conto apenas com a honestidade e a energia da minha pequena luta pessoal.
E com o olhar aquilino de quem sem descanso velará pelo meu bem-estar.
…Enquanto o País é abatido na rua como um cão.

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[Publicado no Canto Aberto.]

O Melhor de Dois Mundos

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Luto e luta continuam.
Por – e contra – uma “Educação” tornada radioactiva, que mata silenciosa quem a vive e quem toca.

Na escola, na rua, onde for preciso, até onde for preciso, na medida exclusiva da lealdade a quem não a tem – porque assim a moral obriga porque não somos todos da mesma massa – e da salvaguarda de quem menos culpa carrega, a parte mais importante hoje e amanhã neste imundo lodaçal: os alunos do País.

Que os motivos estão intactos…

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…O longuíssimo espectáculo conta com mais variedades.

Contra toda a tradição recente, a srª “Ministra da Educação”, o “Governo” e o sr “Primeiro-Ministro” deram um show de “democracia”.
(Quero dizer, daquela coisa a que unilateralmente chamam por equívoco de mentalidade “democracia”…)

Reunido de emergência, o Conselho de Ministros deu-se à desproporção prática de juntar durante uma tarde, à volta de uma mesa, toda a elite dos “governantes” da Nação para engendrar num papelucho o ilógico desmentido dos mandamentos do “Governo” para a Educação até à data (simulando continuar no seu respeito); toda a elite dos “governantes” da Nação reunida para listar nuns rabiscos uma absurda lista das cedências ao bom-senso já podre de maduro, naquilo que o “Governo” considerara sagrado na sua obstinação (passando a chamar-lhe acessório…).
…Tudo isto num exercício à laia do turista que refastelado ao sol veranil tenta encaixar num cruzadex “ 3 Vertical: ‘coisa ou pessoa importuna, flagelo, calamidade’, com 5 letras“. [*]

Na gíria do Ministério da Educação vigente: “uma simplificação“.

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É claro que num momento como este, histórico para a política portuguesa, muitos se apressaram a propalar a boa-nova ministerial.
(“Que clarividência!”.
Que generosidade!”.
Que magnificência!”.)
Com grande destaque para a apressada entrevista da…RTP1.

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…Onde, logo ao serão, em meia hora, a propaganda jorrou em fonte e correu em rio até ao eleitor ignorante.
Num contínuo desde a conferência de imprensa de poucas horas atrás, nunca por minuto na televisão nacional se ouviu repetir tantas vezes “dialogar“, “identificar problemas“, “ouvir“, “ser sensível“, “conversar“, “flexibilidade“, etc.
O que se torna tanto mais saliente quanto se considere a boca de onde saíram.

Um Ministério inicialmente paquiderme na forma de impor, aplicar e silenciar, transformado de súbito em paquiderme rosa, com lacinhos nas pontas, bramindo em falsete.
Com uma srª “Ministra” a penitenciar-se dramaticamente por “não ter dado às escolas todas as condições“…
(Só quem não tenha coração não ficou com vontade de a adoptar e levar para casa.)
…E tudo de forma totalmente natural e desinteressada!

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Mas há quem não ande a dormir e tenha percebido as entrelinhas da comunicação do “Governo” à Nação pela boca da srª “Ministra” e lhe viu como causa a forma como estava (…e está) entalada numa porta que mantém trancada.

Quando Manuel Alegre diz abertamentejá não ter paciência” para o “quero, posso e mando” da “Ministra” (e a obriga a responder-lhe no tom habitual) pressiona-a a dar um passo – nem que seja em frente, para o abismo.
Ou António José Seguro, ao falar deposições [que] não permitem que se responda positivamente“.
Ou António Costa, ao afirmar a necessidade de “resolver uma a uma todas as dificuldades“.
…Com um Conselho Científico para Avaliação a denunciar quenão é de todo um posicionamento construtivo manter um clima de conflito“.
…Um Conselho de Escolas a pedir desde sempre a suspensão do processo..
…E paizinhos a dizer que a ministra devia dar mais atenção ao que se está a passar” (obviamente que não a CONFAP)…
Não foi por nada que a direcção do PS preparou um livreco com “perguntas e respostas sobre as questões mais polémicas da Educação” para artilhar os presidentes das federações do partido “[com] argumentos a favor do modelo de avaliação dos professores“.

A “Ministra” não se mexeu, foi obrigada a mexer-se.

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Mas eis-nos perante a mexida da “determinação” e da “flexibilidade” na Avaliação de Desempenho Docente.
E dois logros.

Em primeiro lugar é um travesti dizer com todas as letras ao País que a famosa da “Avaliação” se tinha sólida em cima de três patas e que assim continua.
Por um lado, o enfoque na responsabilidade das escolas na avaliação dos seus professores. Agora já nem interessa ao “Ministério” a “descentralização” - que estamos numa de serviço de coacção dedicada ao clientemas até esta altura, a tutela limitou-se a ditar generalidades e a atirar para as escolas o trabalho sujo de definir “caminhos específicos” para cumprir a “Avaliação”, isto é, exigir magicamente produtos finais sem assegurar regras claras, propósitos racionais ou sequer meios viáveis para a sua concretização.
Por outro, a “avaliação global e integral” dos docentes. Entenda-se, a indecência de julgar a prática quotidiana e continuada pela “observação” por pares não treinados – e muitas vezes não aptos – de uma amostra de três aulas anuais, sem incidência na componente científica.
Por último, a definição de uma “avaliação com consequências“. Que na onda dos milagrosos resultados dos alunos visaria uma maravilhosa melhoria dos resultados dos professores. Aqueles que por idiotas eram acusados de nunca ter sido avaliados e por isso terem recebido um “Satisfaz”-padrão, passarem a receber um “Bom”, tais as regras do jogo: de uma mediocridade mais dourada e de uma excelência fora de alcance.

