…ou A Véspera do 25 de Abril

O R. não teve culpa.
Esteve na rua errada quando alguém era atacado por um bando de selvagens e pretendeu intervir.
E daí não saiu bem.
Foi a pior das escolhas. Na sociedade porca que temos, os actos de nobreza e bravura escorrem como lixo solto varrido em aluvião para a sarjeta da indiferença. Para mais, os de um miúdo.
Mas nem os selvagens cobardes tiveram a culpa a sério. Umas bestas sem cabresto, bichos mal domesticados.
Culpados?, os Filhos da Puta coveiros de um Abril que nunca chegou a ser nem se deixará chegar. Todos! Todos, todos eles.
Todos os que evocados, invocados e convocados às exéquias anuais da nossa “Revolução” desfilarem este ano mais uma vez em infindável maratona encenada.
Todos os que, à nascença, tentaram subverter o princípio puro e simples do viver em liberdade, querendo colonizar à força o País e o bem-comum.
Todos aqueles que, depois, por tíbios e incapazes não sonharam à altura de um Sonho prometido, nem agiram à altura da História de uma Nação.
Todos, por fim, os que hoje, num País podre e estagnado, vão impingindo cartilhas, atamancando respostas, simulando-nos saídas, arrebanhando sentires para sua promoção, predadores do que resta, coveiros de um Abril que nunca chegou a ser nem se deixará chegar.
Filhos da Puta, hoje, todos, aqueles que dão corpo e textura à camada grassa de sebo da nossa democracia. E que assim a vão mantendo, porque tal lhes aproveita.
Todos os que brincam e gozam no recreio da política com as vidas de quem paga.
Os que têm as mãos sujas do hipotecar a Nação, tanto ontem como hoje. Os que não lhe deram progresso nem lhe dão educação. Os que não lhe dão a regra porque numa selva sem lei mais imperam os tiranos.
O R. não teve culpa de ser nobre e ser ingénuo. De um lado o seu feitio, de outro a sua idade… – nenhum digno de censura.
Mas nem os selvagens cobardes. Que numa terra normal, da decência e consciência, sofreriam quarentena do convívio dos humanos – atendendo à primazia da segurança e da paz - para mais tarde poderem, recuperados, completos, voltar à vida comum, com tudo que têm a dar.
Acuso os Filhos da Puta que olham a sociedade como enorme variável dos seus planos pessoais.
Acuso-os de não nos levarem – cegos e enfileirados – a caminho de coisa alguma.
Acuso-os de delapidarem, vis, grosseiros, debochados, a Educação de um povo e um futuro por inteiro.
Acuso-os do mal repetido que se tolera em desleixo.
Acuso-os de provocarem a perda e simularem o seu espanto.
Ontem, véspera de feriado do Dia da Liberdade.
Hoje festança e orgia.
Não é assim que eu os sinto. Nem os que conhecem o R.
…A quem dou o meu abraço.