POR FAVOR NÃO ME DIGAM QUE TAMBÉM SÃO DAQUELES QUE
“NÃO GOSTAM DE POSTS MUITO COMPRIDOS”…

Cada qual tem a sua mania.
Uma das minhas é estar lá.
“Lá” onde a coisa acontece, “lá” onde preciso de estar para ver e crer, “lá” onde sei que mais tarde me arrependeria de não ter estado.
E fui “lá”, ao “Prós e Contras” da RTP. O do “Exame Final” com a Ministra da Educação – serviço público com pinta de filme do Van Damme.
Não fui lá para ver o circo a pegar fogo.
Fui testemunhar como se comportariam os que lá fossem falar, para registar para mim as palavras por que cada um quereria ser recordado do previsto debate sobre o miserável momento da Educação nacional.



Mas mais uma vez, nestes meus curtos anos, me ocorreu a clássica imagem do porco ciclista, que provoca no passante anónimo o choque invariável de um relativo insólito…
Quando parecia impossível numa emissão daquelas, perante o País, em directo tv, com “prós” e com ”contras” em palco, havendo tanto por onde bordoar num encontro que jamais escaparia ao confronto, eis que a Ministra da Educação se passeia, goza do momento e sai ilesa e risonha, segundo um já hábito seu, inexplicável e surreal.
Desde uma moderadora cujo nível de preparação a própria precisou de gabar, dizendo do quanto se documentara durante as férias (o que todavia nem de perto lhe chegou), passando pelo painel dos “convidados” escolhidos, todos eles tão “pró” que só simuladamente ousaram sentar-se no “contra”, passando por uma plateia arregimentada – foi lindo o momento de início de entrada no Auditório Armando Cortez em que a um grito de: “Ministério da Educação!”, de alguém da produção, uma mole de gravatinhas e penteados altos se apressou a entrar lampeira na sala e a ocupar as filas de destaque – tudo correu de feição.
Diria mesmo… como previsto.



E o espectáculo foi um tributo em vida àquela virgem Maria, Senhora da Educação, alma pensadora egrégia, de decência magnífica, de excelsa honestidade e benemérita vontade de talhar este País à sua grotesca imagem (sua e de quem come consigo).
Tudo estava montado para a gloriosa parada (ai o dinheiro dos meus impostos…).
A começar pela farsa da cassete do “início do ano lectivo na data prevista” (entenda-se “ao contrário de outros anos que para aí houve em que os concursos borregaram…”) – a Ministra ficou embuchada quando uma mãe lhe lembrou que sempre o ano lectivo começou nesta altura (vão lá ver a data de início d’ “o tal ano“) ou quando lhe lembraram que a própria já reconhecera ter encontrado à chegada ao Ministério a bagunça dos concursos cabalmente resolvida.
Associado à vergonheira do que fizeram este ano com os professores de Português/Francês e Inglês/Alemão (conferir) e que segue para bingo sem ninguém ser responsável por nada!
Depois a farsa dos fechos das escolas do 1º ciclo, “sinalizadas como escolas do insucesso”. As mesmas escolas “do insucesso” que meses antes de se decidir fechar tinham recebido com pompa e os cumprimentos do Ministério a cobertura de acesso à net em banda larga! (Alguém já falou disso em tempos.)
As escolas da lista, que havia de sair já com o ano lectivo a andar e professores colocados nelas.
E foi por aí fora, muito conforme.
Tanto que chegado o intervalo vim para casa, porque paciência tem limites e estar naquela sala era sancionar aquela pouca vergonha.
A bajulice sabuja do distinto colega de fato domingueiro Presidente do Conselho Executivo da única Escola Secundária do País sem razão de queixa da Ministra – a única, por exemplo, onde não se devem ter registado os escândalos com os exames nacionais de 12º ano: conteúdos irregulares e erros, inexistência de provas modelo, inexistência de matrizes, falhas nos critérios de correcção, repetições selvagens, legislação à marretada com pretenso valor retroactivo, etc. ).
Dizia o espécime que “pela primeira vez a Ministra falou com todos os Conselhos Executivos do País“.
Começaria por ser giro saber como é que o senhor teve informação tão rigorosa disso. Porque TODOS os Executivos DO PAÍS é muito Executivo!
Mas ainda assim, as “reuniões” (como houve, por exemplo, na escola do Parque das Nações) foram grandes meetings em que (nem sempre) a Ministra (pessoalmente) se dirigia aos súbditos para explicar aos mais lentos as regras do novo jogo, não estando lá sequer para “debates” como o da RTP.
E no temor hierárquico, na timidez, na tibieza, na inconsciência ou na concordância com a Ministra lá regressavam todos os Executivos aos seus formigueiros para replicar as boas-novas.
(Excepto naqueles casos, que os há, de Executivos com consciência e coragem para dizer que sim mas fazer na sua escola consoante a responsabilidade lho dita.)
As mariquices e os salamaleques que o ex-Secretário de Estado usou para com a Ministra.
“Porque eu sou uma autoridade de ciência e experiência, estive num Governo laranjinha mas não sou daqueles brutos que sujam a boca com debate político… Venho aqui só para encher chouriços porque não estou ‘contra’ nada, mas para mim é bom que já não aparecia na televisão há uma data de tempo e para vocês… olha, também deve ser, uma vez que me convidaram!”
O chove-não-molha de outra colega Presidente de um Conselho Executivo, que em nada contestou a Ministra, o Ministério e a política em curso.
Criticar a falta de aplicabilidade do 115-A/98 durante estes anos todos ou, EXCLUSIVAMENTE, a questão etária na progressão da carreira de acordo com a proposta ministerial… é pouco para uma bancada de “contra”. Muito pouco. “Contra” quê, afinal?
Não fosse um maluco de um professor de Seia que denunciou o “beija-mão” (sic) escandaloso a que se assistia e a “amizade” anormal com que a senhora Ministra foi reverentemente tratada, nenhuma voz veicularia o que é hoje o ambiente real e quotidiano nas salas de professores (e não só) pelo País fora, de que muito pouca gente ainda tem noção.

E continua a ser revelador que os únicos críticos estruturados do ME, os únicos que o expressam em directo, aberta e detalhadamente na televisão, são professores aposentados.
Ou não revela nada?
Não digo dos próprios, mas da produção do programa, da apresentadora, da Direcção de Informação da RTP.
Chama-se ao programa (são dois já seguidos) alguém que já não faz parte do activo (leia-se: “vem para aqui dar opinião sobre o que não vive“) e espera-se que ninguém o leve a sério..
Mas cá estaremos. No 5 de Outubro.
Pode ser que um dia destes, mais depressa do que a Ministra pensa (os exames de 12º deram-lhe um valente abanão inexperado) perca aquele seu contentamento insultuoso com que se passeia sob os arcos do triunfo.