NUNCA NENHUM DESTES PILARES FOI REAL.

avaliacao_aplicacao_onlineSegundo logro, infinitamente maior, é o da “simplificação” dos procedimentos, como se estivéssemos a falar de passos construtivos no processo ou sequer a sintonizar qualitativamente com o que ficou para trás. Podendo  urrar-se sonoramente que ao tocar em “três áreas” o modelo “não foi beliscado“.
Ao “permitir” – generosamente – que “os docentes avaliados possam ter avaliadores da sua área de ensino e não de outras como acontecia até agora“, haverá quem bata palmas. A mim causa-me repulsa que à Nação não repugne. Porque se ainda agora há casos de escolas que não têm docentes das áreas de formação adequadas para avaliar os seus colegas como as regras o obrigam, antes tal nunca incomodou um “Ministério” monstruoso a quem, por exemplo, nunca ocorreu ser uma anormalidade um professor de Educação Musical avaliar um colega de Educação Física lá por serem ambos de “Expressões”.
Sobre a “excessiva burocracia“, digo que é um assunto da treta – fraco argumento desde há muito na boca dos contestatários – que se vira contra quem o defendeu. A quem se queixava – com fundamento – das papeladas infindas, o “Ministério” responde com redução de papel mantendo sem “beliscadura” o absurdo da sua produção! A raiva que os professores ficam a dever à rua tem sobretudo a ver com horas intermináveis e irrecuperáveis de discussão para a construção de materiais de observação (como vai voltar a acontecer introduzidas as novas alterações!) e não tanto com o seu preenchimento.
Também “os resultados escolares dos alunos deixarão de constituir um parâmetro da avaliação dos professores” por “dificuldades técnicas e de aplicação” (!?!?), passando de essenciais a detalhe.
Também as aulas assistidas deixarão de existir, salvo por solicitação do professor que aspire às classificações máximas na sua avaliação. E mesmo assim já não três mas duas…

O QUE FAZ COM QUE NÃO SE FALE DE UMA “SIMPLIFICAÇÃO” MAS DE UMA DECAPITAÇÃO DO MODELO, VENDIDO À POPULAÇA COMO “NÃO BELISCADO“.

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O “Ministério” da Educação tenta assim o melhor de dois mundos: primeiro convencer que algo existe, depois, corrido mal, convencer que sobre ele algo melhor sobreveio… (Sem base onde se fixar.)
…Colocando inteligentemente o ónus da “paz social” sobre os professores, forçados a dar então eles um passo.

Por mim, o(s) passo(s) está(ão) dado(s).
Dia 3 de Dezembro (e 11, e outros) aderirei à Greve de Professores. Com a maior convicção.

Esta contestação esteve errada desde o início. Por culpa dos sindicatos.

Nunca seria aceitável a divisão dos professores em duas castas como prevê o Estatuto da Carreira Docente alterado, já está em vigor e não sei até que ponto será reversível.
Nunca seria aceitável a demolição da organização – minimamente – participada das escolas vivida até hoje, introduzido o novo figurino da Autonomia, Gestão e Administração, que contempla a morte a prazo da representatividade docente nas sedes de reflexão, debate e decisão pedagógica das escolas.
Nunca seria aceitável o Estatuto do Aluno como estava e alguns ovos peritos em leis se encarregaram de corrigir.
Nunca seria aceitável - desde que foi conhecido – este modelo de Avaliação de Desempenho; com os absurdos,  as falhas, as fragilidades, os perigos que qualquer pessoa no terreno lhe percebe.
Nunca seria aceitável a existência de uma prova de ingresso na carreira.

Mas foram-no. Todos. Aceites e cumpridos. Em silêncio.
O que torna diabólica agora a tarefa de quem se opõe a todos eles e a todos deseja o fim.

Mas é possível.
Tem de o ser.
E o País observa-nos.

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É assustador ter à frente do País quem mostra esta falta de vista para a Educação.
Quem acha que sabe tudo.
Quem acha que é melhor.
Quem não pensa e impõe.
Quem falha mas não admite.
Quem não recua devendo.
Quem remedeia piorando.
Quem faz conta ao ganho próprio.
Quem saúda falsas vitórias.
Quem vive para aparências.
Quem fala sempre do alto.

Por muitas falhas que tenha, felizmente assim não sou.
Porque quem mais perderia seria quem priva comigo: miúdos que, se puder, hei-de pôr mais a pensar e torná-los homens livres que nem hoje nem depois sofram moles como eu às mãos deste tipo de gente.

A luta ainda não findou. Nem a meio estaremos.

Que esta horda de invasores tem artes e muitos meios.
Executivos das escolas já se encontram sob mira. Qualquer funcionário público tem previsto no novo Estatuto Disciplinar que o rege – cap.V, artº18, b) “Demissão e Despedimento por Facto Imputável ao Trabalhador” – a “prática de actos de insubordinação ou indisciplina ou incitamento” (?)…

O que nos virá por aí?
Que estamos dispostos a permitir?
Que este mal de viver persista?, que esta doença radioactiva alastre?
Que vamos deixar aos nossos filhos?

Luto e luta continuam.

Na escola, na rua, onde for preciso, até onde for preciso.

[* Muito adequadamente: "praga".]