
A “internet” não existe!
A internet é uma abstracção. Um conceito que tornado físico se constitui um intervalo em branco.
A internet não existe. Não é pensável como espaço preenchível – “pus na internet“, “encontrei na internet“, “vou à internet“…
É um vão entre duas coisas que só se vê preenchido pelo estrito momento de o percorrermos ocupando-o.
(Definir “internet“ faz lembrar no limite a crença talmúdica de que nas Tábuas da Lei o nome de Deus estava – não gravado, mas – sulcado de um lado ao outro da pedra, trespassando-a, sinal último da impossibilidade da sua materialização em palavras do Homem.)
Simplificando, a internet é a confirmação da distância mínima de uma linha entre dois pontos. “Aqui” e “lá”. Percorrível em dois sentidos.
É o entre-pontos e não os pontos em si; só sobrevivendo deles.
A internet é um canal, uma passagem. E só.
…Ficando a um salto da pergunta “passar, o quê?“ a inevitável interrogação ontológica “passar, é o quê?“.
A partir do ponto que ocupo no mundo – o “aqui” - qual é a intencionalidade básica de fazer o percurso?; como se pretende alcançar o outro?; qual o resultado do próprio chegar?

No bizarro processo da comunicação virtual, subvaloriza-se a identidade – ou mera confirmação inequívoca da presença – de um interlocutor no ponto de chegada da mensagem. Dispensável.
Ficando cabalmente claro que a maior energia despendida na comunicação virtual está auto-concentrada no “aqui” e no ponto de partida. Este “passar” é não chegar a partir.
“Mais importante que alguém me ouça, é vital que eu fale.“
…Por excelência o reino dos blogs.
A compreensão da comunicação virtual encontra-se no “aqui”.
No que me interessa dizer a ninguém, no que tenho de gritar para o vazio para não rebentar, no que preciso de exteriorizar de forma compulsiva para que não me envenene, no que me forço a semear ao vento para sossegar a minha culpa, no que tento verbalizar para que ouvindo-o me perceba como sou.
…A compreensão da comunicação virtual encontra-se “aqui”.
E a vida imita a net, imita um blog.
Cada um de nós caminha para o outro numa missão de salvamento de si mesmo.
(Apenas na vida real o confronto com o rosto do outro nos força, num processo diferente, a reconhecer formalmente a sua presença, a sua existência, descentrando pelo menos de nós parte da toda atenção.
O rosto do outro força-nos a assumir a sua materialidade, a sua totalidade e – com alguma sorte para ambos - a sua diferença.)
Na internet, quando comunico, o foco não se descola de mim.
E os meus gestos e palavras, simulados de ecuménicos, resvalando no silêncio, regressam todos a mim, atingem-me todos em círculo, concretizando o reforço do que sou e do que sinto.
Condicionado que estou a ser-me eu próprio assim.

Mas mais bizarro que isso, no bizarro processo da comunicação virtual, se se subvaloriza o interlocutor, até o canal do discurso é sobrevalorizado.
Gente há que pelo facto de usar a modernista internet a confunde com ferramenta. Julgando que ela lhe serve para agigantar em tom, em sentido ou em valor a palavra que os não tem.
…Ignorando que a net não é ferramenta, mas só um vão canal que ecoa o que nela se põe dentro.
Mas a net não é existe. Não é um destinatário. E quanto mais lhe recorro para propalar decretos, para entoar trovões, mais isolado eu fico na projecção de um contacto que não chega a acontecer.
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Esclareço que esta reflexão tem uma base concreta.
O todos os dias que passam me cruzar com novos blogs com que de pronto me enojo. De gente que logo desprezo.
Sim… É lamentável mas certo.
Gente que como expliquei - num processo de fingir - simula para si comunicar com um ente irreal a quem dirige palavras; quando acaba a dirige- se, por disso necessitar, a uma escassez de si mesmo…
(Que ninguém o vê ou ouve.)
…Perseguindo obsessivo a cauda do seu pensamento se envolve, à orla da náusea, na torrente de um discurso moralista, paternal, convencionado, soberbo, cruzadista, petulante, ofensivo, mal-criado, sempre – invariavelmente – impotente e patético na agonia de enlear-se numa teia viciada.
Já referi uma vez ou outra blogs que conheço, nascidos da bondade de almas limpas que atesto. E que neste jogo estranho de ecos e vacuidades fermentam o que há de bom; que de bom têm para si. Que se reinventam em angústias, em ânsias e expectativas, mas não se auto-destroem. Antes se equilibram e aos poucos aprendem a equilibrar-se com o desconcerto do Mundo.

Mas aqueles que subsistem envoltos no veludo de si, os mais solitários de todos, são tristes navios-fantasmas.
Bastara-me passar os olhos pelos posts de alguns blogs para me sentir nauseado. E não por conteúdos que me furto a recordar, mas como que mareado caído num remoinho, preso numa espiral centrípeta de palavras que não expandem, que apenas convergem vorazes para um vórtice alucinado, que vão rodando em anel sobre o “aqui” e escorrem par um ralo fundo e sombrio…
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Cada blog, de uma fauna infinita, é o rosto estampado de quem o faz e mantém.
E vai servindo aos quem passam de montra deste lidar.
…Honesto, humano, humilde, generoso, inspirado, sábio, livre, construtivo…
…Simulado, cruel, presunçoso, egoísta, rotineiro, cretino, tacanho, velhaco, seja ele o que for.
Espelhos da variadade fantástica dos feitios do Ser-Homem.
Estigmas da sina de ser para sempre igual a si.
E no fim, voltar ao mesmo.
A “internet” não existe. É um intervalo em branco em que se plasmam palavras. Ou as sombras das palavras.
E aquilo que digo ou faço, é só o que digo ou faço.
E, no fim, blogar é nada.
Exercício redundante de afirmar que existo.
Que posso precisar para mim dessa mesma confirmação…
…Mas então para o problema não virá do virtual uma privada salvação.
